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O Louco.



Se desarmássemos os espíritos, não seria
necessário desarmarmos os homens.
Ricardo Matos
O louco.
1.
O telefone toca. Trim... trim... trim...
— Alô?... Pai?
— Oi, filho. Tudo bem?
— Pai. Preciso vê-lo com urgência. Eu estou...
— Aconteceu algo de errado com meu neto? — Chinfrino interrompeu o filho tentando adivinhar o motivo daquele estranho telefonema.
— Não, pai. Está tudo bem com ele, o problema é comigo.
— Fale. Estou ouvindo.
— Não pode ser por telefone, pai. Amanhã vou até aí para conversarmos.
— Venha às dez horas. A nova administradora é rígida e não permite visitas fora dos horários preestabelecidos. Quer adiantar o assunto?
— Não... Até amanhã, pai.
— Até amanhã, Almir.
Chinfrino repôs o fone no gancho. Ronivaldo, colega de quarto, andava de um lado para outro com os dedos na boca. Ele tentava em vão arranjar um naco de unha para roer. Observando a cena, Chinfrino perguntou:
— Algo errado, Roni?
— Você ouviu? Ouviu o tiro?
— Não! Não ouvi tiro nenhum. Deite-se e durma, Roni. — Chinfrino retornou ao leito e se deitou. Estranhara a ligação telefônica do filho. Ronivaldo, por outro lado, se mostrava delirante e expunha situações fantasiosas.
— Esconda-se! O tiro, você não ouviu o tiro?
— Não, porra! Deite-se e durma! — Chinfrino, enfático, ordenou. Ele buscava silêncio para tentar dormir. Ronivaldo se enfiou embaixo da cama, colocou-se na posição fetal e insistiu no delírio,
— Você está me enganando. O tiro! Eu ouvi o tiro...
Chinfrino, fazendo às vezes de psiquiatra, comentou:
— Roni, já falei que você não ouviu tiro nenhum. Você é esquizofrênico. Ouve o que ninguém mais ouve. Saia daí e vá dormir...
— Ouvi o telefone! Morreu alguém?
— Não, Roni. Ninguém morreu. Relaxe...
— Você não quer me contar... Foi meu filho? Meu filho morreu?
— Roni! — Chinfrino falou energicamente. — Saia de debaixo dessa cama e vá dormir. Estou cansado. Já lhe disse que ninguém morreu.
Ronivaldo chorava desenfreadamente e terminaria por acusar Chinfrino em seu delírio,
— Foi você! Você matou meu filho! Foi você e seus cupinchas! Vou lhe matar!
Ronivaldo fez menção de sair de debaixo da cama. Chinfrino pulou de seu leito para junto do criado-mudo, apertou o botão que acionava a enfermaria, e gritou com Ronivaldo tentando intimidá-lo:
— Se você sair de baixo dessa cama eu lhe cubro de porrada... Fique aí!
Em poucos segundos apareceu à enfermeira de plantão.
— Dona Maria, — Chinfrino diagnosticou ainda assustado. — Roni surtou novamente. Disse que vai me matar...
Sem pronunciar única palavra dona Maria se retirou. Pouco depois, apareceram dois auxiliares de enfermagem e puxaram Ronivaldo de baixo da cama, aplicaram-lhe um ―amansa leão‖ e o jogaram sobre o leito. — Ronivaldo dormiria por aproximadamente dose horas. — Passados cerca de cinco minutos, dona Maria retornou para avisar a Chinfrino que ele tinha horário marcado para o dia seguinte, pela manhã, às 10:00 horas, com a nova psiquiatra e diretora da clínica. Em silêncio,
a chefe de enfermagem saiu tendo o cuidado de trancar a porta do quarto. Chinfrino demorou a dormir, ficou imaginando o que teria levado Almir, seu filho, a querer visitá-lo após esquecê-lo por demasiado tempo naquela clínica psiquiátrica.
2.
Pela manhã, logo após o desjejum servido no quarto, Dona Maria conduziu Chinfrino até a sala onde haveria a consulta com a doutora Bianca. Enquanto caminhava ele observava a chefe da enfermaria, caso fosse caracterizá-la por certo diria que ela estaria mais apta a atuar como atriz em filme de terror a ser enfermeira. — Ela era baixa e gorda, tipo um botijão de gás. Tinha o rosto redondo, uma boca pequena de lábios finos, vergados para baixo e de buço marcante. As bochechas eram caídas e lembrava-o as feições de um cão bulldog. Nela, nenhum sorriso, nenhum sinal de humanidade. — Ao chegarem à porta consultório da psiquiatra dona Maria se retirou. Chinfrino entrou no consultório cautelosamente. Estava desconfiado da tal doutora Bianca, porém, ao vê-la de pé, encostada na mesa, se estacou para observá-la. Um clima cênico pairou no ar. Ele, de inicio, visualizou os cabelos pretos e curtos trançados com miçangas presas nas pontas emoldurando o rosto oval, com traços finos, que dava realce a lábios carnudos. Os olhos verdes contrastavam com a pele negra. Aos poucos, o olhar de Chinfrino deslizava pelo corpo esguio que acentuava bustos e ancas rijas e harmônicas. Chinfrino ficara fascinado. Não se lembrava de ter visto na vida mulher tão bonita. Imaginava-se a beijá-la quando foi interrompido pela médica.
— Algo errado, senhor Chinfrino? — A doutora falou com uma voz doce, sensual. Chinfrino se sentou no divã. Havia notado várias diferenças no consultório. A parede fora pintada recentemente. Trocaram o branco gelo por um claro tom de mostarda. A luz, agora mais suave, tornava o local mais tranqüilo. No ar havia um perfume de flores silvestres que combinava com o som-ambiente. Ainda no mesmo tom de voz, calmo e compassado, após se sentar na poltrona ao lado do divã e
cruzar as pernas torneadas, a doutora iniciou a consulta:
— O senhor sabe me informar por que o senhor foi internado?
— Sou louco! — Ironizou Chinfrino.
— O senhor se considera louco?
— É o que dizem. Não é? Não estou confinado aqui?
A doutora apanhou sobre a mesa uma pasta, dessas escolares, de papelão, passou a vista rapidamente sobre os papeis em seu interior e disse:
— Pelo relatório do meu colega o senhor é portador de esquizofrenia atípica. No entanto, sem querer ser antiética, prefiro confiar em meu próprio diagnóstico. Conte-me. O que o levou a estar internado aqui?
— Posso começar da infância?
— Comece de quando o senhor achar melhor.
— Isso eu já contei ao doutor Orlando, seu antecessor. Eu nasci lá na Ribeira, mas não me lembro nada de lá. Só depois que fui morar na Pituba é que guardo lembranças. Eu ainda era bem guri. Meu pai e alguns amigos compraram quatro casas que ficavam juntas. Na verdade eram cinco. De amigos de papai é que só eram quatro. Ficavam na Estrada do Cascão. Hoje chamam de Avenida Paulo VI por causa da visita do Papa à Bahia. Naquela época, só havia mato e as casas eram espremidas dentro da fazenda de Joventino Silva. Minto... Na nossa rua, fora as cinco casas, existiam mais duas e o Terreiro de Candomblé. Havia a casa do velho Babão, pai de Waltinho, e a do vigia do Correio e Telégrafo que ficava junto à casa de Babão. Esse vigia era um homem grande e forte e eu nunca soube o nome dele. Sei que ele criava galinha e era onde eu e Waltinho roubávamos uns franguinhos... Quer que eu conte essa história? — Doutora Bianca não se manifestou. — Foi por causa dela que tomei minha primeira e última surra. Nós pegávamos nossos bodoques e matávamos os franguinhos que o cara criava solto no quintal. Arrancávamos a cabeça, depenávamos os bichinhos e dizíamos na casa de papai que eram patos d‘água. Era uma festa. Dona Maria, que eu chamava de Véia
empregada lá de casa, preparava as aves assadas. Papai adorava os ―patinhos‖. Nós também. Comíamos à noite. Eu e Waltinho, cada um pegava um, e íamos comer em um lajedo próximo ao Terreiro de Candomblé que de terra não era. Era piso de cimento e emparedado com bambus vergados e unidos como telhado, assim como na entrada do Aeroporto Dois de Julho que também mudaram de nome. De lá, ficávamos olhando o firmamento e tomando ―Ki-Suco‖ de limão... Sabe, doutora? Só quem nunca olhou no escuro total, em noite sem lua, o firmamento, pode duvidar da existência de Deus...
— O senhor é Católico?
— Deus é maior do que supõe qualquer religião, doutora. Quando eu falo do mar, da mata, da fartura de vidas, eu falo de Deus... E se eu digo que o mar da Pituba tinha fartura era porque Ele assim quis... Só pra senhora ter idéia, nas férias escolares, eu e Waltinho acordávamos ao cantar do galo, pouco antes de o sol nascer. Bebíamos café com leite e comíamos beiju na manteiga, ―Manteiga Aviação‖, da melhor que havia... Papai comprava aquelas latas de dez quilos. Depois do café, pegávamos uma lata de manteiga vazia e íamos para o Bico de ferro. A senhora é nova e não deve ter alcançado o Bico de Ferro. O Bico de Ferro era uma vila de pescadores que se misturavam alguns veranistas. Ficava onde é hoje o Jardim dos Namorados e ia até a praia do Chega Nego, antes do Jardim de Alá. Do lado direito de quem olha de frente para praia ficava o coral. Ficava não, fica. É moribundo, mas ainda está lá... Só sumiram o banco de areia e os peixes... Como estava contando, doutora. Quando a maré baixava deixava cardume de pititingas rodando entre o coral e o banco de areia. Não havia erro. Eu e Waltinho, com um lenço de cabelo desses de mulher cobrir bobes, um de cada lado, segurando pelas pontas, afundávamos o lenço e quando o cardume passava levantávamos de arremesso e uma porrada dos peixinhos caiam no banco de areia. Era só catar e encher a lata. A dificuldade era levá-los até minha casa. Tínhamos que revezar devido ao peso. A lata ficava cheia até a boca. A Senhora conheceu as latas de Manteiga Aviação? Papai só comprava manteiga ―Aviação‖ ou
―Constelação‖ e em latas de dez quilos. Não era essa pobreza de margarina vagabunda que se vende hoje não!... ―Sem gosto e sem sustância‖, como diria o velho Babão se ainda fosse vivo. A Véia, coitada, tinha um trabalho retado para tratar os peixinhos. Botava uma a uma das pititingas num filete de água da torneira e pegava uma ―Gillete‖ e cortava das guelras abaixo. O filete da água retirava os bofes. Já limpos, ela jogava os peixinhos numa bacia de alumínio com água, suco de limão ou vinagre. Ela não tirava a cabeça dos peixinhos. Dizia que era rico em ―frósfu‖. Depois de passados no limão, Véia jogava os milhares deles na farinha de pão e fritava no dendê com uma cebola anteposta. Papai chamava os vizinhos e todos se banqueteavam com o manjar. Ele, meu pai, falava com orgulho: ―— Com esse meu filho tirado a índio não vai faltar comida em casa‖. E era verdade. Eu era meio mateiro e meio pescador. Minha pontaria no badogue era de espantar. Às vezes, à noite, eu ia fastiá. Pegava uns peixes bestas que pulavam pra canoa. Noutros maiores eu metia o arpão no meio das fuças, os bichos se debatiam até morrer. Mamãe não gostava, tinha medo, mas Véia, com seu jeito, dizia: — Chinfrino imitou a voz e os trejeitos da velha — ―Dêxa o miníno sinhá. Deus não há de dêxa nada de ruim acontecer a ele, é miníno abençoado‖. — E eu era mesmo, doutora. Só uma vez que, de besta, fui pegar numa caravela. Foi dor, febre, frio e queimação. O pior é que Waltinho estava sem mijo para fazer em cima... Não ria não, doutora. O único remédio pra caravela, água viva e cansanção é mijar em cima e na hora. Além de pescar nós caçávamos e sem medo de rastejante. De cobras? Eu e Waltinho éramos curados. Todos os dias, antes sair para caçar, tomávamos um gole de pinga com um pouquinho do veneno das malditas, depois íamos mascando fumo de rolo e cuspindo. Não ficava cobra no caminho, às vezes dava pra vê-las correndo devido ao cheiro da pinga misturada ao fumo...
— Então, seu Chinfrino. O Senhor não era fácil na infância. Seus pais não o castigavam?
— Como já falei, tomei uma surra de meu pai. Um dedo duro entregou a papai
que os patinhos, na verdade, eram os frangos do vizinho de Waltinho. Aí papai pagou o prejuízo e me deu uma surra daquelas. Ele me obrigou a pedir desculpas ao homem e como já estava viciado em comer os franguinhos ele me mandava comprá-los, geralmente aos sábados. Mas eu me vinguei da surra. Eu e Waltinho fugimos para a ilha de Itaparica, ficamos lá uns quinze dias sem dar notícias.
— O senhor era danado mesmo, seu Chinfrino... Bem... Seu horário acabou.
— Ok! Doutora. Tenha um bom dia. Vou ficar aí fora esperando dona Maria.
— Não é necessário. Pode voltar ao seu aposento. O almoço será servido as doze em ponto, no refeitório. Acabou a folga de se fazer às refeições no quarto. Esteja pronto no horário.
— Obrigado, doutora... Que mal lhe pergunte como é mesmo seu nome?
— Bianca dos Santos. — Respondeu a doutora.
— Não querendo desrespeitar a senhora... Seu pai era cego?
— Não conheci meu pai... Seu pai também não foi muito feliz ao lhe batizar.
— Nisso concordamos plenamente, é que eu nasci prematuro, mirrado... Até a próxima, doutora.
Bianca permaneceu em silêncio, Chinfrino retornou ao quarto. Ronivaldo e as coisas dele haviam desaparecido. Chinfrino deitou-se na cama e deixou fluir fantasias sexuais. Creio imaginava-se com Bianca na praia do bico de ferro, ambos despidos de roupa e pudores. Talvez estivesse delineando mentalmente os enormes contornos dos rígidos seios da doutora em sua boca. Poderia até supor de ele sentir o cheiro dela no ar. Masturbava-se ao ser interrompido por Filósofo, visinho de quarto, batendo insistentemente na porta. Chinfrino cobriu-se com o lençol disfarçando seu estado e disse: ―pode entrar, está aberta‖.
3
Filósofo entrou no quarto, encontrou Chinfrino deitado e enrolado no lençol, estava eufórico, queria expor ao amigo o resultado de suas reflexões filosóficas:
— Bom dia, Chinfrino. Acabo de concluir o pensamento que me faltava sobre a vinda de Jesus Cristo a terra.
— Peraí, Filósofo! Isso é muito até para você. Você sabe que sou seu fã, no entanto, não ceio que você possa entender o que Deus queria... é muito...
— Siga o meu raciocínio e esqueça a vida de Jesus. Esqueça os milagres por ele realizado. Tudo isso aconteceu exclusivamente para provar aos homens de sua época que ele era realmente o filho de Deus. Detenha-se apenas aos seus ensinamentos.
— É complexo, Filósofo. Jesus ensinava através de parábolas.
— Não é complexo não. A princípio eu agi como um investigador, tentava achar contradições ditas pelo próprio Cristo.
— Ele entrou em contradições?
— Não estou sabendo me explicar... O que quero que você entenda é que Cristo não veio cuidar da dor física do homem e sim das dores espirituais da humanidade. Para uma mãe, o que há de doer mais: a dor do parto ou a dor da perda de um filho?
— Depende da mãe, Filósofo... Tem muita mãe sacana por ai...
— Sei! O que estou querendo dizer é que a dor física uma vez superada é facilmente esquecida. Já a dor emocional é cíclica e só é curada pela fé. Existem duas formas de sofrimentos. Os sofrimentos físicos e os emocionais ou espirituais. Os sofrimentos físicos o próprio corpo cura, às vezes, com o auxílio de medicamentos. Já com os sofrimentos emocionais somente a fé em Deus e os ensinamentos do Redentor, ou seja, o perdão, nos cura.
— Quer dizer que só Cristo pode curar as dores emocionais?
— É. Amando a Deus sobre todas as coisas e tendo fé em Deus pai tudo é possível. Até superar a morte.
— Não sou muito de religião, mas acredito que Deus quando deu aos Judeus os dez mandamentos deveria ter dado também as penas. Ele criou as leis, porém se
esqueceu de regulamentá-las. Aí, os deputados da época, anexaram penas muito severas. Morrer apedrejada só por dar uma bibocadinha por fora... É muita sacanagem. Vou dar outro exemplo: não devemos cobiçar a mulher do próximo... Todavia, se a mulher do próximo nos cobiçar quando o próximo não estiver tão próximo? Quem aguenta?
— Estou falando sério, Chinfrino. Deixe as velhas piadas pra depois.
— Espere aí, Filósofo. Eu estou falando sério. Seu Jesus teve medo da morte. Até ele, na hora agá, disse: ―— Pai, por que me abandonaste?‖.
— Ele apenas cumpria as profecias. Ele seguia fazendo o determinado e mostrava aos homens como viverem no amor. Ele sabia que seria crucificado. Contudo, e apesar de tudo, foi nesse exato instante que ele entendeu a finalidade de sua vinda a terra, então, concluiu: ―— Se cumpra sua vontade‖.
— E qual foi à finalidade? Regulamentar as leis Divinas?...
— Também. Em vida ele demonstrou desapego a qualquer riqueza material, demonstrou desapego as regras morais vigentes em sua época, e por fim, demonstrou desapego à própria vida. Ele veio nos ensinar a amarmos sem apegos. A termos consciência da nossa imortalidade. Ele falava de outro plano, falava do plano espiritual. Cristo foi o primeiro feminista da cultura judaica.
— Vá se contalenhar, Filósofo! Primeiro você dizia que o retado era o tal de Nietzsche. Alegava que tudo era superstição. Depois falou de Espinosa, disse que Deus, patatí, patatá...— Agora vem com essa!
— Nietzsche escreveu que o intelecto humano, para se conservar, se aperfeiçoou na arte de mentir. E mentimos tanto que vivemos imersos em ilusões. E mesmo quem acredita saber a verdade passa longe dela...
— Esse tal de Nietzsche deve ter conhecido minha falecida mulher. Até quando queria falar a verdade a danada mentia...
— Ouça! É sério! Na visão dele a necessidade de vivermos em bandos nos obriga a policiarmos nossos desejos. E ao apagarmos essa chama animal necessária a
nossa liberdade nós nos privamos da felicidade. Para convivermos, nós criamos por meio da linguagem, as verdades imprescindíveis pra uma convivência pacífica, que para Niezsche: são apenas fantasias. Deu para entender?
— Não, mas continue...
— Os seres humanos não têm consciência da verdade, ele dispõe apenas das obrigações que a sociedade para existir estabelece. Temos a obrigação de mentir segundo uma convenção sólida. Mentimos em rebanho em um estilo obrigatório para todos. Ou seja, todo o conceito, tudo que você acredita que é uma convicção sua é na verdade conceitos de muitas gerações passadas que compramos como nosso. Segundo este pensamento o sofrimento emocional é tão irracional quanto o desejo pela felicidade. Somos governados por cadáveres...
— Quer dizer que é tudo um delírio coletivo...
— Não é bem delírio. Os homens sofrem porque foi ensinado assim. E assim, os fracos necessitam criar uma vida após a morte. Uma ficção. Uma estúpida ficção...
— Filósofo! Você é uma figura. Passou de cristão para ateu em um mesmo papo. Que tal falarmos de mulheres? Já esteve com a doutora Bianca?
— Já. Ela é muito boa pessoa...
— Boa pessoa!? Boa pessoa era minha finada mãe que me dava dinheiro... Ela... Ela é DELICIOSA! Mulher pra cem talheres. Que seios! Que pernas!
— Você não está falando de mulher, Chinfrino. Você esta falando de comida. Ela não é comida...
— É sim! Pra que mais servem essas gostosas? Pica nelas...
— Sua colocação me ofende. Ofende minha falecida mãe, minha falecida esposa, assim como ofende também minhas filhas.
— Perdoe-me Filósofo, não tive a intenção de ofender. Eu falava das...
— Mesmo essas ou qualquer uma. Mesmo que prostitutas, vadias, levianas, puritanas ou não. São seres humanos e não objetos de uso! Cabe o respeito.
— Certo! Você está certo... Perdoe-me. Apesar de que continuo pensando que elas gostam de...
— ...Desculpa aceita. Não conclua... Me dê licença. Vou me arrumar para o almoço. Nos encontraremos no refeitório. Certo?
4.
Filósofo se retirou. Chinfrino se deu conta que alguma coisa havia mudado com a chegada de doutora Bianca. Raramente poderiam conversar assim, exceto em dia e hora de visitas. A surpresa foi muito maior ao chegar ao refeitório para o almoço. O local estava repleto de pacientes, em sua maioria viciados em recuperação. Ao ver diferentes tipos de pacientes no mesmo refeitório, Chinfrino se lembrou de Gildete. — Filha de família abastarda e tradicional. Gildete tinha, na visão de Chinfrino, uma maravilhosa doença, que era a mania de trepar, trepar e trepar. Na clínica, muitos dos auxiliares, enfermeiros e alguns dos pacientes desfrutaram dos favores da jovem e bela Gildete. Chinfrino fora um deles. Dizia-se insaciável Gildete. A moça era capaz de copular seguidamente com nove homens em uma única noite. Falavam a boca pequena, na época, que sua ninfomania derivava de ter sido violentada pelo próprio pai. O pai havia iniciado a filha no jogo do sexo na infância, aos seis anos. — Já acomodado à mesa, Chinfrino notou a chegada de Filósofo e o chamou:
— Filósofo! Sente-se aqui comigo.
Quando Filósofo ajeitou a cadeira para sentar-se, Chico Preto, de supetão, se atirou na cadeira com modos rústicos impedindo Filosofo de sentar-se. Chinfrino, para amenizar a situação, pôs a mão no ombro de Chico e disse:
— Filósofo, este aqui é Chico. — E puxou outra cadeira para Filósofo.
— Já o conheço. Tudo bem, Chico?
— Filósofo contemporizou o ocorrido. Chico acenou afirmativamente com a cabeça. Encheu a boca de comida dando pouca importância a presença de Filósofo. — Almoçaram bife de frango empanado com purê de batata. — Após a refeição, Chico divertiu a os da mesa com suas piadas obscenas. Na saída do refeitório,
Chinfrino foi surpreendido com a presença de seu filho, Almir.
— Oi pai, tudo bem com o Senhor?
— Dentro do possível. O que o traz aqui? Estou curioso...
— Pai, por favor, deixe as mágoas do passado para trás.
— Tudo bem. Vá direto ao assunto. O horário de visitas já acabou...
— Vamos ao jardim. Tenho a permissão da doutora Bianca.
— Conversaremos aqui mesmo no corredor.
— Não, pai! Vamos ao jardim, o papo é longo.
Eles andaram até o jardim sem que nenhuma palavra fosse pronunciada. Chinfrino se sentou no primeiro banco que encontrou. Almir ficou de pé, apenas o olhava de soslaio, dava para sentir que ele não sabia como iniciar a conversa. Chinfrino rompeu o silêncio:
— Não é necessária nenhuma frescura. Vá direto ao assunto. Nós sabemos muito bem que eu não tenho nenhum desequilíbrio mental.
— Pai, estuprar uma...
— Não estuprei ninguém! E você sabe muito bem disso.
— Não foi o que eu vi...
— Você viu o que queria ver... Não foi para me acusar, novamente, que você está aqui! Vamos. Desembucha! Diga logo! O que você quer de mim!?
— Estou precisando de uma procuração para poder recadastrá-lo no banco ou então seus vencimentos serão suspensos.
— É só isso!? Meu dinheiro... Não vai me tirar daqui?
— O Senhor sabe que não posso. E sabe também que eu e Rosemeire não ganhamos muito. O que ganhamos não dá para sobrevivermos. Ainda mais com Luciano numa escola particular.
— Luciano só é meu neto nos custos. Nos seis meses que estou confinado neste sanatório...
— Clínica! Pai. E das mais caras...
— Paga com meu dinheiro! Seis meses. Nenhuma visita, dois ou três telefonemas. Sinto muito. Não vou assinar porra de procuração nenhuma. Sou um maluco estuprador. Esqueceu-se? Ademais, eu não me espantaria se você já tivesse ido diretamente a minha psiquiatra arranjar meios para tentar me desqualificar alegando insanidade.
— E fui, pai. Suas atitudes provam que o senhor perdeu definitivamente a razão. Só a nova psiquiatra, aquela incompetente, que não vê e se negou a me fornecer o atestado...
— Seu filho-d‘uma-puta! Se pique daqui! Vá embora ou lhe dou uma porrada... Seu corno sem caráter...
— Calma! Pai... Está vendo! O senhor está desequilibrado...
— Desequilibrado um cacete!
Devido aos ânimos exaltados, João, enfermeiro dos grandes, foi a Chinfrino em seu socorro:
— Algum problema, Chinfra?
— João, bota este cretino para fora... Me faça esse favor.
Bastou à presença de João para Almir se retirar. Ao sair, Almir ainda ameaçou o pai de procurar um advogado. Os gritos de Chinfrino em resposta despertaram a curiosidade de alguns dos pacientes. Então, para fugir da saraivada de perguntas, Chinfrino caminhou até seu quarto a passos largos. A raiva o consumia. Ao chegar ao seu aposento deparou com Filósofo na porta.
— Algum problema, Chinfrino?
— Foi meu filho. Eu não agüentei o cinismo dele. Não aquentei a falta de caráter... Não criei filho para ser assim...
— Acalme-se. Sente-se, respire fundo, e conte até dez. Tenho algo de terrível para contar.
— Um...dez. Pronto! Diga logo! Não estou pra joguinhos...
— A Doutora Bianca está modificando tudo. A ala ―C‖ ficou para os doentes graves, a ―B‖ para os alcoólatras e viciados em drogas. E a nossa ala vai virar hospital dia. Estou apavorado, amigo. Eles vão me dar alta... Eu não quero sair daqui.
— Calma, Filósofo. Relaxe. O meu problema é muito mais grave do que o seu e eu não estou nem aí.
— O que seu filho queria, Chinfrino?
— Vou lhe contar tudo. Promete guardar segredo? — Sou um túmulo.
— Bem... Tudo começou depois que me aposentei. Eu estava morando sozinho. Almir, aquele filho-d‘uma-puta, tinha perdido o emprego. Acreditei que poderia dar um apoio maior a ele se ele fosse morar comigo. Convidei-o. Imaginei, na época, que seria uma boa idéia uma vez que a mulher dele, Rosemeire, também não estava trabalhando. Seria uma boa para eles, para mim e, principalmente, para Luciano, meu neto. Eles morando comigo economizariam no aluguel, no condomínio, na comida, e teriam tempo livre para procurarem outra opção de trabalho. Depois que se arrumassem eles alugariam outro apartamento e retornariam a sua rotina normal. Por outro lado, eu me sentiria mais à vontade para curtir com Luciano e feliz por ter alguém com quem trocar idéias. As coisas seguiam bem, no entanto, o casal foi se acomodando a situação. Por preguiça minha, confesso, entreguei meu cartão bancário para Rosemeire e deixei que ela administrasse a casa. Aos poucos, minha nora foi assumindo o controle de tudo. Quando dei por mim já era tarde demais. Com meu cartão e senha nas mãos, ela passou a administrar os ganhos e as despesas da casa. Com isso ela deixou de comprar meu uísque importado e passou a comprar do nacional, cortou outros dos poucos prazeres que eu tinha. Para você ter uma idéia, até minhas azeitonas Rosemeire parou de comprar. Dizia ser supérfluo. Restou-me apenas uma pequena mesada para comprar cigarro. Por não gostar de discutir fui deixando para lá. Com isso, o casal foi assumindo cada vez mais o controle da situação, e, a cada dia, me deixavam mais de escanteio. Resolvi pegar de volta meu cartão. A cachorra, minha nora, resolveu que não me devolveria. Brigamos e retomei
meu cartão na marra. Depois daquela briga o clima piorava a cada dia. Qualquer
besteira servia de motivo para a vagabunda me chamar de senil, de velho gagá, e por aí afora. No início, meu filho me defendia. Aos poucos ele foi entrando no jogo da megera. As coisas explodiram mesmo foi com a chegada de Patrícia, sobrinha da vigarista. Rosemeire havia convidado a sobrinha para morar conosco sem nem ao menos me consultar. Foi assim: certo dia, eu estava em meu apartamento coçando o saco. De repente a sineta tocou. E ao abri a porta uma moça, para mim totalmente desconhecida, foi entrando e beijando meu rosto e me chamando de tio e carregando mochilas e malas e me perguntando onde era o quarto dela, e,e,e... Fiquei espantado, fulo da vida. Telefonei para o celular de Rosemeire. Sabe qual a resposta dela?... O estorvo disse: ―— Ponha suas roupas no quarto de empregada, velho. À noite eu arrumo tudo. Ela vai dormir no seu quarto com Luciano. Lá no quartinho você vai ter maior privacidade. Veja bem, velho! É bom não tratar mal a moça... tchau...‖ E desligou o telefone em minha cara. Depois, Almir me esclareceu que a adolescente viera estudar em salvador e não tendo onde ficar fora convidada para morar conosco e ajudar nos cuidados com meu neto.
— E você foi? Foi morar no quarto de empregada?
— E não é que fui! Eu já havia me afeiçoado a Luciano, meu netinho. Fiquei um tempo carrancudo. Aos poucos, porém, fui aceitando a presença da babá. Notei que mesmo com seus quinze anos, ela havia se encantado comigo. Ela fazia meu prato, preparava meu gelo de água de coco, cuidava de conservar sempre minhas roupas limpas, passadas, e assim, em pouco tempo, as gentilezas de Patrícia despertaram em mim um carinho especial por ela. Meu filho e a mocréia conseguiram finalmente um trabalho. Ambos como vendedores na área de cosméticos. Patrícia, a babá, ajudava com a casa e nos cuidados a meu neto. Á noite, a menina estudava. Ás vezes Patrícia me pedia ajuda nos estudos e isso nos aproximou ainda mais. A garota demonstrava ser muito inteligente e madura para a idade. Ai, Filósofo... Viria a aconteceu o desastre que me deixou neste apuro.
— Conte, Chinfrino. A história está ficando interessante!
— Rosemeire, Almir e Luciano haviam saído para passar o final de semana na Ilha de Itaparica. Eu, como de costume, saí com amigos pra beber e jogar dominó. Ao retornar à noitinha, ainda tonto devido aos uísques, fui tomar banho. Depois de vestir meu pijama retornei à sala. Pati. — Pati é Patrícia, a babá. Fui eu que coloquei esse apelido nela. — Pati estava na sala assistindo um filme... Quando eu cheguei à sala ela me perguntou: ―— Tio, posso assistir a um filme mais picante?‖. Respondi que sim na maior inocência, Filósofo. A menina, então, foi e botou no DVD de filme pornô. Eu inocentemente me sentei no sofá ao lado dela para assistir ao tal filme picante... Eu não maldei. Juro que não! Acreditei ser um filme do tipo ―Atração Fatal‖ ou algo parecido. Até então, eu não sabia que se tratava de um filme de sacanagem explícita. Quando o filme começou fiquei espantado, avermelhei. Já ela, sem o menor constrangimento, me perguntou: ―— Tio, o senhor tem vergonha de sexo?.‖ Eu fiquei sem jeito, tentei disfarçar... Falei que não. Que eu em meu tempo fui bom naquilo etc e tal. Filósofo! Aí Patrícia segurou em meu pau, que a essa altura já estava inchando, e me disse que eu era um coroa muito enxuto e que ela iria me dar um trato.
— Poupe-me dos detalhes, Chinfrino. Você transou com a Patrícia.
— Claro!... Não!... Eu ia!... Bem... Eu comecei na maciota... chupei os peitinhos e fui dando um banho de língua na moleca. Fizemos um meia-nove. Filósofo! Ela me chupava com maestria. Tem mulheres que nasceram pra trepar... e ela é uma dessas. Ainda menina e fudendo melhor do que muita coroa que existe por aí... Foi aí que adveio a merda. Quando eu já estava enfiado... Almir, Rosemeire e meu neto, que haviam perdido o ferri, chegaram de volta em casa, abriram a porta e nos flagraram fudendo na sala. Porra, Filósofo! Fudeu tudo! A maluca da Rosemeire começou a fazer escândalo. Gritava que parecia uma doida. Berrava dizendo que eu estava estuprando a menina, e xingava, e reclamava, e me sacudia, e bradava tanto, e tanto, que me deu um branco... Fiquei nervoso, angustiado, confuso... Patrícia saiu, nua, correndo para o quarto e meu neto a seguiu. Quando eu ia atrás dela... Rosemeire me segurou e novamente começou a me chamar de tarado, de escroque, de crápula...
Ela xingando e meu sangue esquentando... Aí o sangue ferveu... e eu... Puft! Dei um soco bem no meio da cara na vadia. Almir partiu para cima de mim... pau nele... a mulher dele estatelada no chão a gente se embolando e derrubando tudo... a porta escancarada... aí apareceram os vizinhos! Foi tudo muito rápido... Eu ali, nu, em pêlo, seguro pelos vizinhos. Foi o caos. Enrolaram-me numa toalha e me levaram para o apartamento ao lado. Almir telefonou para um pronto socorro psiquiátrico. Meia hora depois chegaram dois enfermeiros e eu tentei reagi... Aplicaram-me um ―amansa leão‖. Quando acordei já estava internado nesta clínica. Patrícia me telefonou no dia seguinte dizendo que se ela contasse a verdade Rosemeire a poria na rua e ela não teria pra onde ir. Recebi também uma ligação de Rosemeire me pressionando. Ela ficou com o meu cartão e me ameaçou. Disse-me que se eu saísse da clínica ou bloqueasse o cartão ela daria queixa de estupro. Tentei conversar com Almir. Ele estava a favor da mulher. Não quis nem me ouvir. Orlando, você o conhece, o que era o diretor até a semana passada... Ele só queria grana... Você sabe, Filósofo... Ele queria me manter dopado. Classificou-me de esquizofrênico. Veja que sacanagem...
— Faz quanto tempo que isso aconteceu, Chinfrino?
— Há uns seis meses mais ou menos. De lá pra cá ninguém veio me visitar. Só a Patrícia que, de vez em quando, me telefona. Mesmo assim, escondida. Se Rosemeire descobri ―bota ela‖ na rua...
— E por que a briga com seu filho? O que é que ele queria?
— Almir veio aqui para tentar pegar um atestado de insanidade e assim poder revalidar minha senha no banco. A Doutora Bianca se negou a dar, então ele quis me pedi que eu assinasse uma procuração... Ele quer continuar recebendo minha aposentadoria... Eles se ferraram... Agora estão em minhas mãos... Vão se arrepender do que fizeram...
— O que você pretende fazer, Chinfrino?
— Ainda não sei. Só sei que vou me vingar da filha-d‘uma-puta da Rosemeire.
— A vingança e o ódio são as armas dos tolos.
— Já sei! Filósofo... Jesus Cristo.
— Não Espinosa... Ele diz que...
— Não! Pelo amor de Deus, filósofo! Não! Está quase na hora de eu descansar. Vou me arrumar... Lembre-se! Este assunto é confidencial.
— Então está certo. No refeitório conversaremos.
Aproveitando a saída de Filósofo, Chinfrino imaginar-se-ia com Bianca. Banhar-se-ia mais demoradamente que o habitual. Provavelmente para dar vazão aos seus delírios sexuais. Após bater uma punheta, Chinfrino concluiu que não deveria se precipitar. Esperaria pela consulta com doutora Bianca e lá se informaria melhor.
5.
No refeitório, o único assunto era o remanejamento dos pacientes. Depois de Chinfrino se inteirar dos pormenores das reclassificações, procurou uma mesa mais afastada para evitar as perguntas de outros internos. Filósofo chegou ao refeitório e foi direto se sentar com ele e enquanto jantavam conversaram.
— Já soube das fofocas? — Perguntou Chinfrino.
— Já. Só que não são só fofocas, Chinfrino. Eu mesmo vou ter alta hoje.
— Você não está feliz, Filósofo?
— Não. Preferiria ficar aqui.
— Por quê? Filósofo... Você é única pessoa normal neste sanatório.
— Normal?
— Normal! Sadio! Assim como eu... Agora que eu atentei ao fato. O que houve para você ser internado aqui, Filósofo?
— Não gosto de falar sobre este assunto.
— Qual é! Somos ou não somos amigos? Pode me contar. Eu sou um sepulcro.
— Eu tentei suicídio.
— Sei...
— Não! Não sabe... Você não tem a mínima idéia.
— Sem querer ofender, Filósofo. Tentar se matar e continuar vivo é incompetência. Bastava encostar uma 765 no palato e puf... Morreu! Ou então, comia um fígado de baiacu... Lá no Bico de Ferro, quando eu era garoto, uma nega matou um sargento do exército com uma moqueca de baiacu, e com um baiacu que eu havia pescado... O cara tinha que morrer mesmo porque era um sacana. Ele era amante da tal negona... uma negona bonita pra caralho que enviuvou dum pescador de lá do Bico-de-Ferro. Enviuvou nova. Tinha uma filhinha de oito anos... bonitinha a danada. Esse sargento fudia a mãe e abusava da menininha e quando a mãe descobriu disse que iria denunciá-lo se ele não parasse. Aí o perverso quase matou a negona de porrada e ainda enfiou um taco do cabo de vassoura no furico lá dela... Isso quem me contou foi a mãe de Pepira que era filho dum jangadeiro de lá... Deixa que eu conte essa história...
— Claro, Chinfrino. Conte.
— Foi assim... Eu tinha pegado um baiacu de espinho, era avermelhado de barriga amarelada e de mais de três quilos. Eu peguei sem querer no anzol. Era um bicho feio pra caralho, parecia um monstro e eu fiquei com medo dos espinhos terem veneno. Aí dei umas pauladas no bicho pra ver se ele largava meu anzol, ele se debateu e inchou feito bola... Não morreu não, ficou fechando e abrindo a boca com o anzol grudado... Aí, eu fui chamar Pepira que eu não queria perder meu anzol da sorte... Pepira havia saído, a mãe dele mandou: — ―pede pra negona que ela vai‖, disse que ela estava doida pra achar um baiacu e que precisava dele... Eu fui. A negona estava com um dos olhos preto-azulado, mais preto que ela devido ao hematoma. Na boca, o beiço de cima estava inchado e cortado que mal dava pra ela falar direito. Eu cheguei e mal contei do baiacu que os olhos lá dela brilharam e ela riu com a boca torta e foi comigo e arrancou o anzol e quis comprar o baiacu e eu disse pode ficar que eu não quero não. É venenoso. Ela disse só o fel, e completou: ―eu tiro e faço moqueca‖. Depois soube que sargento chegou bêbado, usou da menina e dela e foi e comeu a moqueca e disseram que dormiu e pronto. Morreu de morte
matada... sem um grito. E ficou por aquilo mesmo porque ninguém entregou à negona... Disseram pra polícia que ele que pescou e cozinhou o peixe, estava bêbado, e se ferrou merecido... Agora, me conte, Filosofo.... Mudei de assunto e não esperei você contar sua tragédia... Fale. Vá! Me conte...
— Eu já disse. Não gosto de tocar neste assunto.
— Não! Falando sério, Filósofo. Por que alguém formado, rico e inteligente quer se matar?
— Não vamos mais falar sobre isto, Chinfrino.
— Eu lhe contei minha façanha. É sua vez, desembucha...
— É doloroso para mim.
— Conte. Sou um túmulo! Pode confiar.
— Solidão... Minhas filhas foram morar no exterior e minha amada mulher faleceu. Tentei ocupar o tempo trabalhando. Não funcionou. Não tinha mais amigos. O tempo foi matando um a um. Qual a graça de estar vivo? Perdi a vontade de viver. Queria morrer. O problema é que detesto sangue. Queria uma morte limpa e de preferência sem dor. Fui à cozinha, abri o gás e me deitei pra morrer em paz. Por azar o zelador do prédio sentiu o cheiro, arrombou a porta e me impediu. O síndico telefonou para a polícia e eles me trouxeram para cá e aqui estou a mais de dois anos. E acredite que eu me sinto bem melhor aqui do que na minha casa.
— Cara! Corajoso o zelador... e se a porra explode?... CARALHO! Tive uma idéia! Filósofo. Se você me ajudar a resolver meu pepino nós iremos morar juntos. Meu apartamento é próprio. Têm dois quartos mais dependências de empregada... É só dividirmos as despesas. Agora tem uma coisa. Você não se mata e cada um vive na sua... Viado eu sei que você não é...
— Acho você um capadócio, Chinfrino. Mas gosto de você. Se tiver mesmo que sair daqui eu topo. Meu apartamento é de cobertura, tem, além das dependências de empregados, quatro suítes mais gabinete e está vazio. Ficaremos morando lá.
— O meu é melhor, é pequeno e não dá trabalho. Você aluga o seu, e vamos pra putaria... têm uma porrada de coroas atrás de umas ferroadas...
— Você parece uma criança, Chinfrino. Gosto disto em você.
— Quem morre de véspera é peru de natal e mesmo assim bêbado! Quero aproveitar o que ainda me resta de vida.
— Vamos lá! Vamos analisar seu problema. Para isso é necessária estratégia. O que você tem a fazer é conseguir o maior número de informações possíveis, conhecer bem a situação... Eu não quis falar. Para mim a Patrícia estava de conluio com sua nora... Acho que foi tudo armado. É bom que você converse com a doutora Bianca sobre sua situação. Veja também sua condição junto ao seu fundo de pensão. Ligue para o banco. É bom que consulte um advogado sobre as possíveis complicações do assédio a Patrícia já que ele é menor de idade. Não deixe de ver também a situação de seu filho e de seu neto, é a sua família. Após essas informações verificadas, conversaremos. Vou ter que ir. Tenho consulta. Até mais tarde.
— Vá com Deus, Filósofo.
Chinfrino retornou ao quarto analisando a possibilidade de Patrícia fazer parte da armação contra ele. No caminho encontrou-se com dona Maria e gracejou:
— Tudo bem, dona Maria. Agora que não precisa mais me vigiar está sumida!
Ela, para total estranheza de Chinfrino, sorriu. Sorriu um sorriso de vitória. E ele não se conteve:
— Dona Maria!, A senhora riu! Eu pensei que fosse banguela. Nunca a vi sorrindo antes...
— Pois é, Chinfrino. Vendo vocês naquela situação não havia do que sorrir. — Respondeu se explicando: — Eu não tomava uma posição por medo de perder o emprego. Mas doutor Orlando abusou tanto de vocês que tomei coragem e redigi uma carta aos donos da clínica contando como ele tratava os pacientes. Minha sorte é que ele já vinha sendo investigado por desvio de verbas.
— Então foi a Senhora? Eu a odiava. Perdoe-me.
— Tudo bem. Não esqueça o horário da consulta amanhã. Tenha uma boa noite, Chinfrino.
— Pra senhora também.
Sentindo-se culpado pelas inúmeras pragas que jogou em dona Maria, Chinfrino se arrependeu. No entanto sua principal preocupação era o que expor a doutora Bianca. Temia precipitar-se e estragar tudo.
6.
Na manhã seguinte, não demorou chegar o horário da consulta. Chinfrino entrou na sala no horário marcado. Doutora Bianca elogiou a pontualidade. Ele se sentou no divã e esperou que ela tomasse a iniciativa e revelasse o pedido feito por Almir. Mas ela permanecia calada.
— Então, doutora? — Ele perguntou.
— Continue sua história, Chinfrino. Estou esperando.
— Onde eu estava?
— O senhor não se lembra?
— Sim. Me lembro... Foi dureza. No início eu e Waltinho comemos de o pão-que-o-diabo-amassou. Dormimos na rua sentindo fome, frio e sede. Porém, depois me ocorreu a idéia de pescar siri. A maré estava vazia... Fizemos mais de quatro cordas e saímos vendendo os siris nas barracas da praia. Além de ganharmos uns trocados o dono de uma das barracas gostou da gente e almoçamos em troca de lavar os pratos. No final da tarde, Waltinho inventou de irmos ao cemitério roubar velas. Lá tinha um túmulo todo feito de mármore com aquelas portas de ferro e com vidros coloridos que chamam vitral. Ficamos morando lá naquele túmulo. Arranjamos papelões e fizemos as camas. Ficamos por mais de uma semana. Só fomos descobertos porque Waltinho tinha contado a irmã dele onde íamos e ela abriu a boca. Meu pai foi até Itaparica, nos achou e nos trouxe de volta pra casa. Eu fiquei de castigo, mas nunca mais meu pai me bateu.
— Há algo de sua infância que ainda queira me contar?
— Bem... Vou continuar... Depois de um tempo conhecemos Wellington e viramos um trio. O pai de Wellington era do exército e isso facilitou as coisas pra gente. Nós. Eu, Waltinho com a chegada de Wellington quase que paramos de pescar e de cassar. O grande negócio se tornou jogar bola. O porreta é que fomos crescendo junto com o bairro e quando ficamos adolescentes e já pensávamos em garotas elas apareceram com os novos prédios que foram sendo construídos na Pituba. Eu me lembro de minha primeira vez. Wellington havia ido morar em outro estado com a família. Waltinho se enamorara duma hippie e sumira pelo mundo. Eu havia ficado sozinho, sem amigos. Papai vendo que eu estava sem amigos teve dó e comprou um título do Clube Português da Bahia. Foi lá que conheci Jussara. Ela era uma menina linda, eu estranhava o motivo de ninguém querer namorar a sério com ela. Depois soube que ela era surda de nascença e não sabia falar... Quero dizer, ela só falava com sinais... Aí eu fiquei doido por ela e me aproximei e aos poucos fui aprendendo o alfabeto dos dedos... depois a falar com sinais. Terminei por namorá-la. Aos domingos, depois do baba, eu ia para o parquinho e ficava esperando ela. Aí aconteceu. Eu pensava que ela era virgem porque eu era. Um dia, Jussara foi lá para casa. Papai já havia ido dormir e Veia estava de folga. Foi dentro do quarto de Véia. Foi aí que eu descobri que Jussara já tinha experiência... Tinha tanta experiência que eu fiquei cheio de chatos. A senhora sabe o que é chato? Não sabe? — É um bichinho que dá nos pentelhos e no saco... Em mim se espalhou até pelos cílios. — Na época eu pensei que papai ia me bater novamente, mas o velho ficou foi orgulhoso. Mamãe dizia que papai era machista e se retava quando ele fazia chacota. Eu não dava importância aos chiliques de mamãe. Era entrar empregada nova na vizinhança que eu comia. Com as filhinhas-de-papai, naquela época, era esparro. Tinha de casar... Hoje não, estão fudendo desde cedo, menininhas de 12, 13 anos já fodem... soltaram as frangas. E a viadagem, Doutora? De ter viado em minha época tinha... Tem uns que nascem assim mais para mulher que para homem. Dizem que é um espírito feminino que reencarna em corpo de homem ou o contrário... Não acredito nem descrédito... Mas hoje em dia a maioria é mais por descaração, por moda. Influencia
da TV. Deve ser, sei não. Em minha época viado era viado, hoje gay... Americanizaram até a viadagem! Sim! Esqueça a viadagem... Eu ia contar que uma vez eu fui fuder uma puta, no 63, e peguei pinga pus. Foi uma gonorréia das bravas. Tive que ir ao doutor Bureal, se escreve bê u bu, rê é ré... eal , com lê. Médico de macho, urologista dos bons. Ele me passou algumas não-pode-sentar e eu fiquei bom.
— O que é isso?
— Desculpe-me, doutora. É Benzetacil de um milhão e seiscentos UI... Dá na bunda. Ai, não pode sentar. Como estava dizendo, doutora... Tive uma infância e uma adolescência muito boa. Não lembro se contei que eu e Waltinho jogávamos capoeira e lutávamos boxe. Mas nem eu, nem Waltinho procurávamos briga com ninguém. No mais, era estudar, trabalhar e esportes. Dava tempo pra tudo... Bem doutora, perdoe-me a digressão. Agora o assunto é sério. Soube que meu filho esteve aqui e pediu a senhora que desse um atestado me desqualificando para cuidar de minha vida. O que aquele sem caráter quer, realmente, é ficar com minha aposentadoria e morar definitivamente em meu apartamento de graça. Ele subornou o seu colega para isso. Apesar de minha permanência aqui ser paga. Deve sobrar muita grana para que ele tenha o interesse em me manter internado aqui...
— É verdade, Chinfrino. Realmente seu filho me falou que o senhor tem uma tara por adolescentes, é alcoólatra, e seduziu uma menina de quinze anos. Isso não deixa de ser um problema. O abuso sexual de menores é crime. Porém, este assunto é de ordem jurídica. O nosso assunto é o seu desajuste social. E eu espero continuar com sua terapia. Contudo... — Chinfrino a interrompeu e, nervoso, discursou:
— Eu não vou negar que houve o início de uma relação sexual com Patrícia e que ela é menor de idade... Daí a dizer, doutora, que eu que a seduzi! Isto é a mais pura mentira. Patrícia tem mais horas de cama que o urubu tem de voo. Pelo menos, nas preliminares, foi bem melhor do que muitas das coroas que eu já fudi por aí. Patrícia tocava-flauta maravilhosamente bem... O que ocorreu, na verdade, foi que eu cheguei em casa um tanto bêbado, ela colocou um filme pornô, locado não sei por
quem, nem onde, e começou a me alisar... Sou homem, doutora... senti tesão e quando íamos às vias de fato fomos surpreendidos por meu filho e nora que fizeram a maior presepada e se aproveitaram da situação para me roubar. Minha nora me acusou de estupro e mandou me prenderem aqui com a conivência de doutor Orlando. É tudo uma questão financeira...
— Não estou defendendo teses, Chinfrino. Muito menos pretendo agir parcialmente na sua relação familiar. Cabe-me apenas diagnosticar uma possível doença mental. O Senhor tem tomado os remédios prescritos por doutor Orlando: Haldol 5 mg, Psicosedin 25 mg, Amplictil 100 mg e Dormonid. Um comprimido à noite. Estou certa?
— Completamente errada, doutora. Só fiquei dopado no início devido à injeção. No dia seguinte da internação cuspia todos os comprimidos que me davam. Não tomo porra nenhuma. Para não levantar suspeitas, eu me fazia de idiota e fingia tomar... Posso ser maluco dentro de sua visão psiquiátrica de um peso duas medidas... Eu realmente não gosto muito desta sociedade hipócrita, mesquinha, cínica e de falsa moral em que vivemos, que não se pode mais confiar nem nos próprios filhos... Tudo, agora, é dinheiro. Americanizaram o povo brasileiro que hoje vende a mãe por dois tostões e prostituem os filhos para comprar um par de tênis ou um novo celular. Vejo políticos comprovadamente ladrões que estão soltos e curtindo a grana em bacanais em Brasília. Juízes safados se safam numa boa, são pegos roubando e ao invés de serem presos ganham uma gorda aposentadoria, tudo à custa dos impostos e da penalização dos aposentados que trabalharam a vida toda... Cuecão de dólares, sanguessugas, mensaleiros e tudo mais... Agora, eu vou dar uma trepadinha com uma mulher que é mais furada que túnel de metrô e tenho que ficar preso num manicômio por não sei quanto tempo... Ah! Vá à merda! Doutora... Tudo isso é por causa do meu dinheiro... Merda de dinheiro. Tudo por causa desse falso sistema que só favorece aos déspotas e aos hipócritas sofistas com seu regime escravocrata neoliberal... Eu acredito que se nos devolverem o planeta e nos deixarem plantar árvores frutíferas
nos jardins das cidades. Se nos deixarem transformar cada pedaço de chão em hortas e em cada canteiro nos permitir plantar ervas medicinal, nosso povo não necessitaria de qualquer governo ou de qualquer dinheiro para nos alimentarmos. Muito menos seria necessário ter indústrias para nos impor o medo e nos entupirem de remédios e enlatados... Basta proibir que poluam o mar e os rios e os peixes pularão pra mesa de cada ser vivente em nossa terra. Basta deixarem o mar livre da sujeira que os povos encherão suas latas com pititingas e farão fogueiras nas praias e assarão pinaúnas e comerão com lagostas... Depois dançarão diante da lua e cantarão canções e farão amor e serão espontâneos, cada um na sua natureza. E cada ser terá a liberdade conseguida com o suor de seu rosto assim como era antes da terra, presente de Deus a todos os seres, possuir donos. E quer saber mais, doutora? Pegue seus medicamentos e os enfie na bunda. Bunda por sinal muito bonita... Tchau! Fui!
Chinfrino saiu do consultório sem olhar para trás, estava certo de ter estragado tudo e caminhou para o quarto em silêncio. Poucos minutos se passaram quando dona Maria apareceu com um copo plástico com suco nas mãos.
— Perdoe-me — disse Chinfrino a Dona Maria — Nem penso em deixar que me abarrotem de remédios...
— A doutora Bianca mandou dar um suco de maracujá e não remédio. Pediu para dizer que ela o aguarda no consultório. Pode ir sem susto, Chinfrino. Doutora Bianca é uma excelente profissional, ela sabe o que faz.
Chinfrino bebeu o suco adocicado e retornou ao consultório. Entrou na sala da médica meio sem graça. Doutora Bianca foi logo rebatendo o discurso de Chinfrino com bom humor:
— Achei sua teoria de plantar alimentos em praças públicas muito criativa. Talvez nossa sociedade não seja perfeita. Sei que ela é cheia de normas a serem seguidas. Sei que na maioria das vezes a sociedade é injusta. Porém, para se conviver, socialmente, são necessárias regras de conduta e limites a serem respeitados. Não vi
no senhor, a princípio, nada que o desqualifique a viver em sociedade. Estou assinando sua liberação. No entanto, estou marcando duas consultas por semana para que eu possa fazer uma melhor avaliação do seu caso. E muito obrigada pelo elogio ao meu traseiro, — a doutora sorriu, — meu marido tem a mesma opinião sobre minha bunda.
Sem dar mais uma palavra, Chinfrino saiu da sala e foi direto ao quarto de Filósofo para encontrá-lo:
— Então, como foi à consulta, Chinfrino? — Perguntou Filósofo.
— Estou livre! Amigo! LIVRE! Só tenho que resolver o problema com Almir. Vou botar toda aquela turma para fora de meu apartamento. Faço isso hoje, agora!
— Não! Nada disso. Você vai morar comigo. Isso já é certo. E nada de vinganças. Lembre-se de Espinosa.
— Você já falou sobre Espinosa.
— Eu guardo comigo um trecho que copiei... Deixe-me procurar aqui... Achei!
Ajeitando os óculos, Filósofo iria iniciar a leitura, mas foi interrompido.
— ―Quem quer vingar-se...‖.
— Pára, Filósofo! Este cristão não foi internado a contra gosto. Pimenta no fiofó dos outros não arde! Não estou nem aí para o que este coroinha falou...
— Muito pelo contrário, Chinfrino... ele foi excomungado pela Igreja Católica, bem, deixa pra lá... Vai Chinfrino, liga para seu filho e dê a ele um tempo para sair de seu apartamento e mantenha uma mesada razoável... Pense primeiro em seu neto. Lá em casa você só vai precisar de dinheiro para as suas despesas pessoais. O resto eu já pago.
— Faço questão de dividir. Já estou velho para ser sustentado.
— Você é quem sabe. Ligue logo para seu filho. Eu já estou com tudo arrumado.
Chinfrino telefonou para casa. Patrícia atendeu.
— Alou... — Tio! É você?
— Pati? O Almir está aí.
— Está... A sua doutora telefonou para seu Almir. É verdade que o senhor vai botar todo mundo na rua?
— Claro que não! Vou morar com um amigo. Só quero acertar uns pormenores com Almir.
Sussurrando, Patrícia conversa com Chinfrino.
— Telefone pra me dar o seu novo endereço. Temos que terminar o que começamos. É só lembrar que o segredo é a alma do negócio e que quem come e guarda come sempre... Serei sua novamente... lhe devo essa... Seu Almir está vindo, me ligue... Tchau!
— Pai?
— Almir... Sou eu. Vou ser direto... Saio hoje da clínica e vou retomar minha vida. Deixo vocês ficar ai no meu apartamento enquanto não precisar dele. Nos seis próximos meses vou lhe dar uma pensão de um salário mínimo e é só. É tempo suficiente para você se reerguer. Quero meu cartão do banco ainda hoje ou dou queixa de furto. Estou indo morar com um amigo e quando estiver acomodado telefonarei. Avise a megera, sua mulher, que se ela tentar qualquer coisa contra minha pessoa mando botar ela e você na cadeia. Sei que vocês pagaram propina para me manterem aqui a força... E... Estou bem assessorado por um advogado e tenho o apoio de minha psiquiatra... Você entendeu?... Ótimo... Dê um beijo em meu neto... Até mais.
Virando-se para filósofo pergunta,
— Fui bem, Filósofo?
— Maravilhosamente bem... Vamos?
— Só uma pergunta, Filósofo. Como é mesmo seu nome? Não é Filósofo, é!?
— Não! É Bonaparte... Napoleão Bonaparte...
Salvador – Bahia - 1996










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