Pular para o conteúdo principal

Saudade da minha juventude.

          Costumava me deitar no sofá da sala para namorar e assistir TV enquanto meu pai tocava sua Remington*, na labuta, madrugada adentro, como musica de ninar. Ah! Se aquele sofá falasse, quantas noites de amor ele ir-me-ia caguetar. Os livros da estante, cúmplices, que me encobriam do olhar de meu pai, quase suspiravam ao esconder do dono da casa as minhas traquinagens, resguardadas por seus tomos.
A casa, de muro baixo, sem portão e com fachada de vidros, onde floria um lindo jardim que nos separava da rua, eu expunha minha intimidade. Lá eu fui criado, pássaro solto. 
          De dia, bêbados e mendigos entravam livremente para pedir atenção. Bebiam leite, comiam pão, ganhavam tostão e se iam. Ah! Que saudade de poder andar de cuecas, qual sacos de batata, baratas, que usava sem preocupação. Eu vivia sem passado, sem futuro e sem presentes. Meu tempo era o amor, que num breve instante se fazia eterno. À noite, quando o reflexo da lua espelhava os vidros da fachada, eu era Deus. Como Priapus** A casa de meu pai era meu os jardins e as donzelas e suas flores cheirosas. Semeava-as sem pena, mas tapava-lhes a boca, para que seus gemidos não nos denunciassem. Ah! Quantas noites, sem castigos, eu vivi minha juventude. Sim! Ali eu era Deus. “ Se perguntas por que as partes obscenas não resguardava? Pergunta então se há deuses que escondam o seu dardo!”. Às vezes, interrompido, enrolava-me num lençol para servir um conhaque com água gelada ou cortar cubinhos de queijo e salame para servi a meu velho. O dono da vida fingia não perceber. Melhor não saber. Mas o tempo passa, passado, passou. A casa ficou  na minha memória junto as noites traquinas de amor. Ficou, também, na memória a música da Remington* que não toca mais enquanto dedilho nesta máquina sem som, sem música de ninar, o passado vivido. Da casa onde vivi não ficou, sequer, o sofá daquele passado. A casa, antes de muro baixo e sem portão, hoje é uma fortaleza, castelo infecundo, cercada de muro alto, portão de ferro, para esconder o novo dono do mundo. Já não é de vidro a fachada, morto ficou o jardim. Nem existe mais a estante com livros que escondia as traquinagens do jovem que se fazia Deus. Habitaram-na de medo, e o medo mata o amor.

*Marca da máquina de escrever.

**Mit. - Deus grego.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Secretária. Lit. Axé.

A Secretária.


          Gosto de ser franco. Confundem-me como rude. Diz meu filho que sou sutil como um rinoceronte. Talvez o seja, não sei bem. Outros me afirmam que até meus elogios são ácidos.  Não sei dourar a pílula. Não uso eufemismos. Digo a verdade e a ingratidão da verdade não me ofende. E tudo para mim é muito substancial. Eu disse você é bela, como Caymmi disse: “o Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca”, assim, simples. E ela agradeceu. E eu disse que ela não precisava me agradecer e sim aos pais dela ou a Deus. E eu concluí a frase dizendo com a mesma simplicidade: sua a beleza não é mérito seu, e completei: são os genes. E o riso fácil dela se apagou. Ela me olhou com desdém, talvez pensasse: “quem ele pensa que é?” Eu disse talvez pensasse, não tenho a capacidade de ler mentes. E perguntei se eu a ofendi, ela disse não, não senhor... E eu me calei. Bebi o último gole da dose do conhaque no copo. Imaginei pelo uso da palavra senhor uma formal maneira de t…

O Machista.

O machista.
Findando um tedioso dia de trabalho, Rubens, ao checar seus e-mail, encontrou  convite para um “happy-hour” no bar que costumeiramente frequentava. De imediato confirmou presença, desligou o micro e foi ao bar tentando imaginar o que o amigo de infância e cunhado desejava. Ao chegar, por se sentir um freqüentador prestigiado no bar escolhido, solicitou: — Boa noite, Joel. Tudo bem, Dona Helena? A senhora pode pedir a “Jacaré” para me servir na mesa de sempre? Dona Helena, prestativa, respondeu eperguntou. — Claro! Quer que mande servir o carneiro?  Mais tarde. Estou aguardando um amigo. Por enquanto, só quero uma dose do “Velho Oito”. Peça a Jacaré que a leve pura, estilo “cow-boy”. Rubens caminhou em direção a mesa ao fundo do bar, junto ao sanitário feminino, como fazia costumeiramente nas noites de sexta-feira após concluir o dia de trabalho. Em poucos minutos, com a dose servida, ele observa a chegada de Pedro Ivo. Notou pelo terno que o amigo também viera direto do escritó…

A Dura Lei dos Homens

“C’est lá dure loi des hommes Se gander intact malgré Los guerres et la misere Malgré lês dangers de mort.” P. Eluard
Jantara bem, o carro saíra da oficina em boas condições, nenhum mal entendido com os amigos apenas fora algo desagradável a leviandade daquele jovem na livraria. Ele insistira em condenar Rilke sem qualquer motivo sério, limitando-se a citar alguns trechos de Cartas a um Jovem Poeta. Contudo, bem analisada as coisas, aquilo era desculpável. O rapazinho mal iniciara suas atividades como crítico – obtendo, aqui e ali, alguns êxitos – mas já se acreditava um pequeno gênio de província, graças aos elogios fáceis que ia recebendo. Não discutira, claro. Ouvira-o, a princípio com desdém, depois com tolerância . O silêncio geral fora, sem dúvida, a melhor resposta. Afinal, um incidente sem importância, destituído de força suficiente para intranqüilizá-lo. Dosou o cálice de cointreau, ajeitou-se no divã e ligou a radiola. Ouvia uma seleção de Ives Montand quando os policiais invadira…