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A Morte da Amada.


            

Lutuoso, encontro-me parado diante do espelho. Não me espantam as marcas do tempo esculpidas em meu rosto ou o prateado dos meus cabelos ralos.
Fixo o olhar nos olhos castanhos do meu reflexo. A imaginação solta me permite buscar na memória sonhos vividos. Serenas e dolorosas as sílabas roucas das palavras me escapam da boca num murmúrio: — Maria, nem mesmo a morte irá nos separar...

Observo lágrimas que escorrerem, lentamente, até meus lábios secos. Provo seu gosto marinho e deixo-me sonhar.

            “Vejo-a caminhando em meio a dezenas de crianças, lentamente, como se levasse um segredo a mais no coração. Está linda e porta um sorriso meigo nos lábios. Seus olhos cintilam cálidos ao atravessar o vasto salão da Igreja Metodista. Sinto a mesma ansiedade de quando a esperava ao final do culto dominical para surpreendê-la com um arranjo de flores. Doze botões de rosas vermelhas, os espinhos, meticulosamente arrancados e as flores envoltas em papel celofane branco, atado por um laço de fita azulíssima.”
Maldita doença! As palavras escapam-me agora com fúria. Sinto-me saqueado pelo dramático acontecimento. Engulo a raiva a seco. É hora de me aprontar, hora do último Adeus. Lavo os olhos inchados da noite em claro e me visto apressado. Filhos e netos me aguardam.
Não tardamos a chegar ao cemitério. Observo seu corpo inerte, impassível a dor que a circunda. Ouço comentários sobre sua espontaneidade e bondade caráter. Olho mais uma vez o cadáver envolto por flores. Vem-me a impressão que ela está a meu lado, rindo como sempre. Serena, cativante e companheira leal de todas as horas.
Meu neto mais novo, alheio em sua meninice, corre para o jardim. Eu o sigo. Ele para de súbito em frente às roseiras e sorri. Uma certeza me invade. Sim, as rosas, rosas em botão, rosas que irão desabrochar, e ela, em meio a anjos, esperará minha chegada. Estou certo que trará nas mãos o mistério de um arranjo em botão de rosas vermelhas, envolta por nuvens brancas e atada por uma fita azulíssima rasgada do céu para surpreender-me...
— Vovô. No que o senhor está pensando?
— No amor, querido. A morte não existe quando o amor é verdadeiro.


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