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Trecho do romance Sedução.

"— Minha mãe sabia algumas histórias. Todas, com fundo moral, normalmente baseado em contos Bíblicos. Tinha uma, de uma mulher belíssima... Não! Mamãe não falava belíssima... falava formosíssima... Uma moça formosíssima de nome Susana que se casou com um homem de bem, mas de poucas posses... era assim que ela, circunspecta
, contava-me...
— Então, Pai. Conte-me, — Beatriz insistiu.
— Era uma vez uma mulher de nome Susana, que era casada com um humilde vendedor de verduras. Susana havia sido criada na obediência às leis de Deus. Certa feita, na pequena cidade onde morava, chegou um homem muito importante. Se eu não me engano, era um juiz. O juiz se encantou por Susana. E, uma vez seduzido pela beleza da formosíssima mulher, apaixonou-se perdidamente. O tal juiz passou a viver atrás da moça e ofertava caros e raros presentes a ela. Mas Susana sempre se recusava a recebê-los. Porém, uma vez, ela foi ao lago para banhar-se. Estava sozinha, havia dispensado a companhia das amigas. Ao…
Postagens recentes

Um conto de Natal.

Rosa tem febre demais

Espero a madrugada e visto minha roupa de sonho. Depois, sem que minha mulher desperte, ganho as ruas de silêncio e caminho passos de quem foge, aproveitando manchas de escuridão, sombras que grandes árvores projetam. Agora atinjo as avenidas centrais. Luzes ferem os meus olhos e passam os boêmios e as prostitutas. Alguns param e olham minha fantasia de sonho — as longas barbas brancas, o vermelho manto bordado de arminho, negras botas que confundem meus pés com o asfalto. Olham e seguem e caminham, e mais rápidos são os passos porque agora sou esperado e é hora de chegar. Mais além, no largo, antes da ladeira, estão os motoristas. Dizem coisas pornográficas, contam episódios de sangue, mas eu caminho e passo e eles fazem silêncio quando me vêem. Alguns, os mais velhos, atiram moedas no asfalto e eu as recolho e seus olhos me acompanham enquanto, na outra esquina, encontro a ladeira e vou começar a descê-la. Então, voltam aos temas de antes e terei sido um sonho ráp…

A Morte do Guarda. - Ariovaldo Matos

1.
Rua e beco dividiram-se em vários partidos quando os jornais diários, noticiando o brutal assassinato do guarda Eduardo Gazineo, cuidaram de sugerir graves suspeitas sobre seu comportamento moral, atribuindo-lhe até mesmo a prática de lenocínio. Um deles estampara, na primeira página, a foto do guarda Tidu, esmaecida fotografia de Lambe-Lambe, ao lado da prostituta Dorinha, ela de lábios pintados em forma de coração, piscuila, ele grandalhão, coisa assim de um metro e oitenta. O flagrante, obtido no Terreiro de Jesus, caiu como uma bomba na rua e no beco, servindo de munição para o grupo que, estimulado pela mulata Tiana, investia contra a memória do guarda. Apesar da foto, os que recusavam, de plano qualquer crédito às suspeitas contra o morto, mantinham-se majoritários. O partido centrista, comandado pelo Sr. Pepe, proprietário do Armazém “Sol da Galícia”, sustentava a uma tese marcada pela prudência. O Sr. Pepe dizia: — Devemos aguardar todo o inquérito. Afinal, Dorinha ainda …

Queimaduras

Nem disse “adeus” ou “até breve” ao pai: o velho estava atento a palpites turfistas num jornal. Repetiu vontade de sugerir “Champion” no quinto páreo e entendeu ter agido de modo razoável. Se perguntado sobre os motivos da sugestão – por que “Champion”, por quê?  -- não saberia responder. Seria cretino informar que vira foto de “Champion” numa revista colorida e o achara cavalo muito macho, de boa carreira, muito a fim de vitórias sensacionais. E que o montador lhe parecera um jovem honesto, lutador, de bons sentimentos. Então, nem disse adeus ao pai.                 Antes de sair do apartamento, mochila presa às costas, olhou o pequeno retrato da mãe falecida, a mulher de perfil, bela, e olhou o porrão convencido de que até a sua volta, se voltasse, a água não seria renovada, apesar de podre. Uma podridão de muitos anos, aquela podridão que o pai não percebia. Ou fingia. Ou mantinha. Afinal, quem sabe o que se passa na cabeça de certas pessoas idosas?                 É tudo tão e…