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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

A construção da morte. - Ariovaldo Matos

A Construção da Morte 1. Científico, os doutores, compõem-se graves. Enfarpelam-se com suas túnicas brancas, são de linho as camisas que usam, e escuras, quase sempre as gravatas. Sobre nós despejam, as carradas, um palavrório idiota; ameaçam-nos com choques elétricos ; com agulhas furam-nos os braços e as bundas; goela adentro, gritando “engulam! engulam! engulam!”, enfiam-nos pílulas e poções; e de noite, ao dormirmos, eles nos espiam como se fôssemos animais. Então eu me lembro da égua que tínhamos na roça. De noite, ela na estrebaria, meu pai nos levava a vê-la. “Roxinha”, chamava-a com ternura sem receio que nós o achássemos ridículo. Já morreram, meu pai e “Roxinha”. Quando nos espionam, de noite, os médicos não demonstram mínima ternura. Talvez eles temam o ridículo. Somos coisas e eles máquinas. Fazem perguntas absurdas. Alguma vez, em minha infância e em minha adolescência, eu bisbilhotava, com luxúria, minha irmã? Expliquei que nunca tive irmã. E minha mãe, fui dizendo, morrer…