Pular para o conteúdo principal

O Matador de Bois.



. 1
Nascido numa família humilde de pessoas honestas, Sebastião era o sétimo filho de uma prole de onze. Tião, como costumava ser chamado pelos familiares, era um menino alegre e esperto que se viu obrigado a largar a roça dos pais aos nove anos e partir para trabalhar no açougue do tio com o intuito de ajudar financeiramente sua família.
Cremilda, a mãe de Tião, chorou e chorou no dia de sua partida. Zé D‘aipim, o pai, mesmo com o coração apertado, sabia que era hora de Tião ―virar homem‖. Ele fizera o mesmo ao completar a mesma idade, quando fora trabalhar quebrando pedra de fogo pra fazer concreto a mando do pai, Onório Tantão: "— Pra não dá pra vadio‖. — Falara-lhe, na época, o pai, o avô paterno de Tião.
Apesar de todas às lágrimas da mãe, o coraçãozinho de Sebastião estava cheio de coragem e contentamento. Tornar-se-ia igual ao pai: "um homem", e conheceria finalmente o famoso tio: João: ―O matador de bois‖.
2.
Tião esperava ansioso pela hora de conhecer o tio, irmão mais velho de seu pai e o herói das histórias contadas nas noites de causos ao lado da fogueira. ―— João, meu irmão, o matador de bois‖. — Assim contava Zé D‘aipim ao filho. “— Matou com um chuço a malvada da onça de uma estocada só... Ela veio pra riba de mim grunhindo e soltando fogo pelas ventas... aí... João deu um pulo de gato e foi parar em minha frente, então, a bicha saltou e ele zapt! A coisa ruim rugiu no ar e poft! Caiu estoqueada... Mortinha da silva‖.
Sim. Finalmente Tião conheceria seu herói. Ele imaginava-o um gigante, forte como um touro e que ao falar fazia o sangue gelar. Igual ao herói dos quadrinhos da revista "O Fantasma" que ele vira na escola, em um dos poucos meses que a freqüentou em uma vila próxima, obrigado por um Juiz ―... que achava que sabia de tudo... Vê se aquele fedelho da cidade grande, ainda fedendo a cueiro, ia saber mais de criar filho do que pai Tantão, que criou vinte e quatro, nove machos e quinze fêmeas, de quatro mulé diferente. E nenhum deles deu pra ruim... Eu em‖ — Relembrou Tião, o dizer do seu pai, de quando fora estudar no vilarejo.
3.
Tião dormiu logo após o ônibus atingir o asfalto e só acordou quando findava a viagem. Ao acordar, pôde ver a cidade de São Domingos, no sertão baiano. Olhada dali, do alto da ladeira, través da janela do ônibus, parecia uma vila a beira mar. — Em verdade era o rio que formava o açude as margens do pequeno vilarejo. Ao vislumbrar a paisagem a ansiedade de Tião se multiplicou. Queria que passasse rápido o tempo, queria conhecer o Tio o quanto antes.
Não demorou ao ônibus parar na praça, em frente à feira, junto ao terminal, na rodoviária improvisada.
Antes de descer da marinete, Tião olhou para todos os lados, através das janelas do veículo, à procura de seu herói, no entanto, não enxergou o gigante que imaginara. Então a sombra do medo preencheu seu espírito. Assustado, ele desceu da condução se acreditando esquecido. Repentinamente, sentiu pousar uma mão sobre seu ombro e ouviu uma voz anserina a indagá-lo:
— Sebastião?
Tião se virou de supetão. Em sua frente estava um homem de meia idade, baixo, mirrado, branco como o leite, e salpicado por pintas amarronzadas. Possuía cabelos curtos, alvos, brancos como as sobrancelhas e cílios. Na mão direita se
notava dois dedos parcialmente mutilados, o anelar e o mindinho. — Mais tarde, Tião viria a saber que os dedos foram decepados há muito tempo, quando o tio labutava num motor de desfiar sisal. — O tal homem se vestia de maneira simples e sobre a roupa um avental grosso, encardido, sujo de sangue e de sal. No sorriso faltavam-lhe os incisivos superiores. Defeito que gerou o apelido de ―Boca de caçapa‖. A princípio, Tião ficou decepcionado e se perguntou mentalmente: ―Será este sarará banguela é o herói de meu pai? O matador de onças? O homem que sobreviveu ao abraço mortal de um tamanduá bandeira? Não, não pode ser... Com certeza esse asqueroso é um dos serviçais de meu tio, meu herói: o matador de bois‖. Porém, para sanar a dúvida, ele indagou:
— O senhor é tio João, o irmão de meu pai?
— Sim. Sou eu mesmo. Por que tu perguntas?
Tião sem procurar disfarçar a decepção, disparou:
O senhor é sarará! Pai é preto...
— Albino? Sim! Coisa de Deus. Somos irmãos por parte de pai.
Foi o senhor quem brigou com um tamanduá de mãos puras?
— Sim! Bem... Mais ou menos. Tinha os cachorros... Com calma depois te conto a história.
E assim, Tião evitou dizer que o havia imaginado um mero serviçal e que ele não se parecia em nada com o grande herói descrito pelo pai. — Vencida a decepção da primeira impressão, Tião não demoraria a renovar o orgulho por seu herói. Pois, em pouco tempo, notaria que João era muito querido e respeitado na cidade.
Após uma longa e cansativa caminhada, Tio e sobrinho chegaram ao açougue/residência de João. — Havia um algo de morte naquele lugar. O sal grosso estava espalhado sobre o largo balcão de mármore, onde mantas sobrepostas de carnes-secas amarronzavam junto a outras já curtidas pelo tempo. Noutro balcão, encostado a parede lateral, carnes frescas, presas a grossos ganchos, ficavam dependuradas em um vergalhão de través e gotejavam um liquido sanguinolento
sobre as enormes bacias retangulares que continham as vísceras de animais mortos. Moscas, centenas delas voavam ziguezagueantes por todo o ambiente criando um clima funesto. Tião não deixou aparentar o mal-estar que sentiu e passou por baixo da portinhola do balcão ao acompanhar o tio que andou até uma passagem no fundo do açougue, tendo como porta uma lona amarelada e suja, que era o acesso a casa. Ao entrarem, Tião notou o televisor ligado sem ninguém para assisti-lo. Aquela caixa mágica o fascinou. Já ouvira falar da tal caixa que mostrava o mundo inteiro, apesar de, na época, não ter acreditado. Só acreditou quando seu pai afirmou tê-la visto. — ―Fica um bocado de gente miudinha dentro. Coisa do demônio‖.
Sebastião fixou os olhos no aparelho e agradeceu por obedecer à ordem do tio.
— Sente-se. Assista TV aí quietinho. Vou limpar e arrumar o açougue e volto para acertarmos as coisas.
Tião sentou-se como ordenado, arregalou bem os olhos enquanto desenhos sonorizados e em movimento contavam histórias mitológicas. Após assistir, embasbacado, a alguns dos desenhos, seu Tio retornou:
— Sebastião. Ou melhor... Vou chamá-lo de Bastião...
— Pai e Mãe me chamam de Tião. — Explicou-lhe o garoto.
— Então está certo... Tião... Bem Tião... Teu pai te enviou para que tu aprendas meu ofício. É um belo ofício o de açougueiro. Mas saibas que um bom magarefe tem que ser esperto. Temos que saber comprar os bois. Temos que saber quando comprar os bois. Temos que saber matar os bois e destrinchar as carnes. Temos que saber a quem fiar, até quando e até quanto. Tem muita arte para se ser um bom açougueiro. No entanto, e antes de tudo, vejo que tu só trouxeste a roupa do corpo e essa trouxinha...
— Trouxe dinheiro, tio. Pai me deu. — Disse Tião mostrando um punhado de notas de mil cruzeiros, todas, devidamente amarradas por um barbante e costuradas no cós da ―bermuda da missa‖.
— É! Estás rico, garoto. — Pilheriou João alargando o sorriso banguela e concluiu: — Certo moleque, vamos gastar teus milhões noutro dia.... Antes, é necessário comprarmos lápis, borrachas, cadernos, roupas e livros. Amanhã cedo, depois de tudo arranjado, te matriculo numa escola.
Dito e feito, Na manhã seguinte, como combinado, João o levou às compras. Desfilou orgulhoso pela cidade de mãos dadas com o sobrinho. — João não havia se casado. As relações com o belo sexo se resumiam a visitas esporádicas ao prostíbulo da cidade. Por esse motivo, a chegada do sobrinho fora vista como o nascimento de um filho. Estava orgulhoso e feliz com a companhia do garoto. — Tratou, então, de levá-lo ao barbeiro, ao alfaiate, à sapataria, a uma livraria onde comprou: cartilha, tabuada, cadernos e os lápis das mais variadas formas e cores, além dos assessórios comuns para uma boa educação, e por fim, levou-o para matriculá-lo na melhor escola do município. Tião, por sua vez, ficara fascinado, mas se lembrou do que seu pai, antes dele viajar, fizera questão em frisar: — ―Nada peça a seu tio, se ele lhe der algo agradeça, mas não aceite. Você agora é um homem e tem que trabalhar para seu próprio sustento‖. — E assim fez Tião. Quando chegaram em casa, ele puxou do cós da velha bermuda o dinheiro, desatou o nó, e cabreiro, tentou entregá-lo ao Tio, repetindo a orientação dada pelo pai. João se orgulhou ainda mais do menino e com lágrimas disfarçadas, sentenciou:
— É! Tu és um homem! Porém, guarda teu dinheiro, desconto tudo em teu salário. Vieste para trabalhar e assim farás. Antes saibas que tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora. E agora é hora de estudares e assim tu irás fazer. Como teu patrão, minha primeira ordem é... es...tu...dar! E estudar com afinco.
E assim seria feito.
5.
Para uma criança aquele lugar era o paraíso. — A casa de João de Tantão, o matador de bois, era mais do que uma simples casa, era uma fazendinha as margens do açude. Além do cais, havia no sítio pequenas criações: de gado, de cabras, de porcos e de galinhas. Havia também um pomar com abacateiros, jaqueiras, tamarineiros, mangueiras, cajueiros, etc. Tinha até um pé de Fruta-pão, fruta predileta do garoto no café da manhã. Como frisei, Tião viveu uma infância feliz ao lado do Tio. Costumava acordar durante a madrugada e, após o desjejum, ajudava no manejo do sítio. Para Tião tudo era diversão. Desde catar ovos das galinhas e acondicioná-los nas caixas de papelão, até em alimentar os porcos. Ria por deixar ovos de madeira, um em cada ninho, imitando aos naturais, para manter as galinhas felizes. Porém, era aos domingos que Tião mais se divertia. Era dia de pescaria com o Tio, dia de ouvir as histórias contadas nos intervalos das fisgadas de traíras, tilápias e surubins. À tarde, em dias úteis, Tião estudava com seriedade e ao chegar a casa fazia questão de limpar o açougue antes de ir assistir à televisão. Em tudo que fazia Tião se empenhava ao máximo e, por consequência, além de ter se tornado um excelente aluno, Tião aprendera com seu grande herói o segredo de um bom sitiante. O tempo foi passando e Tião assumia, aos poucos e de forma competente, os negócios do tio que adoecera de câncer. Câncer cerebral. Assim diagnosticaria Dr. Pedro Júnior, — jovem médico recém chegado da capital, — após exaustivos e contundentes exames feitos na capital.
Com o passar dos anos a saúde de João se agravou a ponto de nada mais poder ser feito. Por outro lado, o que fora um sítio se tornara um grande frigorífico. (Vale salientar, que desde seu primeiro salário, Tião enviava, periodicamente, boa parte dele a sua família e, com seu enriquecimento, todos seus parentes diretos também enriqueceram. Tião comprara, ainda jovem, uma enorme fazenda para criação de gado, e deixou-a aos cuidados do pai e dos irmãos na condição de que eles seguissem as orientações que o tio, a ele, ensinara.) João, no entanto, piorava a cada dia. E apesar de Tião não ter medido esforços e gastos na tentativa de salvá-lo da morte,
João de Tantão, "o matador de bois‖, morreu nos braços do sobrinho na data de aniversário da emancipação política de sua querida São Domingos. E as últimas palavras proferidas por João, ditas no pé de ouvido de Tião, enfatizou o que ele considerava o mais sábios dos seus ditames:
―— Lembra-te, filho: tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora‖.
Tião, que imitava o tio em quase tudo, até na maneira de se relacionar com o sexo oposto, ou seja, com visitas eventuais ao prostíbulo da cidade, se deixou abater com a terrível perda e passou a se sentir solitário. As prostitutas já não mais o satisfaziam.
O menino crescera e se tornara um grande empresário. E mesmo tendo conquistado muito mais do que imaginara entrou numa profunda depressão. Para superá-la, enfiou-se de corpo e alma no trabalho, multiplicando, a cada dia, seus bens. Mas o tempo, remédio do espírito, não amenizaria por completo a dor da perda, e por uma dessas coincidências da vida, seu tio, como já foi dito, desencarnara no aniversário de emancipação da cidade. Tião, ou melhor, agora chamado de Dr Sebastião, resolveu patrocinar uma grande festa em homenagem ao fundador do frigorífico ―João & Sobrinho‖. E para que tudo corresse a contento ele mandou contratar na capital, Salvador, uma empresa especializada em eventos. Foi contratada a Zaz Comunicação Empresarial & Eventos que justificaria a fama de competência.
Para comemorar a data foi providenciada uma enorme estátua de Sr. João ―O matador de bois‖, confeccionada de bronze, criada por um renomado artista baiano para ser instalada na praça em frente ao frigorífico e inaugurada com uma grande festa aberta a todos os moradores da região.
O evento foi um sucesso: Baianas de acarajé prepararam os mais tradicionais quitutes da culinária baiana. Gaúchos, devidamente trajados, esmeraram-se no autêntico churrasco. Bandas e artistas famosos se revezaram nos palcos apresentando os inúmeros ritmos da moda. Políticos, empresários, jornalistas e eclesiásticos se fizeram presentes para abrilhantarem a comemoração. Fora celebrada missa em honra do homenageado. Alguns Jornais da capital enviaram repórteres para fazer a
cobertura dos acontecimentos, como orgulhosamente fora lembrado pelo amado sobrinho, Dr. Sebastião, no discurso de inauguração do monumento.
Após a homilia, ao assistir de seu camarote a apresentação de uma das bandas de música axé, os olhos de Sebastião cruzaram com os olhos verdes de Catarina, uma das dançarinas da banda que se apresentava. Sebastião não perdeu tempo. Convidou a belíssima jovem para esticarem a festa em uma de suas inúmeras fazendas. O convite foi aceito e, em pouco tempo, Dr. Sebastião e Dona Catarina se casaram com toda a pompa que pedia o enlace. A população da cidade já cogitava à candidatura de Dr. Sebastião para prefeito. Contudo, Sebastião não acataria de imediato os anseios dos amigos e do povo da sua amada São Domingos, preferindo se dedicar a sua nova esposa e aos seus inúmeros negócios. E todas as vezes que tocavam neste assunto, Sebastião respondia:
— ―Tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora‖.
Casado, Sebastião irradiava felicidade. Com uma personalidade bem formada, Catarina era equilibrada, alegre, companheira, honesta e inteligente. Mas o destino haveria de cobrar de Sebastião toda sua sorte. Com pouco mais de um ano de casados, o pai de Catarina faleceu. Catarina, filha única, foi ficar alguns dias com a mãe e ao vê-la necessitada terminou por trazê-la para morar com ela. A mãe de Catarina, Dona Escrotilda, ainda era uma mulher aparentemente jovem, de bela estampa e atraia a atenção de inúmeros pretendentes aos quais demonstrava total desprezo. E, apesar de toda mordomia e atenção que recebia, vivia a resmungar por ter que morar ―naquele fim de mundo‖.
O tempo foi passando e poucos meses após a chegada de Dona Escrotilda, Catarina morre, em pleno ato sexual, durante um orgasmo fulminante. (O único médico da cidade, Dr. Pedro, diagnosticou enfarto do miocárdio devido a um defeito conato). Novamente o pesar abatia Sebastião. Seus amigos comentavam, aos sussurros, que somente por duas vezes na vida viram escorrer lágrimas dos olhos de Sebastião. No falecimento do tio e na morte de sua amada.
6.
No cortejo do corpo de Dona Catarina a cidade praticamente parou. O cadáver foi levado pelo Batalhão do Corpo de Bombeiros até a Câmara Municipal onde seria velado. A mesma Câmara onde corria processo para dar à defunta e ao esposo o título de cidadãos dominicanos. O velório contou com a presença de grandes empresários e autoridades, tanto da situação quanto da oposição, (oposição que em votação urgente-urgentíssima admitiu ser esta uma questão suprapartidária), e fincaram presença à vigília. A sogra, Dona Escrotilda, senhora de sentimentos execráveis, não esperou nem pelo final do velório para chamar Sebastião no canto e buscar esclarecimento sobre a partilha dos bens. Queria a parte dela o quanto antes, queria tudo o que lhe cabia como única herdeira da finada, e queria sua parte de imediato para ―sair desse fim de mundo‖.
— A senhora não ficará desamparada.— Disse-lhe Sebastião — Se é isso que te afliges, tranquilize-se: ―Tudo tem seu tempo, tudo tem sua hora‖.
— Tem seu tempo uma ova... Não tenho mais motivo algum para continuar morando neste lugarejo. Eu quero o que é meu e quero o quanto antes. — Esbravejou Dona Escrotilda sem dar importância ao decoro no velório da filha. Sebastião calou-se envolto em sua dor e caminhou lentamente para se posicionar junto ao caixão da finada. A maléfica mãe não esperou o final do velório. Saiu. Foi direto para casa de Sebastião e não se deu ao trabalho de comparecer, no amanhecer do outro dia, ao enterro da filha. Ficou na casa, escancarada no sofá, resmungando entre um e outro salgado:
— Aquela vadia não gostava de mim. — Pensava Escrotilda — Vivia sacudindo a bunda para um lado e para o outro. Deu nisso, morreu na putaria, morreu fudendo. Ainda bem que o corno é rico...
Sebastião permaneceu ao lado da defunta todo o tempo. No enterro, sentiu a ausência da sogra. Procurou-a, chegou a crer em desgraça. Achou que a sogra poderia estar passando mal por conta da emoção. Afinal; pensou consigo mesmo, —―Perder o marido e logo após perder a filha derruba qualquer um‖ — então, pediu a Dr. Pedro, único médico da cidade e amigo pessoal, para que fosse a sua casa prestar socorro a sogra.
Ao chegar à mansão de Sebastião, Dr. Pedro encontrou dona Escrotilda bêbada, segurando uma garrafa de vinho, desmazelada sobre o sofá e deixando escorrer pelo canto da boca uma baba untada ao oleoso farelo das empadas consumidas.
— Dona Escrotilda, a senhora não vai ao enterro? — Perguntou-lhe Dr. Pedro.
— Eu não! Aquela putinha nem queria que eu viesse morar com ela, eu tive que vir na marra! Sente aí, doutorzinho! Eu vou te contar quem era aquela putinha... — Dr. Pedro continuou em pé olhando fixamente para a cena um tanto quanto vexatória, quase ridícula. Por isso manteve o siso que a situação pedia, apesar de não ter se negado a observar o belo par de seios desnudos que Escrotilda expunha pelo vasto decote da blusa.
—...Desde menininha que aquela putinha me afrontava, sempre defendia o paizinho. Era pai pra cá, pai pra lá... Até quando se machucava em vez de gritar mãe! A pirralha gritava Paieeê!!!... E o pai era um corno frouxo! Eu enchia o otário de chifres e o frouxo ali babando na beira de minha saia. A sacana tomou as dores do pai e fugiu, foi viver de rebolado. Pode crê doutorzinho, até na cama do pai dela eu fudia com outros... E ele, aquele bosta covarde, fingia não saber. Mas a putinha não, ela dava testa, me enfrentava. Que vá para os quintos dos infernos! Que é onde está o corno do paizinho dela... — Dr. Pedro olhou-a com desprezo — Vai! Se pique, doutorzinho! Vou telefonar para arrumar um boníssimo advogado para poder começar a gastar meu rico dinheirinho... Vai! Doutorzinho. Escafede! Vai... Vai puxar o saco do açougueiro...
Dr. Pedro saiu super indignado. Sebastião era um dos poucos amigos que tinha e ele não deixaria aquela megera se aproveitar da situação. Não de um homem como Sebastião, um homem de bom coração e honesto, que veio do nada e subiu na vida graças a seu esforço e coragem, não! Ele não deixaria Sebastião passar por aquilo, principalmente neste momento de perda. — ―Ser lesado por uma bruxa, não! Mesmo sendo uma bruxa muito gostosa‖ — Pensou se recriminando por ter sentido uma demasiada atração física pela sogra do amigo.
8.
Quando Dr. Pedro chegou ao cemitério, o enterro já havia terminado. Ele encontrou Sebastião sentado sozinho na porta do Boteco de Eliel, localizado nas proximidades do cemitério ―Descanso Final‖, onde ocorrera o funeral.
Sebastião, estava em transe, segurava sobre a mesa um copo com farta dose de uísque. Dr. Pedro se aproximou em silêncio e se sentou ao lado do amigo, esticou o braço até segurá-lo, carinhosamente, pelo pulso. Sebastião sofria tormentos indizíveis. Sentia-se incapaz de falar uma única palavra e mesmo tentando se conter chorou lágrimas e lágrimas. Ressequido, ao tentar dar o primeiro gole no uísque, demonstrou seu total desequilíbrio diante da situação. Sua mão estava tão tremula que o gelo tilintava ao bater na lateral do copo de vidro. Dr. Pedro, compadecido pela dor do amigo, ficou ali, impassível, aguardando a melhora de Sebastião, para assim poder desengasgar o que descobrira. Com a paciência de Jó, ele manteve-se calado por horas. Sebastião, depois de entorpecido pelo álcool, finalmente acalmou-se e Dr. Pedro, então, pode contar com detalhes o ocorrido no encontro com Dona Escrotilda. Enquanto ele falava, Sebastião limitou-se a bater afirmativamente a cabeça, olhando fixo nos olhos do amigo até o final do relato.
A noite já encobria à tarde quando eles saíram do bar. Sebastião caminharia lentamente e contando às pedras polidas do calçamento da rua, uma a uma, enquanto rememorava seus momentos vividos ao lado de Catarina. Ao chegar em casa, em absoluto silêncio, despediu-se de Pedro com um aceno e adentrou a porta principal. Sua sogra o esperava ainda bêbada e seminua, deitada no sofá da sala de visitas. Ao notar a presença de Sebastião, desmediu-se a tagarelar:
— É isso mesmo! Os homens são todos iguais. A coitada morre e o marido fica na farra enchendo a cara no bar... Comigo não! Eu quero meus direitos...
Sebastião manteve o silêncio, continuou seu trajeto em direção à escada que dava acesso aos quartos.
— Espere aí garoto! Esperei até agora para acertarmos de uma vez qual vai ser minha parte. E não tente me enganar não! Ainda não consegui falar com um advogado, mas, esteja certo, que amanhã pela manhã eu procurarei por um.
Sebastião parou, olhou o chuço que fora de seu tio exposto sobre a lareira e deu um leve sorriso. Continuou andando, calmamente, mantendo o silêncio. Andando atrás dele, Escrotílda argumentava de modo desmesurável:
— É isso mesmo, eu não sou nenhuma idiota não, viu! Eu sei bem que tenho parte de tudo que era de Catarina. Como mãe dela, tenho meus direitos. Você não pense que eu não sei das fazendas e de tudo mais. Catarina fez questão de me jogar tudo na cara... Aquela putinha... Ao invés de me dar dinheiro me trouxe para este fim de mundo...
Naquele exato momento, Sebastião colocou a mão na boca da sogra e gritou:
— Te dou tudo sua ordinária! Amanhã...! Eu mesmo irei providenciar. Deixe-me em paz!
Escrotilda não conteve sua alegria e tentou beijar Sebastião que desviou o rosto jogando-o para trás. Então ela saiu dando pulinhos em direção ao aposento onde fora acomodada. Sebastião entrou em sua suíte e atirou-se na cama do jeito que estava e, poucos minutos depois, adormeceu. Um sono profundo apossou-se dele levando-o a
sonhar com seu falecido tio. Sebastião viu-se frente ao seu herói em espírito. João mostrava-se grande como um gigante, na mão que antes fora coto, agora estava recuperada e completa, empunhava o chuço de caçar onça. No rosto, o mais belos dos sorrisos. O antigo avental brilhava alvíssimo. E a voz tornara-se melodiosa e forte. Voz de fazer congelar o sangue ao ouvir:
―— Tião, é chegado o tempo, é chegada à hora.‖
Sebastião tentou conversar com seu herói, não conseguiu. Catarina invadiu o sonho como um súcubo a repetir:
— ―Mate-a! Mate-a no gozo! Mate-a Tião... É chegada a hora, é chegado o tempo, no gozo Tião... Mate-a!‖
A presença de Catarina, com seus agrados fantasmagóricos, excitou Sebastião que, dum sobressalto qual o pulo de gato, despertou. Ainda zonzo, notar-se-ia ereto. Então caminhou em direção ao banheiro ainda atordoado. Ao passar pelo closet separou um roupão para usá-lo após o longo e meticuloso banho que usufruiria. Durante o banho, a voz de Catarina continuava ecoando em sua mente.―— Mate-a Sebastião, mate-a no gozo‖. — Após lavar-se e enxugar-se, vestiu-se apenas com o roupão e, uma vez vestido, abriu uma das portas do guarda-roupa. Encontraria na parte superior do armário, escondido por trás de cacarecos, seu grande tesouro. O tesouro era um pequeno baú de couro contendo seus primeiros cadernos de escola, a bermuda domingueira que mantinha as mesmas cédulas de mil cruzeiros atadas por um cordão costurado na bermuda, e o canivete com cabo de madrepérola. — Presente que lhe fora dado por João, na adolescência, quando aprendera como abater gado. — Sebastião pegou o canivete e ao abri-lo lembrou-se dos olhos da vaca amarrada no tronco da mangueira de forma a expor-lhe a jugular. Ele rememorou com detalhes cada momento do abate: a estocada da lamina afiada e certeira na garganta da rês. O sangue dela espirrando em seu rosto, a corda, de couro trançado, solta na fração de segundos em que a vida pretende extinguir-se. Chegou a ouvir o baque surdo do gado no chão ao ver o tremor e a morte consumada.
Sebastião testou o fio da lâmina. Estava como uma navalha, afiadíssima. Vagas recordações trouxeram a imagem do tio e ele pensou por mais uma vez ter ouvido as palavras de apoio ditas por João espantando possíveis arrependimentos: "— Matar para comer é matar para manter a vida. Lembre-se Tião, se matou, deve-se comer, assim a morte é válida. E não se esqueça nunca do dito do bom vaqueiro‖. E mentalmente, Sebastião repetiria palavra por palavra, oração por oração, vírgula por vírgula, ponto por ponto da tal sentença: "Só a natureza produz riqueza, o dinheiro é apenas papel impresso, metal cunhado ou bits de computadores. É riqueza de força irreal, pois só existe na fantasia. Porém, uma vaca é uma vaca e parindo ela se reproduz e ainda nos dá o leite. A moeda só produz riqueza enquanto os governantes assim quiserem. Mas a vaca produz mais vacas que produzirão mais e mais vacas. Por isso, não junte moedas, junte vacas. E só abata uma vaca depois que ela já gestou o mínimo de duas vacas. E ao abatê-las o corte deve ser rápido, certeiro, para que não sofram. Por isso, filho, a lâmina deve estar muito bem afiada, e o corte deve ser pequeno e preciso para não desvalorizar o couro. É esse, o segredo, do bom vaqueiro‖.
Um baque seco, grave, estrondoso e inesperado tirou Sebastião do transe. Sabendo que os empregados haviam sido dispensados após o enterro e retornaram para seus lares. Sebastião imaginou que só poderia ser um ladrão. Por segurança, guardou seu tesouro, tendo o cuidado de colocar o canivete no bolso do roupão e desceu pé ante pé até a cozinha, onde, para seu espanto, encontraria Escrotilda completamente nua, sentada sobre a mesa numa pose bastante sensual. Um fio de champanhe escorria por entre os seios e embocava no umbigo, formando um pequeno lago que desaguava sobre curta, lisa e sedosa pelugem guiando o borbulhante para adentrar por um emaranhado de pelos púbicos, como a invadir densa floresta, até escorre por sobre a caverna qual uma cachoeira, umedecendo completamente o ambiente.
No chão, no sopé da mesa, via-se a fruteira de barro espatifada. Sobre a mesa, a garrafa do champanhe, aberta, de onde transbordava espuma para dentro da balde de prata. Sebastião olhou firme nos olhos de Escrotilda. Estavam vibrantes como os duma vaca no cio. Sebastião rapidamente fechou os olhos, e ao abri-lo viu Catarina ao invés de Escrotílda. Não notara antes a enorme semelhança entre mãe e filha. O amor por Catarina impedira-o de notar às formas e a beleza da sogra. Devagar, ele andou em direção a Escrotilda. Ela, por sua vez, sentou-se mais a beira da imensa mesa de pinho e abriu as pernas deliciosamente quando, dobrando os braços e jogando o troco para trás, formou com os cotovelos um ângulo de noventa graus. Naquela posição, Escrotilda convidava-o a possuí-la, convite aceito na mente perturbada de Sebastião. Com o roupão aberto, ele chegou a ela como um caçador com o chuço em riste e penetrou-a. Ela gemeu e ronronou como uma pantera. Com molejo felino de quem domina a arte do sexo, Escrotilda fez-se penetrar mais profundamente. O audaz caçador esforçou-se para sobrepujar a fera forçando-a a deitar-se sobre a mesa e se posicionou até penetrá-la completamente. Ofegante, iniciou agitações rudes, compassadas, em aceleração. Quando parecia estar perto de findar a batalha. A fera virou-se repentinamente deslocando-se do caçador que caiu de costas sobre o tablado, cortando-lhe, assim, a intenção da vitória iminente. A malvada sorriu e deixou que a vigorosa arma se sustentasse solta, antes de se ajoelhar para mordiscá-la, mostrando de modo claro, ser a vez da caça. Com descomunal perícia, a felina pulou sobre o amainado caçador e encaixando-se iniciou oscilações. Começou, lentamente, com movimentos rítmicos. Os mesmos movimentos e no mesmo ritmo que Catarina empregava quando se amavam. Sebastião serrou os olhos ao ouvir a voz de sua amada a ordenar-lhe: ―— Mate-a Tião! Mate-a no gozo‖. Nesse momento os mamilos da sogra retesaram repentinamente, seu ventre vibrou caprichoso em volúpia enquanto acelerava o balanço. Os olhos cintilaram gozo. O canivete no bolso do roupão inadvertidamente caiu na mesa, rolou e tocou a mão tremula do matador. Ele o abriu, olhou os olhos da fera estavam vermelhos. Vermelhos como o sangue e em
pleno gozo. Num lapso de tempo... ―O espectro de Catarina ordenava —" Mate-a Tião! Mate-a agora! No gozo... É chegado o tempo, é chagada a hora. Mate-a!"
O sangue jorrou a distância, o corpo de Escrotilda tombou sobre Sebastião com os olhos arregalados já sem vida.
Com o sexo ainda unido, Sebastião sentiu calor, ardência e o orgasmo. Em sua mente confusa não sabia se gozara pelo sexo ou pela excitação da morte. Então, livrou-se de Escrotilda jogando-a para o lado e se levantou para observar o corte na jugular. Fora perfeito, preciso com o tio o ensinara, obra de um mestre. Sebastião sentiu-se orgulhoso do corte conciso, da morte sem dor, sem dramas, sem compaixão.
Mestre na arte do açougue, Sebastião desmembrou a sogra como se desmembra um bezerro natimorto. Separou os ossos, ajuntou-os com os das vacas abatidas e os triturou para servirem mais tarde como insumo de adubo. Os órgãos internos foram pinicados, limpos e misturados aos dos carneiros, comum em uso no sarapatel. A pele, após a moagem, fora posta junto a outras carnes para fabricação de chouriças. As carnes foram cortadas com toda a maestria, embaladas e ficaram no refrigerador industrial. Afinal estava próxima a festa de São Domingos, e um bom açougueiro não desperdiça boa carne. ―Se matar tem que comer‖. E como dizia o tio João ―— da mulher e da vaca se aproveita tudo... até os gemidos‖.
Tudo fora muito fácil. A semana dada aos empregados pelo luto da morte de Catarina, facilitou em muito a Sebastião que limpou a cozinha como limpava o açougue do tio — no capricho.
Pouco depois de um mês, há seu tempo e há sua hora, após contatos políticos, Sebastião seria candidato a prefeito pelo Partido da Jovem Sociedade Cristã. Seria eleito por expressiva maioria. Não sem antes ter promovido uma grande festa de filiação partidária em homenagem a Catarina e a João, ―O matador de bois‖. Festa onde fora servido ―o maior sarapatel e o maior churrasco que a cidade de São Domingos já vira‖.
Quase ninguém dera por falta da megera, só Dr. Pedro que apenas por uma vez tocou no assunto ao perguntar, na festa, ao saborear o sarapatel, a Sebastião:
— E a gostosa da mãe de Catarina? Que fim levou? Eu bem que queria comê-la.
Sebastião negou-se a resposta, apenas deu uma estrondosa gargalhada...

SSA – BA - 1995

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Aniversário de Ariovaldo Matos, Os Dias do Medo. Romance.

ESCLARECIMENTO PRELIMINAR

Morto a 4 de janeiro de 1968, aos setenta e um anos, o senador Antônio Petrucci recompôs – por vezes dando-lhe forma romanesca – aqueles que considerou os mais importantes episódios de sua vida. Uma vida que, acredito, foi muito rica de acontecimentos. Dois ou três dias antes de expirar, ainda lúcido e após assinar seu generoso testamento (1), reafirmou o empenho de que eu expurgasse do texto quanto contribuísse, de algum modo, para lhe embelezar a personalidade. Convenientemente cadáver, queria-se nu diante da opinião pública. E não só a brasileira. Terei de investir bons milhares de dólares para traduções em italiano e em francês, obrigação que hoje não me desagrada: suponho experiência interessante ser personagem. Trabalhei com afinco, pesando e sopesando os capítulos e “notas adicionais” que me foram confiados. Quando chego ao “the end” da tarefa, penso ter cumprido, com algum zelo, a última ordem daquele a quem prestei uma colaboração que ele próprio reco…

O Desembestado ou a Escolha. —

O Desembestado
Naquele frio 21 de junho, a sra. Zulnara, piedosa e convicta irmã de Maria, contava ao esposo um episódio da existência temporal de São Luis de Gonzaga e ele, já habituado as eventuais crises religiosas de sua companheira, sentia certo prazer em escutar a narrativa que a voz tímida ia desenvolvendo: — ... e então — disse ela — um terrível surto de peste assolou a cidade de Roma. São Luiz nem padre era, ainda, mas pediu permissão aos superiores do Seminário e saiu a cuidar dos enfermos, a muitos confortando. Aquela moléstia, porém era transmissível e ele também ficou doente. Padeceu dias e dias e, afinal, mártir da caridade, morreu em 1591 com apenas 23 anos mas já estava madurinho para o céu. — Virou Santo? — perguntou Albano, com algum interesse e uma pontinha de dúvida. — Sim. Albano tinha pensado num argumento qualquer, anti-santificador, em que prevaleciam drogas químicas como sulfonas e coisas aparentadas, mas a verdade é que não chegou a concluí-lo mentalmente. Mesmo …

Um conto de Natal.

Rosa tem febre demais

Espero a madrugada e visto minha roupa de sonho. Depois, sem que minha mulher desperte, ganho as ruas de silêncio e caminho passos de quem foge, aproveitando manchas de escuridão, sombras que grandes árvores projetam. Agora atinjo as avenidas centrais. Luzes ferem os meus olhos e passam os boêmios e as prostitutas. Alguns param e olham minha fantasia de sonho — as longas barbas brancas, o vermelho manto bordado de arminho, negras botas que confundem meus pés com o asfalto. Olham e seguem e caminham, e mais rápidos são os passos porque agora sou esperado e é hora de chegar. Mais além, no largo, antes da ladeira, estão os motoristas. Dizem coisas pornográficas, contam episódios de sangue, mas eu caminho e passo e eles fazem silêncio quando me vêem. Alguns, os mais velhos, atiram moedas no asfalto e eu as recolho e seus olhos me acompanham enquanto, na outra esquina, encontro a ladeira e vou começar a descê-la. Então, voltam aos temas de antes e terei sido um sonho ráp…