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A Desembestada.


          Após o expediente, dois colegas de banco conversavam amigavelmente sobre o  momento econômico brasileiro em uma birosca próxima ao escritório. Um deles acabara de ler os jornais e estava muito irritado. O outro, otimista por natureza, tentava melhorar-lhe o humor.
         — Renato, você se preocupa demais, viva como eu e seja feliz!  
         — Feliz! Como feliz? Você não tem porque estar feliz, Eustáquio.
         — Engano seu. Dê uma parada pra pensar. Moro em um apartamento que fica na mesma altura do pico de uma montanha e para chegar até lá me basta apertar um botão. Se tiver sede, mesmo no maior calor, ando apenas alguns passos e tenho água gelada. À noite, caminho às claras. Durmo em uma confortável cama. Tenho uma mulher maravilhosa que me ama e me satisfaz sexualmente. Se sentir fome, abro a geladeira e em alguns minutos tenho para escolher pratos finamente condimentados, que são rapidamente aquecidos por um forno de microondas. Se quiser me livrar dos resíduos ingeridos, sento-me como um príncipe em um vaso de porcelana, acolchoado, e, ao finalizar a tarefa, aperto outro botão despejando os dejetos a quilômetros de distância... e já tratados! Se houver um acidente e eu me ferir ou mesmo se adoecer, disponho de médicos e de remédios que me aliviam a dor em minutos. Consigo me comunicar, em segundos, com qualquer país do mundo e sei o que está acontecendo no planeta em tempo real. O que mais poderia querer?
         — Bem, amigo... O apartamento não é seu. É da financeira. Seu plano de saúde entrou concordata e você vai cair no INSS. Vão liberar o preço do gás e vem um apagão por aí. Seu pai te batizou de Eustáquio e... Bem...  Sua mulher lhe chifra mais que touro no dia da caça. E você ainda fica rindo...
         — Minha mulher está me chifrando?
         — Ué! Você não sabia não? O bairro todo sabe...
         — Qual é! Você está de gozação...
         —É brincadeira. Sua esposa é dessas mulheres que merece toda a confiança. Foi muita sorte sua encontrá-la.
         — Foi sim. Eu quase me casava com uma amiga dela. Uma tal de Ana Virgínia. Ana me largou e foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte. Queria que eu fosse com ela, queria que eu largasse a Universidade e fosse com ela na empreitada. Obvio que eu não fui, desde então, nunca mais a vi ou soube dela. Foi aí que Tânia, que era a melhor amiga dela, aproximou-se de mim... São quinze anos de casamento e, diga-se de passagem, sou muito feliz. Só falta-nos um filho.
— Vamos pedir a conta?
— Vamos. —Eustáquio gritou: — Zé! A conta...
-o-
         Ao chegar em seu apartamento de dois quartos no conjunto habitacional Parque Julho Cezar, Eustáquio lembrou-se de suas peripécias ao lado de Ana Virgínia. Rememoraram as farras feitas no “Omulú”, onde, à noite, queimavam aulas do curso de Filosofia para beberem, fumarem maconha e aventurar-se em atos libidinosos, às escondidas, sob o pé da mangueira no estacionamento dos fundos da Universidade Católica da Federação. Gostara de Ana Virgínia, porém acreditava firmemente que fizera a opção correta ao negar-se a largar o curso Universitário para tentar a sorte com a namorada no Rio de Janeiro. Principalmente porque acreditava ser Ana Virgínia uma “porra louca”. Tânia havia sido a escolha perfeita.
Após o toalete, Eustáquio sentou-se confortavelmente no sofá comprado em 20 prestações na “A primordial”, e esperou a chegada de Tânia para lhe servir o jantar. Tânia não demoraria a chegar para cumprir sua segunda jornada de trabalho.
    Oi amor. Demorou. — Resmungou Eustáquio para Tânia.                                                                    
— Desculpe-me o atraso, querido. É que houve reunião de pais e mestres após o término das aulas. Já vou preparar a mesa e esquentar o jantar.
Eustáquio relevou o atraso da patroa, estava entretido com o aparelho de TV, que lhe mostrava o romance de Valentim e Cecília. Findada a novela e posto o jantar Tânia, como de hábito, relatou em detalhes seu dia. Eustáquio permaneceu em seu silêncio habitual. Logo após o término do jantar, ao tempo em que Tânia retirava as travessas da mesa, a sineta tocou. Eustáquio já estava acomodado novamente no sofá da saleta, e assistia mais uma das novelas em seu aparelho de quarenta polegadas. Tânia foi abrir a porta e teve uma enorme surpresa. Era a amiga de infância Ana Virgínia.
         — Cachorra, é você!?
         — Claro!, putinha do meu coração, sou eu mesma. Me dê um abraço meu sabonete preferido...
         — Qual é, minha amiga. Eu sou bainha! — repetiu Tânia um jargão da juventude ainda assombrada pela visita inesperada.
— Eustáquio levantou-se assustado. O sangue pareceu fugir-lhe do corpo. Era Ana Virgínia, ali, e em pessoa. Ele praticamente congelou ao vê-la entrando e fechando a porta atrás das costas.
            — Não! Não me diga! Você está com palito!?, Ninha.
Tânia ainda pasma, gelou-se.
Ana Virgínia caminhou em direção a Eustáquio, e de surpresa, enfiando a mão em seus órgãos genitais esbravejou.
— Já comi muito esta rolinha — e, virando-se para Tânia, perguntou-lhe:
— Isso ainda sobe, minha amiga?
Tânia, refazendo-se do susto, sacudiu a cabeça afirmativamente.
          — Vem amiga. Sente-se aqui! —Tânia falou apontando a cadeira ao lado da mesa e desandou a falar:
         — Conta-me. Por onde você andou este tempo todo? Não me enviou uma carta sequer. Que amiga! Eu quero saber de tudo. Tudo mesmo! Nos mínimos detalhes. — Virando-se para o marido pergunta — E você Eustáquio? — Eustáquio continuava atônito — Esta parecendo que você viu um fantasma. Vá logo pegar umas cervejas na barraca do Carioca.
         — Uísque, querida! Eu não bebo mais cerveja. — Retificou Ana Virgínia. — “Johnny Walker”, por favor. E faço questão de pagar. Palito, seu ‘chibungo’, para de olhar para mim com está cara de menino que foi pego roubando e vai comprar meu uísque. E compre gelo.
         Abrindo a bolsa, Ana Virgínia retira cinco notas de cem reais e as coloca sobre a mesa.
         — Compre tira-gostos também. Eu vim aqui porque tenho um convite para fazer a vocês. Mas dá para esperar. — Vá logo Palito! Eu prometo contar tudo. Tudo nos mínimos detalhes. No entanto, enquanto troco figurinhas com Tânia, você vai comprar as coisas. Eu quero saber de vocês. — Virando-se para Tânia pergunta: — Minha putinha, quer dizer então que você casou com meu lixo? Eu jogo fora e você apanha...
Tânia, puxando Ana Virginia pelo braço, insiste.
    Venha. Venha ver meu apartamento.
          Eustáquio apanhou as chaves do carro e saiu. Ana Virgínia, solícita, acompanhou Tânia. Reparou em especial num quarto de criança decorado em cor rosa, limpo, porém sem a criança. Ao retornarem à sala, Ana Virgínia comentou.
         — Muito bonitinho o quarto de seu filho. Você esta grávida?, amiga.  
         — Estava. Ela morreu no quarto mês de gestação, era uma menina — As lágrimas escorreram pelo rosto de Tânia, Ana Virgínia abraçou-a, consolando-a, como costumava fazer na juventude.
         — Chore amor. Não guarde lágrimas. Lágrimas guardadas são como pedrinhas no sapato, se não jogá-las fora irão incomodá-la para sempre. 
         — Aborto súbito.— Falou Tânia ainda chorosa — Os médicos nada puderam fazer...
         — Isso... chore, amiga. Desabafe...
Após algumas lágrimas Tânia fala sobre a morte da prematura:
         — Eu fiz tratamento para engravidar, foi um tratamento longo e caro. Levou todas às nossas economias. Eustáquio não toca no assunto.  Ele se sente culpado pela morte do bebê, ela iria se chamar Ana Virgínia. Aninha...
— Um forte pesar invade Tânia que volta a chorar. Ana Virgínia, emocionada ao saber que o nome da criança seria uma homenagem a ela, também despeja lágrimas. As duas se abraçam e choram juntas. Mais tarde, já refeitas, Tânia explica que na noite da morte da criança, Eustáquio queria fazer amor de qualquer forma, tinha bebido e estava excitado, ela não queria, mas ele insistiu e durante a relação houve o sangramento. A criança fora abortada durante a transa. Ele se sente culpado, mas sei que ele não é. Foi Deus. — Tânia chora contendo-se.
         — Força minha amiga... Por que vocês não adotam uma criança?
— Eustáquio não vai querer, ele diz que ninguém pode substituir Ana Virgínia. E ela está morta...
         — Vamos esquecer às coisas ruins. O que eu quero lhe dizer minha amiga, é que sua vida vai mudar. Eu estou RICA! Rica, minha amiga! Muito mais que rica. E, se eu estou rica, meu sabonetinho também está. Nós vamos nos mudar USA, vamos para Nova Iorque!   
         — Calma, Ana. Conta isso direitinho.— Tânia falou enxugando as lágrimas.
         — É uma longa história, querida.
         — Nós temos tempo. Conta, como foi...
         — Você se lembra que eu abandonei a Universidade, terminei com Palito, e fui tentar ser atriz no Rio de Janeiro.
         — Claro! Foi depois disso que eu me aproximei do Eustáquio...
         — Cheguei lá novinha, inexperiente, e cheia de sonhos. A típica presa fácil para um vigarista. Gastei todo meu dinheiro com um picareta que me garantiu que eu seria modelo. “Mas primeiro eu teria de fazer um book”. E eu de cretina caí na conversa. Dei todo meu dinheiro para ele, aí me lasquei... O vigarista se picou e me largou com uma mão na frente outra atrás... Mas, no final, foi minha sorte. Acredite! A neguinha aqui se retou... Eu disse para mim mesma — Há! É sacanagem... Então eu vou botar é pra foder. Saí e fui rodar bolsinha. Eu...
         — ...Trabalhou de puta, minha amiga!? Por que não me telefonou?
         — Você sabe o por quê? Porque sou muito orgulhosa e não queria lhe preocupar. Se eu saí pelo mundo foi para desembestar. Além do mais, eu já dava esta boceta a qualquer um mesmo. Só fiz cobrar. E cobrei caro... Muiiiito caro! Hotéis, minha filha. Coisa de alto gabarito. Só aceitava trepar com estrangeiro. Dólares, querida. E você sabe que meu inglês é primoroso desde adolescente. Eu ganhava bem como puta, mas foi trabalhando como interprete que eu me dei muitíssimo melhor. Um de meus clientes era Francês, e o inglês dele era uma bosta. Ele, esperto pra caralho, quis unir o útil ao agradável e convidou-me para passar uma semana em New York para ajudá-lo nas traduções e poder me foder de graça. Como a viagem era com tudo pago, eu fui. Só que enquanto ele participava de uma conferência, eu fui ao bar do hotel, aonde vim a conhecer o Bob. Então dei um chute na bunda do Francês e fiquei com o Bob que era executivo numa mega empresa, uma holding. Coisa de “primeiro mundo”. Eles investem em negócios por todo o planeta. Diamantes na África. Gado no Canadá. No Brasil eles fazem contrabando de madeira e colhem plantas, insetos e animais exóticos da Amazônia para analisar. Você sabe que eles estão querendo tirar a Amazônia do Brasil, não sabe? E vão! Eles recebem bilhões das industrias farmacêuticas. Além disso, eles financiam fábricas de componentes eletrônicos, fábricas de armas, bem... São uns filhos-da-puta competentes. Enfim, eu fui contratada para cuidar de uma madeireira. Eu servia de ponte entre um marajoara que não entendia picas de inglês e o Bob. O marajoara era sobrinho de um deputado que dava cobertura às suas maracutáias dele. Eu acho que o marajoara servia como testa de ferro. Como eu contei, eu fazia a ponte entre ele e Bob. Minha filha; este Bob parecia um jegue. Eu costumava amarrar uma fronha no talo da taca do bicho pra ele não me arrombar. Você sabe né, querida? Quem gosta de rola grande é veado que não tem colo de útero para sentir dor. Eu sou rasa, querida. E continuo apertadinha...
         — Conta à história, Aninha. Para de falar sacanagem, que a rola de Palito também é “bonitona”, e você sabe... Você mesma quem fez a propaganda...
         — Nem tanto querida, vinte e dois centímetros é pouco para o Gringo... Mas, como eu ia dizendo, foi aí que eu conheci a mangangona. O marido dela, um velho de oitenta e cinco anos e caquético. Ela com trinta e nove aninhos, belíssima, e um bauzásso! Só sei que ela se interessou por mim. Puta por puta, minha amiga; fui à luta. Comecei a espumar ela toda. Deixei-a doidinha, apaixonada... O velho terminou morrendo e hoje ela é a herdeira absoluta do velhaco. Continua minha amante e apaixonada, claro! O nome dela é Leonor. Ela é hoje uma das mulheres mais poderosas do mundo. Mas não tem escrúpulos nenhum... O negócio dela é grana e poder... Euzinha aqui... Estou morando na suíte presidencial de um hotel celestial, do qual, sou uma das proprietárias... Presente de aniversário, querida. Hoje eu tenho gado, ações de empresas petrolíferas e estou me naturalizando norte americano... Quer mais?
         — Aninha... Tudo isso por causa de uma roçadela. Milionária mesmo. Que nem nos filmes...
         — Muito mais, minha filha! Ganhei uma Ilha e estou construindo um hotel lá. É por isso que eu vim buscar vocês. Vocês é que vão administrar meus novos negócios na ilha. E não vou aceitar um não como resposta...
A conversa rendeu até a chegada de Eustáquio, que trouxe as garrafas de “Johnny Walker” e os tira-gostos. Aproveitou para preparar um “cachimbo da paz”, para assim, relembrarem os tempos universitários. Bebidas, fumo e sexualidade se misturaram a tal ponto que os três transaram a noite toda sem o mínimo pudor. A proposta de irem morar no exterior foi recusada, no entanto, aceitaram cuidar do patrimônio de Ana Virgínia na Bahia. Eustáquio agora dirige vários hotéis de três e quatro estrelas, administra alguns restaurantes, e possui uma grande agência de turismo, que atualmente esta sendo investigada por lavagem de dinheiro. Tânia adotou uma menina recém nascida, e pôs-lhe o nome de Ana Virgínia. Atualmente ela é Sócia/Diretora da escola onde lecionava. Renato, ex-colega de banco de Eustáquio, atua como gerente de negócios no mesmo banco, graças ao apoio recebido, em troca de algumas informações sigilosas. E hoje, não se irrita mais ao ler os jornais.



Fim

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