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A Barraca de Geraldo.


A barraca de Geraldo.

Sábado de sol. Eu sem um centavo. O dia me parecia um daqueles dias com toda pinta de ser chato. Pensei em ler um livro, mas o calor em meu apartamento estava angustiante. Então, ocorreu-me a brilhante idéia de ir tomar algumas cervejas, fiado, na barraca de Geraldo. Vesti uma bermuda surrada e coloquei uma camiseta, dessas bem vagabundas que são distribuídas em campanhas políticas. Calcei as havaianas e caminhei lentamente em direção à barraca. De longe já dava para ver Geraldo com seu bigode, tal qual o ditador, que dera causa ao apelido de Sadam.
— Sadam! — Gritei ao me aproximar — Ponha uma mesa na sombra da amendoeira e me traga uma cerveja. Gelada! Bem gelada! — Até hoje não entendo por que pedir a cerveja gelada? Nunca vi ninguém pedi-la natural ou saber de um garçom que realmente, a seu gosto, atendesse a exigência...
— Dois minutos, Gordo. — Sadam respondeu-me e foi apanhar a mesa e quatro cadeiras de plástico para colocá-las sob a sombra da amendoeira.
— Bavária ou Antártica? — Perguntou-me após arrumar mesa e cadeiras.
— Qualquer uma, e traga também um conhaque — Respondi ao puxar a cadeira para sentar.
Já sentado, deixei meus pensamentos vagarem. Lembrei-me da amendoeira a meio palmo do chão. Hoje frondosa, foi testemunha de sorrisos e lágrimas dos muitos que freqüentavam aquela barraca. Olhei novamente Sadam e conclui que se ele fosse português, não pareceria tanto com as caricaturas pertinentes aos nossos ancestrais lusitanos. Divaguei sobre a preferência dele por mulheres negras, baixas, fartas de bunda e seios. Foi quando fui interrompido em meus pensamentos por Walter: Homem magro, de cabelos grisalhos, o rosto marcado pela idade. No corpo trazia cicatrizes de um atropelamento sofrido na cidade do Rio de Janeiro. O acidente deixou séria sequela. A perna esquerda ficara mais fina, sem os movimentos da rótula, que dava causa à alcunha de Capitão Gancho.
— E aí? Gordo? Posso tomar uma com você? — Perguntou-me.
— Claro Capitão, sente-se. — Respondi em tom de brincadeira.
— Não gosto do vulgo. — Walter me avisou postando um siso no rosto.
— Qual é? Walter! Relaxa.. Nossa amizade não foi feita na porta de um meretrício... Foi dentro!
Ao tempo que Geraldo era solicitado por outros freqüentadores. Walter se levantou, caminhou até a barraca, apanhou um copo e, sem pedir autorização, ligou o rádio. Um pagode do tipo “brega moderno” estava tocando: “Lá vai Raimunda passeando pela feira / Vai conduzindo a bunda orgulhosa...”.
Walter retornou e se sentou novamente ao meu lado, encheu o copo, levantou o braço, e exigiu outra cerveja. Notei no balcão a presença de Beto. — Beto é uma dessas figuras divertidíssima e, a cada encontro, traz sempre uma nova e imaginária aventura sexual a relatar. Costuma andar com os cabelos zelosamente penteados, por força da brilhantina, apesar de serem raros os fios que lhe restam. A camisa, no estilo social fino, está costumeiramente com as mangas enroladas até os cotovelos e mantém os botões centrais a ponto de estourarem devido a uma imensa barriga arredondada, que mantém o cós da calça abaixo da linha da cintura. Os sapatos trazem sempre um lustro impecável, ainda que seja um modelo 747 da Vulcabrás. Bem falante e amável, Beto se intitula atendimento de publicidade. Um nome mais bordado para vendedor de anúncios de Catálogo Telefônico. Vaidoso, ele conduz e conversa com a bossa do bom malandro, do vendedor esperto de fala manhosa e agradável. — Ao vê-lo, Walter o convidou para vir a nossa mesa. E já sabendo o que ocorreria, lançou maledicente pergunta em tom irônico:
 — Andas fodendo muito, Beto?         
Apressada e desastradamente, Beto puxou uma cadeira e a colocou  junto a nossa mesa. Empolgado, depois dos cumprimentos de praxe, iniciou a resenha:
— Oi Gordo! Walter, tudo bem? Não te conto... Sai com uma coroa ontem que era um pitéu. Tinha cerca de trinta e poucos anos. Não vou dizer o nome da santa, mas a título de transmitir a experiência é justo contar o milagre. Estava tomando uma cerveja após ter fechado um contrato rendoso, quando observei vindo em minha direção aquele monumento de mulher. Toda durinha. Sabe como é? Coroa tipo academia. Ela veio e parou junto ao orelhão próximo a mim. Tentou telefonar, mas o cartão dela estava vazio. Sei disso porque ela se virou e caminhou ao boteco para tentar comprar outro cartão novo. Só que no boteco não tinha. E eu, que não sou besta, ofereci meu celular emprestado. Ela apanhou o celular, andou uns metros, deu o telefonema e voltou para me devolver o aparelho. Notei que ela estava apreensiva, então a convidei para tomar cerveja. Ela aceitou. Papo vai, papo vem. Ofereci carona. No carro, em meio à conversa, coloquei minha mão no ombro dela. Ela deixou. Eu desci a mão e coloquei na cocha, mas com jeito, delicadamente. Aí notei que os biquinhos dos peitos dela ficaram arrepiadinhos. Encostei o carro... Ah! Gordo... Que peitinhos! — Colocando os dedos indicadores por baixo da camisa, Beto mostrou mimicamente a opulência dos seios descritos. — Puta que pariu, Walter! Que tetas! Fiquei logo alterado. Aí peguei a mão da distinta e coloquei direto no “Bráulio”. O bicho duro... Teso! Chegava a doer. Ela deu uma apertadinha e retirou a mão. Eu nessa hora já me tremia todo. Ela nem se fala. Tomei a iniciativa e corri a mão por baixo do vestido. Puxei a calcinha e meti o dedo. Ela segurava meu punho, mas deixava. Com a outra mão, segurei no cangote dela e lasquei um beijo naquela bocarra carnuda. A coroa estava toda molhada, visgava que nem quiabo — Mais uma vez, para melhor ilustrar o ocorrido, Beto coloca o indicador e o polegar nos lábios, molha-os de cuspe e, abrindo e fechando os dedos, imitava o lubrificante vaginal feminino — Aí não teve jeito, ela me intimou para irmos ao motel. Eu não estava lá com muita grana, mas não economizei. Fui direto para o melhor. Chegamos lá e eu escolhi logo uma suíte. Piscina, banheira de hidromassagem, espelhos no teto, sauna e as porras...
Walter, já arrependido, apressa-o.
— Vai Beto! Pare de fazer propaganda de motel e conta logo.
— Onde eu estava? Sim. Entramos no motel sem uma palavra dita. Ela já foi tirando a roupa e ficou só de calcinha. No tirar a roupa ela dançava aquela dança dos sete véus. Aquela dança Árabe... Vocês já viram, não? A essa altura tive que me controlar para não ir logo metendo... Então peguei a princesa. Deitei-a de costas na cama e comecei a chupá-la. Comecei nos peitinhos e ao mesmo tempo meus dedos acariciavam o clitóris por cima da calcinha. Aos poucos fui descendo. Lambendo todo o corpinho dela. Arranquei a calcinha e meti a cara. Separei os pentelhos com a língua! Pêlos fartos! Não como dessas adolescentes que cortam bem baixinho ou raspam tudo para o short entrar na racha. Não! Pêlos fartos, sedosos... Já chupou uma boceta, Walter?
— Já. Claro! Mais assim ensebada? Sem tomar um bom banho antes? Não! Fede a bacalhau.
— Porra nenhuma, Walter. – Retrucou Beto -- É cheiro de fêmea. Mas, me deixa continuar... Como estava contando. Meti a cara. Ela começou a esfregar aquele bocetão em minha cara e mexia como doida. Gemia e implorava que eu lhe metesse a pica. Não vacilei! Dividi em banda. Enfiei com vontade até o talo. Mesmo molhada ela era apertadinha. Parecia uma moça. Demorou quase duas horas para gozarmos. Eu ia segurar por mais um tempo, mas notei que ela estava gozando e não me contive. Gozei dentro, ao mesmo tempo que ela, e sem camisinha nem nada...
Um rapazote sentado junto à mesa ao lado, não tendo o que fazer, intrometeu-se:
— Sonhar é bom e é de graça.
Beto não lhe respondeu, apenas o olhou por sobre o ombro. Depois, despediu-se e saiu. A essa altura eu implorava por um local onde pudesse urinar. Andar de volta até meu apartamento estava fora de questão. Olhei para os lados buscando uma solução. Notei que Valdomiro estava abrindo sua barraca na outra esquina, e sendo ele zelador do terreno baldio em frente, poderia me ajudar abrindo o portão. Caminhei lentamente segurando as Antárticas e Bavária em minha bexiga. Os vinte e poucos metros que separaram as barracas me pareceram quilômetros. Cheguei ao terreno, gentilmente aberto por Valdomiro, urinei caudalosamente junto ao muro, onde obtive um maravilhoso alívio.
Ao retornar a minha mesa observei que o gaiato que estava junto à mesa ao lado já tinha ido embora, o que me alegrou. Walter, ainda em bom estado, já havia colocado outra cerveja na mesa. Aproveitei e pedi outra dose de conhaque. O sol mais ameno devido a nuvens me deixava sentir a leve brisa do mar. Entre um papo fiado e outro entardecia. Jovens, que retornavam da praia pararam para beber algumas. Som do rádio convidava a dançar. Uma garota de aproximadamente quinze anos, com um curtíssimo vestido amarelo, tendo as mãos amparadas nos joelhos, empinou a bunda em nossa direção e, obscenamente, requebrava-se. Gel, filho de Sadam, que acabara de chegar, aproximou-se da nossa mesa e questionou:
— Vai ali, Gordo?
            — Trezentas camisinhas, quatro cervejas, cinco conhaques e certo do arrependimento, meto rola. — Respondi.
            — E você? Walter. — Perguntei.
            — Do jeito que estou aqui como até na mãe dela.
            Gel, com olhar fixo na jovem, disse:
            — Walter não perdoa... Mata!
            A demora do conhaque me levou a protestar:
            — Sadam! Cadê a porra do conhaque! Só porque é fiado?
            Gel se antecipou ao pai e foi apanhar o conhaque. No retorno, trouxe também outra cerveja. Walter avisou:
            — Gordo, só vou beber mais esta.
            — É cedo, Walter. Vai por quê? — Questionei tendo ciência que era apenas uma forma de ele me avisar que o seu dinheiro acabara.
            — O que foi, Walter? Já ta chumbado? — Gel perguntou.
            —Não! Mas tenho de ir.
Gel, apontando o senhor do outro lado da rua que se aproximava, comentou:
— Chegou o Mestre Antonio. Vou me picar, não entendo nada do que esse velho fala. Ele é chato pra porra. Tchau, Walter! Até mais, Gordo. – E foi saindo em direção à praia.
    Tchau, Gel.Obrigado.— Gritei.    
            — Gordo, vou também. Estou quase sem grana e não sou nenhuma arruela-de- encosto. – argumentou Walter.
— Que porra é arruela-de-encosto? Walter. Perguntei.
— É o cara que bebe, sai, e deixa a conta para os outros pagarem.
— Fique, Walter. Estou bebendo fiado, depois eu acerto a conta.
O Mestre Antônio caminhou lentamente até a nossa mesa. Notei que ele ficara feliz com minha presença. Com seus quase oitenta anos, é difícil para ele conseguir atenção. Antônio trabalhou como professor durante grande parte da vida, onde adquiriu o habito de transmitir seus conhecimentos sem se importar se os outros querem ou não ouvi-lo. Somado a isto, fala pausadamente e possui certo grau de surdez, o que aborrece os mais jovens. Porém, agrada-me bastante o raciocínio pueril dele sobre a vida. Walter se levantou e o ajudou a sentar, eu puxei assunto. 
-- E aí, Mestre. Como vai a força?
— Vai indo, meu jovem... Levando como Deus quer.
Walter se levantou e foi apanhar outra cerveja. Aproveitou e trouxe uma dose de pinga para Mestre Antônio. Ao retornar entregou a dose de pinga, serviu-se da cerveja e perguntou:
    E aí, mestre Antônio. Como vai a patroa?
Mestre Antônio agradeceu a gentileza de Walter e respondeu:
— Vai bem, meu filho... Obrigado pelo digestivo... — E você, Gordo... Continua um epicurista?
    Quem sou eu, Mestre? Eu bem que queria.
    O que é epicurista, Mestre? — Perguntou, Walter desconfiado. .
— É um tarado glutão, para ser mais simplista. — Antecipei-me na resposta.
— Visto de uma forma esdrúxula... É. É isso.— Completou Mestre Antônio, dando pequeníssimos goles na dose de pinga e completou — São poucos os que sabem viver como você, Gordo. Olhe em volta, veja quantas vidas desperdiçadas.
            — Talvez não, Mestre. As coisas mudam em sua constância. São jovens. No final aprenderão...
—.Não creio, Gordo. Vejo-os como ovelhas sem pastores... Estão todos perdidos, todos em seus mundinhos mesquinhos e consumistas. Perderam-se os valores necessários a felicidade. A mídia deformou-os de forma malsã... São todos escravos, escravos do dinheiro, escravos do consumo, escravos da concupiscência.
— Nem tanto, Mestre. Estão vivendo a adolescência de modo mais livre, sem tantos preconceitos. Vivem a sexualidade sem culpas, divertem-se muito mais do que eu divertia-me nessa idade...
— É, Mestre. — intrometeu-se Walter — Estão trepando adoidado. Eu só fui conhecer mulher aos dezessete anos, e no brega. Nem as putas, em meu tempo de jovem, aceitavam ter relações sexuais com adolescentes. Diziam que não iam desmamar menino. Mesmo pagando, elas se negavam...
— É... Isto é fato. — Respondeu-lhe o Mestre Antônio completando — Também iniciei minha vida sexual em um prostíbulo. E por certo nos prostíbulos que freqüentei o respeito era exigido. Existia mais respeito em um prostíbulo em meu tempo de jovem que existe nos bares de hoje em dia. Mas, quando falei estava referindo-me a consciência do prazer. Se o sexo pelo sexo fosse o ápice do prazer, a vida não valeria a pena. Entenda de forma clara o significado da sentença, meus jovens. Vou repeti-la: Se o sexo somente pelo sexo fosse o ápice do prazer à vida não valeria a pena. Hoje, eu não tenho noção se o que eu falo é significativamente inteligível. Vejo que os ditos são pouco assimilados nos seus conceitos...
— Valer a pena é entendido como... — Walter, ao interceder, perdeu-se na explicação. Então mediei.
            — Ele quis dizer que se numa relação sexual, feita por fazer, ou seja, sem amor, fosse o máximo dos prazeres que um ser humano conseguiria atingir na vida, ela, a vida, não valeria os sofrimentos que nos impõe. Entendeu?, Walter.
            — Eu já tinha entendido, Gordo.— Respondeu-me Walter.
— Mesmo com amor, meus jovens. Mesmo com amor. — Posicionou-se o mestre Antônio — A chave da felicidade vem do conhecimento. Conhecer-se é o que realmente importa. Até para saber quais os prazeres que nos preenchem é necessário conhecimento. Muitos vivem fazendo coisas achando que obtém prazer porque lhes é dito que aquilo lhes dá prazer. Muitos até fingem ter prazer para não se sentirem de fora. Os jovens de hoje comem por comer, não apuraram o paladar. Bebem apenas para ficarem bêbados. Eles desconhecem as fragrâncias das flores. Não saboreiam as melodias musicais e não vislumbram as paisagens. Sequer sabem observar uma obra de arte e não se embriagam com a beleza das poesias. Eles vivem por viver... Na verdade, só uns privilegiados sabem realmente como obter os verdadeiros prazeres da vida. Muitas dessas mulheres desfrutáveis de agora “ficam” com diversos homens sem nada sentirem. Finge prazer, mas não os têm. Paras alguns homens, e conheço muitos deles, o prazer vem de contarem suas aventuras sexuais. Talvez seja por isso a necessidade de escolherem mulheres lindas e muito jovens. Gozam mais ao contar do que no próprio ato amoroso.    
— Divirjo, Mestre Antônio. Fazer amor, em meu conceito, é sempre sublime. O amor é a mola mestra dessa engrenagem que é a vida. Claro que é necessário epifania, como dizem os Poetas... Encontro de corpos e espíritos concomitantes e harmônicos... De preferência regado a bom vinho, em local tranqüilo e com tempo necessário aos aconchegos... E claro, com uma fêmea dengosa, de pele aveludada, cheiros suaves e carne tenra. Se bela, melhor. Mas é dispensável a beleza se há um verdadeiro envolvimento, se houver cumplicidade e intimidades mesmo que momentâneo. No entanto, não rejeito uma xoxota. Mesmo que a proprietária da citada nada sinta por mim, esteja bêbada, ou seja, débil... Xoxota é xoxota, cerveja é cerveja e dinheiro é dinheiro... O resto é poesia.
            — Você é um bonachão, Gordo... É um descarado de boa índole. Raro, raríssimo em nossos dias.  
— Obrigado, mestre Antônio. — Olha quem vem de lá. É Almiro. Grande pessoa, figura finíssima. — Dirigindo-me a Almiro levantei-me e gritei — Almiro! Venha tomar uma...
Almiro chegou a nossa mesa e sentou-se. Walter levantou-se novamente, caminhou até a barraca e voltou com outra cerveja, um conhaque para Almiro, outra dose de pinga para o mestre Antonio, e sentou-se permanecendo calado.— Almiro é um ex-delegado da policia civil, aposentado. Agora advoga na área de direito trabalhista. Pode-se dizer que ele é possuidor de um coração afetuoso para com os amigos, e extremamente amoroso com o único filho, em fim, um homem de bem. Dada sua descendência, não demonstra a idade que tem, parece muito mais jovem do que realmente é. Sua pele morena puxa por um estranho marrom, sua cor e feições lembram as do quadro intitulado “Mestiço”, do mestre Cândido Portinari. — Olhos esticados, lábios grossos, nariz alargado um tanto arrebitado, queixo afilado, pescoço grosso e é fisicamente forte. Aliais, se não fossem os cabelos lisos de Almiro, e a data da obra de arte, acreditaria que ele serviu de modelo para a pintura do quadro. O certo é que, com a chegada de Almiro, a conversa ganhou uma direção mais lírica. Ele e mestre Antonio são leitores e admiradores de poesia, apesar de admiradores de linhas poéticas distintas. — Almiro tende mais a poesia moderna e o Mestre Antonio prefere a poética advinda da literatura portuguesa, com rimas e métricas formais. — Não demorou a mestre Antonio instigá-lo:
            — Então, Almiro. O que tem de novo no mundo poético?. 
— Não muito. Li alguns poemas que vi em uma velha revista que achei num sebo. Na verdade comprei a revista por indicação de um amigo. Encontrei lá artigo publicado, que relata o movimento literário dos poetas do mimeografo. Contém poesias interessantes. Eu não decorei todas, mas tenho algumas de memória. Querem que eu declame. 
— Claro! Caro amigo. Faça-me este obséquio. — Pediu Mestre Antônio.
            Almiro declamou trecho de um poema intitulado “Liberdade, ‘em honra a Tiradentes’, de Marco Antônio Maia Souto”. “ — Arranquem do chão / As marcas dos meus passos / Mas cortem de mim as pernas / Senão outras aparecerão. / Tirem-me a língua, / Arranquem os olhos / A retina, / Firam o mais fundo os meus tímpanos. / Depois exibam aos homens a obra prima forjada. /  E eles terão na deformação de minha carne o retrato do opressor”.
Walter levantou-se em aplausos, seguia o hábito de puxar-o-saco do ex-delegado. Eu aprovei a escolha e teci comentários favoráveis. Mestre Antônio levantou-se, e fazendo voz de tenor também declamou: “Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida descontente, / Repousa lá no céu eternamente, / E viva eu cá na terra sempre triste. /.../ Se lá no assento etéreo, onde subiste, / Memória desta se consente, / Não te esqueças daquele amor ardente, / Que já nos olhos meus tão puro viste. /.../ E se vires que pode merecer-te / Alguma cousa a dor, que me ficou / Da mágoa, sem remédio, de perder-te, /.../ Roga a Deus, que teus anos encurtou, / Que tão cedo de cá me leve a ver-te, / Quão cedo de meus olhos te levou”.
            — Soneto de Luiz Vaz de Camões é covardia. Mas, rebato – Disse Almiro levantando-se: “A soberba me arrebata/ A uma total perdição,/ E com esta condição / Em vez de vida, me mata. / Sem ver como, me maltrata; / Em vez de céu, dá-me inferno / Que há de ser um fogo eterno, / Onde a quem é pertinaz / Atormente Satanás / Inimigo sempiterno...” 
O mestre Antonio acomoda-se. Almiro aplaude-o. Walter o segue nos aplausos. Almiro completa — Gregório de Matos Guerra. A língua maldita... — Quinze, porteiro de um condomínio próximo que se aproximara sem ser notado. Pousou a mão sobre o ombro do mestre Antonio e também declamou uma poesia:
— Em meio a nobres senhores / Meu infortúnio vou contar / Não riam doutores, lhes imploro, antes de tudo acabar. /.../ Era Santa beleza nua / Toda minha sobre o leito / Convidando-me a pecar./.../ No fervor só de quem ama, /Atirei-me para a cama num rebento / Mas, para o meu desalento / Escorreguei na calcinha / Indo bater as bolinhas, / Na beirada do altar /.../ Oh! Dor.
            Todos riem. Almiro e mestre Antônio levantam-se. Almiro caminha até a barraca e paga toda a conta. Despede-se e explica que tem que ir ao estádio de futebol com o filho para assistirem ao Ba-Vi, por isso, um clássico. Mestre Antônio já com os olhos avermelhados e em estado alcoólico pré-cambaleante, pede a Walter para acompanhá-lo até sua casa. Walter despede-se e sai com o mestre Antônio. Quinze, todo vestido de branco e com um torço na cabeça, senta-se a meu lado. — Contam que ele costuma se fingir de Pai de Santo bicha para compor a sua personagem e faturar jovens ingênuas.
— E aí Gordinho, rasgando muito? — Ele me perguntou.
— Papel molhado, meu amigo. Você vai ao terreiro?
— Só mais à noite.Vim jogar uma partidinha de dominó.Você joga?
— Jogar eu jogo. Mas ali é campeonato e é apostado. Sou contra jogar a dinheiro, pode terminar em briga.
— É. Às vezes acaba em discussão, mas porrada mesmo eu nunca vi.
            — Fique a vontade, Quinze. Só me conte essa história de você levar as meninas para descarrego. A galera estava contando quê...
            — É papo, Gordo.     
— É que a galera está dizendo que você está faturando até umas donzelas. Muito cuidado que pode dar cadeia...
— É. Tenho umas amigas. Adolescentes acima de quarenta anos. Umas madames que se separaram e estão na seca. Se você quiser lhe dou o canal. Os coroas de agora só querem as menininhas. Já eu prefiro panelas velhas. O caldo é mais gostoso e rende uns trocados...
Da mesa ao lado um alvoroço explode após um estalo gerado por uma pedra de dominó batida sobre a mesa que nos desperta.
— Chorou! Chorão levanta... Quinze, você vai?
— Vagou Gordo, vou jogar. Tchau.
         Levantando-se, Quinze foi jogar dominó. Sadam, do balcão, perguntou-me:
    Tava ouvindo cascata, Gordo.
— Quem sabe? Traga-me outra gelada e outro conhaque. Sadam, por favor, aumenta o rádio.
Sadam, mudando a estação do rádio, aumentou o volume. Agora estava tocando especial de Amado Baptista. Vejo-me só e desvio o olhar mirando a barraca. Algumas adolescentes, as vindas da praia, permaneciam na barraca. Os "filhinhos de papai" às cercavam como abutres em volta de carniça. Alguns mais afoitos chamavam-nas para dançar, outros, soltavam piadas obscenas, outros ainda, ofereciam cerveja. E assim os casais foram se formando, uns se beijavam em plena rua, outros saíram em direção ao parque. Os mais tímidos só andavam e conversavam. Com isso, a barraca foi esvaziada. Pedi mais uma cerveja e outro conhaque. Sadam sentou-se ao meu lado. O cansaço estava estampado em seu rosto. O silêncio mostrava que seus pensamentos vagavam pelo ar, minutos depois, uma nova freguesia formava-se. Agora era hora dos casais de banho tomado. Um cheiro de Leite de Rosas atingiu suavemente o meu nariz. Uma imensa lua amarela rasgava o céu. Distraído, senti duas mãos femininas taparem os meus olhos. Tentei adivinhar quem seria, mas foi em vão. Com os olhos embaçados, notei uma linda morena. Suas feições não me eram totalmente estranhas, no entanto, restava-me apenas uma vaga lembrança do seu rosto. Perguntei-lhe o nome meio sem graça, ela respondeu-me:
— Rosa Maria.
— Sente-se — pedi-lhe.
— Lembra-se de mim, Gordo?
— Lembro-me, mas não sei de onde. Nem do seu nome. Perdoe-me.
— Sou Rosa, fui babá de seu filho.
— Claro! Agora me lembrei. Você era uma garotinha magrinha, tinha doze ou treze anos?
— Quatorze.
— Virou uma linda mulher.
 — O filhote, como vai?
— Bem. Já está com nove anos. Foi morar no interior do estado com a mãe.
— O senhor se separou?
— Sim. Faz algum tempo. Como adivinhou?
— Eu soube por uma amiga minha que o senhor havia se separado. Mas, imaginei que vocês voltariam. Era um amor roxo.
— Foi bom enquanto durou.
— E as namoradas?
— No momento estou só.
— Olha lá! Não quero ter problemas com namorada ciumenta.
— Bobagem, sente-se. — Repeti o convite.
— Posso chamar minha amiga para se sentar aqui comigo?
— Claro, princesa. Para mim é uma honra.
Rosa acena para a barraca de Valdomiro. Olho seu corpo, seu rosto. Espanto-me com tanta beleza. A pele bronzeada. Os olhos cor de mel. Um rosto perfeito. Os seios grandes e sem sutiã desafiavam a lei da gravidade, eram divinamente sensuais e harmonizavam com o belíssimo corpo. A amiga, sem cerimônia, sentou-se antes de Rosa, e foi pedindo:
— Posso tomar um refrigerante?
— Claro! — Sadam! Uma cerveja para mim e dois refrigerante — Gritei — E você Rosa? Está trabalhando por aqui?
— Não senhor. Só estou acompanhando Maria.
— Senhor está no céu. Pode me chamar de Gordo.
A amiga de Rosa interrompeu-me.
— É esse o patrão que você me falou?
Rosa ficou sem graça.
— Falou... mal ou falou bem? — Perguntei.
— Gordo, essa mulher fala no senhor desde que soube que o senhor tinha se separado. Ela é "arriada" pelo senhor os quatros pneus e o socorro. Vou indo. Obrigada pelo guaraná. Depois eu trago o casco. Não vou ficar aqui segurando vela. Tchau.
— Rosa, é verdade? Você gosta mesmo de mim? — Perguntei-lhe. Involuntariamente minha voz vibrou baixa e rouca.
Com as mãos tapando os olhos, ela balançou a cabeça afirmativamente.
— Não precisa ficar assim. Olhe para mim. -- Fiz-lhe o pedido repleto de carinho.
— Estou com vergonha.— Ela me respondeu meio sem jeito.
Senti meu corpo tremer. Coloquei a mão no queixo dela e beijei-a. A princípio um curto beijo. Logo depois, um outro beijo mais longo. Uma gostosa sensação invadiu-me o espírito. Um calor tomou-me o corpo. Olhei-a nos olhos e quase que gaguejando perguntei:
— Você tem namorado?
— Não. — Ela respondeu-me segura.
— Quer me dizer algo?
— Quero que o senhor seja meu primeiro homem. Quero passar uma noite com o senhor. Quero que o senhor faça comigo o que fazia com sua esposa. O senhor faz?
— Com enorme prazer. Mas, como assim, igual ao que eu fazia? — Questionei.
— Não ria não, mas eu ficava olhando pela janelinha do banheiro. O senhor deixava a porta do quarto aberta. Eu subia na pia da área de serviço e via tudo. Ficava sonhando que um dia seria eu ali, sendo amada pelo senhor. O senhor sabe por que sua mulher me demitiu? Não sabe? — Ela me encontrou beijando uma foto sua. Eu roubei uma foto sua de um álbum e guardava em meu quarto. Ela descobriu e me mandou embora.
Segurei Rosa pela mão. Saí com ela sem dar uma só palavra. Fomos para meu apartamento. Fiz amor com Rosa, como se ela fosse a primeira e a última mulher a quem tivesse amado. Na manhã seguinte, ao acordar, encontrei um bilhete sobre a mesa junto ao desjejum já posto sobre a mesa:
     “ Amor. Foi tudo muito melhor do que sonhei. Estou indo para minha cidade natal. Fui pedida em casamento e vou me casar no domingo que vem. Sei que você não se casaria comigo, mas não faz mal. Se tudo der certo, venho mês que vem para Salvador com meu marido. Notei que você está sem empregada. Pode ter certeza que me disponho ao cargo. Sejamos então amantes. Beijos, Rosa”.
     PS: Deixei o café pronto, e no forno as torradas que o senhor tanto gosta. Beijos, beijos, beijos.”



Rosa Maria.

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O Desembestado ou a Escolha. —

O Desembestado
Naquele frio 21 de junho, a sra. Zulnara, piedosa e convicta irmã de Maria, contava ao esposo um episódio da existência temporal de São Luis de Gonzaga e ele, já habituado as eventuais crises religiosas de sua companheira, sentia certo prazer em escutar a narrativa que a voz tímida ia desenvolvendo: — ... e então — disse ela — um terrível surto de peste assolou a cidade de Roma. São Luiz nem padre era, ainda, mas pediu permissão aos superiores do Seminário e saiu a cuidar dos enfermos, a muitos confortando. Aquela moléstia, porém era transmissível e ele também ficou doente. Padeceu dias e dias e, afinal, mártir da caridade, morreu em 1591 com apenas 23 anos mas já estava madurinho para o céu. — Virou Santo? — perguntou Albano, com algum interesse e uma pontinha de dúvida. — Sim. Albano tinha pensado num argumento qualquer, anti-santificador, em que prevaleciam drogas químicas como sulfonas e coisas aparentadas, mas a verdade é que não chegou a concluí-lo mentalmente. Mesmo …