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Praga da Namorada - Literatura Axé


     

         Quinta-feira, pós-carnaval,  em Salvador- BA. Acordei cedo. Queria chegar ao trabalho antes do chefe. Banhei-me, vesti-me e bebi, de gute-gute, um café com leite. Buscava uma maneira de compensar a falta na quarta-feira de cinzas quando não fui nem trabalhar. Tinha que recuperar minha imagem de bom profissional. Tudo pronto, Eu, fresquinho e cheiroso, peguei a chave do carro e, no lobby do elevador, me veio àquela vontade de ir ao banheiro. A princípio pensei: “vai dar tempo de chegar ao escritório. Lá eu me alivio” – (Como já disse, havia queimado o trabalho na quarta-feira. Não quis perder Carlinhos e Ivete no arrastão). Estava convicto de que na quinta-feira, chegando cedo, me redimiria com o chefe. – Um ranzinza mal amado que detesta o carnaval. –  Que nada! A demora do elevador me fez sentir que não daria tempo de chegar ao escritório com aquela vontade danada de evacuar. Então, retornei ao apartamento para ir apressado ao sanitário. Como dizem os norte-americanos, “para o número dois”. Arriei a calça e cueca até os sapatos e sentei no acolchoado do vaso.  Checando o relógio, pensei: “espero que seja rápido...”
         Um minuto e nada, só aquela pressão. Um arzinho me escapou, fiummm, e nada. Resolvi dar uma forcinha ao organismo e comecei a me espremer, atitude que fez me escorrer algumas gotas de suor. Olhei mais uma vez o relógio, o tempo parecia ter parado para mim, mas acelerado para o relógio. – entendi, ali, a teoria da relatividade de Albert Einstein.   Busquei uma maneira mais cômoda de me assentar e fiz força novamente, só que com mais ímpeto. A pressão aumentou e minha memória lembrou-me que abusara da farinha na feijoada apimentada da quarta-feira que engolira, ainda bêbado, ao chegar ao meu apartamento. Um calafrio subiu por minha espinha cervical, dando-me um choque de arrependimento. O suor a essa altura já encharcara minha camisa. Olhei mais uma vez o relógio. Havia se passado mais de vinte e cinco minutos. Caso demorasse mais, pegaria o engarrafamento e chegaria atrasado. A desculpa do engarrafamento não colaria mais. O chefe havia frisado que morava bem mais distante que eu e sempre chagava dentro do horário estabelecido. Fora até taxativo: “Acorde mais cedo”.
         A pressão continuava. Ela me fez tomar coragem extra e,  como uma gestante pronta a dar luz, eu me espremi o máximo, até que, um pedaço ressecado do bolo fecal ficou no não sai e não volta. Aquele pedaço de bosta me fez perceber o que era um verdadeiro impasse. Aquela situação fora, sem dúvida, a pior experiência de minha vida. Relaxei um pouco tentando minimizar a dor, porém, ainda preocupado com meu possível atraso.
         Ao relaxar, eu juro, orei: “oh, Deus! Perdoa meus pecados”, e disse com toda fé possível. Comecei a rezar um Pai nosso, que estais no céu...  acrescentei uma ave Maria... E pedi: Senhora do bom parto, ajude-me a manter minhas pregas... E novamente forcei a saída... Jurei de pés separados, já que não tinha como juntá-los, que nunca mais comeria feijão com pimenta e farinha, e entendi, ali, definitivamente, o significado da máxima que diz: “nos olhos dos outros é refresco”. Deus, em sua enorme benevolência, fez com que caísse uma bolinha indecisa e ressecada no vaso que me devolveu uma gota d’água, gelada e certeira, bem naquele lugar. Respirei um pouco aliviado. Outro pedaço fez pressão. Senti medo. Pensei em ir ao médico para pedir que removesse aquele trágico incidente, fruto da gula pós-carnavalesca, com uma cirurgia. Inventasse ele uma cesariana anal, não me importaria, desde que aplicassem uma anestesia. Não demorou, e um roncar no baixo ventre me trouxe, de quebra, uma cólica de dor aguda, dilacerante. Suando em bicas, retirei o relógio e o atirei longe. Não me importava mais se iria ou não trabalhar. Não me importava mais o horário. Pensei: que se lasque o chefe, o emprego, Roberto Carlos e as baleias... O outro pedaço começou a fazer pressão. Tirei a camisa, sapatos, meias, calça e cueca. Fiquei literalmente nu, estava enfezado, tanto no sentido literal quanto no figurado. Levantei o acolchoado e sentei-me direto na louça. Pus os calcanhares em ambos os lados do vaso, como se montasse um touro, e defini: perco as pregas, mas me livro desse sofrimento. Nunca havia usado de tanta energia e determinação em minha vida. Pensei na namorada com aquele sorriso cínico de quando me dissera que eu deveria agradecer a Deu por nunca ter sentido uma cólica menstrual, e que nunca sentiria a dor do parto. Foi praga dela, fiquei convicto disso, aquela miséria me jogara uma praga por ter me negado a ficar com ela no carnaval. Ela alegara cólicas para não me acompanhar e me queria junto a ela para paparicá-la. Eu disse não. Vou sozinho pular meu carnaval. Então fui... Aí, fiquei mais enraivecido. Praga de mãe vá lá, mas de namorada? É sacanágem... Com um grito de aterrorizar o síndico,  coloquei toda minha força e raiva até sentir explodir minhas entranhas... e... pum! E explodiu mesmo. Como dizia minha mãe: “Nossa Senhora passa a mão na dor dos que parem dando-lhes um alivio Divino”. A outra parte sairia junto a uma espumante e melequenta evacuada. Completamente nu, sem ao menos me limpar, telefonei para o escritório e, enfático, falei com o chefe. Só vou aparecer aí na segunda. Se não gostou, me demita! Estou de resguardo. Bati o fone na cara dele e fui tomar um precioso banho. Após o banho liguei para a namorada  definindo-a com ex. Disse: nosso relacionamento acabou, você é uma bruxa! E mandei um: “vá jogar praga no diabo”.  Só fui trabalhar na segunda-feira, cheguei no horário esperando reprimenda, mas meu chefe nunca teve coragem de tocar no assunto. A namorada? Depois de um tempo reatamos o namoro...


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