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Assalto Relâmpago.


Assalto relâmpago.

            O mês é agosto. Está mais frio do que costuma ser nessa época do ano, na bela cidade de Salvador. Michael bebe o último gole de uísque do copo, olha em volta e, apesar de estar rodeado por pessoas, senti-se só. Uma bela mulher, sentada junto à mesa ao lado, sorri para ele. Ele nota o sorriso de perolas, mas se nega retribui-lo. Vendo-o rejeitá-la, um rapazote de modos afeminados, caminha com trejeitos até a mesa em que ele se encontra e pergunta as horas.
           — São três e meia.  
Dada a resposta, Michael se levanta, caminha até o balcão, desviando-se de gentes exóticas, paga a conta e sai em direção a rua.
Luzes amareladas são refletidas pelo asfalto denunciando a umidade deixada pela garoa que envolve à madrugada. O clima é cinematográfico. Os sons liberados pelos sapatos, no atrito com o asfalto úmido, ao caminhar, somado as doses de uísque, acalmam Michael, — (Ele havia brigado com a esposa. Saíra de casa para beber, refletir e reavaliar sua vida. Há muito, sentia-se tolhido em sua liberdade individual, mas carregava no imo o medo de perder a mulher para outro homem. Ou pior, perder o afeto dos filhos. Por isso, fugia de uma ruptura definitiva,) — que caminhava em direção ao carro, reflexivo: “Seria o amor apenas uma invenção humana. Uma escolha que nos é sugerida geração após geração desde a infância?” — Um estranho temor o invadiu: — “Teria tudo sido um erro?” — Lembrara-se de Ivan Ilych, personagem de Tolstoi.
O rapazote afeminado, o do bar, seguia-o sem ter sido percebido e, apressando os passos, aproxima-se de Michael mais uma vez e se oferece para uma transa. Michael, de modo elegante, declina do convite, sorri da cantada e, a passos firmes, continua a sua caminhada ainda pensativo: “Desejos sim, desejos. Puro e simples desejo... É isso, o amor é apenas a oscilação de desejos e medos”.
Ao chegar ao carro, Michael se acomoda no banco do motorista, aciona o NP4 e se nega ao impulso de ligar o possante veículo. Seus pensamentos metafísicos retornam aleatoriamente: “Será apenas isso. Desejos e medos? Não! Não haveria o amor, a grande dádiva, resultar da oscilação de desejos e medos”.
 As vodcas bebidas no bar trouxeram-lhe um aconchegante torpor. A rua deserta, as luzes amarelas que o asfalto refletia, o calor que espantava o frio da garoa, o banco confortável, o cheiro de carro novo e a música suave que o NP4 reproduzia levaram-no a cochilar.
De repente, Michael é acordado abruptamente por um assaltante. O cano duro de aço frio machucava sua têmpora.
— Aí coroa! Desce da máquina. — Michael pede calma e desce do carro. — É um assalto... Tá ligado! Não vá querer dá uma de herói... Baixe às vistas! Tá ligado seu porra! — O marginal gritou ao aplicar uma coronhada no pescoço de Michael. — Mandei baixar a cabeça! — Sentindo a pancada Michael atende o ladrão. — Baixou agora, veado! Rebarbe e eu estouro seus miolos. — Michael obedeceu ao assaltante e, sem reagir, foi posto dentro da mala. Na mala vê que outro assaltante passa enquanto o marginal que o atingiu exigia:
— Não olhe pra mim!, Veado! Tira o relógio! Esses anéis! Passa a carteira. Rápido! Isso... Menino bonito do papai! Agora vamos dar um passeio. Se o bambambam se comportar pode até ficar vivo. Fique ligado! — Zomba o assaltante enquanto fecha a mala e concomitantemente o veículo é ligado pelo cúmplice.
O medo agora é real. Michael respira fundo, tenta colocar os pensamentos em ordem: “Preciso racionalizar. Estou acostumado a viver sob pressão. Tenho que me acalmar, vai terminar tudo bem, tenho que manter a calma”.
Cantando pneus, o carro sai em disparada. Sobra espaço na mala para Michael conseguir se acomodar. Faz frio. Ele se embrulha com o terno e deixa-se divagar: “Quando criança brigava com os irmãos mais velhos para poder passear na mala do Ford de seu pai, nas curtas viagens feitas à praia de Buraquinho”. — Michael sente seu corpo oscilar de um lado a outro devido à inércia resultante das curvas feitas em alta velocidade. Retornando a realidade do presente, Michael pondera: “O carro é novo e de ótima estabilidade, os pneus e jantes são de fábrica, não tenho porque me preocupar”, e volta a sonhar: “Os domingos em Buraquinho. Seus pais sentados à sobra da barraca, a beira do rio, bebendo cerveja e comendo tira-gostos. Pai! Pai! Lembrou-se que gritava quando moleque franzino para que o pai o fitasse lhe dando a coragem necessária ao ousado salto no rio.  Nadaria contra a correnteza que o mantinha parado no mesmo lugar. Alegrava-se, também, ao correr pela margem do rio, que ia até o mar, onde se abria em pequena baia com bancos de arreia formando ilhotas”.— Uma freada brusca desperta Michael novamente.
— Filhinho do papai! Quero a senha! Rápido, veado! — Ordenou o marginal ainda de dentro do veículo. Da mala, Michael busca não irritá-los. 
           — De qual dos cartões? Têm vários, aí na carteira, escolha o que quiser...
— O do Banco do Brasil, otário! Rápido!
— A senha do Banco do Brasil é 423557, as letras são A H S.
— É assim mesmo, filhinho. É assim que se faz. — Disse-lhe um dos assaltantes, com timbre de deboche, ao sair do veículo. O outro, o motorista, tenta manter o terror psicológico:
— Você morre hoje! Filho-da-puta... Eu vou matar você...
Michael, inesperadamente, reage ao ouvi-lo ofender sua mãe.
— Minha mãe não é a sua, vagabundo! Vá. Mate-me! — Berrou Michael. — O meliante engatilha a arma. Ao escutar o trincar da automática, Michael espera o tiro e, novamente, vagueia em pensamentos: “Os olhos azuis de sua mãe cintilavam ao olhá-lo e pô-lo no aconchego do colo quente para abrandar suas dores. Michael lembrara do cheiro do perfume e no entoar das canções de ninar. Murmúrios em seus ouvidos. Era linda e majestosa sua mãe. Sagrada como todas as mães que saboreiam o crescimento dos filhos”. — A porta do carro é batida. A voz de escárnio do chefe da quadrilha é ouvida novamente:
— Está bem de vida em filhinho! Três mil reais só em um banco. Vai ter que deixar os Chequinhos, assinadinhos, na mãozinha de papai!
—Não! De forma alguma.— Respondeu-lhe Michael, corajosamente. — Sei que você já sacou o limite do 24 horas. É só o que vocês vão ter. Defunto por defunto, não libero mais nada.
— Qual é Filhinho? Deu pra virar machão assim de repente? Quer morrer agora, Quer?
— Seu colega já me avisou que vou morrer de qualquer jeito.
— Mas, quem manda aqui soy yo! Esse veadinho não decide nada! E eu gostei do filhinho de papai. Se continuar colaborando pode até se dar bem e sair inteirinho...
— Para mim é só dinheiro, — ponderou Michael, — mas se vou ser morto de qualquer jeito, vou colaborar, pra quê?
— Filhinho... Se eu quiser te matar, eu te mato! Mas antes, tiro todas as informações que queira... Certo? Quem tem culhões tem medo... — Michael se cala.
O chefe da gangue discute violentamente com seu comparsa, enquanto, na mala, Michael sente a potência da aceleração do seu veículo e se deixa voltar a sonhar: “A escola é Tereza de Lisieux, o local, a cantina, na praça, entre a portaria e o prédio principal. O nome da menina que espremia seu rosto a catar cravos é Miriam. Um prazer incompressível apossa-se de Michael. Miriam fora sua única namorada. Lembrou-se do primeiro beijo dado na brincadeira verdade ou conseqüência, na qual a garrafa teimava em repeti-los. Sentia vergonha das gozações que sofrera feitas na época. Recordara também dos bábas nas aulas de educação física e dos elogios do mestre nas aulas de capoeira, do amigo de fé Antônio Agle e suas namoradas. Dos dias de se esconder no alto dos combogóis para assistirem, trêmulos, as meninas no vestiário a trocarem-se... Eram boas lembranças” — Outra freada brusca o traz a realidade. A escuridão e os pequenos baques denunciam a troca de pista. Agora, em rua de barro, com o veículo a toda velocidade, Michael sente o vibrar da pista esburacada e, novamente, agradece-se pela escolha do automóvel adquirido. Apesar da trepidação, Michael divagueia mais uma vez: “A praia é Piatã, às marolas perfeitas quebrando em seqüência, o gosto do sal na boca, o prazer do sol a dourar-lhe a pele enquanto equilibrava-se em uma prancha de fibra-de-vidro a dançar sobre as ondas. Os amigos, agora outros, deslizam sobre as mesmas ondas fazendo evoluções como se competissem entre si. A mesma namorada, Míriam, a esperá-lo na areia já com formas de mulher. A salada de frutas do “Amigão” com seus acompanhamentos deliciosos — Mel e leite em pó ou leite condensado e chantilí feitos em casa, preparados com esmero por Dona Marli.
Mais uma vez o estancar do movimento retira Michael do transe. — Segundos se passam, tiros são detonados de dentro e de fora do carro. Nervoso, Michael espera um desfecho trágico. Encolheu-se como a imitar um feto e espera impaciente o fim do tiroteio.
 Um silêncio mórbido tomou conta do local que só foi quebrado pelos cantar das sirenes dos carros da polícia. Michael começou a bater na tampa do porta-malas. A esperança havia retornado. E ele deixa-se resonhar: “O nascimento de seu primogênito, o sorriso constrangido de Miriam ao entregar-se a ele na noite de núpcias. Os domingos reunidos com a família na casa de praia. O abraço forte dos filhos quando chegava cedo a sua casa. O caçula a gritar-lhe, esperando por ser mirado, de modo que pulasse do trampolim sentindo segurança. O filho mais velho a apresentá-lo a mais nova namorada para pedir-lhe o carro emprestado”.
A tampa do porta-malas é aberta, um policial ajuda-o a sair do carro ainda tremulo e incomodado pelo excesso de luz. Os carros da polícia, o posto de gasolina, o cheiro de pólvora, os corpos que jaziam de dois jovens de classe média. Um deles, o afeminado que o convidara para um programa, e mais nenhuma dúvida sobre o significado de sua vida. Um dos guardas puxou conversa:
    Tudo bem com o senhor?
    Tudo bem, graças a Deus...
— Bom carro! O policial apontou a Michael um projétil alojado na lataria, que o atingiria caso a transpusesse.
— É um ...!
— Um belo veículo...— respondeu-lhe o guarda ainda tremulo.


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