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A Construção do Sonho. Lit. Axé - Ariovaldo Matos


A Construção do Sonho
Uma frágil minhoca que amava e ao mesmo tempo temia o sol. Amava-o quando amornava a terra. Temia-o , a supor que por ele seria esturricada se saísse de sua toca, se ousasse mirá-lo. Um dia, manhã, decidiu-se pelos perigos e esperanças da liberdade que exige luta. E caminhou, vencendo, em incríveis batalhas, os fantásticos animais de que fala Lautréamont , em “Maldoror”: caranguejos, fêmeas de e outros monstros marinhos, dragões alados, severos buldogues babando sangue, búfalos roídos por víboras, hipogrifos descomunais – e tudo quanto seja capaz de habitar os imaginados zoos dos parafrênicos, como nós somos. Não importa. A minhoca, embora frágil, soube usar astúcia e sobre eles triunfou.
Desgraçadamente, porém, a esperança não completou seu ciclo: logo ao surgir das entranhas da terra, exausta após tantos combates, um alguém, de marrons botas assassinas, a esmagou, impedindo não se sabe por quê. Talvez alguém, como nos sugeriu Lautréamont, “entregue, em um momento de esquecimento, ao caranguejo do deboche, ao polvo da fraqueza de caráter, ao tubarão da abjeção individual, à jiboia da moral ausente, ao caracol monstruoso do idiotismo! Certo é que a minhoca, jovem como eu, mal pôde uma intimidade de poucos segundos com o sol, na ocasião a ser encoberto por nuvens alvíssimas, mulheres e moçoilas sorridentes, sôfregas. A bem da verdade, diga-se que as formigas foram muito atenciosas, gentis, quando, de volta de suas fainas habituais, conduziram o corpo espedaçado ao fundo da cova, cuidadosamente, com desvelo. E antes de a devorarem – necessidade de sobrevivência -, homenagearam-na com solenes cânticos... Certeza, por enquanto, é que a inicial temeridade da minhoca e, depois, sua valentia, serão consideradas. Isso é pouco. Por que as formigas, antes amigas afetuosas da minhoca, não a advertiram sobre os terríveis perigos também lá fora? As nuvens, por que começaram a encobrir o sol precisamente naquele instante? Simples traquinagens? Empenho de protegê-lo, não o desejando como impassível testemunha do crime?...
 Ariovaldo Matos, 
Em fase de editoração para e-book - Breve na Amazon.Com

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