Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2015

A Menina Ivonete

O sonho
Os olhos ardiam. Por vezes, cochilava fração de segundos. João Carlos estava dirigindo a mais de 16 horas consecutivas. Estava perdido. Não tinha a menor noção de onde se encontrava. Mesmo amedrontado, devido ao ermo do lugar, estacionou o veículo junto à cerca de arame farpado da estreita rua de barro. Acendeu as luzes do pisca alerta, desligou o ar-condicionado e dormiu. Sonhando, João Carlos recordou cada detalhe do sobrado da fazenda de cacau construído pelos bisavós no alto da colina. A Casa Grande, como corriqueiramente chamavam, possuía um singular projeto arquitetônico. Vários janelões enfeitados por gradis de ferro harmonizavam com o telhado de beiral saliente. Na entrada principal, pequena escada de mármore conduzia à varanda onde grandes portas trabalhadas de cedro possibilitavam a entrada para a sala de visitas da casa ricamente decorada. — Lustres de bronze e cristais eram afixados no teto de madeira de lei. Alpendres franceses sobre as grandes janelas, em estilo…

Foi ali comprar cigarros (Um conto de carnaval).

. Quinta-feira pré-carnaval, o calor estava beirando o insuportável. Na TV mulheres seminuas se rebolavam em frenesi, Alzira, minha mulher, olhou-as com desdém e comentou antes de desligar a TV, — São umas vadias turbinadas de silicone. De vez em quando morre uma no bisturi, bem feito. - 0 – Alzira, apesar dos 37 anos, fisicamente, ainda é uma mulher bonita. A conheci na faculdade no curso de Arquitetura, eu estava me formando e ela era caloura. Nos aproximamos em um bar perto da faculdade. Muito bonita: pele morena da cor de chocolate, olhos amendoados, corpo tipo mignon e um belo sorriso. Sempre dei preferência às mulatas do tipo violão. Ela se destacava pela desenvoltura, tinha aquele brilho no olhar de quem é feliz. Sorria sem esforço das coisas mais bobas e era um sorriso autêntico, — Nada me mostra mais a personalidade de uma pessoa que o sorriso. Tenho verdadeiro asco de quem coloca no rosto aquele sorriso de atriz. — Gasparzinho foi quem me convidou para sentar-me à mesa com …

O Matador de Bois.

. 1 Nascido numa família humilde de pessoas honestas, Sebastião era o sétimo filho de uma prole de onze. Tião, como costumava ser chamado pelos familiares, era um menino alegre e esperto que se viu obrigado a largar a roça dos pais aos nove anos e partir para trabalhar no açougue do tio com o intuito de ajudar financeiramente sua família. Cremilda, a mãe de Tião, chorou e chorou no dia de sua partida. Zé D‘aipim, o pai, mesmo com o coração apertado, sabia que era hora de Tião ―virar homem‖. Ele fizera o mesmo ao completar a mesma idade, quando fora trabalhar quebrando pedra de fogo pra fazer concreto a mando do pai, Onório Tantão: "— Pra não dá pra vadio‖. — Falara-lhe, na época, o pai, o avô paterno de Tião. Apesar de todas às lágrimas da mãe, o coraçãozinho de Sebastião estava cheio de coragem e contentamento. Tornar-se-ia igual ao pai: "um homem", e conheceria finalmente o famoso tio: João: ―O matador de bois‖. 2. Tião esperava ansioso pela hora de conhecer o tio, i…