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O Jantar.

O jantar.

Baiana de Salvador, praieira da Pituba, crescida nos sabores da pimenta, da farofa e do dendê, calhou-me de namorar  Herbeth. Um homem bonito, socialmente estável e muito sofisticado. Era aquele tipo de pessoa que sabia recitar, como se fosse versículos da Bíblia, uma carta de vinhos. “Você conhece a qualidade de um bom restaurante pelo garçom” – Ele afirmava demonstrando fidalguia. – “Ao arrumar a mesa o copo de vinho deve ficar a direita do copo d’água. Ao servir o vinho a regra é simples. A quantidade de vinho no copo deve ser: um terço do copo em caso de ser vinho tinto. Meio copo no caso do vinho branco e três quartos do copo no caso de espumante...”
Geralmente, era nessas horas que eu o beijava para evitar o restante da resenha. Ele sorria entendendo a minha atitude e mudava o assunto. Meu irmão caçula o adorava. Quando viajava trazia sempre um suvenir para meus pais e um brinquedo para Zé. Certa feita ele me trouxe de presente uma matrioskas, aquela boneca russa, colorida, que uma vem dentro da outra, lindas. Para mim ele explicou ser símbolo de fertilidade. Meu pai adorou, tanto que as colocou em lugar de destaque sobre uma peça de jacarandá que minha mãe herdara. Mas Zé arranjou logo uma serventia melhor para a boneca, ela, desmontada, se multiplicavam e se tornaram pinos de boliche que ele jogava com bola de meia.
Pela introdução já deu para perceber que existia uma diferença cultural entre nossas famílias. Meu pai, às vezes, disfarçava o riso das cerimônias de Herbeth. Mesmo no maior calor ele costumava se vestir com traje social fosse que fosse à hora de aparecer para me buscar. E, quase sempre, dava de cara com meu pai de pijama e meu irmão, Zé, de sunga. Eu, nessa situação, pisava em ovos. Vestia-me adequadamente e procurava me comportar elegantemente, mesmo achando ser frescura. Certa noite meus país saíram para assistir a uma peça teatral e me pediram para cuidar de Zé. Não tive como recusar o pedido. Porém eu vacilei com o feijão ao me arrumar para esperar pelo Herbeth, e o feijão queimou. Fiquei triste. Como já estava toda arrumada não quis refazer o jantar. Quando meu namorado chegou contei o acontecido. Galantemente, Heberth disse: “fique calma, amor. Vamos ao restaurante, jantaremos e traremos algo para seus pais.
Conhecendo Zé como eu conhecia, falei que seria melhor pedir pizzas. Que eu não me sentiria bem ir para longe levando Zé que aprontaria uma das suas. Após uma conversa resolvemos ir ao restaurante Chinês. O restaurante ficava quase defronte da minha casa. Aleguei que de vez em vez meu pai pedia um prato muito saboroso. Era uma carne cortada em filetes com bastante cebola e pimentão ao molho. Era sempre acompanhada de arroz chop suey. O Zé, naquela época, tinha uns doze ou treze  anos e era muito danado. Arrumei Zé e fomos ao restaurante. O lugar estava lotado, mas Zé já foi se antecipando aos outros fregueses que esperavam na fila, e, sentou-se a mesa de um casal que esperava pela conta. Assim, na maior cara-de-pau. Inteligentemente, a dona do restaurante mentiu ao dizer, na fila, que a mesa estava reservada para nós com antecedência. Acredito que Zé já devia ser conhecido na área. Visto que o garçom apressou-se em arrumar a mesa e liberar o cliente anterior.
Nessa altura vergonha alheio era o mínimo que eu sentia. Herbeth estava pálido. Sabe aquele tipo de homem que come os rolinhos da entrada com garfo e faca e com os cotovelos colados as costelas. É. Herbeth era um desses. Já Zé só usou o guardanapo quando o ameacei de lhe dar uns cascudos ao chegarmos a nossa casa. Porém, quanto a Zé enfiar o rolinho diretamente no molho não deu para evitar, ao perceber ele já o fazia.
Chegou o pedido e Zé se levantou, apanhou a chave de casa e saiu. Como ele sabia se virar eu não dei maior importância. Não demorou e volta Zé com uma vasilha cheia de farofa de manteiga de garrafa e a pimenteira com molho lambão.
Acredito ter sido ali que perdi o namorado.  Quando vi Zé encher o prato com farofa e se lambuzar não tive dúvida. Coloquei farofa também em meu prato, umas três colheres de molho lambão e comi gulosamente. Claro que como gentleman Herbeth não terminou comigo ali. Só foi se distanciando, aos poucos, até sumir. O mais engraçado é que um senhor sentado a mesa ao lado, pediu também da farofa para experimentá-la e, ao que parece, ele gostou. Tanto quê, a partir daquele dia, o restaurante Chinês passou a oferecer no cardápio, separado, a porção de farofa de manteiga e o molho de pimenta.      

    

Comentários

  1. Parece até que eu estava presente, dada a riqueza de detalhes, Vanjoca, tadinha como sofreu kkkkkkkkkkkkkkk

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