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Foi ali comprar cigarros (Um conto de carnaval).


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Quinta-feira pré-carnaval, o calor estava beirando o insuportável. Na TV mulheres seminuas se rebolavam em frenesi, Alzira, minha mulher, olhou-as com desdém e comentou antes de desligar a TV,
— São umas vadias turbinadas de silicone. De vez em quando morre uma no bisturi, bem feito.
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Alzira, apesar dos 37 anos, fisicamente, ainda é uma mulher bonita. A conheci na faculdade no curso de Arquitetura, eu estava me formando e ela era caloura. Nos aproximamos em um bar perto da faculdade. Muito bonita: pele morena da cor de chocolate, olhos amendoados, corpo tipo mignon e um belo sorriso. Sempre dei preferência às mulatas do tipo violão. Ela se destacava pela desenvoltura, tinha aquele brilho no olhar de quem é feliz. Sorria sem esforço das coisas mais bobas e era um sorriso autêntico, — Nada me mostra mais a personalidade de uma pessoa que o sorriso. Tenho verdadeiro asco de quem coloca no rosto aquele sorriso de atriz. — Gasparzinho foi quem me convidou para sentar-me à mesa com ela, eram amigos de infância, Gasparzinho era branco, forte, dançarino e capoeirista. Aquela seria a última vez que o via. Poucos meses depois soube que brigara num bar em defesa da namorada. Deu azar. O ex-namorado da moça era um policial, da civil, que não aceitando o rompimento do relacionamento entrou no bar para agredi-la. Gasparzinho reagiu, bateu no cara. O assassino foi embora, covarde, retornou com mais dois outros e o matou a sangue frio. Da namorada dele nada sei. O policial respondeu processo, porém soube que está solto e continua na ativa. Segundo jornal publicou na época, o policial alegou legítima defesa. Coisa da Justiça, esses caras são mesmo inimputáveis. Nos vimos, eu e Alzira, pela segunda vez no enterro de Gasparzinho. Conversamos e a convidei para irmos a outro lugar após o enterro no Cemitério Quinta dos Lázaros. Me pareceu autentica a dor que Alzira sentia e me comovi por
ela. Não demorou muito e começamos a namorar. Ela morava num conjunto residencial de classe média baixa no IAPI. O pai falecera quando ainda era criança. A mãe vendia marmitas para sustentar os três filhos. O mais velho, Belarmindo, já trabalhava quando o conheci. Era motorista de taxi, dirigia um fuscão branco. Fazia ponto na porta do supermercado Paes Mendonça, o de Brotas, próximo a Cruz da Redenção. Hoje mora em São Paulo, é casado e soube que alcoólatra, vive da pensão que Alzira envia mensalmente. O caçula, Adrobaldo, é viciado em cocaína, também vive as minhas custas. Um malandro de marca maior que nunca bateu um prego numa barra de sabão. Mulato claro, bem afeiçoado, bom falante, não vale a bosta que caga. Convence Alzira do que quer e quando quer. Ainda mora com a mãe que, pouco depois do meu casamento, alegando artrite, parou de trabalhar e é outro encosto. Nunca liguei para dinheiro, não que tenha vindo de família rica. Meu pai era um batalhador que, aos poucos, montou uma loja de materiais de construção. Trabalhei com ele desde meus treze anos. Muito do que sei aprendi atrás do balcão vendendo ferragens, cimento, tijolos e arenoso. Minha mãe é professora aposentada. Hoje papai está bem de vida com sua loja de materiais de construção e sua madeireira que meu irmão, Eduardo, administra com muita competência. Alzira, após o casamento, largou a faculdade. Alegou ser para cuidar de mim. Hoje descubro que Alzira se casou comigo foi para cuidar da família da mãe dela as minhas custas. Se conto a vocês isso é para quando forem me julgar, vocês terem uma visão clara e saberem como as coisas aconteceram de maneira verdadeira e não me condenarem apenas pelas histórias contadas nas redes sociais. Já ia me esquecendo de falar de mim. Sou arquiteto pós-graduado em designer de ambiente. Também sou mulato, tenho 42 anos e sou proprietário de uma empresa próspera. Tenho duas lojas que vendem cozinhas de alto padrão, feitas sob medida, e projetadas por mim e por mais dois arquitetos. Nossos produtos são dirigidos a classe A. Além das cozinhas, atendemos a estaleiros que produzem iates e lanchas de alto luxo. Projetamos e construímos os ambientes mais sofisticados que vocês possam imaginar.
Até o ocorrido eu trabalhava mais de 12 horas por dia. Não tenho filhos, não que eu tenha escolhido não tê-los, é que minha mulher se nega e diz ―estragar meu corpo para parir e depois ser abandonada numa clinica de repouso pelos filhos. Tentei convencê-la a adotarmos uma criança, ela se nega também, diz: ―Quem pariu Mateus que balance. — Veja como tudo aconteceu:
O sono já me convidava para cama, entrei no banheiro escovei os dentes e de lá ouvi mais uma recomendação da patroa,
— Se for tomar banho não molhe o cabelo. Eu coloquei o ar-condicionado no máximo.
Entrei no boxe e, respeitando a sugestão, fui me banhar sem lavar o cabelo. Vesti a cueca tipo boxe e, por sobre, o pijama azul de listas brancas, feito de cetim, que ganhei no Natal, junto a um ridículo par de pantufas a imitar coelhos mortos. Queria conhecer o desenhista que criou aquele aparato de calçar velhos. Sim. É assim que meu cunhado, Adrobaldo, aquele arruela-de-encosto, me chama de velho! Velho é meu escroto que já nasceu enrugado, — penso nesta frase todas as vezes que assim me chamam, mesmo sem dizê-la. — Deitei-me na cama e liguei a TV do quarto. Rodei pelas centenas de canais disponíveis e entre enlatados americanos de enredo pífio e alguns filmes da Marvel repetido, eu não encontrei nada que me agradasse. Senti vontade de ligar o notebook para ler as resenhas sobre cinema de André Setaro, amigo virtual, ou ler as postagens a respeito do carnaval escritas por Renato Pinheiro. A vontade de ir ao facebook passou assim que vi algumas mulatas sambando com seus balangandans, estavam deslumbrantes na TV, lembrava-me as mulheres que vi junto a meu pai no Rio de Janeiro em um show no estilo do famoso Sargentelli. Dançando daquele jeito, parecia que há qualquer momento as passistas pulariam da tela para minha cama. Me toquei. Sim. Ali mesmo onde vocês imaginaram. Minha mulher entrou no quarto e de modo a disfarçar ajeitei a cueca por baixo do pijama, antes de ela me tomar o controle remoto do televisor desfazer das dançarinas, como já contei.
Ela colocou o controle remoto sobre o criado-mudo e se deitou a meu lado. Busquei me ajeitar ao corpo dela com segundas intenções. Com o cotovelo a cutucar minhas costelas e com uma voz irritante a ouvi resmungar,
— Vê umas nigrinhas na televisão e quer se aliviar em mim, estou com enxaqueca.
Perdi o tesão. Alzira tem a capacidade de me esfriar. Na tentativa de fugir daquele tédio que minha vida se encontrava, eu perguntei,
— Amor. Vamos dá um pulo amanhã na Barra? Consigo com Jorge as camisas para o camarote. É all inclusive. Alugo uma vã com motorista para não termos problemas com o carro...
Ela me interrompeu.
— Que é que um velho como você quer no carnaval? Tome vergonha na sua cara, homem. Se ponha em seu lugar! – e friamente completou – Vê se eu vou deixar o meu sossego para me misturar com um bucado de negão suado e fedorento. Me deixe dormir, vai!
Virei de costas para ela e fiquei tentando me lembrar do que me fez escolhê-la como esposa ou mesmo o motivo de ter me casado. Quando me casei, ainda não era rico, mas estava bem de vida. Se imaginasse que aquela menina alegre de olhos amendoados se transformaria em meu carma de maneira tão nazista, eu não teria me casado. Ainda mais agora que sei que não casamos com a mulher, casamos com a família dela e agregados. Suportá-la sozinha já me é difícil. Quando se junta com as amigas ou a mãe aí fica ainda mais insuportável.
Acordei tarde no outro dia, quase na hora do almoço. Dormira mal, o condicionador de ar esfriara demais e não consegui localizar o controle do aparelho para desligá-lo. Minha patroa, devidamente enrolada no edredom, resmungava a cada tentativa que eu fazia para cobrir-me. A solução foi por a camisa do pijama e cruzar os braços.
Após escovar os dentes, ainda de pijamas, procurei por meu cigarro. Tinha certeza de ter comprado um pacote de Charm, não o encontrei no armário e tinha
plena convicção que o guardara lá junto a minha carteira que também sumira. Deduzi de imediato que o filho-da-puta do meu cunhado estava metido na história, parti em direção à sala enraivecido e ao chegar lá tive a certeza. Alzira havia dado o pacote de Charme ao irmão caçula, e ainda se deu ao desplante de me dizer que Charm era cigarro de bicha e que ela não iria mais me suportar fumante. Contei até dez. Se eu desse vazão a minha vontade a esmurraria ali mesmo. Não disse nada, engoli a seco um Losartana de 100 mg, bebi um copo de leite, ainda de pé, e retornei ao quarto. Pretendia me vestir para ir comprar cigarros quando ela entrou para perguntar aonde eu iria. Respondi. — ―Vou comprar cigarros‖, ela perguntou se eu precisava me vestir para ir até a esquina. Não discuti. Calcei o tênis, segurei as pantufas na mão e disse,
— Bicha é seu irmão que comprou esta merda com meu dinheiro. Sei que você deu a ele o dinheiro para ele comprar os presentes de Natal para mim. Ele comprou este pijama de supermercado e estas pantufas só para embolsar o dinheiro e me sacanear. Diga àquele imprestável que ele dê um jeito na vida dele. Cansei de sustentar vagabundo...
Alzira começou a tagarelar e eu terminei por me arrepender pelo desabafo, tive que ouvir o blá, blá, blá incessante dela enquanto procurava por minha carteira e as chaves do carro que também desaparecera. Encontrei a carteira após vasculhar quase toda a casa, sobre a geladeira da cozinha. O dinheiro que tirara no banco no dia anterior desaparecera de minha carteira. Mesmo medicado minha pressão subiu. Olhei pela janela em busca do carro, ela o havia emprestado a Adrobaldo. Respirei fundo e disse, então vou andando. Sai do apartamento batendo a porta e entrei no elevador. Ao sair do elevador, na portaria, Almir, o porteiro, não perdeu a oportunidade para me gozar.
— Já vai pra a farra, Seu Zózimo? Gostei da fantasia.
Eu dei um sorriso sem graça. Não quis transferir para ele meu mau humor. Almir é um bom garoto. Trabalha com zelo e estuda à noite. No momento cursa
Faculdade de Direito financiada pelo Governo Federal. É bom ver que pelo menos uma pequena parte de nossos impostos está sendo bem utilizados. Desci as escadas que dá acesso a Rua Bahia, na Pituba, e caminhei em direção à barraca de Amigão. A barraca estava fechada. Outra só nas imediações do HSBC, na Avenida Manoel Dias da Silva, uma boa caminhada, ainda mais para quem está de tênis e pijama de cetim. Enquanto andava os transeuntes me olhavam disfarçando o riso, mas já é carnaval, e em sendo, quase tudo é perdoável nesta calorenta sexta-feira. Alguns jovens passaram por mim de ressaca, outros ainda bêbados, um deles levantou o polegar e gritou:
— É isso aí, Coroa. Tá cheio de mulher dando fácil, aproveita que tá vestido de vou pra cama e leva uma piriguete pra escorregar no tobogã.
Eu dei sinal de positivo e continuei andando. O Sol me fazia transpirar, a boca secou, insisti e continuei andando. Demorei a chegar à banca de revistas ao lado da agência do HSBC. De lá notei a fila em frente ao banco Bradesco 24 horas. Comprei uma água mineral e o cigarro, não tinha o Charm e me contentei com o Free, comprei logo 4 maços e enchi os bolsos do pijama. Mesmo arfando pela caminhada, tratei de acender um cigarro para matar a ansiedade. Pensei em comprar o jornal, um velho hábito que há alguns anos eu perdi, leio-os pela internet, dou-me ao luxo de ler os da terra e alguns do exterior, The New York Times e The Washington Post, americanos, e o francês Le monde. Preferi não gastar o troco dos R$ 50,00 reais que me sobrara antes de consegui sacar mais algum dinheiro. Caminhei para fila do banco e todos me olharam desconfiados. Me senti estranho de pijama e tênis, uma senhora baixinha e arredondada, de cabelos brancos, que estava em minha frente, volveu-se e me perguntou:
— ―É do bloco do chiclete? Meu filho vai sair lá!
— Não, senhora. Sou do bloco dos coroas ―Bananas de Pijama‖.— e repeti o chiste do transeunte. A fantasia é ―vou pra cama‖.
Ela sorriu e disse:
— Hoje tá uma baixaria danada no canaval. Ninguém mais se respeita. Em meu tempo não era assim não. A gente se fantasiava e saia com as amigas para desfilar na Rua Chile. Tinhas os caretas, as serpentinas e os confetes. Tinha até as lanças perfume. Tinha os bêbados sim, mas era tudo com muito respeito. Hoje, valha-me Deus... é uma perdição que dá dó.
— Mas no nosso bloco só sai coroas, todos homens honestos e pais de família. – Menti buscando preservar o pouco de dignidade que me sobrara.
Ela disse,
— Sei. Um bloco de molecagem do tipo As Muquiranas. Meu filho sai lá também. Um bocado de marmanjo vestido de mulher... O mundo tá perdido...
Iria perguntar a idade do filho dela. Resolvi não fazê-lo porque minha vez estava por chegar. Na máquina fiz um saque de quinhentos reais, conferi para ver se todos os meus cartões de crédito estavam na carteira, caso algum não estivesse bloquearia e daria queixa na polícia, estava resolvido a não me deixar mais ser roubado por quem quer que fosse. — Estavam todos lá. — Caminhei em direção a orla para pegar um taxi de volta para casa. Ao passar pelo Ki-Moqueca, na esquina da Rua Paraíba com Avenida Otávio Mangabeira, resolvi almoçar por lá mesmo. Já fazia um tempo que não comia uma moqueca ou mesmo bebia um shop bem tirado. Entrei, conferi se ainda aceitavam o cartão internacional do American Express. Sim, ainda aceitavam, me sentei e pedi um shop e a moqueca de peixe ao molho de camarão. Queria conter à revolta antes de retornar para casa. De repente uma trupe entrou no restaurante, quatro mulheres e um rapaz. Todas jovens e bonitas, uma delas, uma loira belíssima, vez por outra, estancava o olhar em mim. Já havia me esquecido que trajava o pijama e o tênis. E numa dessas olhadas a convidei para vir a minha mesa. Ela balançou a cabeça negativamente e com o dedo indicador me convidou a ir à mesa onde se reunia com as outras e o rapaz. Pensei, não tenho nada a perder e fui até a mesa onde estavam. A loira puxou uma cadeira vazia para eu me sentar ao lado dela e eu sentei. Ela disse:
— Gostei da fantasia, muito original. Vocês baianos são muito criativos.
— Obrigado. — Mantive a mentira na maior cara de pau.
Outra jovem, uma morena igualmente bonita me perguntou,
— Com esse calor não seria mais fresco usar um pijama tipo bermuda e a camisa de mangas curta?
— A princípio sim — respondi — Se você considerar o sol na pele, assim é melhor. Além do mais durante a noite sentiria muito frio.
— Tem razão. Não tinha pensado nisso – ela falou sorrindo e completou – não está cedo para pular carnaval.
A loura, segurando minha mão, disse,
— Não ligue não. Ela é enxerida, mas é gente boa.
Respondi me explicando:
— Gosto de ir cedo e ficar logo no camarote. Aproveito e ajudo na organização. Fui eu quem projetei o camarote. Lá terei que tirar a parte de cima do pijama e vestir a camisa. Se sentir fio uso a do pijama como agasalho...
—Você trabalha num camarote? — A morena insistia no interrogatório. Respondi,
— Não. Tenho um amigo que é o dono de um camarote na Barra, amigo irmão, e como arquiteto eu assinei o projeto. Há anos prometo ir... nunca fui. Minha ex-mulher não gosta de carnaval.
— Anrã! E hoje ela deixou você ir? – Apontando a aliança a morena sorriu e perguntou. — A ex também ainda usa aliança?
— Não é bem assim... Hoje que eu resolvi me deixar ir... Cheguei ao meu limite. Estou de saco cheio de meu casamento...
A loira, após me dizer que eu não devia explicações, falou dirigindo-se a amiga morena,
— Vai ver que ele ―rodou-a-baiana‖ hoje! E perguntou a amiga: E o que é que você tem a ver com isso, mulher?
Notei que elas conversavam só com o olhar e me ridicularizavam neste diálogo mudo de olhares. Então tentei amenizar o assunto respondendo a pergunta.
— Para dizer a verdade sim... eu rodei-a-baiana hoje sim. Isso não é uma fantasia. É que me aporrinhei tanto que saí de casa sem mudar de roupa... Vamos mudar de assunto... e vocês... — perguntava, mas fui interrompido pela loira,
— Me perdoe. Como fui indelicada. Deixe-me apresentar meus amigos. Elias, nosso produtor, Ana Clara (Morena clara), Sandra, Mayara (mulatas) e eu, Adelaide,(a loira) somos dançarinas. E você como se chama?
— Zózimo, mas pode me chamar de Araújo.
— Prefiro chamá-lo de Zó. Se importa? Perguntou Ana Clara.
— Não. Por que me importaria? – respondi.
O garçom chegou à mesa onde eu estava com o shop. Eu acenei e pedi que trouxesse o shop para mim. Elias disse estar morrendo de fome e me pediu que sugerisse algo. Sugeri o que eu já havia pedido, moqueca de peixe ao molho de camarão, e disse — basta pedi mais um prato que dará para saciar a fome de todos, e completei — eu já pedi e como muito pouco. As porções aqui dão para dois tranquilamente. Ana Clara disse ser alérgica a camarão, sugeri um peixe frito. Ela topou. Perguntei as meninas o que beberiam. Ficaram no refrigerante. Ana Clara, a mais desenvolta, contou-me que vieram para almoçar e depois voltariam ao hotel para descansar. Mayara, uma das mulatas se envolvendo na conversa, disse, completando a explicação de Ana Clara, que elas dançaram a noite toda em um trio elétrico no desfile do Rei e da Rainha momesco, que vieram a trabalho e, no sábado, retornarão ao Rio para desfilarem, na segunda-feira, na escola de samba Unidos de Vila Isabel. Gritando, as mulheres em coro previram: ―a Campeã do carnaval Carioca‖ e aplaudiram a si próprias.
— Até lá tem muito tempo, — eu disse, após o susto, e completei — eu convido a todos para irem comigo ficar no camarote após o almoço. O camarote só abre mesmo à noite, para mim, porém, está sempre aberto. Ou poderemos ficar aqui bebendo e conversando até às cinco horas mais ou menos, depois iremos. Vou telefonar para um amigo e alugarei uma vã para nos levar e nos trazer. E fiquem tranquilos que hoje é tudo por minha conta. Podem comer e beber à vontade.
— Não é preciso, Zó, — disse Adelaide — todas nós trabalhamos. Nós agradecemos a gentileza... Já está tudo pago.
— Fiquei triste... — falei para fazer charme.
Elias, de modo sério, dirigindo-se as moças esclareceu:
— Todas vocês estão livres, a escolha é de vocês, vocês fizeram ontem um ótimo trabalho, estão de parabéns. Como combinado, o hotel será pago amanhã às 10:00 horas e a vã vai levá-las ao aeroporto para pegarem o voo das 13:00 horas. Se reportando a mim Elias disse:
— Agradeço a gentileza, Andrade. As refeições e bebidas não alcoólicas estão por conta do contratante, ou seja, meu patrão. Estou com carro para levá-las, após o almoço, ao hotel. Se elas quiserem ficar com você não há nada de errado. Só vou pegá-las, lá no hotel, amanhã. Eu, apesar da vontade de aceitar seu convite, estou trabalhando e não posso beber, fica para uma próxima oportunidade.
Continuamos conversando até o termino do almoço. As meninas, após consultarem Elias, me convidaram para ir ao hotel com elas e eu aceitei. Já me sentia tranqüilo. A atenção que recebia das meninas fazia com que eu me sentisse querido como há muito tempo não me sentia. No carro de Elias me colocaram no banco da frente e rindo muito, elas jogaram Sandra, a menor delas, uma mulata belíssima, para vir em meu colo. Notei que de todas Sandra era a mais reservada.
Não demorou e estávamos na porta do Hotel Alah Mar, bem próximo à praia do mesmo nome. No hotel as meninas subiram para o quarto e eu me dirigi ao bar. Pedi uma dose de Black Label. Enquanto bebericava a dose do uísque e comia castanhas de caju salgadas, desrespeitando ordens médicas, Sandra apareceu para me fazer companhia. Ela estava uma delícia com um micro short jeans e uma camiseta fina, curtíssima, e sem sutiã. Eu tentava disfarçar, mas não conseguia tirar os olhos de seus belos seios. Ela contou-me que as outras meninas haviam decidido ir junto comigo ao camarote, antes, porém, dormiriam um pouco. Ela me faria companhia enquanto eu as aguardasse. Depois ela iria dormir já que decidira não ir. Perguntei
qual o motivo de ela não querer vir conosco também e pedi um drink para ela. Ela aceitou hi fi. Pude perceber em seu olhar muita tristeza e perguntei, ousadamente, se ela não queria me contar o que a afligia. Ela desdisse do problema, tentou me enganar, só que após alguns drinks ela resolveu se abrir. Contou-me que já fora traída pelo marido e sofrera muito e estava envolvida em outro ―rolo‖ afetivo. Comovido, quis ajudá-la. Perguntei se ela não gostaria de falar sobre o assunto. Ela me respondeu:
— Zó! Você me parece um cara legal. Apesar de não estar sendo um cara legal com sua esposa. Agora, nesse momento, ela deve estar desesperada... Tenho certeza que você retornará para casa assim que se acalmar. No entanto, meu caso é muito mais complicado. Você me vê assim e faz um julgamento errado a meu respeito. Sempre fui uma pessoa muito introvertida, muito na minha mesmo, um bicho do mato como dizia minha mãe. Por ser assim meu circulo de amizade é bem restrito, bem restrito mesmo. Hoje quase zero, restringe-se a minhas colegas de trabalho. Já faz alguns anos que meu marido morreu e a única coisa de bom que restou de meu casamento foi minha filha. Foi por insistência dela que eu resolvi fazer um perfil no facebook, em janeiro de 2010. Coloquei no meu perfil que meu interesse era apenas amizade. Aos poucos, fui aceitando umas solicitações de amizade, mesmo assim, escolhendo pessoas de locais mais distantes, exatamente para me preservar de constrangimentos. Até que no final de 2010, aceitei a amizade de um rapaz de Portugal. Conversávamos, a principio via e-mail e na caixa de mensagens, até ele me convencer a criar um perfil no MSN. Fiz o que ele pediu, e ao ver a foto dele no MSN, parecia que eu já o conhecia de longas datas e aos poucos fui abrindo meu coração para ele, como estou abrindo aqui agora com você. Isso foi em julho de 2012. Em setembro de 2012 ele resolveu vir ao Rio. Passamos uma semana juntos e felizes, realmente tive a impressão de que já nos conhecíamos pessoalmente de longa data... Fomos envolvidos por uma emoção e um encantamento que fez com que ele me olhasse e dissesse: isto é um encontro de almas! Tive que concordar com ele, não tinha outra explicação...
— Já entendi, Sandra. — Interrompi-a tentando finalizar aquela novela romanesca — Você caiu na mão de sedutor mau caráter...
Ela, com olhos lacrimejantes, me pediu para deixá-la terminar a história. Eu calei-me e fingi demonstrar interesse, apesar de completamente alucinado por poder ver por entre o decote seus, (dela), seios nus. Ela continuou a narrativa.
— Pois bem, logo no início da nossa primeira conversa, ele me contou ter tido um relacionamento que não dera certo e que não havia dado certo porque a mulher era muito estressada e possessiva, mas que apesar de estarem separados dedes 2009 eles continuaram amigos. Após aquela semana ele retornou a Portugal. Não sei como recebi desta mulher um pedido de amizade no MSN e, ingenuamente, aceitei. Pouco depois de ele regressar a Portugal, num domingo, ela me chamou no MSN prá saber se eu havia recebido um Português no Brasil, disse a ela que não. Passei a conversa prá ele e pensei que tudo ficaria esclarecido. — Emocionada, Sandra pousou a cabeça a sobre seu próprio braço e chorou. — Puxei minha cadeira para junto dela, o garçom se aproximou para perguntar se estava tudo bem. Disse que sim e completei, — coisas do amor, vai ficar tudo bem. — Me traga outra dose de uísque e um Ice, ela preferiu um gim tônica. Eu disse então um Gim-tônica e outro Black Label. O garçom saiu para apanhar as bebidas e eu a abracei alisando-lhe as costas. Ela levantou a cabeça, continuei a abraçá-la, ela não reagiu contrariamente e comecei a fazer cafuné em seu cabelo, senti que ela contraiu o pescoço, demonstrou gostar. Limpando os olhos com o antebraço, ela continuou a contar sua história,
— Pois bem... Zó. Como passamos a nos corresponder diariamente pelo MSN eu já tinha esquecido que deixara aberto meu perfil no facebook. Então resolvi deletar meu perfil de lá. Estava completamente envolvida com ele. Porém, ao entrar no face, notei que tinha vários pedidos de amizade de uma mesma pessoa da mesma cidade onde ele morava e, curiosa, resolvi aceitar. Era um rapaz que se dizia ser amigo dele e eu terminei por aceitá-lo. Eu jamais imaginaria que esse rapaz era um hacker e amigo da ex-mulher dele. Esse cara me enviava varias propostas. Queria porque queria vir
ao Rio para me conhecer. Eu disse que não varias vezes. O que eu não sabia é que minha filha tinha feito há muito tempo atrás outro perfil meu no MSN e bem antes de eu tê-lo conhecido. Neste perfil que minha filha havia criado, ela postara que eu era solteira e que estava disponível para namoro e postou uma foto minha de biquíni na praia de Copacabana. Agora veja, Zó, o que aconteceu. Este amigo da ex-mulher dele colocou um vírus em meu computador, copiou algumas conversas de minha filha com o namorado e colocou no MSN como se eu tivesse feito. Depois, por pura maldade, mostrou a ele o tal perfil e ainda disse que eu tinha aceitado de o amigo dele, o hacker, vir ao Rio me conhecer... Alguns dias depois recebi um recado de alguém da família dele me culpando por ele ter tido o colapso, me disseram que ele havia ficado muito nervoso com o que leu em meu perfil e desmaiou. Disseram que ele foi levado às pressas para uma clínica, num pré-coma. Dizia também que a filha dele foi chamada e quando ela chegou à clínica, dois dias depois, o pai não a reconheceu. Pior ele não reconhecia ninguém da família. Disseram também que ele agora passa por um tratamento psiquiátrico. Passei a me corresponder com uma filha dele diariamente. Esta semana recebi um chamado dela dizendo que ele foi pego em atitude suspeita com uma corda na mão, perguntado, não soube dizer para o que era a corda. Nós tínhamos um convívio diário mesmo com um oceano entre nós. Ficávamos horas na web, mensagens via celular, ele me ligava duas ou três vezes ao dia, ligava toda noite antes de dormir... Esse silêncio agora é enlouquecedor. Às vezes fico pensando: fiquei cinco anos absolutamente sozinha, fugindo de qualquer tipo de relação, não querendo mesmo me envolver com ninguém e, de repente, a vida me faz uma sacanagem dessas. Dou mesmo muito azar com relacionamentos... Agora mesmo é que me fechei, não há mais espaço para esse tipo de sentimento. Me disseram que o diagnóstico dele foi: amnésia psicogênica. Ela é provocada por um forte transtorno emocional e o que traz de dor e sofrimento, a memória bloqueia. Conclusão: fui bloqueada! O que sei é que independente de qualquer desfecho ele foi, é, e sempre será o amor da minha vida! Você entende...
Ainda acariciando-a, falei baixinho em seu ouvido:
— Sandrinha, Você está sendo muito ingênua. Aí tem duas maneiras de você analisar a questão.
Puxei o rosto dela para ficar na frente do meu, pedi que ela olhasse em meus olhos. Aleguei que só assim ela veria minha sinceridade, falei calma e pausadamente olhando fixamente em seus olhos.
— Vamos raciocinar... pressupondo que seja verdade e que o homem lá tenha tido um piripafe por causa de uma bobagem dessa... Bem... se aconteceu isso mesmo com o cara, e certo que ele já tinha algum problema emocional grave. Talvez ele tenha transtorno de borderline ou algo assim.
— Borde o quê?
— Borderline...
— Ah! Zó! Você está inventando isso... Sou mulher e sei quando um homem só quer usar a gente porque brigou com a mulher ou para se provar um garanhão...
Segurei-a pelo queixo, não queria deixar que ela fugisse do assunto. Então confessei,
— Sim. Não vou negar que você me atrai muito. Não vou negar que quero sim fazer amor com você, mas não tem nada a ver com eu ter resolvido me separar hoje e o destino me brindar por tê-la conhecido... Estou falando a verdade. Existe o transtorno de bordeline... não é invenção minha.
Tentando virar o rosto ela falou,
— Nem era em mim que você estava interessado, era em Adelaide. Se você não sabe é a Ana que gostou de você. Se você der em cima dela você vai conseguir sua diversão, eu sou diferente, não gosto de ser objeto de uso...
Eu interrompi a conversa de modo abrupto e ainda segurando-a pelo queixo disse,
— Tudo bem. Ficarei com Ana se isso lhe agrada. Mas deixe-me falar...
O Garçom apareceu com as bebidas e ao ver que eu segurava o queixo de Sandra perguntou a ela se eu estava saindo da linha. Soltei o queixo dela e ela
Olhando para o garçom disse, não. É um amigo. Olhei feio para o garçom, um homem forte, até se envolver no assunto ele fora educado. Perguntou se queríamos mais algum tira-gosto. Disse: se tiver me traga um filé ao palito. Sandra perguntou se podia pedi batata frita. Eu disse ao garçom, traga-me também uma porção de batata frita. E pela demora já traga junto mais dois drinks. O garçom saiu. Sandra, para meu espanto, permaneceu com o rosto a um palmo do meu. Agora eu só me preocupava em provar que eu não mentira, e tentei explicar,
— O transtorno de bordeline é caracterizado por ciúmes, raiva, possessividade e impulsividade bem acima do normal. É muito típico do homem que tem esse transtorno atrair as mulheres mais carentes e românticas, é fácil ser conquistada por quem tem esse transtorno porque os primeiros contatos são maravilhosos. Vocês, românticas, adoram a falta de cerimônia que eles têm de demonstrar os sentimentos, eles se jogam de cabeça e se mostram extremamente afetivo. É um amor jogado a seus pés, e isso fascina qualquer uma mulher mais afetuosa.. Porém, com qualquer decepção seja ela real ou imaginária, eles se tornam patológicos porque costumam lidar muito mal com a rejeição, a desaprovação e o abandono. Sentem ciúmes descontrolados, paranoia e apresentam grande instabilidade emocional por ficarem dependentes afetivamente. E foi como você acabou de me contar que aconteceu com seu Português. Se for esse o caso, levante os braços e dê graças a Deus por ele ter tido amnésia. Conto isso porque um amigo meu foi morto por um sujeito que tinha este transtorno. Ele simplesmente não aceitou o fim do relacionamento e não deixava sua ex-namorada se relacionar com mais ninguém. Ou, então, seu Português é um grande sacana e está brincando com você. Você, na verdade, não sabe se quem entra em contato com você é mesmo a filha dele. Na verdade você não sabe nada de nada sobre ele, ele apenas criou uma personagem, e provavelmente ele teria que vir mesmo ao Brasil e apenas a usou. E agora está jogando esta culpa em você por pura sacanagem... Eu vou dizer e é verdade, que a princípio me atrai por sua amiga. A loira, como é mesmo o nome dela...
— Adelaide.
— Isso, Adelaide. Ela é linda. Na verdade todas vocês são lindas. Hoje é carnaval. E hoje eu resolvi que ficarei livre. Resolvi que não vou voltar mais para casa... Cansei de me comportar como um fantoche nas mãos de uma mulher que só demonstra interesse pelo dinheiro que ganhei à custa de muito estudo, talento e principalmente trabalho...
Enquanto falava Sandra se deixou aproximar e estando a menos de meio palmo de meu rosto eu segurei em sua nuca e a beijei... Ela correspondeu ao beijo. O garçom já havia posto os tira-gostos e os drinks na mesa sem que eu houvesse percebido. Entre carinhos, tira-gostos e drinks ficamos namorando sem perceber o tempo passar. Beijávamos quando as outras meninas chegaram e fazendo estardalhaço brincavam nos empurrando e dizendo em couro,
— Tão namorando... tão namorando.
Meio sem graça, perguntei,
— Vamos ao camarote? Ana Clara olhando para Sandra disse,
— Me passou a perna, em moleca.
Sandra me dando um leve empurrão respondeu,
— Pode ficar! É seu.
Ana Clara se sentou em meu colo, mas Sandra, rindo, a empurrou e disse:
— É meu e ninguém tasca!
Perguntei,
— O que vocês querem beber?
Adelaide perguntou,
— Pode ser champagne?
— O que vocês quiserem... Vocês não me responderam, já está anoitecendo, se formos ao camarote ainda tenho que alugar um carro ou uma vã...
Mayara, a mais calada sugeriu.
— A gente faz o carnaval aqui mesmo.
Respondi,
— Que seja! Ficamos aqui. Peçam o que quiserem.
Perguntei em qual quarto elas estavam e fui ao balcão do hotel e me registrei num quarto ao lado das meninas. No balcão, o jovem atendente me perguntou pelas malas. Disse-lhe que ficaria até o outro dia, que ele poderia cobrar a diária antecipadamente. Ele estranhou e convocou o gerente que aprovou de imediato. Entreguei o cartão preenchi e assinei a papeleta e voltei ao bar. Ouvi, mas fingi que não ouvi, Mayara falar no ouvido da Sandra. Não vá se apaixonar de novo... ele é casado. Ana me abraçou e disse,
— Trouxe o Viagra? Nossa amiga ta sem usar a periquita há tanto tempo que deve está igual à virgem.
Lembrei que não tinha camisinha. Chamei o garçom, dei uma nota de cinquenta e perguntei se ele poderia providenciar. Ele devolveu a nota e disse ter sobre o frigobar. Insisti dele ficar com o dinheiro, ele agradeceu. Não demorou e só restamos no bar do hotel eu e as meninas. Atendendo ao pedido das meninas o barman colocou músicas de carnaval no som ambiente. Fechava o bar quando subimos e fomos todos para o meu quarto. Lá foi uma festa. Por intermédio do telefone alguém no hotel conseguiu uma passagem aérea para o Rio de janeiro para mim. Dormi com a Sandra. No sábado partimos todos juntos. Eu viajei de pijama e tênis. Fui, sem sombra de dúvida, a atração principal do aeroporto Luiz Eduardo Magalhães. No Rio eu e Sandra ficamos no pequeno apartamento dela, uma quitinete em Botafogo. Namoramos bastante. No domingo, após comprar roupas, fomos à praia, à tarde voltamos ao Shopping onde fomos ao cinema. Na segunda já sabia que desfilaria na Unidos de Vila Isabel e desfilei, meio que sem jeito, ao lado das passistas. Um tipo de segurança.
Na terça pela manhã recebi um telefonema da Ana Clara, eufórica, para me contar que, estampado no Facebook, uma foto minha brilhava ao lado de Sandra em pleno Sambódromo. Se o Português for bisbilhotar o facebook dela vai usar a corda. Noutra página, na de minha ex-mulher, havia uma foto minha dizendo ―Desaparecido, saiu para comprar cigarros... Se vir ajudem. Compartilhem.

Santa Cruz Cabralia – Bahia – 2013.


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