Pular para o conteúdo principal

Urubu não sabe cantar.




          Urubus não sabem cantar,

          Contou Rubem Alves em sua crônica “Urubus e Sabiás”.  A mídia, diplomada, não aceita até hoje que seus prepostos: Castelo, Médici, Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor/Itamar, FHC tiveram o país na mão, por longa data, mas como urubus, mesmo diplomados, não souberam cantar, deixaram, a cada novo Presidente, o povo triste a sofrer. Os barões da mídia, com seus diplomas, até hoje, não conseguem admitir que um “analfabeto” desse início a um tempo de alegria e, com seu canto natural, trouxesse a alegria do desenvolvimento para esse povo simples, daí tanto ódio propagado. Talvez, quem leu o texto até o momento não tenha entendido nada.
Ok. Lendo a crônica do Rubem estou certo que entenderá. 

Urubus e sabiás
Rubem Alves

         "Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
         — Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
         — Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...
         MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá."

O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Secretária. Lit. Axé.

A Secretária.


          Gosto de ser franco. Confundem-me como rude. Diz meu filho que sou sutil como um rinoceronte. Talvez o seja, não sei bem. Outros me afirmam que até meus elogios são ácidos.  Não sei dourar a pílula. Não uso eufemismos. Digo a verdade e a ingratidão da verdade não me ofende. E tudo para mim é muito substancial. Eu disse você é bela, como Caymmi disse: “o Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca”, assim, simples. E ela agradeceu. E eu disse que ela não precisava me agradecer e sim aos pais dela ou a Deus. E eu concluí a frase dizendo com a mesma simplicidade: sua a beleza não é mérito seu, e completei: são os genes. E o riso fácil dela se apagou. Ela me olhou com desdém, talvez pensasse: “quem ele pensa que é?” Eu disse talvez pensasse, não tenho a capacidade de ler mentes. E perguntei se eu a ofendi, ela disse não, não senhor... E eu me calei. Bebi o último gole da dose do conhaque no copo. Imaginei pelo uso da palavra senhor uma formal maneira de t…

O Machista.

O machista.
Findando um tedioso dia de trabalho, Rubens, ao checar seus e-mail, encontrou  convite para um “happy-hour” no bar que costumeiramente frequentava. De imediato confirmou presença, desligou o micro e foi ao bar tentando imaginar o que o amigo de infância e cunhado desejava. Ao chegar, por se sentir um freqüentador prestigiado no bar escolhido, solicitou: — Boa noite, Joel. Tudo bem, Dona Helena? A senhora pode pedir a “Jacaré” para me servir na mesa de sempre? Dona Helena, prestativa, respondeu eperguntou. — Claro! Quer que mande servir o carneiro?  Mais tarde. Estou aguardando um amigo. Por enquanto, só quero uma dose do “Velho Oito”. Peça a Jacaré que a leve pura, estilo “cow-boy”. Rubens caminhou em direção a mesa ao fundo do bar, junto ao sanitário feminino, como fazia costumeiramente nas noites de sexta-feira após concluir o dia de trabalho. Em poucos minutos, com a dose servida, ele observa a chegada de Pedro Ivo. Notou pelo terno que o amigo também viera direto do escritó…

A Dura Lei dos Homens

“C’est lá dure loi des hommes Se gander intact malgré Los guerres et la misere Malgré lês dangers de mort.” P. Eluard
Jantara bem, o carro saíra da oficina em boas condições, nenhum mal entendido com os amigos apenas fora algo desagradável a leviandade daquele jovem na livraria. Ele insistira em condenar Rilke sem qualquer motivo sério, limitando-se a citar alguns trechos de Cartas a um Jovem Poeta. Contudo, bem analisada as coisas, aquilo era desculpável. O rapazinho mal iniciara suas atividades como crítico – obtendo, aqui e ali, alguns êxitos – mas já se acreditava um pequeno gênio de província, graças aos elogios fáceis que ia recebendo. Não discutira, claro. Ouvira-o, a princípio com desdém, depois com tolerância . O silêncio geral fora, sem dúvida, a melhor resposta. Afinal, um incidente sem importância, destituído de força suficiente para intranqüilizá-lo. Dosou o cálice de cointreau, ajeitou-se no divã e ligou a radiola. Ouvia uma seleção de Ives Montand quando os policiais invadira…