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Uma homenagem a Ariovaldo Matos. Meu pai.



                                                                   Ariovaldo Matos


          Hoje é dia dos pais,

          o meu já morreu. Ele era agnóstico. Não cria em Deus ou vida após a morte. Até hoje, porém, ele demonstra ter se perpetuado pelos muitos amigos e por pessoas que mesmo não o tendo conhecido o admira. Alguns o admiram pelo que fez pelo jornalismo baiano, outros, pelos textos literários, outros ainda pelos dois. Vez ou outra eu me refiro a ele em meus textos. Ele transpôs o período de herói que todos os filhos têm nos pais. Porque, aos 55 anos, quando penso num herói vem-me sua marcante imagem.
          Recordo-me de seus silêncios sepulcrais quando enfrentava seus dragões. Meu pai não dividia suas tristezas ou procurava não fazê-lo com a família, fechava-se em ostra, eu só desconfiava porque ele mantinha a seriedade e o olhar carregado. Porém, quando repleto de alegrias ele deixava que ela transbordasse e inundasse todo o ambiente onde se encontrasse. Adorava vê-lo feliz, gargalhando. Já o vi rir tanto a ponto de me assustar. Ele ficava sem respirar, (eu acreditava), e ia avermelhando até explodir em gargalhadas. E meu alívio vinha acompanhado daquela explosão de alegria. Muito dele me recordo.Lembro, por exemplo, dele tentar me carregar quando eu adormecia no sofá da sala para levar-me  ao meu quarto, quando sua força já não conseguia me erguer, e eu, sonolento, o abraçava e caminhava, lentamente, enlaçado a ele até a minha cama. Lembro das broncas e do olhar severo que me aquietava quando em meus momentos de explosão.
            Das recordações mais fortes que tenho, uma foi quando, já casado, morando no Maranhão, enviei-lhe uma carta me lamentando da falta de dinheiro. Escrevi-lhe a carta, queixava-me das dificuldades que a vida me impunha. Ele reenviou-me a carta, com os erros de português devidamente corrigidos, um dinheirinho para adiar o desespero e um bilhete cujos ensinamentos guardo até hoje. Começava assim “Zé, pior é na guerra”, daí, contou-me do cerco aos Russos, do holocausto do povo judeu e depois reafirmou sua credibilidade em minha capacidade de superar as intempéries da vida, como se dissesse: deixa de frescura e resolva sua vida.  . 
            Outra forte lembrança, eu separado já de meu terceiro casamento. Ele, meu pai, me telefonou pedindo para que o levasse a uma clinica em Ondina, disse-me já prevê o resulta e se confirmado teria uma proposta a me apresentar. Eu o levei a clinica e no retorno paramos num restaurante alemão que ele gostava e frequentava. Nele foi me confidenciado que estava com cirrose ou câncer de fígado, ele não foi claro. Não vi desespero em seu olhar. Comemos e bebemos quando ele me propôs voltar a morar na casa dele, casa que nunca me passou pela cabeça também não ser minha. Disse-me que sua maior preocupação era com Dalvinha, minha mãe. Porém frisou algo como não quero, e não aceito mais ninguém lá querendo me instruir ou dar palpites em minha vida. Não quero ver dramas ocasionais e piegas em minha frente. A doença é minha e não é justo para com sua mãe que ela saiba. Será um sofrimento inútil para ela. Se não tiver coragem para aceitar, eu compreenderei.
             Eu fui. Vi que minha presença era mais para ajudá-lo no trato com minha mãe do que com ele. Não que ele fosse um santo, sabia de algumas aventuras com suas amantes, mas nunca vi um homem amar tanto uma mulher quanto meu velho amava minha mãe.
             Fiquei ao lado dele até o dia de sua morte. Ele morreu em meus braços, pediu-me para levantá-lo ao banheiro, não aceitava urinar no apetrecho hospitalar ou admitiu usar sonda, muito menos aceitou ser levado para UTI: “para não prolongar o inevitável”. Creio que nos anos que retornei a morar com Ari ganhei entendimento maior sobre os sofrimentos de minha mãe e readquiri o amor, latente, que tinha por ela. Hoje, deles mantenho uma saudade sem traumas ou sofrimentos. Chega a ser uma saudade que me preenche e alegra. Gosto mais de mim por ter aceitado o desafio proposto.
             Neste período os amigos continuaram a frequentar nossa casa e devo muito de apoio a eles: Renato Diniz, meu tio. Dr Ricardo Cruz, amigo de meu pai e psiquiatra de minha mãe que a tratou de graça até o último dia de vida dela. Dr Brenha Chaves, José Gorender, sócio e amigo, (Ari trabalhou até o dia de sua morte, tanto como jornalista, ao lado de Gorender e Gominho, quanto como escritor. Morreu no dia que colocou ponto final no livro que Guido Guerra mais tarde publicaria). Maurício Naiberg, (conseguiu com muita luta aposentar Ari), Guido Guerra, minha Tia Amália e tia Conceição chegavam lá em casa e botavam em ordem. E muito outros que aceitaram a condição de não tocar no assunto doença e trouxessem somente alegria. Minha contribuição, mesmo, era comprar os remédios e eventualmente ir a restaurantes comprar os petiscos que o alegrava. 
             PS: Minha querida irmã pediu-me que escrevesse por ela um texto em homenagem a nosso pai. Ela acredita que eu escreva melhor que ela. Não sei se é verdade, então vou reproduzir uma carta que meu pai escreveu quando preso durante o regime militar. Beijão, Mana.

“Querida Dalva,
            Queridos Filhos.

            Imagino-os a todos. A cada momento — e são longos, sofridos momentos — posso vê-los e ouví-los, porque estas paredes que me encerram são incapazes de conter minha imaginação. Estou sempre com vocês. Sobretudo à noite. Vejo e sinto cada sorriso de Fred, Jorge, Vanja, José Ricardo, Antonio Guilherme. O que me magoa é não ter a convicção de que elas possam, tão crianças ainda, retribuir os adeuses que lhes dou. Mas sei, com certeza absoluta, que você, Dalvinha, há de sentir, cada noite, cada dia, essa presença de quem está tão longe e ao mesmo tempo, tão perto. Somente depois desta convicção, quando ela me imprime na consciência e no coração, é que, afinal, consigo dormir — e é um sono longo, tranqüilo, repousante, um sono de prazer realizado. Eis porque, pela manhã, quando desperto, ao ver, em torno, faces que estão tristes, e, por vêzes, faces em que identifico, sem dificuldades, marcas de um desespêro contido, consigo sorrir, insisto em sorrir, e de tal forma, e com tal fôrça que ao cabo de alguns minutos, todos sorriem também, reencontrando-se.
            São longos os momentos, já lhes disse. Não os perco. Aproveito-os, minuto a minuto, promovendo, com circunstância metódica, uma analise, um exame, ao passado que me foi possivel construir. Busco os erros, as insuficiências — e encontro-os, não poucas insuficiências, não poucos erros. Não me perdôo, por exemplo, o desconhecimento de línguas essenciais para meu estudo e meu trabalho. Não saber inglês, por exemplo. Nada entender de alemão. Conhecer francês pela rama. Saber tão pouco de matemática. Nada disso me perdôo. Lamento, ainda, não ter estudado, com método, ciências tão essenciais como Sociologia e História. Não creiam, contudo, que essa convicção de insuficiência cultural possa produzir apenas tristeza. Dela retiro estranha e poderosa força: a de recuperar o atraso. Rapidamente. Estou entregue, agora, ao estudo intensivo do inglês. As dificuldades, para um ignorante, como sou, são consideráveis. Na pronuncia, principalmente, sou uma negação. Dias e dias e ainda não consegui pronunciar , corretamente, como a pronuncia meu professor, o Frei Valesiano, a palavra also. Flexiono mal. A lingua não se disciplina. Erro e repito. Afora isso, porém, vou andando e Frei Valesiano é estimulante. Prometi-lhe, por isso mesmo,  logo que me veja em liberdade, uma feijoada das nossas, a rigor. Quero dizer: uma feijoada que se inicie com aperitivos e tira-gosto, seguindo-se o arroz solto, a salada variada, o molho picante, a carne de porco bem tostada, e ele sua majestade, o feijão, de véspera, bem condimentado. Para auxiliá-lo, com a referencia devida, um vinho tinto, aos 18 graus, encorpado, de memória permanente. Escrevo isto e o frei se baba de gozo. Eu também!
Perdoem a pilhéria, que pilhéria não é. É, em verdade, evocação, mais do que isso, é desejo, imenso e poderoso, de vê-los, sentí-los e abraça-los, um a um, e todos, ao mesmo tempo. Abraça-los não só a vocês, mas a todos, aos que, inclusive, não conheço, nunca vi.
Minha condição de jornalista, de escritor em projeto, leva-me a estes transbordamentos. Creio que me negaria se tentasse aprisioná-los. Disse-lhe uma vez, Dalva, repito-o agora, que sou todo coração, e, por isso, como poeta, “onde se vê louca anatomia”.
Falava-lhe da convicção de que sei pouco e sei desordenadamente o que foi possível aprender. Quero, a viva fôrça, recuperar o tempo perdido. Vou faze-lo. Comecei a faze-lo. Continuarei. Por mim, por vocês, por todos. Quero contribuir com algo sério para meu país, minha Pátria, meu Povo, e ninguém senão a morte, me impedirá. Se não conseguir, terei a alegria do esforço desenvolvido nessa direção.
Mas, certamente, naquele passado consternado nem tudo foi erro, nem tudo foi insuficiência. No meu passado estão vocês — e sinto orgulho, contentamento, tranqüilo orgulho, sem ostentação, de tê-los ao meu lado.
Estão, no meu passado, amigos que fiz em circunstâncias de sucessos, de êxitos, e, também, aqueles que ao meu lado estiveram, e estão, nos momentos de adversidades. Que não foram poucos, e, necessariamente, se repetirão no futuro.
No meu passado está tudo quanto escrevi. Também disso me orgulho. Convenço-me, agora mais do que antes, que nunca dobrei a espinha aos poderosos, nem a dobrarei. Como jornalista e como projeto de escritor jamais construí inverdades, sabendo-as inverdades. Nunca me aproveitei da condição, honrosa para poucos, aviltada por numerosos, para pisar ninguém, prejudicar quem quer que fosse, trair os interesses do nosso Povo, a troco de vantagens, mínima ou máxima que pudesse ter sido. Disso a ninguém peço testemunho, senão a vocês. É quanto me basta. Graças a isto meu sono é tranqüilo, meu riso é fácil, posso olhar-me no espelho sem surpreender-me desesperado ou vencido.
Desejaria, agora, poder abraçá-la e dar-lhe, Dalva,  o que lhe devo, em afeto e em carinho. Terei a oportunidade para isto. Em breve. Porque, é certo, em breve nos reuniremos todos, na mesma mesa, sob o mesmo teto.
Julguei poder vê-la, hoje. É-me impossível. Você imaginará os motivos dessa impossibilidade e o que para mim, ela significa.
Beijo-a com ternura. Aos garotos também, um por um. A todos peço que estudem. Brinquem um tempo, estudem outro. O máximo que possam. Especialmente Fred e Jó que devem ajudar em casa.
Até breve,
Ari.”

               
            

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