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Aeromoça - Ariovaldo Matos



            Disse ao Rapaz que Nova Iorque é uma cidade estropiada, tudo apodrece. Não falo de todas as pessoas e sim de algumas e de certas instituições. E também... O rapaz disse acredito em você e ajeitou a fantasia, tenente ou capitão da Nobre Guarda do Rei Faiçal ou algo assim. Sem lhe reparar no gesto, um tanto ensurdecida pelo barulho da festa, a Moça prosseguiu contando que certo dia, em Nova Iorque, conheceu um guarda – desse de esquina, que agente vê no cinema – e dele ouviu propostas indecorosas.
            -- Indé... o quê?
            Propostas indecorosas! – a Moça repetiu e o arrastou para longe do grupo de jovens havaianas que cantavam “Pega no ganzê / Pega no ganzá”.    
            -- Indecorosa o que, minha filha?
            -- As propostas do guarda, o de Nova Iorque. Um guarda é um guarda, simboliza decência, e desde que assim é não devia ter feito aquelas propostas. Nem insistir. E ele insistiu, o sujo!
            Quarentão amulatado, que usava Summer-jacket, passou cantando “levante a cabeça / Vamos cantar! E o Rapaz sugeriu: você esqueça Nova Iorque, se acalme, aqui é Bahia e hoje é Carnaval.
            -- Como posso esquecer?
            -- Sei lá! Venha comigo, pular.
            -- Não, vá você. Talvez eu fique aqui mesmo. Talvez vá embora. Em minha opinião... – e o Rapaz, sem mais ouvi-la, reparou no jeito do gordo fantasiado de “jardineira” a perseguir adolescente alourado. Todas as dicas de escandalosas “bichas”, que se há de fazer?
            De esguelha notou que a Moça caminhava para a balaustrada do clube, a do lado do mar, nele iates de luzes apagadas. Perdeu-se de vista a loura espevitada o puxou para o meio do salão. Ela usava um sarongue, com grande flores douradas. Bom prato – pensou – bom prato, logo desistindo de apertá-la mais: mulher com hálito de urubu só em tempo de guerra! E sambando sozinho desvencilhou-se e uma trintona nas imediações e a ela estendeu os braços, no que perdeu tempo em forma de “se assunte!”. Rejeitado, sim senhor, e por uma balzaca, que noite, meu Deus, que noite! E sem graça em meio aquela gente – cotoveladas, empurrões, gargalhadas, gritos por todos os lados  -- caminhou sério, duro, em direção à balaustrada e viu que a Moça parecia absorta, vá que ainda fundindo a cuca com a maluquice do guarda de Nova Iorque. Pensou: ela é bem feita, está sozinha, aeromoça, quarto disponível em Hotel de classe turística... Hotel? P’ra que Hotel se tinha seu próprio apartamento? E de novo moveu-se no ritmo da música que era “Mascara Negra”.
            -- P’ra mim – foi logo dizendo – é o melhor samba destes últimos anos.
            -- Também acho assim – ela disse – mas não é samba. É marcha-rancho. E coincidência é que indagorinha pensava em máscara, a de Fernando Pessoa, uns versos dele.
            -- Você tá brincando?
            -- Não.
            -- Não me diga que o pau comendo no centro, esta alegria de todo o mundo, você pensava em Fernando Pessoa! Guenta aí, amizade, não me goze, tá bom?
            A aeromoça sorriu com os gestos do Rapaz:
            -- Falei sério – disse. Como é mesmo seu nome?
            -- Já lhe disse três vezes que é Otávio e vou gritar p’ra que você não esqueça:
O-TÁ-VI-O!
            -- Escute, Otávio:
            O dominó que vesti era errado
            Conheceram-me logo por quem não era e
            não desmenti e perdi-me.
            Quando quis tirar a máscara
            Estava pegada à cara.
            -- Fossa pura! – ele disse e resmungado palavras obscenas saiu em direção ao bar perto da piscina principal e deu com uma velhota de olhar safadíssimo e mandou-se uma meia-volta-volver no sentido da Moça. Vamos beber, queridinha, okey?
            -- Certo, vamos.
            No caminho, ponderou que possivelmente seria útil, para alcançar objetivos posteriores, explicar que não era de todo ignorante em Fernando Pessoa. Forçasse a memória e viriam uns versos. Tática talvez errada, recuou. Se desse corda na Moça aí é que ela iria desfilar quanto soubesse de Pessoa e outros sujeitos fossentos. Cheíssimo o bar. Beberam umas quatro doses de uísque nacional. A Moça notou, num dos bancos, escornado, velho fantasiado de Grande Inquisidor Espanhol e foi então que o Rapaz viu: ela não usava porta-seios. Lá estavam, excitantes paca.
            -- Observe – a Moça falou – que aquele velho está chorando.
            Com gestos disse que não, de jeito nenhum, o Grande Inquisidor ele se encontrava simplesmente bêbado e você, amizade, deixe que lhe diga, você tem os peitinhos mais bacanas que já vi e você vai deixar que eu chupe os biquinhos. Juro: nada de mordidas, só beijinhos e chupadinhas.
            -- Deixo, vou deixar, mas gostaria de saber porque o velho está chorando. Isto me entristece.
            -- Eu sei a causa do porre dele, Dominó, e não imagino nada. Eu sei. Você é de fora e não conhece as transas locais. Negócios que a mulher dele, uma velhota, está de novo atacada de ninfomania, quer apanhar homem de qualquer jeito. Quis me apanhar, mas já não tenho saco p’ra sobrinhas de Matusalém. Agora, vambora, Dominó, você prometeu.
            -- Ajudou-o a subir as escadas, até o pátio de estacionamento. Cambaleava um pouco, o Rapaz, e ela cuidou que dirigisse lentamente, no máximo, 30 por hora, sedam cor de gelo. Não muito longe, imediações do Rosário, o edifício de apartamentos.
            Devagarzinho, Dominó, com jeitinho – pediu quando ela abriu a porta do quitinete. E informou sobre cerveja gelada. A Moça, com interesse, reparou na saleta: havia livros bem cuidado na estante de servir de divisória, vários volumes sobre administração de empresas, mas, igualmente, coletâneas de contos, poemas.
            Você tem alguns bons livros, parabéns! – ela disse, falando alto.
            -- Fique nua, Dominó – o Rapaz pediu, da cozinha.
            Despiu a fantasia de cigana e quando a colocou sobre a mesa o lenço verde lembrou Ângela, o corpo cosido, depois de autópsia feita pelos médicos daquele hospital, imediações de Miame. Valente, decidida. Ângela gritara na cara do guarda, em Nova Iorque:
            -- Você é imundo, escovado porco americano!
            Poderia ter dito, ao menos, algo semelhante a “você me importuna! Não me siga”. Nada. O que fez, irada, tudo o que fez, foi apressar os passos, fuga.
            O Rapaz, chegado da cozinha, vendo-a: você tem os peitinhos mais bonitos que já vi! Compreendeu que ele continuava bêbado e tomou-lhe a garrafa de cerveja: seja bonzinho, vá se deitar.
            Voltando da cozinha, onde repusera a garrafa e se servira de bolachinha salgada, viu-o deitado, nu, preparado. Aquecida por algum desejo, disse:
            -- Você é um belo jovem de corpo bronzeado, um animal de grande potência, você me parece simples e bom.
            E esperançosa que ele fosse capaz de ajudá-la a vencer o tédio e também aquele indefinível sentimento de derrota, impossível de ser verbalizado, algo que perdera não sabia onde nem quando, assim deitou-se ao lado do Rapaz e esperou.
            -- Você disse o que, Dominó?
            -- Que você é um belo e potente animal, que você me parece simples e bom.
            Sentiu-lhe a mão direita, delicadamente, sobre a barriga. Seu umbigo é quentinho, e não deixou que ele falasse mais e se acariciaram. Antes da pergunta (você gosta de por cima?) ele conseguira ser afetuoso ao tocá-la na face. Ela admitiu a posição e passou a cavalgá-lo, lentamente, sentindo-o. Quando quis apressar-se, a Moça, experiente, pressionou-lhe os ombros, as costas, contra o colchão de resistente molejo: não, tenha calma, seja capaz de toda calma. Assim, isso mesmo, assim, sempre assim, com ritmo, e ele obedecia, rosto juvenil, busto de poucos cabelos, dando-se por certa que o Rapaz fazia todo esforço para conter-se, olhos fechados, agarrando-se à borda do colchão. A Moça, então, considerou quase maldade o insistir na cadência estudada. Ele não tinha culpa, como muitos os de antes, quase todos os de antes. E moveu o ventre com mais rapidez. Segundos bastaram: sentiu a abundante ejaculação e ao pressentir que ele iria fitá-la, lábios contraídos, arfando sem excessos, fingiu o gozo:     
            -- Ah! Dominozinho...
            Esvaziada, levantou-se, olhando-o: saciado, inerte, o Rapaz quase dormia.
            A janela do pequeno apartamento dava para o nascente. Viu sombras no lá embaixo e compreendeu quintal. Imaginou o tipo do lixo amontoado, garrafa de uísque, latas de salsichas, jornais rotos, imprestáveis carcaças de pneus, ferro, ferros oxidados e retorcidos, e magoou-se por Ângela e perguntou-se: por que terão de ser sempre e de qualquer modo uns inimigos? Por que usá-los, e só? E recordou cena que, no íntimo, desaprovara. As duas num quarto, hotel do Rio. Ângela cavalgava um travesseiro: assim – quase a gritar – assim, assim mesmo, nunca permitia que ele a encare. Percebera ódio em Ângela. Com as unhas parecia querer espedaçar o travesseiro, roucos os risos, mordendo-se.
            Agora, ali, o mesmo mal-estar por Ângela provocado. Na verdade, agora mais do que antes: lembrou-se da experiência com o Comandante Espanhol, em Lisboa. Comportou-se segundo o que Ângela ensinara. Exigiu e obteve. Gozou, então, e pouca a alegria. O gozo, só o gozo, a memória ainda a preservá-lo em compartimentos frios. Sem pressa o Comandante Espanhol vestira-se, deixando, ao sair do quarto, uma frase, e ela se repetia sempre, voz de homem, implacável na ofensa: creio que lhe fui útil.
            Escutou o Rapaz a pedir:
            -- Venha, Dominó, está amanhecendo.
            -- Sim, foi muito útil, Dominó – e pondo-se de pé abraçou-a sem malícia ou luxúria, um esforço de camaradagem. Você é  estranha, Dominó, você se zangou comigo?
            O Rapaz precisava de ser educado e ela disse:
            -- É importante que você entenda isto: ainda que você não saiba direito o meu nome, quando você contar o que aconteceu, conte sem mentir. Desde nosso primeiro encontro no aeroporto. Conte que você me convidou para o almoço, depois para a festa, depois para este apartamento. Tanto quanto teria sido certo se eu o convidasse para você ir ao meu quarto no hotel. Você sugeriu, eu poderia ter convidado. Conte assim porque esta é a verdade. Você promete?
            -- Não entendo porque...
            -- Terminará entendendo. Promete?
            Sorriu, compassiva quando ele confessou: estou com vontade outra vez e convido... Olhou-o e era ainda o mesmo jovem, belo e potente animal, jamais o parceiro, aquele que, se Ângela tivesse razão, não existia, jamais existirá. Deitou-se e, brincando de cócegas com o Rapaz, disse: sabe, amizade, quase cometi uma tolice. Eu ia lhe contar uma história triste. De uma amiga com um Comandante Espanhol, um extraordinário Comandante Espanhol. É melhor esquecer. Agora fique bonzinho e esforçou-se para a segunda doação e o Rapaz  se satisfez e dormiu.
            Quando acordou, o sol já lhe invadia o quarto. Na mesa, o lenço da fantasia. E o Rapaz, então, se sentiu terrivelmente só.

- 0-

            O motorista do táxi preto parou ao vê-la acenar. Enquanto dava marcha-à-ré, a Moça se interessou pelo verdureiro que caminhava no outro lado da rua. No tabuleiro, além de hortaliças e outros produtos hortigranjeiro, havia longas varas de angélicas úmidas e de bom perfume, deitadas sobre verde das folhas de alface. A Moça comprou uma dúzia.
             E agora, dona, para onde? – o motorista perguntou.
            -- Para onde haja mar.
            Julgou a decisão estranha, que eram quase 5 horas da manhã. Viam-se restos da última noite do Carnaval, confetes e serpentinas pisados no chão. Alguns bêbados no jardim do Campo Grande, filas de foliões cansados. Quando cruzaram a ladeira do Iacht Club – e ali a festa prosseguia – ela recordou o Rapaz e também o Grande Inquisidor  Espanhol. O Rapaz, sobretudo o Rapaz. Graças que se comportara bem, adulta, e alegrou-se: o tédio desaparecera, sentia-se solta, poderosa vontade de viver.
            Pronto, Dona, ali está um mar – o motorista disse, parando no Porto da Barra.
            Naquele mar, as águas passavam de azul-chumbo para azul-celeste. Gentes na praia, certas pessoas ainda fantasiadas. Perguntou se ele não poderia levá-la para um outro mar, mais distante. Notando quão grossas eram as veias do pescoço do Homem, ouviu-o dizer tá certo, dona, é ir adiante. E ao desbrecar o carro ele pensou nas mulheres ricas, que tem dinheiro fácil, que apenas pensam em pescar homens, bem que ela poderia ser dessa natureza, assim, com aquela fantasia, os peitos balançando sob a blusa, tomara que fosse. Se posso saber, dona, a senhora é o quê?
            -- Aeromoça.
            É uma profissão arriscada. Tenho um amigo-irmão que foi aeromoço e hoje é garçom – o Homem falou e não disfarçou a simpatia, ouvindo-a dizer que profissão mais perigosa era a dele.
            -- Continuo achando que é a da senhora.
            -- Em Nova Iorque o senhor não diria assim. Em Nova Iorque até jovens mulheres atacam motorista, para assaltos.
            O Homem disse então, de fato, não é bom, mas em Nova Iorque, e ela ia alimentando a conversa buscando chance para referir-se ao sórdido guarda, e foi quando viu o padre abrir a porta da igreja do Rio Vermelho e pediu:
            -- Pare o carro, por favor. Um outro obséquio: entregue ao padre estas cinco varas de angélicas. Para qualquer altar, qualquer santo.
            Ele saltou. Com as flores. Alto, forte, caminhar seguro, 35 a 40 anos, mulato mais para preto. Recebendo as angélicas, o padre o abençoou, maquinalmente, e entrou na igreja e, de volta, o Homem disse: sujeito de pouca educação. Devia ter vindo aqui, agradecer a dádiva.
            -- É um velho – a Moça disse – Sabe pouco da vida.
            -- Devia saber muito. Porque é Padre e porque é velho.
            Gostou do tema, a Moça, e disse que isso de as pessoas idosas saberem necessariamente mais que os moços é coisa do passado. É preciso ser jovem, ou ter espírito jovem, e estar em toda a parte e estudar muito e não se iludir com as aparências, porque tudo muda com velocidade espantosa. Há milhões de máscaras que necessitam de ser arrancadas, não importam as pessoas, senhor, não importam as instituições que as usem; arrancá-las, senhor, o mais urgentemente possível!
            -- Mais para adiante, outras praias.
            -- Sim. O senhor compreendeu o que eu falei de máscaras?
            Sim – o Homem disse e certificou-se, utilizando o retrovisor, que estava bem mais feliz. Na orla atlântica imprimiu maior velocidade ao carro, na intenção de uma praia onde as pessoas comuns, em pequenos grupos só aparecem das 6 horas e já eram quase 5 e 18, aquela praia em que coqueirais espessos escondiam relvados. Talvez ela quisesse ir ao mar, nua. E então, se chamado, ficaria nu também e a possuiria para nunca ser esquecido, nem esquecê-la. Gosto de ouvir a senhora falar. Como já disse um amigo-irmão que é garçom, já foi aeromoço. Fala assim como a senhora fala. A senhora é aeromoça lá p’ra os Estados Unidos, ele foi aeromoço nas bandas da Europa. A senhora entendeu?
            -- Sei o que o senhor quer dizer, mas insisto no que estava dizendo, repito que as mulheres têm necessidades profundas...
            -- Também penso assim...
            -- ... porque isso de terem sido amaldiçoadas no Começo, e o senhor sabe que foram amaldiçoadas no Começo, decorreu da cruel ignorância dos que fizeram os primeiros tempos,
            -- ... não desdigo a senhora,
            E desde que é impossível retornar aos primeiros tempos, reorganizar tudo, não, não é possível, então que se lute desde hoje, desde agora, contra a Grande Trapaça.
            -- A senhora fala o vento da verdade.
            -- Falo de arrancar máscaras, descobri e expor todos os rostos e todas as consciências sob a luz, ainda que queime.
            -- Também penso assim.
            Porque para tudo há um preço. Ninguém deixa de pagar. Você entende?
            Um pouco antes da praia buscada, ele parou o carro. Encarou-a com respeito, compreensão, dignidade. Disse:
            -- Eu entendo você
            -- Você não me engana?
            -- Não sou de enganar, dona. Não a uma mulher que trabalha e ganha seu próprio dinheiro.
            -- Agradeço.
            E ale olhou a praia, o coqueiral, o mar. Apesar da acareação, temeu que, como outros, ele fosse apenas um animal a mais. Não podia recuar. Dera-se. Urgia pôr-se e pô-lo à prova.
            -- Sim – disse – aqui está bom.
            O Homem saltou e abriu a porta. Já sem fantasia de cigana, apenas com a calcinha branca, rendada, caminhou em direção ao coqueiral. Ele se conteve. Não demorou muito e o Homem ouviu-lhe a voz:
            -- Venha, traga as angélicas.   

Fim.          
                   



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