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Axé! Uma história estranha.

       



            Aconteceu numa noite estranha, digo estranha porque estava clara a meia-noite, clara como um alvorecer. Eu voltava de uma farra na Lagoa do Abaeté, e por preguiça, fui querer cortar caminho pelos matos da Estrada Velha do Aeroporto. Estava cambaleante devido às infusões tomadas junto a cervejas de marcas distintas e de ótimos paladares. Só vou contar o acontecido porque sou de contar mesmo que digam, e sei que vão dizer: que sou um mentiroso. Um maldito culhudeiro capaz de iscar uma traíra e teimar em dizer que fisgou um surubim de oitenta quilos. Não nego que por vezes aumento nos fatos para dar um gostinho na conversa. Mas, isso faria em ocasiões menos interessantes, agora não. Não aumentaria no ocorrido um grama sequer devido à estranheza do que sucedeu.
Tudo começou com um zumbido qual um enxame de abelhas, daqueles enxames de fazer nuvem. Logo depois, apareceu um clarão seguido de cores a piscar. O céu límpido relampejou e eu não sentia mais os pés sobre o barro cascalhado do caminho. Ouvi o relinchar d'um jegue junto a mim. Tentei abrir os olhos, mas a luz era forte que nem dizem de luz de assombração. Quando consegui me aprumar estava defronte de um homem baixinho, preto, que fumava uma bituca de charuto. — O charuto, com certeza, não era nem de Cuba nem de Maragogipe. Digo isso devido ao fedor que exalava. São de bons cheiros os charutos de Maragogipe. Já os de Cuba, apesar de nunca tê-los experimentado, soube por meio de fonte fidedigna, que são de excelente qualidade. — Além do tabaco fedorento, o neguinho, ainda, cheirava a cachaça “afofa cu”. Uma dessas cachaças feitas com álcool desdobrado. O engraçado é que o neguinho tinha lá uma semelhança com o 'exu'. E pulava dum lado pro outro e falava e ria ao mesmo tempo. Então perguntei: — O que é que você quer "Grande Otelo?" Aí, o negrinho cheio de trejeitos, me respondeu: "Misifíu, ides a capoeira, ides lá, ides agora". O zumbido aumentou e eu segui um caminho de luz rasteira até dar de cara num descampado no meio dos matos. Lá, tinha pronto um bozó de galinha preta, cachaça, charutos, velas rubras e negras. Coisas de arrepiar torcedor do Bahia e de fazer gente braba ficar com o cu na mão. Uma crioula bonita que se dizia chamar Pomba Gira dançava em torno do ebó enrolada num pano vermelho transparente. Tentei passar a mão na bunda da negona, mas era visagem. Cheguei a ouvir, e isso eu juro de pés juntos, um batuque de candomblé. Foi então que apareceu um Caboclo Malembá, todo vestido de branco, com um cajado na não e um cachimbo na boca. Ele se aproximou de mim e me falou que eu era um tal de Babá Oké, que nasci encapado. — Eu entendi capado e quase lhe sapeco um cachação... Pequena é, não nego, mas que tenho... tenho. E nunca me deixou na vergonha. — Então, ele corrigiu o versado e explicou-me que encapado era nascido envolto pela placenta da mãe, por isto, disse-me lá ele: "Misifíu tem obrigação. Misifíu num sabe, mais tem nego de feitiço brabo pra riba de Misifiu. Misifíu vai num terreiro pra mó de afastar encosto".  Depois ele me disse que eu poderia ir tranqüilo, pois, estava protegido por um tal de Oxossi. Aí, eu que nunca tinha jogado capoeira na vida comecei a dançar, e gingando dum lado pro outro saí dando pernadas a torto e a direito até cansar. Então apaguei... E fiquei desmaiado até o sol bater na minha cara. Acordei com uma ressaca dos cornos. Agora, só me resta ir lá no tal terreiro para "fechar o corpo".            


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