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O Donzelo - Literatura Axé -

        O Donzelo.         
        
         Bruno não era, de todo, feio. Estava acima do peso, é verdade, mas não chegava à obesidade. Não era muito alto, contudo, possuía uma estatura acima da média. Tinha a barriga um pouco avantajada, porém, nada que lhe tirasse a elegância. Cabelos ele os tinha e cortava-os baixinho por ser mais prático o asseio. Era limpo,  alinhado e vestia-se e portava-se de forma tímida. Aliás, o grande defeito de Bruno era aquele acanhamento. Bruno já beirava os trinta anos e mantinha-se virgem. Não que não tentasse, vez por outra, uma paquera. Porém, bastava uma mulher se aproximar que seu pensamento perdia o sentido lógico e vinha-lhe uma gagueira súbita. Ele havia tentado resolver o problema. Fez análise, consultou-se com fonoaudiólogos, procurou por mães-de-santo, benzedeiras, enfim. Restou apenas apelar para uma profissional. Para escolher a dama, Bruno pediu a um amigo que intercedesse no contrato amoroso. Temia entrar em sites pornográficos ou a frequentar casas de massagem. Dentre seus poucos amigos Epfânio fora escolhido para realizar as entrevistas preliminares. Após rejeitar algumas das jovens, Epfânio lembrou-se de Angel, uma colega da universidade que se sujeitava a prostituição para financiar os estudos. Ela era, além de bonita, discreta, culta e meiga.
         Tudo arranjado, Bruno partiu para o quarto do hotel como um recém casado em lua-de-mel, e lá, esperou pela surpresa. Não tardou a chegada de Angel, que se vestia com sobriedade e não utilizara nenhuma maquiagem. A batida na porta do quarto acelerou o coração ansioso de Bruno, e ao abri-la, quase desmaiou diante da beleza da jovem prostituta. Refeito do susto, Bruno desculpou-se:
         --- Perdo...do...e...me. En...tre por fa...fa...vor.
         Angel sorriu ao notar o tamanho embaraço do homem a quem viera servir.
         --- Boa noite, Bruno. Tranquilize-se. Temos a noite toda. Disse-lhe, a jovem, em tom suave.
         Bruno se apressou para chegar à mesa e puxar, galantemente, a cadeira para seu par. Angel agradeceu, sentou-se e esperou que Bruno abrisse o champanhe e a servisse. Conversaram sobre vários temas, Bruno já mais calmo, pedindo licença, pretendia servir os tira-gostos.  Ao tempo que Angel bebia lentamente o doce líquido borbulhante, Bruno, ao pegar os quitutes para servir, tropeçou na cadeira e ao tentar se equilibrasse segurou na toalha de mesa. Não adiantou. Ele caiu de costas sobre o tapete felpudo, entornando a balde com gelo e o champanhe sobre o peito. Neste ínterim, Angel partiu para ajudá-lo e, no âmago do desastre, escorregou e caiu sobre Bruno. A aproximação dos corpos no gélido abraço aqueceu os corações dos amantes. Toda a preparação sucumbia ante o desejo do casal aflorado entre cubos de gelo e o borbulhante champanhe. Então, ali mesmo, amaram-se fervorosamente. A noite transcorreu agradável e gratificante para o casal. O amor operara o milagre. Ao acordar, Bruno sentiu a estranha sensação de que, apesar dos anos de espera, encontrara o amor de sua vida. Sentia-se seguro, apto. Sua gagueira havia desaparecido. Eliana, (Angel), negou-se ao cachê na manhã seguinte. Pouco mais de um mês depois do encontro, tendo como padrinhos Epfânio e a namorada, Bruno e Eliana se casaram. E pelo que sei, vivem felizes.
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