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A morte do senador.


            O ambiente é asséptico. Um amplo quarto de hospital.  O Senador, deitado numa cama, acabara de sair da UTI, não havia mais como adiar o fim de sua vida. O término da vida é uma realidade que todos teremos que enfrentar. O medo estava presente, aterrador, mas não havia outra coisa a ser feita além de enfrentá-lo. A “doutora da morte” entrou no quarto, -- Uma linda mulher, aparentando trinta anos, pele alva, olhos e cabelos negros de tamanho médio que lhe cobriam os ombros, tinha estatura mediana, um corpo torneado e seios médio. O corpo e o rosto respondiam aos critérios básicos da beleza: simetria e harmonia plástica. Vestia-se de branco, como um anjo, sem adornos ou maquiagem. – Ela caminhou até chave regulável da luz e a deixou em meio tom.  Olhando nos lhos do paciente perguntou com voz calma e suave.
-- Sente dor?
Física? Não. Mas estou apavorado. – Respondeu cabisbaixo o paciente.
-- O senhor quer um calmante?
Sim. Seria bom. Mas não quero dormir... E minha família?
-- Estão no lobby. Aguarda sua autorização para vê-lo. O senhor quer, antes, a visita de um Padre ou um Pastor? É sempre bom se reconciliar com Deus.
Deus, Doutora?
-- Minha experiência mostra que até alguns agnósticos ou ateus, nesta hora, resolvem mudar de ideia. Um deles até me citou, ao modo dele, Rousseau: “Na dúvida, é melhor crer”.
Jean-Jacques Rousseau não escreveu isso...
-- Não sei. Não o li. Mas ideia é boa.
Não é que eu não acredite em Deus, Doutora. Minha alma, assim dizendo, já tem dono. E não é de Deus.
-- Não diga bobagens, Sr. Eduardo, toda alma tem salvação. Basta que se arrependa honestamente dos pecados cometidos. Deus é amor. E está sempre pronto a perdoar.
Será? Tenho minhas dúvidas.
-- Não custa tentar...
Meu tempo é escasso. Você sabe, Doutora.
-- Não posso fazer uma previsão precisa. Mas creio que o senhor ainda terá algum tempo, horas ou dias... Não tenho como prever... Milagres também acontecem.
Não me dê esperanças tolas, minha jovem. Sei que não verei o sol nascer novamente...
A doutora arrumou travesseiros acomodando Dr. Eduardo, entregou-lhe um pequeno pote de gelatina e se preparava para sair da suíte quando ele pediu.
A senhora pode abrir as cortinas e reduzir a potência do condicionador de ar? Faz frio.
-- Sim. Claro – Respondeu a “Doutora da morte” antes de atender aos pedidos.
Gostaria também que a senhora me trouxesse uma prancheta, uma caneta e um pedaço de papel pautado. Pretendo deixar algo escrito para meus filhos.
-- Trarei logo mais. Posso autorizar a entrada de seus familiares?
Não. Ainda não. Suspenda o medicamento, Doutora. Peço, porém, encarecidamente, que me traga um litro de conhaque e um maço de cigarros. Que seja esse meu último prazer.
-- Não temos bebidas alcoólicas no hospital, muito menos cigarros... Mas verei o que posso fazer.
Peça ao meu filho. Ele sempre carrega no carro uma garrafa do conhaque que eu gosto. E cigarro é fácil comprar – E completou -- Mudei de idéia quanto ao Padre. Peça para vir. Eu o receberei.
A doutora abriu as cortinas, anoitecia. Da cama dava para ver nuvens em dégradé de laranja ao vermelho. Depois de reduzir a intensidade do condicionador de ar, ela, a doutora, saiu do quarto.
Enquanto comia a gelatina sabor laranja. Dr. Eduardo se lembrou de uma frase, ouvida em um filme de piratas. E repetiu, murmurando, a citação fitando o anoitecer. “A morte é um dia que merece ser vivido”.
Não demorou a chegada do religioso. Era um Padre jovem, alto, mãos grandes e finas, um rosto de traços marcantes, ossos salientes, lábios grossos, pele de mulato, parda, mais para o escuro, nariz levemente achatado, olhos castanhos, cabelos crespos e curtos. Vestia o habito: batina, meias e sapatos pretos, fazendo contraste ao colarinho alvíssimo. A voz era grave, firme. Porém, portava no olhar uma imensa ternura.
-- Bom dia. Tudo bem?– Disse o Padre automaticamente ao entrar no quarto.
Como tudo bem, Padre? Estou morrendo. Você é idiota?
-- Realmente. Peço-lhe desculpa. Não foi minha intenção. Falei sem pensar.
O Padre puxou uma cadeira e a colocou ao lado da cama.
-- A doutora Bia, disse que o senhor pretendia se reconciliar com Deus antes de partir.
Qual seu nome, meu jovem?
-- Inácio é o meu nome de batismo.
Inácio!? – Com um sorriso inesperado no rosto, Dr. Eduardo completou,
Deus resolveu gozar com minha cara...
Sem entender a piada, Padre Inácio, afirmou:
-- Não entendi o sorriso.
Não, Padre, agora sou eu que peço perdão. Um pensamento tolo me invadiu de repente. Inácio não é um nome muito comum. Você é pernambucano?
-- Não senhor. Sou baiano. Nascido e criado na Bahia. Com muito orgulho...
Ainda bem. Gosto dos baianos. São criativos e sinceros...
-- O senhor pediu minha presença. Quer se confessar?
Sim, Padre Inácio. – Após curta pausa continuou -- Gostaria que antes me permitisse contar uma história. Acredito que nenhum ato humano surja do nada. Somos todos frutos de uma série de eventos que terminam por forjar nosso caráter, e nosso caráter determina nossas ações. Se pretendo buscar em Deus meu perdão, que vossa pessoa me dê o privilégio de ouvir não só os meus atos e pecados, mas o que me levaram a cometê-los.
Olhando-o com certa dó, Padre Inácio segurou a mão de Eduardo e falou,
-- Ouvirei sua história. E Deus certamente haverá de perdoá-los...
Então me ouça sem interrupções, Padre. Eu era criança quando meu pai morreu. Dele só recordo de algumas fotos que o tempo amarelou. Eu e minha mãe fomos morar com meu avô materno. Um coronel do exercito brasileiro.
  Alguém bate na porta e posteriormente a abre, põe o rosto para dentro e pergunta se pode entrar. Dr. Eduardo diz sim. Era uma auxiliar de enfermagem com um balde plástico, com gelo, uma garrafa de Courvoisier e um copo descartável, uma prancheta com papel pautado e uma caneta. Trouxera também um maço de Malboro e um isqueiro descartável. A auxiliar colocou os apetrechos sobre a mesa onde se colocaria as refeições dos pacientes e saiu. O Padre perguntou:
-- Vai beber?
Dr. Eduardo sorriu novamente, já não existia medo, e respondeu ao Padre,
Põe em minha conta de pecados, Padre.
O Padre perguntou o porque do sorriso, Dr. Eduardo respondeu,
Beber Courvoisier em copo descartável é sem dúvida um sacrilégio, com gelo seria um crime. Sem sombra de dúvidas, seria um crime. Deus tirou o dia de minha morte para me gozar.
Mais uma vez o Padre não entendeu o motivo do riso. Dr. Eduardo pediu ao Padre que lhe servisse uma dose do conhaque. O Padre atendeu ao pedido, retornou a cadeira e esperou. Dr. Eduardo deu o primeiro gole na bebida e reiniciou sua história.
Como disse, Padre. Fui morar na casa de meus avós maternos. Meu avô, o Coronel, era um homem sisudo. Parecia uma dessas personagens literárias. Usava uma suíça espessa, alourada, que saia dos lados das orelhas e descia até quase o queixo. Ele mantinha a boca e o queixo nus, era quase careca, só tinha cabelo nas laterais da cabeça e na nuca, cabelos loiros, lisos e ralos. Ele era filho de português com uma mulata clara, baiana. Mesmo assim, o escroto era racista. Costumava dizer "— Preto só fêmea..." — Depois ele completava — "...e de bom cu." No português dele, Padre, a palavra bunda não era utilizada. Ele sempre usava o substantivo cu, como fazem os portugueses. “Senta o cu na cadeira, moleque! Come a porra da verdura ou lhe dou um cascudo, alemãozinho de merda!"—Ele dizia.
Dr. Eduardo não só falou, mais do que falou, ele interpretou gestos, entonações, feições, etc.     Acredito, Padre, que o Coronel fazia isso para se exibir e agradar uma empregada que tínhamos... Devia ela de ter um bom cu.
O Padre manteve a serenidade aparente, mas sentia uma inexplicável mágoa íntima surgida das frases ouvidas já no início do relato. Porém cumpriria seu papel. E disse,
-- Continue, Eduardo, estou ouvindo, pode continuar.  
Dr. Eduardo, como lágrimas nos olhos, continuou o relato.
O Coronel era perverso, seco, tinha um rosto redondo, papado, branco. Mas quando se irritava o rosto avermelhava, ganhava tons rubros. Ele falava cuspindo e sempre com a voz arrogante, dominadora, eu tinha medo e nojo dele. Quando ele falava as frases saiam infecundas e, apesar de poucos adjetivos, era prepotência pura. Havia nele uma única virtude. O escroto gostava de literatura. Principalmente gostava de poesia, muitas de marinheiros: — “O mar é mistério enfrentado pelos grandes, é manso e é bruto, é pacífico e assassino", declamava. Camões era o poeta preferido, mas gostava de outros, alguns, ele lia na língua de origem: no francês, no espanhol e no inglês. Ele possuía uma estante de jacarandá que cobria três paredes do escritório. A outra mania eram os soldadinhos de chumbo. Ele tinha uma maquete que reproduzia a batalha de Walterloo, aquela onde dizem: Napoleão perdeu a guerra em posição vexatória.... Nela, o Bonaparte aparecia distinto montado num cavalo branco no alto da colina de feltro, verde, salpicada de um pó branco para imitar neve, e nele, no bonequinho do francês, aquele chapeuzinho ridículo. Ninguém se atrevia a mexer na maquete, nem mesmo minha avó. O velho Coronel lia tudo a respeito do mar, dos césares e suas guerras ou então lia sobre Napoleão, Adolf Hitler, Átila... Só não sei o motivo dele odiar os alemães, mas os odiava. Judeu ele não era, disso eu sei. Era Católico Apostólico Romano, assim ele me falava. Quando se irritava comigo, gritava: "— Peguem esse alemãozinho de merda e me tragam aqui". Eu corria, fugia dos puxões-de-orelha, dos cascudos, dos cachações.  Escondia-me no quarto de Alzira. O quarto dela era afastado da casa, ficava no quintal, atrás de mamoeiros e bananeiras, ao lado do varal, pegado à área de serviço e junto ao muro do fundo. E do outro lado do muro, ficava o campinho... — dos olhos de Dr. Eduardo escorreu lágrimas. — Alzira, Padre, era uma negra forte, de seios fartos e bunda grande, volumosa. Uma vez eu o vi apalpar a bunda da negra na cozinha e dizer: "— Pudins, Alzira... pudins." E a negra riu. Riu um sorriso de mulher desfrutável, vulgar. Vovó também viu, mas se quietou. Nunca vi minha avó reclamar. Vovó parecia não existir para o Coronel, era um vulto, uma mobília, um mero utensílio doméstico. Vivia apenas para dizer a negra fogosa o de comer, o de lavar, o de coser. Era isso, a igreja evangélica e suas rezas. Vovó era baixinha, magrinha, de olhos miúdos, cabelos curtos e grisalhos. Geralmente ela os cobria com um lenço. A boca também era miúda de lábios finos. Físico e espírito de mulher frágil. Vestia-se sempre com roupas compridas, sem decotes e de cores acinzentadas, opacas. De adornos usava apenas o lenço, o terço e o xale de crochê preto, desbotado. Ela falava pouco e sussurrado, no entanto, era no colo dela minhas lágrimas, minhas queixas. Quando eu chorava, ela dizia: "—Deus há de ajudá-lo, meu filho", e chorava junto comigo, impedida de impedir meus sofrimentos, compadecia-se e sofria, sempre, muito. O Coronel, como já disse, era seco, ranzinza. Gostava de beber. E quando ele bebia, bebia bastante conhaque. Utilizava-se de taças bojudas de cristal, que deitadas marcavam as doses que ele bebia. Em certas ocasiões, convidava colegas de caserna e mandava à negra preparar feijoada e comprava vinhos, cervejas e uísques. E todos comiam, bebiam e faziam algazarra, porém, sem crianças para incomodar. Nas festas eu ficava apartado, vovó os servia se servindo de empregada. Eu ficava sozinho em meu quarto a escutá-lo, alcoolizado, a declamar empostando a voz: "— Penso no marinheiro esquecido numa ilha... Nos vencidos de sempre e nos sem esperança!". Aí, ele dava uma pausa para os puxa-sacos aplaudirem e concluía com o crédito: "— Charles Baudelaire, poeta francês: 1821-1867"... Sempre, ao anoitecer, o velho limpava um cachimbo, era de marfim e prata. A piteira fazia uma pequena curva e descia comprida, prateada, e se vergava novamente no fornilho bojudo de um branco leitoso, de marfim, com tramas e arremate da mesma prata. De prata também o isqueiro. Fluido e pedra substituíveis com chama lateral para melhor inflamar o fornilho. Um isqueiro bonito para um cachimbo de igual beleza... Não sei que fim levou. À noite o Coronel armava a radiola, servia-se de uma farta dose de conhaque e pitava o cachimbo. Ele sentava-se numa cadeira de lona, envolvido pela escuridão, e ficava ouvindo músicas lamuriosas, fados.  Os de preferência cantados por Amália Rodrigues...
— Fale-me de você, Eduardo. Esqueça seu avô.
Dr. Eduardo não deu ouvido ao Padre e continuou o relato.
Eu não tinha amigos nem de colegas com quem brincar. O canalha proibia. Ele não gostava de crianças. Existia, pegado ao muro de minha casa, um campinho de futebol. Lá os meninos da rua se divertiam. Assim como eu, eles também morriam medo do Coronel rabugento. Quando por erro ou desleixo a bola caía no nosso quintal, era certo. Ou eu corria, pegava a bola e a jogava de volta sem o Coronel perceber ou, da janela do gabinete, ele fazia mira e atirava. Era certeiro o disparo. A bola estourava, de imediato, no sopapo da bala de uma pistola automática de aço lustroso e cabo madrepérola. Sem a bola, estava  acabado o baba. Ao ouvirem o estampido da arma a garotada já sabia. Vaiavam, xingavam e saiam correndo, emburrados. Certa vez, eu apanhei a bola para jogá-la de volta, o velho atirou arrancando-a de minhas mãos, não me acertou, mas tirou um fino. Vovó desmaiou, mamãe tentou uma reação, só tentou, depois, medrou... Mas os meninos sempre davam um jeito e um dia ou dois depois, outra bola, e lá estavam eles brincando novamente. Como eu os invejava. Meu avô dizia que eram moleques, vagabundos e gritava: "— Neto meu não anda com vagabundos, vadios, pivetes". Mamãe baixava a cabeça, vovó me levava ao quarto. E tudo que eu queria, tudo que eu sonhava, era ser um deles, um daqueles moleques, ser livre como eles. Na escola, no Colégio Militar, eu era obrigado a ter empenho, — “Necessário ser o primeiro da turma, alemãozinho de merda." — Meu avô dizia. — Meus colegas, até mesmo meus professores tinham marcação comigo. — “Ele é filhote do Coronel, é peixe, não deem trela, joguem duro". Vez a vez, porém, no recreio, um lanche rápido, engolido, podia por breve tempo jogar bola. Esperava pelo faltar de um dos vezeiros e me chamavam para o gol, para mim era a felicidade. Eu tinha 14 anos quando fui mandado para aquele internato de feitio muito rígido. Foi uma época de muito estudo, de muitas obrigações para o neto do Coronel. E foi sempre assim. Terminou que o Coronel roubou à minha infância e à adolescência. Quando o velho morreu, depois do enterro, eu voltei ao cemitério e como havia prometido a vovó, urinei no tumulo dele. Velho canalha! Ele pensava que eu não sabia da negra. Eu sabia, sabia sim... numa madrugada, eu o segui indo ao quarto da negra, e bisbilhotando pela fresta da janela eu vi a negra nua, de rabo pra cima, com um travesseiro sob os quartos para melhor empinar o cu. E o velho tarado adentrava a negra que gemia e pedia mais, e mais, e mais. O velho de pé, roxo, suava feito cuscuz e ficava envergando-se para trás e para frente, de pé, meneando na contra cabeceira da cama-de-armar que rangia no vaivém do sádico. Torci para que ele morresse ali, fodendo a negra, assim eu poderia mijá-los... Prometi a vovó que mijaria e mijei... Naquela noite, vovó me achou agachado, olhando através da fresta e me puxou pelo braço. Vovó sabia, sabia de tudo e tudo calava, pobre mulher, o velho também lhe roubara a vida... Contudo, Padre, O velho Coronel me ensinou que só duas coisas interessam: o que você pode conquistar e o que não pode conquistar. Ou você é o algoz ou é a vítima”. Não há outra escolha, Padre. Ninguém conquista poder sendo bonzinho, ético, leal. E eu não quis ser a vítima.
-- Isso não é bem verdade, Eduardo.
Padre, sirva-me outra dose e ouça atentamente.  
O Padre serviu outra dose do conhaque, entregou-a, e sentou-se novamente. Dr. Eduardo continuou.
Deus, Padre, não nos dá certeza de sua existência. Na dúvida, Padre, fiz o que fui treinado para fazer. Cursei filosofia, direito e psicologia. Usando a influencia política do Coronel, entrei para política. Ali, Padre, na política, as coisas são claras. Puxei muito saco para ser aceito no métie. Fui indicado como suplente de deputado eleito. Consegui, junto a aliados, a concessão de uma rádio. Graças ao Pastor, amigo de minha avó, comecei a pregar. Como é fácil, Padre. As pessoas, quanto mais sofrem, mais crédulas ficam. Mas seguem seus comandos. São mesmo como ovelhas dispostas a se precipitar do abismo se seu pastor ordenar. O medo o ódio e o preconceito, se somados à esperança de salvação, são drogas poderosas.  O senhor deve saber disso, Padre. A Bíblia é um manual poderoso. E podemos manipulá-la ao nosso bel prazer. Esse foi meu primeiro pecado. Diz que não devemos usar o nome de Deus em vão. Não o usei em vão, Padre. Havia um objetivo, uma finalidade. Eu queria o poder. E obtive o poder. Na casa, (Congresso), aprendemos que quem manda é o capital. Seguimos a ideologia do capital. Todos, Padre, seguem essa ideologia. Somente as vítimas com seus arcabouço moral, as ovelhas, não a seguem. Porque elas se comprazem com a dor e com a esperança. Porque são incapazes de pensar. Elas necessitam de um manual e de quem o interprete. Você sabe, Padre. O sistema é bruto. Os empresários investem pesado para tirar qualquer  possibilidade de fugirmos disso... Do prefeitinho ao presidente. Nenhum deles é Santo. Juízes, Promotores, Políticos, Jornalistas, e todos que participam do sistema seguem a cartilha do capital. É da natureza humana, Padre. Algozes e vítimas. E isso é assim desde que o mundo é mundo. E todos pousam de santos. O e povo, Padre. Ovelhas dispostas a dar a vida para não ter que pensar. Fanáticos dispostos a matar ou morrer pela esperança.
-- Estou ouvindo, discordo. Discordo em parte, Eduardo. Concordo que a massa ainda não se sente capaz de caminhar através as próprias pernas...
Ora! Padre. Não se faça de tolo. – Falou Eduardo irritado. – Deus assim os fez. Eles imploram por quem os diga o que fazer. Como agir, o que pode comer, beber, vestir, pensar. Eles adoram o porvir de um paraíso imaginado. E quanto maior o medo, maior o sofrimento, maior o desejo de seguir. Eles nos pedem para criarmos leis que só punam a eles mesmos. Ou o senhor já viu, exceto uns bois de piranha, ser punido. Um plutocrata só é punido, e levemente, se contrariar os interesses de outros plutocratas mais poderosos. Justiça, Padre, é para os trouxas. Porque sua igreja, que foi a entidade mais poderosa do planeta vem perdendo espaço? Eu mesmo respondo, Padre. Porque começaram a acreditar em suas próprias mentiras. Isso me lembra Julio Cezar. Dominou o mundo conhecido.  Levou a civilização para os povos bárbaros. Mas quando se atreveu a querer tirar o poder do Senado, tentou redistribuir as terras para o povo romano, foi assassinado no próprio senado. Ou seja, o fizeram Imperador, mas quando ele quis agir para o povo, contrariou os interesses dos poderosos Cezar teve que morrer. Porque o povo se alimenta de esperança. Se saciado o sofrimento esse povo quererá mais e mais, quererá porque amenizado seu sofrimento a esperança perde poder. E essas ovelhas pensarão duas vezes antes de se jogarem do abismo... Ora, Padre, você sabe disso.  Getulio Vargas cometeu o mesmo erro. Viu-se obrigado a se matar ou seria morto ou deposto. O sistema é poderoso, Padre.
-- O senhor é doente, Eduardo. O senhor limita a vida a existência carnal. Daí sua falta de escrúpulos.
Cálice! Padre. Não quero sua pena. Só quero que me ouça. Apenas ouça. – Falou Dr. Eduardo gritando. O Padre sentiu vontade de sair, de largá-lo lá a própria sorte. Conteve-se. Não tentou contra-argumentar. Dr. Eduardo continuou,
O poder, Padre, embriaga muito mais que o conhaque. Me pegue outra dose, por favor. Padre  Inácio, trouxe outra dose. Sua mão tremia ao entregar a dose a Dr. Eduardo. Já não havia dó em seu olhar. Após da um gole no conhaque, continuou a falar,
Eu matei, Padre. Eu matei o velho Coronel. Ele invejando minha ascensão sentiu ciúme. Inveja, e começou a me minar junto aos poderosos de exercito. Eu queria ser indicado ao governo do estado, mas ele, o Coronel, me minou. Disse que suspeitava de envolvimento meu com os comunistas. Passei a fornecer veneno para que o matasse com pequenas doses em suas garrafas de conhaque. A negra Alzira me ajudou. Eu fornecia o veneno, a negra, por vingança e por dinheiro, colocava o veneno nos litros do conhaque. É que a negra se envolveu com um sargento. O Coronel, então, passou a surrá-la. Em três meses ele estava morto. Um crime perfeito. A negra Alzira casou com o Sargento. E pude mijar na cova daquele escroto. E todos ficaram felizes. Também roubei, Padre. E não foi pouco. Foram muitos esquemas junto a grandes empresários nacionais e internacionais. Os jornais sabiam mas calavam-se. A censura os impedia de denunciar. Censura imposta pelos próprios donos dos veículos. Com sindicatos comprados, sindicalistas corruptos, era mamão com mel. Tinha um ou outro honesto, uns trouxas. Mas a maioria comia também. Sindicatos pelegos, como dizem. Armavam greves para os idiotas tomarem porrada nas passeatas. Pousavam de bons moços. Política, Padre. Poder, Padre. Ovelha ou Leões. Vítimas ou algozes.     
 -- E o senhor se orgulha disso?
Não é orgulho. São os fatos. Não fui o primeiro, não serei o último. Outra coisa, Padre. Não existe nada mais afrodisíaco que o poder. Muitos me entregavam as filhas e a própria mulher em busca de benefícios pessoais. A luxúria é prática comum em nosso meio. Vale tudo por uma indicação para cargos bem pagos. Em sua maioria, quanto maior o discurso moral, mais suspeite, Padre. O Congresso é um prostíbulo literal e figurativamente falando. Tem muita cafetão lá. Secretárias, assessoras... Tracei muita mulher casada e filha de pessoas que cercam o poder. Como disse, Padre. Não são só vocês que sodomizam...
-- Respeite-me. – Reagiu, irritado, o padre.
Perdoe-me, Padre. Não me referi a você. Mas você não pode negar que houve, em sua igreja casos e mais casos. Não devo generalizar. Vai de indivíduos. Sim, Padre. Será que tenho salvação? Será que Cristo que morreu na cruz para nos salvar me perdoará.
-- Se seu arrependimento for sincero. Acredito que sim.
Fácil, Padre. Pegue-me outra dose desse finíssimo conhaque. Se quiser pode beber uma dose também. Aproveite a oportunidade. Com o valor de uma garrafa desse conhaque daria para o senhor reformar sua igreja.
-- Não. Obrigado. – O Padre serviu a dose do conhaque. Benzeu Dr. Eduardo. Mandou que rezasse e fizesse uma reflexão sincera de sua vida e pedisse perdão a Deus. Prometeu voltar para dar a extrema-unção. Quando ia sair Dr. Eduardo pediu para que pegasse a prancheta com papel, a caneta e chamasse a Doutora. Disse,
Quero escrever um poema para meus familiares.
O Padre saiu.
Dr. Eduardo escreveu,
Da dor de pensar.
Todas as minhas virtudes e vícios,
Foram-me proposta por homens,
Todas minhas angustias se devem à minha vacilante dúvida da existência Divina,
Todo meu sofrimento se deveu a jogar conforme a regra do jogo.
Minhas ações me cabem,
Pergunto a Deus, então, se mereço seu perdão.
Ele não responde.
Então, novamente, pergunto: por que então, Deus, me deste tanto poder?
A dor é o preço que paga pela sua liberdade de optar pela futilidade.
A vocês peço perdão.
Sincero perdão.
Ao pensarem em mim, saibam que o que fiz, fiz também por vocês.
Quando sentirem minha falta, deixem escorrer uma lágrima por mim.
Sempre amei vocês, mesmo que não tenha demonstrado,
Gastei meu tempo juntando dinheiro e poder,
É tarde para arrependimentos.
Repito, filhos, amo vocês. 
Eduardo.
                        Após assinar o poema, largou a caneta na cama. Dos cinco filhos só dois estavam presentes. Entraram no quarto, sem demonstrar nenhum pesar, uma de suas filhas, a caçula, o irmão mais velho e a jovem esposa. Ainda segurando a prancheta, emocionado, Eduardo pretendia entregar a poesia. Foi interrompido pelo filho mais velho.
          -- Pai. Aproveita e me dê nome dos bancos, números e senhas das contas dos paraísos fiscais.             Procurei nos computadores e não achei.
          A mulher perguntou sobre ele ter ou não feito um testamento. O filho mais velho já foi dizendo ser dele a Ferrari. A adolescente avisou que estava com fome. O filho mais velho e a jovem esposa iniciaram discussão sobre as propriedades dos bens. Eduardo amassou a poesia, fez uma bolinha de papel e deixou que caísse no chão. Com a mão tremula tentou apanhar a caneta na cama. O filho a apanhou e a entregou a Eduardo. Não deu tempo para fazer a anotação pedida. A filha caçula apanhou a bolinha de papel no chão, a jogou no lixo e saiu do quarto. Foi à lanchonete comer um sanduíche e beber um suco. Dr. Eduardo morreu sem se reconciliar com Deus.
# Os nomes dos personagens serão mudados assim que eu tiver tempo. Por enquanto é uma brincadeira muito comum na net.         


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