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O Coroa e o taxista



Dorival andou até o ponto de táxi. Sentia-se apreensivo devido a sua momentânea situação financeira. Era fim de mês e restava-lhe na carteira uma única cédula de dez reais. Enquanto se acomodava no banco dianteiro do carro de praça, observou o taxímetro que já cobrava, de saída, um terço do seu numerário.
— Para onde, doutor? — Perguntou-lhe o jovem motorista.
— Leve-me ao Bradesco mais próximo, por favor.
— Tem o da Pituba e o do Iguatemi? As distâncias são relativamente iguais.
— Sendo assim, vamos ao da Pituba. É mais vazio. Minha preocupação é dinheiro. Só disponho de dez reais na carteira e já estourei o limite do cheque especial. Se não depositaram meu salário, estarei em apuros! Destes dez reais, ainda espero que sobre, pelo menos, o do ônibus de volta pra casa caso aconteça o pior.
Explicou ao taxista, demonstrando sua boa educação. Dorival é um senhor de meia idade, 1,7m, calvo, um tanto atarracado, e portava um tom acinzentado no olhar, mostrando, para um bom observador, seu momentâneo descontentamento financeiro.
— Oito dão. — Pressupôs o valor da corrida o taxista — Ponha o cinto, por favor.
Enquanto cumpria a ordem, Dorival tinha fé que o salário estivesse creditado. Lembrou-se que em sua casa, com a despensa quase vazia, a amante e companheira desdobrava-se para preparar uma moqueca de carne com ovos, feita com as sobras do lombo do dia anterior.
— Reconheço o senhor. — Afirmou o jovem motorista.
— Não duvido, ando muito de táxi. Sofro de labirintite, o que entre outros inconvenientes me impede de dirigir.
— O senhor não se chama Dorival?
Dorival acenou afirmativamente com a cabeça e completou:
— Este é meu nome de batismo. Foi uma homenagem que meu pai resolveu prestar ao grande cantor e compositor Dorival Caymmi. Como papai dizia:
— "Caymmi é o único cantor brasileiro que transmite toda a manha do baiano ao cantar...‖
— Pois é, doutor. Fique o senhor sabendo que se hoje estou livre, devo ao senhor.
— A mim?
— Sim. Ao senhor. Estou notando que o senhor não se lembra de mim.
— Honestamente? Não me lembro. Deve ser a idade, na minha idade a memória vai se esvaindo. Já não sou mais tão bom fisionomista.
— Quando eu contar minha história, tenho certeza, o senhor se lembrará de mim. Meu nome é Antônio Carlos. Também foi uma homenagem que meu pai prestou só que ao Senador ACM, o ―Cabeça Branca‖.
— Seu pai é ―Carlista!?‖
— Não só meu pai. Toda a minha família é eleitora de Antônio Carlos Magalhães. Porém, não era sobre esse assunto que eu queria lhe falar. Quero é lembrar ao doutor de onde é que nós nos conhecemos.
— Tudo bem, Carlos. Sou todo ouvidos.
À frente, um enorme engarrafamento impõe lentidão ao trajeto a ser percorrido. Novamente, Dorival observou o taxímetro que registrava quatro reais e cinqüenta centavos.
— O senhor não mora no condomínio Costa do Atlântico? No STIEP?
— Atualmente não. Morei lá. Mudei-me há alguns meses.
— Isso não vem ao caso. Como estava dizendo, eu tinha ido ao bar que fica dentro do condomínio onde o senhor morava...
— Sei. O bar de Nonato.
— Esse mesmo. O senhor estava sentado do lado de fora. Eu bebia rabo-de-galo junto ao balcão. Naquela época, eu trabalhava como segurança: carro forte, segurança de banco, essas coisas. Eu tinha ido até lá porque estava seguindo minha mulher. Eu suspeitava que ela tivesse ido ao encontro do amante. Então, parei no bar de Nonato para beber umas, tomar coragem pra matar a vadia e ao sacana que estava comendo ela. Foi aí que o senhor notou que eu estava armado, nervoso e bebendo. Então, o senhor puxou assunto e me chamou para tomarmos cerveja. Lembro-me como se fosse hoje. O senhor disse que não valia a pena eu me sujar, ser preso, correr o risco de ser usado como mulher no presídio, só por causa de uma vingança burra... Na hora, o senhor parecia Jesus Cristo falando. Depois, quando eu já estava calmo, o senhor tomou a arma e a entregou ao dono do bar para só me devolver no dia seguinte. O senhor se lembra de mim agora?
Um arrepio subiu pela espinha de Dorival, por um momento ele empalideceu. Instintivamente seus pensamentos se voltaram mais uma vez para o taxímetro, e olhando de relance, disfarçadamente, pode notar que o marcador registrava cinco reais e cinqüenta centavos.
— Agora me lembrei, Carlos. E fico feliz por ter sido útil. O propósito de se tornar um uxoricida é burrice, é... — Carlos interrompeu o discurso de Dorival.
— Posso lhe fazer uma pergunta muito pessoal, doutor?
— Claro! Pode perguntar.
— O doutor já foi chifrado?
— É uma pergunta pessoal, sem dúvida, e um tanto quanto complexa. Para lhe ser sincero, nunca me preocupei muito com este tipo de assunto. Vejo o adultério por uma ótica muito pessoal... O adultério... Como eu poderia lhe explicar?... O adultério é mais um conceito religioso. Não é algo de maior gravidade. Talvez, a dor que ele causa em quem sofreu a traição, seja uma distorção do ego. Eu como um cínico agnóstico e adepto do hedonismo não dou muita importância...
— Ta falando grego, doutor... Não entendi patavina.
— Grego não. Falo sobre o pensamento de gregos... Vou tentar ser explicito... Para mim é melhor ser um corno feliz do que um punheteiro triste. Entendeu?
— O doutor está de brincadeira, não está? Quer dizer que o doutor além de não acreditar em Deus, ainda por cima, não se importa de ser corno?
— Carlos, como eu já lhe falei, eu sou agnóstico. Quanto ao adultério... Meu pensamento é simples. Por outro lado, é complicado para lhe explicar...
— Tente, doutor. Talvez eu entenda.
— O fato é que o adultério não conseguiria me induzir a sofrimentos maiores. A meu ver, o ciúme é um problema de ego e de conceitos herdados da cultura judaico-cristã. As pessoas sofrem porque foram ensinadas a terem esta reação. Quando isso acontece os homens se imaginam inferiores ao cúmplice escolhido pela parceira para uma aventura sexual. A base desse pecado era garantir que os filhos seriam legítimos. Coisa de sangue. O que eu considero uma bobagem: pai é quem cria, quem dá proteção e amor. O outro fator, já que depois do uso dos anticonceptivos as mulheres só engravidam quando querem, é mais orgulho ferido que eu chamo de ego. Como não afiro meu valor pessoal pela opinião alheia não me atinge. Também não aceito que me atribuam responsabilidade por atos praticados por outra pessoa. Se minha companheira for buscar prazeres sexuais com outros homens é escolha dela, não minha. A ação será dela, não minha. Por força de conseqüência, nenhum argumento poderia me convencer a assumir responsabilidade por qualquer atitude que ela escolha ter. Penso assim. Se ao invés de fazer sexo sua companheira assassinar outra pessoa. Você não se sentiria traído ou menosprezado e ela é quem seria presa ou responsabilizada. Acredito ardentemente que eu sou livre até pra perdoar caso saiba de tais atos. Não me sinto devedor de satisfações a ninguém... Exceto, ao imposto de renda... Fui claro!
— O senhor não me respondeu a pergunta... — Interrompeu Carlos, ansioso, por não ter obtido a resposta desejada.
— Certo! Você quer saber se já fui corno? Provavelmente sim. Se não fisicamente, com certeza fui mentalmente. Assim como outras mulheres me atraem, alguns outros homens devem, também, despertar atração nas mulheres. Mas, se já fui de fato chifrado, carnalmente, até então eu não fiquei sabendo. Respondi agora a sua pergunta?
— Respondeu. E é por isso que o doutor acredita ser loucura matar uma adultera. O senhor não sabe a dor, o desespero que dá. É como se alguém lhe tirasse o chão sob os pés... — a voz de Carlos saiu arrastada, tremula, em falsete. Dorival interferiu interrompendo a narrativa do taxista.
— Calma, meu jovem! Mesmo que realmente isso lhe tenha acontecido, é passado. Não vale a pena você ficar remoendo esta dor. Se isso ocorreu, não pode mais ser mudado e é tolice guardar sofrimentos. Perdoe o deslize de sua mulher. Sei que você considera um erro grave, mas todos somos sujeitos a errar. O perdão é uma dádiva para quem perdoa e só nos faz bem.
— Doutor Dorival, se o senhor soubesse o ódio que esta lembrança me provoca. Eu conheci Verônica ainda menina lá no meu interior. Namoramos desde que éramos crianças. Na época, eu tinha doze anos, ela tinha onze. Um ano a menos que eu. Quando fiz dezoito, papai foi pedir a mão dela ao compadre. Casamos na Igreja de papel passado e tudo. Até lua de mel nós tivemos. Foi meu tio quem pagou. Ficamos em Canavieiras por uma semana. Quando voltamos da lua de mel, ela ficou morando na casa de papai, e eu vim para Salvador para trabalhar com meu tio. — Eu dava um duro danado. Todo o dinheiro que ganhava, eu juntava. Centavo por centavo. Eu não bebia, eu não fumava, eu só trabalhava. Eu fazia tudo para economizar. Trabalhei duro, de sol a sol, até que consegui comprar uma casa de alvenaria, lá em Pirajá. Mobiliei a casa toda: armários, cama de casal, geladeira, fogão, televisor a cores, comprei até um DVD pra aquela puta. E fui fiel a ela, doutor! Mesmo quando ela estava morando longe de mim, eu fui fiel...
— Calma! Meu caro. Você está destemperado. Acalme-se — Dorival olhou o taxímetro. Piscava em vermelho: nove reais e cinqüenta centavos.
— Carlos, por favor, encoste o carro. O dinheiro que disponho, não vai dar para cobrir o preço da corrida. O restante do trajeto eu faço a pé.
— Não. Nada disso! Fique tranqüilo, doutor! — Como estava lhe contando, depois de tudo pronto, mandei o dinheiro e ela veio para Salvador. Foi o tempo mais feliz de minha vida. Eu ficava rezando pelo final do expediente só para correr pra casa. Vivíamos juntos. Eu só saía com ela e ela só saía comigo. Foi assim até a cachorra da Sueli fazer amizade com minha Verônica. Foi aquela piranha que botou Verônica a perder. Foi depois que Verônica conheceu a tal da Sueli que ela começou a usar saia curta, biquíni enfiado na bunda, e a pintar à cara e a boca...
— Carlos! Isso não significa que ela lhe traiu. Isso faz parte da vaidade feminina. É comum a todas as mulheres.
— Até pode ser, doutor. Por coincidência ela comprou um bocado de calcinhas de renda, e tinha uma delas, com um coração vermelho costurado bem na testa do xibiu. Outra coisa, doutor. Ela passou a raspar os pentelhos... E o pior é que quando ela ficava em casa ou saia comigo, ela só usava os calçolões de algodão, mas quando ia sair sozinha era com as calcinhas de renda que ela saía...
— Será que ela lhe traia mesmo, Carlos? Todo o cuidado é pouco, meu jovem. As aparências às vezes enganam.
— Doutor! Ela mudou... Antes, ela só queria ficar em casa cuidando das nossas coisas. Depois desta tal de Sueli é que ela apareceu com a conversa de trabalhar fora de casa. Foi aquela puta da Sueli que arranjou as malditas faxinas para Verônica fazer. Além do mais, doutor, um amigo me disse que o porteiro do prédio onde ela fazia as faxinas falou pra ele que ela estava de caso com um morador lá do edifício. Lá no condomínio onde o senhor morava.
— Será que esse cara que falou era mesmo seu amigo, Carlos? Ou ele tinha inveja de vocês? Existe muita gente maldosa neste mundo.
— Foi verdade, Dorival! Ela me chifrou mesmo!
— Você perguntou a ela?
— Perguntei. Ela se negou a falar, claro! Ela me contou que só foi ao prédio receber o dinheiro das faxinas. Mas eu sei que ela estava mentindo. Tanto foi que depois que eu saí para trabalhar ela pegou as roupas dela e sumiu. Acho que foi morar com a tal da Sueli... É bem provável que o senhor tenha conhecido ela. O senhor conheceu?
— Dificilmente! Eu não tinha amizades por lá, muito menos com jovens. Foram poucas às vezes em que fui ao Bar de Nonato. Eu freqüento os bares da orla, geralmente os da Pituba ou então vou ao Bambara, no jardim de Alá, que é frequentado por gente de minha idade.
— Ah! Doutor. Se o senhor tivesse conhecido minha ex-mulher o senhor saberia do que eu estou falando. — O jovem falou com ternura e ódio da ex-mulher — O senhor não iria esquecê-la nunca. Aquela vagabunda era linda. Era não! Ela é MA-RA-VI-LHO-SA! Morena cor de jambo. Os olhos grandes, da cor de caramelo, os cabelos lisos e sedosos com aquele tom de cobre velho. Cor natural. Vai até o rego da bunda. O sorriso é de um branco que magoa as vistas da gente. Um corpo, doutor! Coloca no chinelo qualquer uma daquelas dançarinas da televisão. E como era fogosa na cama... Vige Maria!
— Você tem procurado por ela, Carlos?
— Para quê, Dorival? Para ser visto como corno? Eu sou homem, doutor. E homem que é homem tira sebo do pau e come. — Carlos calou-se por instantes buscando conter as emoções. Seus olhos ficaram avermelhados e deixaram escorrer pequenas lágrimas. Dorival guardou silêncio. Quando Carlos voltou a falar, a voz saiu rouca, arrastada, chorosa.
— Ufa! Naquele dia, doutor, ela só não morreu porque o senhor, em nome de Jesus, me impediu. — Carlos deu uma pausa, respirou fundo e recomeçou a falar — E este favor eu vou lhe dever até que Deus me busque.
— Você se separou legalmente, Carlos?
— Ainda não. Meu tio é que está providenciando a tal da separação. Ele me disse que ela não quer nada de mim. E graças a Deus nós não tivemos filhos para colocarmos no meio.
— É verdade. Em uma separação quem mais sofre são as crianças. Mesmo assim, é melhor se separar do que manter um relacionamento ruim. Você é jovem, tem toda a vida pela frente, e ela, com sorte, pode até encontrar algum outro homem.
— Eu não quero nem pensar nisso, doutor. — falou Carlos com raiva. — Por mim ela fica por aí pulando de pau em pau que nem galinha em puleiro.
Dorival, ao ver que o taxímetro ultrapassou a cifra dos doze reais, exclamou!
— Carlos, este taxímetro está querendo me ferrar! Como você está sabendo, só disponho de míseros dez reais, e se o dinheiro não foi creditado só irei poder lhe pagar oito reais. Ainda bem que estamos chegando. — Em poucos minutos, Carlos estacionava o táxi em frente ao banco. Antes que Dorival manifestasse qualquer pensamento, Carlos foi antecipando:
— Fique calmo! Dorival! Vou esperá-lo aqui o tempo necessário para que o senhor possa resolver o seu problema. Vá tranqüilo. Se o dinheiro estiver depositado, tudo bem. Caso contrário eu levo o senhor de volta e depois acertamos.
O dinheiro fora depositado, porém, estava bloqueado para saque. Dorival retornou ao táxi aborrecido e acabrunhado. Ao chegar, notou que o taxímetro estava desligado. Dorival entrou no carro com ar de derrota e tentou negociar:
— Carlos. Amanhã acertaremos o debito.
— Para onde, Dorival?
— Vou voltar para casa. Fica perto do ponto onde eu lhe apanhei.
— O senhor é Bahia ou Vitória? — Questionou Carlos, mudando o rumo da prosa.
— Bahia...
Carlos e Dorival retornaram conversando sobre o Esporte Clube Bahia, e a sua atual fase na segunda divisão do campeonato brasileiro. Ao chegarem próximo ao edifício onde Dorival morava, ele pediu para parar e propôs uma nova negociação.
— Obrigado, Carlos. Aqui está ótimo. Vou lhe dar um cheque, peço que só tente sacar amanhã.
— Esqueça, Dorival! Até qualquer outro dia.
— Então, muito obrigado, você é um Anjo. Até mais, Carlos.
Ao chegar a seu apartamento. Sua linda morena da cor de jambo, demonstrando ansiedade, perguntou:
— O dinheiro saiu, amor?
— Foi depositado, mas está bloqueado para saque. Só posso retirá-lo amanhã. Passei o maior sufoco, porém, seu Deus me enviou um Anjo.
— E desde quando você acredita em Deus ou em Anjo, amor?
— Desde hoje! Querida... desde hoje! — A propósito. À noite quero que você use aquela calcinha de renda.
— Qual delas?
— Aquela que tem um coração vermelho...

SSA—BA - 1995

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