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Deixem as mulheres amar à vontade.

Deixem as mulheres amar à vontade. 

          Ontem, com muito custo, consegui que dessem um tombo no meu carro. Aproveitei e fui à padaria abastecer a dispensa até que eu consiga resolver o problema da bateria. Carro? Não. Tenho um “pelo menos”.
          Quando retornava para casa, da padaria, uma Viatura de polícia me deu sinal para parar. Pensei: “fo...! Se me mandar desligar o carro vou levar uma multa ou coisa pior.” Deixei meu Fiat ligado e fiquei esperando o policial vir a mim. Ele, porém, nem desceu do carro. Ele me parara porque vinha uma procissão de Igreja, com veículo de som à frente. Distribuíam folhetos, humanista, em defesa das mulheres e crianças. Uma jovem mulher se aproximou e me entregou o folheto.
           Ao receber o folheto me lembrei de uma crônica do Lima Barreto que lera já há algum tempo. Lembrei, também, de cena que vi, num desses portais na NET, de uma mulher que fora internada numa UTI por ter sido agredida por uma violenta cotovelada do namorado ou marido.
          Percebi, na cena, que a cotovelada aconteceu após a mulher resmungar algo no ouvido do agressor. Especulo que ela o chamou pelo apelido, próprio, que quase todos os homens estão sujeitos a ter. Digo quase porque alguns se mantêm castros, como os Padres, e outros têm outras preferências que não as fêmeas humanas. Devido a essas exceções, não posso afirmar que todos os homens estão sujeitos a carregar a alcunha de corno. Mas a grande maioria está.  
          Como disse: supus, já que pude, e fi-lo porque qui-lo, como diria Jânio. E mesmo que a tal suposição seja fato, isso não justificaria a violência. Disso já sabia o cronista Lima Barreto, em tempos mais bizarros, quando escreveu sua crônica “Não Mate As Mulheres”. Nela, se bem me lembro, o comum era matar a mulher e, apaixonadamente, cometer suicídio. O amor justificava o devaneio da honra maculada.
          Adultério não é nada de novo. Um porém -- não digo que o que escrevo seja o caso da mulher agredida com uma cotovelada – fiz uma suposição.
          Ser #corno é algo que vem desde tempos pré-históricos. As macacas já pulavam a cerca, (e os macacos também), se é que Charles Darwin tinha razão. Biblicamente, Eva foi seduzida pela serpente, mas quem comeu a maçã foi Adão, livrando-o, no caso, do assunto.
         Não sou leitor assíduo do livro Divino, mas parece que nela, o primeiro registro foi o de Abraão, que cedeu, Sara, sua mulher, que ele fingira ser sua irmã, ao faraó como concubina. E sendo Abraão “o pai” das três principais religiões (Islamismo, Judaísmo, e o derivado Cristianismo) formadoras da moral ocidental, é bastante lógico que o adultério seja visto como pecado grave. Herdamos a dor de corno de Abraão até os dias atuais. Daí o pavor de alguns homens nos relacionamentos efetivos. Existiu até uma lei ou brecha na lei que livrava os uxoricidas, (assassinos de cônjuge), de serem presos. Era a legítima defesa da honra. Barbarismos a parte,  voltemos ao tema.
          Em minha opinião só uma coisa justifica se agredir uma mulher, é em defesa própria ou em defesa de incapazes. Mesmo assim minimizando ao necessário a agressão.
          Homens, vamos convir que as #mulheres, como indivíduos independentes e racionais, têm direitos a suas escolhas e suas vontades. Não quer mais. Sem stress,  nada nos obriga a permanecer num relacionamento. Vai viver sua vida e deixe que elas vivam as delas.
         E lembrem-se da lei “Maria da Penha”.
         Deixo aqui a crônica de Lima Barreto, que fui buscar na Net para vocês.
Lima Barreto
Não as matem
 Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.
O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.
Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.
Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.
Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.
O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.
Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.
De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?
Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.
Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.
O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.
Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.
Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.
Deixem as mulheres amar à vontade.
Não as matem, pelo amor de Deus!
      

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