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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

O Palhaço.

O Palhaço
Trajado com enorme calça florida que comportaria três pessoas de peso equivalente ao dele, tendo costurado na altura da cintura um bambolê por entre o cós da calça e seguro por suspensórios verdes que sobrepunham camisa de seda amarela, ornada com grandes círculos coloridos; Florentino sentou-se em frente ao espelho. Com o coração apertado, relembrou pela zilionésima vez do dia em que se despediu de casa. Deixara para trás a mulher que amava e nela os olhos lacrimejantes. Eram especiais aqueles olhos transparentes, vítreos, com apenas leves intenções de azul que lhe expunham, sempre, os sentimentos mais profundos. Enquanto empastava o rosto com pigmentos coloridos, recordar-se-ia, igualmente, do açude seco, do gado morto, da fome que passara e da dor que sentira ao deixar o sertão baiano motivado pela seca. Partira junto aos mambembes para São Paulo carregado por sonhos de melhores dias. Esquecera-se apenas da promessa feita à mulher de olhos vítreos que retornaria para busc…

Amor em Wi Fi

Madrugada. Fazia um frio de congelar pinguim quando deitei em minha cama sob o edredom. Sonhei que acordara numa grande festa onde condicionadores de ar refrigeravam em demasia o ambiente. Os casais, finamente vestidos, rodopiavam em valsas completamente fora do ritmo, já que a banda tocava, em estrondosa altura, o sucesso “saia de bicicletinha” de Aviões do forró. Andei até o balcão ao fundo do imenso salão na tentativa de beber um conhaque ou mesmo solver um gole de cachaça para me aliviar do frio intenso. Então, apareceu do nada, sobre o palco um senhor alto e de porte nobre que carregava na mão um cajado. Ele bateu, firme, por três vezes a ponta do cabo do bastão, de prata, no piso de madeira, interrompendo o festejo. Vinda do outro lado do salão uma voz feminina perguntou-lhe: — Senhor! Encontrou o amor? Ele ainda existe? Ele, secamente, respondeu: “Não. Não existe mais amor.” Olhei os rostos dos casais mais próximos e pude notar, nitidamente, a decepção impressa em seus semblantes…

A Barraca de Geraldo.

A barraca de Geraldo.
Sábado de sol. Eu sem um centavo. O dia me parecia um daqueles dias com toda pinta de ser chato. Pensei em ler um livro, mas o calor em meu apartamento estava angustiante. Então, ocorreu-me a brilhante idéia de ir tomar algumas cervejas, fiado, na barraca de Geraldo. Vesti uma bermuda surrada e coloquei uma camiseta, dessas bem vagabundas que são distribuídas em campanhas políticas. Calcei as havaianas e caminhei lentamente em direção à barraca. De longe já dava para ver Geraldo com seu bigode, tal qual o ditador, que dera causa ao apelido de Sadam. — Sadam! — Gritei ao me aproximar — Ponha uma mesa na sombra da amendoeira e me traga uma cerveja. Gelada! Bem gelada! — Até hoje não entendo por que pedir a cerveja gelada? Nunca vi ninguém pedi-la natural ou saber de um garçom que realmente, a seu gosto, atendesse a exigência... — Dois minutos, Gordo. — Sadam respondeu-me e foi apanhar a mesa e quatro cadeiras de plástico para colocá-las sob a sombra da amendoeir…

A morte do senador.

O ambiente é asséptico. Um amplo quarto de hospital.  O Senador, deitado numa cama, saíra de UTI, não havia mais como adiar o fim de sua vida. O término da vida é uma realidade que todos teremos que enfrentar. O medo estava presente, aterrador, mas não havia outra coisa a ser feita além de enfrentá-lo. A “doutora da morte” entrou no quarto, -- Uma linda mulher, aparentando trinta anos, pele alva, olhos e cabelos negros de tamanho médio que lhe cobriam os ombros, tinha estatura mediana, um corpo torneado e seios médio. O corpo e o rosto respondiam aos critérios básicos da beleza: simetria e harmonia plástica. Vestia-se de branco, como um anjo, sem adornos ou maquiagem. – Ela caminhou até chave regulável da luz e a deixou em meio tom.  Olhando nos lhos do paciente perguntou com voz calma e suave. -- Sente dor? Física? Não. Mas estou apavorado. – Respondeu cabisbaixo o paciente. -- O senhor quer um calmante? Sim. Seria bom. Mas não quero dormir... E minha família? -- Es…