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Colagem (desvairada) em manhã de carnaval. Ariovaldo Matos


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“São mais que os leopardos/Nossos recônditosu” (Sosígenes Costa in “Obra Poética”).

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“As ruas são como tubos que aspiram os homens” (Max Picard, in “La Fuite Devant Dieu). Informe-se que jamais esteve na Baixa dos Sapateiros, rua é “tubo fervente que queima a gente”, a acreditar-se no velho Antônio.

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“Segundo as Escrituras, Noé descobriu a vinha e abusou do seu néctar mais do que devia... Tornou-se corajoso como um leão, forte como um urso, cruel como um tigre, rabugento como uma pega e gritador como um galo”. ( Nádia Xavier in “Xeque Mate”, “jornal Tribuna da Bahia”, 24.1.78).
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“Há somente isto: eu vivo, leio e luto. O que penso e o que digo surgem tanto de minha consciência como do meu coração. Confiro com a vida tudo quanto leio nos livros. E o contrário: procuro nos livros o que vou encontrando na vida”. (Paco Lonardi, argentino, ex-estudante de Medicina, lutador de box).
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“Dá-se que todo o mundo só conta vantagens. Eu canto meus dissabores”. (Desabafo de Miradão, a seu modo um sábio, na casa de meu pai bebendo e distribuindo alegrias).

         PRIMEIRA PARTE

         De acordo com o velho Antônio Reys, principal autor e personagem do que se segue, o “grande e imperial Salomão tinha o bom gosto de importar negras, para uso e gozo. Em especial as negras da Etiópia. Negras mais anegradas porque nascidas e criadas sob o salitroso sol do mar vermelho. Negras de grandes ancas e fartos seios; pudins, Stela, minha velha, pudins! Amplos oceanos de negras carnes e Salomão as perfumava, ajuizado, experiente. Perfumava-se com óleos especiais, e incenso e mira e maceração de tamarindos. Tamarindos, senhores deste bar, Alonso, meu amigo, tamarindos em todos os lábios delas”.
         UM
         “Negra, negra de um negro etíope, eu com ela parelhado, o mulato caminhando atrás, Baixa dos Sapateiros, véspera de carnaval. E um colegial, fardado, rapazote louro, menino gaiato, tolo, p’ra ela cantando o “Requebre que lhe dou um doce/ Requebre que eu quero ver”.
         Jovem imbecil! Vá ver que confunde fevereiro com abril. Estudante irracional e o mulato ri, zombeteiro: “Pelo bem, pelo mal, —  ele afirma, presepeiro – o petisco dela não será meu nem seu, amizade. Muito menos aqui do estimado amigo, freteiro apesar da idade. É isto aí ela é rica rapaz, e nós somos simples meirinhos, pobres mortais desta nossa Baixa dos Sapateiros”. Calado fica o estudante.
         O mulato fala e ri, rádio-de-pilha na mão, alto som, intruso mulato realmente presepeiro, intruso também este louro de mocidade farto, e intrusos porque eu vi a negra primeiro. E será o mulato, não obstante (como se verá adiante), o ditoso terceiro cavalheiro, apesar de sem chapéu de proteção ou garbo. Nem mesmo uma boina o zebedeu tinha, mas tinha o rádio! E, no rádio, a canção. É isso aí, meus senhores: o que vige no Brasil é o comunismo, é a subversão, são os soviéticos.
         —  Repita o Poema da mulher soviética, até que é gozado (pede o mulato).
         É uma esculhambação: hoje qualquer protético prático banca o dentista, qualquer charlatão é médico! Os sintéticos substituem os naturais. Quem faz e desfaz é a canalha parida pelas multidões, são os Tecun Uman exportados pela Guatemala incendiada, são os aéticos a exemplo deste estudante que confunde fevereiro com abril. Mataram a hierarquia e a idade, antes louvada, é motivo de gozação: é o cúmulo, mas o envelhecer vai se tornando crime! Manda a canalha que cala e calha no regaço de um povo servil.
         Falo assim, empolgado (El-Rei da Salvação, eia, aqui D. Sebastião, que na costa há mouros!, e o mulato ri, se abisma o estudante, ambos de dentes certinhos, sem falha. Os meus? Coitado de mim... Só quem não vê é Stella, Stella da Conceição, precisada mulher gralha, coitada dela: vai fazer 55 anos (todos sabem disso, lá na pensão), e esta negra, negra de um negro etíope, ainda não tem dezoito, com certeza. De quem, ao fim do cabo, será o petisco dela? Do louro, do mulato ou meu?
         Ela caminha a seu nome deve ser Tereza... Terezinha de Jesus, de quem titia era devota. Ou Tereza da Anunciação?
         Quente chão negro, temperatura de fornalha, rua que é imenso bueiro, Baixa dos Sapateiros, tudo fervente, 11 horas da manhã, acesas todas as brasas do sol deste mês de fevereiro. E, sem dó, o rádio-de-pilha do mulato: “é de manhã/é de madrugada/é de manhã/ vou ver minha amada/é de manhã/ vou ver meu amor”. Negro chão quente e uma música assim, consciente pregação subversiva, em véspera de carnaval. Mas, safadinha, a negra ri, alegre com o rádio que a chama de flor. Negra, negra de um negro etíope, mãos puras, rosto auroral, mãos de anjo, estátua ainda sem pedestal, e ri também (sem palavras e sem ditos) do rapazote louro, bonitinho, engraçadinho, eticétera, mas nada expedito. “poseur” por graça da juventude, mas boçal, emproado menino.
         Que rapazote burro, afoito, ria sua inquietude, inteligência prisioneira de cueiros. Assim o mulato ganha, cretino! Esta não é a Rua Chile, menino, é a Baixa dos Sapateiros, de muita glória, outrora, inspiradora do melhor hino de Ari Barroso, aquele da morena frajola: “Pedi um beijo/ Não deu/ Pedi um abraço/ Sorriu/ Pedi a mão/ Não quis dar? “Fugiu!”
         — É isso aí, amigo. Quem canta seus males espanta.
         — O senhor é um velho ridículo (acusa o estudante).
         “Ah, quanta saudade que tenho/da aurora da minha vida”... Outrora, frajola, aurora... Por que, menino, não vais embora, e agora? Vá, salve-se. Idêntica à minha é a da tua pele. Por que começar tão cedo na derrota, repetindo-me? Bote os pés a terra, veja os fatos, aprenda que já não diz lê e sim se diz ele. Tudo mudou, tudo muda violentamente. Tu és da Rua Chile e não desta Baixa dos Sapateiros. Vá embora, menino, se guarde que te dou esta nota de 100 cruzeiros. Ou aquele branco par de sapatos, veja, na vitrine da “Loja Dois Irmãos”. Aliás, me lembro deles: eram Joca e Ziza Jambeiro, mortos naquela epidemia de encefalite, pouco antes de o Brasil entrar na guerra, 1942, 1943, por aí. Os sapatos ou o dinheiro? Vai-te embora, menino, vai.
         — Meta seu ouro sujo na sua caixa de merda.
         — Respeite o velho, rapaz, que ele podia ser seu pai ou avô. Operário sou, ou melhor, artesão, e sei o valor da idade.
         (Mulato ou branco, Alonso, senhores desta bodega, teria sido Tecum Uman?) Longo minuto... Já será minuto-e-meio? A brigar com o rádio – oi, menino idiota – canta o gaiato a coisa sem sentido, sem quê nem praquê, canta: “Requebra que eu dou um doce/Requebra que eu quero ver/Requebra, meu bem, que eu trouxe/Um chinelo p’ra você/ Aí (eu prossigo) Para você requebrar/mo-re-ninha/da sandália/e do pom-pom grená”, e ela é negra, estudante, ou você não vê? É negra, é andante estátua de carvão a se fazer diamante, menino, é carne e é sangue e é luz, escrava saída da escuridão. Veja como o sol a beija, trepidante de desejos, ou você não é capaz de ver? O, menino, veja! Me sinto ele, o sol, rapaz, compreendo ele, que a febre das ânsias há muito dele em mim: brilho, calor, coragem...
         — O senhor, tá é bêbado, vovô. Assim não dá pé.
         O velho aí falou como artista, estudante, que ele é poeta, a julgar pelos versos consagrados à mulher soviética até...
         Você fala com chula ironia, mulato, mas disse a verdade: sou um artista, aparentado com Voltaire, por parte do meu tataravô. E ouça, estudante, ouça e aprenda que a arte é um refazer constante do gesto, do olhar, do canto, de quem primeiro descobriu a beleza, nela o amor, o ódio, o riso, a melancolia, os ossiânicos lamúrios a agonia das impossibilidades!
         — O senhor é um chato.
         Ah, menino idiota, como eu gostaria que tudo começasse de novo, eu ainda bebê... Eu impediria, asseguro, agora que tudo sei, o fuzuê que Titia e o velho Amedeo causaram. No mínimo, garanto, eu tentaria, em defesa da moral sã, esta que dá alento – aprende comigo, aprende! – à nossa civilização ocidental cristã.
         — O senhor é também tantã!

         DOIS
                         
         O mulato já não me acode e então foi(é) da raça branca do herói Tecun Uman... Tá tudo rodopiando, que cachaça miserável, mas preciso ficar de pé que preciso de mulher, até soviética serve! Tão ouvindo? (E eles andando, Alonso, andando e rindo).
         Negra, negra de um negro etíope. 11 horas da manhã, véspera de Carnaval, Baixa dos Sapateiros. E fui como estudante (aquele menino ingênuo), antes da canção de Caymmi – “Requebre que eu dou um doce”... – e cantava, no meu outrora, “Maria/o teu nome principia/ Na palma da minha mão”.
         — “Desguia, velho, desguia e, no entanto, a agora morta Clara Maria preferiu se casar com um perebento, aí de uma freguesia qualquer, que vendia joias de contrabando,
         — Ah, amigão, que pena!
         — Que cachaça o senhor bebeu p’ra efeitos tão malucos? E, eu sei, enviuvou cedo, pobrezinha dela, depois caindo na “vida”.
         —O amigão não se sente mal falando assim, tão abertamente, de tais particularidades?
         Não. Clara, coitadinha... Ela, Isa e Raimunda, e todas tinham Maria no nome. Santa mãe de Deus, que heresia! E é verdade o que conto, não é invenção minha, nem efeito da vodiquinha, palavra de honra, honra de homem. E moravam, as três, vejam só, no beco da Agonia, uma das transversais da rua da Poeira, meu amor, em Salvador, Bahia.
         — Tá até papagaiando a televisão!
         Clara Maria Dantas, assim se chamava, e a família era importante (pelo lado materno) nas bandas de Cachoeira: família Soeiro. Ela, Isa e Raimunda, quase ao mesmo tempo “comidas pelo velho Amadeo”, conforme se dizia... Me lembro, agora, de reportagem, dum tal Contreira, de título assim: “Os três M da Prostituição: Miséria, Morte e Maria”. Clara, Clarinha, que pena... e eu que me julgava dono da situação!
         — Desguia, velho, desguia.
         Estirão de asfalto, e negro e quente chão fervente, Baixa do Sapateiros, puta-que-te-pariu p’ra este calorão. Não sei um dia, como Stella insinua (este mulato não sua, pô, não sua!), terei coragem de contar o que ainda não contei, e publicamente. Titia, Amadeo, papai... Este é o século da franqueza, em que morrem as privacidades, mas contarei? Talvez, vamos adiante. “Um dia/Encontrei Rosa Maria/na beira da praia/a soluçar”. Ela soluçou, Titia, no dia em que o velho Amadeo morreu após beber o refresco de tamarindo.
         — O que o amigão tá sugerindo?
         — É papo furado dele, amizade! (acredita o estudante).
         Sim, adiante. Aliás, o delegado do inquérito p’ra apurar o envenenamento se chamava não-sei-o-que Furtado... Mas, adiante... Ah, vocês não sabem de nada. Tava boa a “caipirinha”...
         — O maluco tem mania de mistérios.
         Caminhando, gente, caminhando. Não há mais, vejo, a “Casa Barletta” da qual foi artesão o citado velho Amadeo, famoso garanhão, patriota de Milão, filho de comunardo, anarco/comunista, se vocês me entendem, comilão de mulheres, e sempre as minhas, senhores, as minhas! Isa, Raimunda, Titia, Clara Maria. Ah, sim, e Isaura. Luzia?
         — Velho tarado...
         Ele gostava de circos, falava de Matteoti, cantava a “Avé Maria” com sua bonita voz, um vozeirão. Vocês riem porque não o viram deitado, morto, e era noite, umas doze velas acesas arrodeando o seu caixão, ele com um ódio retado, ódio daquela morte.
         — Morreu envenenado?
         Sim, e ninguém sabe por quem. Eu não fui e jurei diante do delegado Furtado. Mas, Titia, ciumenta como era? Não afirmo nem nego, não sei. Não sei. Não sei de nada! Nem mesmo de Titia com ele, não sei, juro, e o que se assoalhava quando à minha participação na história não passava, e não passa, de pura especulação.
         — Ou fantasia com um quê de trágico p’ra impressionar a gente.
         — Você é um chato, menino. Você...
         Não briguem... É hora de mudar de assunto, negra, é hora. Menino, me faça essa mercê, vá embora, não se intrometa em coisas de adultos. Sabe, menina, outrora nunca fui feliz, salvo, imagino, quando fui tenro bebê, “o capeta” ou “o capetinha” como Titia me chamava. Ah, Titia, que mulher!... Negra, menina, tô com enorme tesão em você. As outras foram brancas e você é negra, gloriosamente.
         Alegria no mulato de rádio-de-pilha na mão. Entendo: está contente que esta hora p’ra ele é ainda madrugada (não sua, o cavalão, não sua!), é de manhã, às 11 horas são 7 somente, e ao longo estirão de asfalto é sua terra, é sua rua, é sua estrada. Como o velho Amadeo será também um artesão, suponho. É isto o senhor, é isto?
         — De certo modo, sim. Sou alfaiate, vovô.
         — E desguia, velho, pô, desguia, que seu tempo já passou. Proponho que o senhor vá embora. Que nos importam Amadeos, esta sua Tia, e Isas e Raimundas, Marias? Não nos dizem nada.
         Ah, sim, Ada, ele também comeu Ada.
         — Além de bêbado, o senhor é louco.
         — Pelo amor de uma rima, ele mente. É sensacional. Adiante, vovô, adiante. Repita o piramidal poema da mulher soviética. E não interrompa ele, estudante, ou vou ficar retado da vida.
         Os dois contra mim e o rádio também infernal: “É de manhã/é de madrugada/é de manhã/vou ver minha amada/é de manhã/ vou ver meu amor/vou pela estrada/e cada estrela/é uma flor
         — Mas (o mulato, entoado) A flor amada/é mais que a madrugada/e foi por ela/que o galo cocorocó.”
         Rima de merda: rocô e flor.
         — Mas, é do mestre Caetano...
         Música de tal jaez, em véspera de Carnaval, é uma esculhambação. (Stella, meu amor, você esqueceu o ovo cozido, pô). É um despautério.
         — Lá vem ele com novo mistério. Quem é Stella? Responda. Vovô.
         Já disse quem ela é. Disse ou não disse, senhor alfaiate:
         — Disse.
         Não tenho culpa que você não ouvisse, estudante. Tava gostosa aquela “caipirinha”. Tô sentindo saudades... Muito gostosa: cachaça, limão, açúcar e o espanhol (irmão Alonso que chamo de ladrão só de brincadeirinha) botou gotinhas de vodiquinha, álcool comunista: tenho horror aos russos de hoje; prefiro os antigos, os tzaristas...
         — Bobagem discutir política, vovô.
         O espanhol de quem lhes falei não se chama só Alonso. Quero dizer, é Alonso, o que dá rima aqui menino sonso, e é Baqueiro também. Foi franquista, é socialista da ala monarquista, mas jamais será comunista, segundo me jurou indagorinha, após me servir a quinta “caipirinha”, comigo lamentando a ausência do ovo cozido,
         — Por Stella esquecido. Já tô entendendo melhor,
         com sal polvilhado.
         — Ovo e sal p’ra melhor defender a civilização ocidental cristã.
         Exatamente, mas estou meio confuso por causa de Tecun Uman. Querem parar um pouco p’ra eu poder acender meu cigarro? Obrigado... Alonso é o dono do bar, um amigão. Meninote ainda, quando eu já era rapazote, quase, salva o velho Amadeo administrando-lhe uns vomitórios.
         — Ora, isto está muito chato. O senhor matou o tal Amadeo?
         Não... Que tal mudar de assunto? Obrigado... Ali, vejam onde aponto, ali foi a Farmácia Santa Inês: também morreu. Falar em farmácia, mamãe se chamava Anastácia e também morreu. Morreu quando eu nasci. Eu fiquei, ela se foi. Aí, papai casou com Titia, irmã dela, p’ra tudo ficar em família. Havia disso, antigamente. A pobreza era tanta, antigamente, que se matava ou se morria por cartolas, estolas, calçolas, entenderam?
         —Stella é a tal Tia?
         Não, menino, não. Stella é a dona da pensão, viúva do finado Maltez. Você não entende porque não presta atenção, só fica olhando p’ra ela, ela que não dá confiança a você. Bom, menina, senhores, com exceção de Stella, tudo e todos morreram. Com outra exceção: Hélio! Apelidado “Pamonha” era Santos de Oliveira e Noronha. Morava aqui pertinho, um cara genial – ele até traduzia alemão! – o louro Hélio que fracassou, um dia no acesso da Revolução. Coisa triste, sei, mas quem, naquelas circunstâncias, não fracassaria? Bom que esteja vivo (me juraram que ele não dedurou ninguém), bom que o velho Amadeo esteja morto. Que acham disso vocês? E por que estou contando tudo isto? Por que a gente sempre precisa de prestar contas a alguém? Por que a gente tem sempre de ser olhado, analisado, avaliado, elogiado, esculhambado, criticado, por quê?
         — Vá falando, vovô, que está gozado.
         Eu gostaria de ser um. Quero dizer, eu e uma mulher. Uma mulher de grande útero. Faríamos um mundo povoado.
         — Bobagem. Se lembre do seu passado: os Hélios, as Claras... É disso aqui que a menina gosta. Vá em frente.
         Me lembro de Ângelo, de mim invejoso por causa de Maria (ou Luiza? Ou Inês), o Ânjelo da revista Evolução, nossa estréia literária, 1942 o ano, agosto o mês. Boris, eu e ele na direção. Dezoito, este dia.
         — Que velho tagarela... Desguia, vovô, desguia!
        
         Três

         Negra, negra de um negro etíope, fêmea que, espero, não seja outra Maria...
         — Ou Titia...
         Exato, não será, espero, em Deus. E, desentoado, para ela eu canto em pífia falsificação, na base do que (em parte) Voltaire fazia: “O teu cabelo não nega/Ô negra/Porque és negra na cor/Mas como cor não pega/Ô negra/Negrinha eu quero teu amor”.
         Todos riem, sinto-me apalhaçado, cretino, ouço o fiau do estudante e vejo espanto nos olhos da mulher gorda, passante, dona Fulô, a janeleira: Que velho saído, Margô. E na Poeira, querida, dizem que é doutor, professor, tradutor. Deve ser mentira de Stella. Não passa de um velho pedante e agora bêbado. Ah, Stella vai saber disso e você é testemunha. O mundo, Margô, está mesmo perdido: homem branco, velho e babaquara, atrás de uma negra sem eira nem beira. É o comunismo, querida, vamos indo, vamos indo”.
         Lésbicas! E vocês, sempre rindo; que sabem vocês sobre a gostosura de uma “caipirinha” com gotinhas de vodiquinha. Hamm? Ignorantes...
         E quem foi Tecun Uman, guerrilheiro de Guatemala, esquecendo pai e mãe para se consagrar ao povo, guerrilheiro? Que sabem vocês além disto que se passa na Baixa dos Sapateiros?
         — E daí, vovô, e daí? Guatemala já morreu e seu tempo já passou.
         Onde fica a Guatemala que você diz morta, menino? E você, alfaiate, quem é Armand Gatti da Guatemala o mais moderno cantor? Não respondem, ignorantes, igualmente caladas as andantes Fulô e Margô, aquela gorda, esta um caniço. Gatti, estudante, alfaiate, menina, escreveu “La Naissance”, livro que ontem comecei a traduzir atendendo a convite de um editor. Sim, sou o que elas disseram, sou tradutor, professor, escritor. Até “A Tarde” já publicou uma carta minha.
         — Lá vem culhuda...
         O grande Voltaire foi amigo do meu tataravô, hospedeiro dele, quando ele se exilou na Holanda. Grande homem, Conde, meu tataravô, mas papai se suicidou por causa do ciúme besta, idiota, cretino, estúpido e imbecil. Por que, Deus do céu, o maluco fez aquilo na vista de tanta gente? Quem mandou? Me lembro eu batendo na cara dele – “acorde papai, acorde” – ele já estava morto, no Cinema Aliança. Não riam de mim, por favor: é a primeira vez que me abro, em toda a minha vida. Por que vocês ainda riem? Tá bom, riam...
         — Não carece de chorar, senhor.
         — Deixe que chore. Isto é fingimento p’ra comover aqui a moça. Jogo sujo...
         — Respeite o velho, menino!
         — Ele deve desguiar, pô! Ela é uma mocinha p’ra ele e há tantas velhas precisadas...
         — Não desdigo, mas é velho e velho merece respeito.
         Obrigado, amigo alfaiate. (Agradeci com sinceridade. Alonso, senhores deste bar. Aliás, fazem rima ate de ade?) Negro estirão de asfalto, ruidosa gentes a pisá-lo, quente e negro, agora mais calmo sob ele adivinho as pedras de fogo soterradas, asfaltadas, in vino veritas e não sei porque disse isto, pedras, duro o sol, não vou mais me autocensurar, porra!, e na negra, negra de um negro etíope, amor flor na verdade do rádio, da canção, as lágrimas do corpo escorrem (mansas) pela coluna vertebral. O suor, engenhoso, nela desenha um gato na rija anca direita, a principal, bicho que dança e balança, a excitante e monumental convite para sexual fuzuê, “Na Tonga da mironga do cabuletê”, a genial maluquice do Vinícius de Moraes. Tonga... Mironga. Que zorra é mesmo cabuletê?
         — E volta a loucura das rimas. É demais!
         Cabuletê... Você sabe, mulato? E você, estudante? Não, não respondam! Decreto que vocês não sabem e o que é decretado não se discute. Andai, menina, adiante, que este mulato e este estudante são dois ignorantes. É isto aí. Andai, Alteza, mas pela sombra que o sol tá retado, rachando minha cabeça. Embolia! Agora recordo: embolia. Foi isso que escreveram no atestado de óbito do papai, embolia. Que grossa mentira! Lembro todo o acontecido naquele trágico dia.
         Mas, amigos, não mente (em parte) o que diz a voz do rádio: “É de manhã/é de madrugada/ é de manhã/vou ver minha amada/é de manhã/vou ver meu amor” e o mulato, feliz, em feitio de folia, olha o gato na anca da negra, e olha como se já fosse dono.
         “Vai ter um pega p’ra capar como, antigamente se dizia, que esta negra a mim foi destinada por meu amigo Voltaire, um gênio da Humanidade e não um sujeito qualquer. Deusa, flor e menina-moça (ou moça-menina?), é virgem que farei mulher. Com ela, em festivais de gozos, farei o que não fiz com Maria: minha Tonga na mironga e no seu cabuletê.
         — O maluco endoidou mesmo!
         Pode ser doidice, pode não ser. “Allons enfants de la patrie”, é isto aí, é ir avante... No tempo do velho Amadeo, que aliás também comeu dona Antonieta (mãe do delegado Furtado), a moda era dançar tango e ele dançava bem como quê. Titia, ela, igualmente, era batuta no tango. Tô chateando você, amigo alfaiate? Tá bom... Então deixem eu contar que quando Voltaire residiu em Tourney...
         — Voltaire, “turnê, pô, vá chatear outros, velho!
         Sim, como eu dizia, e em Tourney, muito rico, fez-se Conde, o velho e grande Voltaire, utilizando suas libras de ouro, baixou a crista da Igreja Católica, Apostólica e Romana, botando-a a regra.
         — Ora, mais esta! Vá andando, velho, vá andando para o seu lado. 
         — Seja ajuizado, menino. Deixe ele falar que disso ela esta gostando. E cuidado com seu palavreado: não gosto de nome feio.       
         “Tenho dois padres – assim Voltaire escreveu, negra – com os quais estou bastante satisfeito. Arruíno um e dou esmola ao outro”. Voltaire foi tradutor, professor e escritor. Ora, quando não se é um Amadeo, poderoso garanhão, nem se tem rádio na mão, que é o caso aqui alfaiate, é importante ter dinheiro.
         —P’ra corromper os outros...
         —Pode ser...
         Eles estão conluiados contra mim, menina, temendo reconhecer a verdade do que afirmo: o dinheiro manda no mundo. Sujo, imundo, sei, não nego, mas manda. Não é ladainha, juro. Ou você não crê? Creia! Gostaria que não fosse assim, mas é, eis que professor e tradutor também sou escritor, mas não escrevo em areias. Escrevo em livros, em jornais, escrevo na vida. E por isso ganho muito dinheiro, tanto que só almoço filé e só janto tainha, fornecida por dona Isabel, minha vizinha.
         Tanto dinheiro tenho, asseguro, que também mantenho um Castelo Real feito para uma Rainha do seu porte e graça. É um Castelo cheio de camarinhas, até os sentinelas comendo tainhas... um Castelo igualzinho ao que Voltaire tinha em Tourmey. Quer ver, menininha? Tiinha não gostava dele, mas papai adorava. Vambora comigo p’ra cama, vambora, aí, vambora.
         — Ela não vai.
         Você não manda nela, alfaiate! Neste agora, menina, lá o Castelo três mordomos de plantão e mais dezoito mucamas estão à sua real espera. Uma das mucamas, aliás, é Stella, e, também aliás, Stella em italiano significa estrela, vocês sabiam? É o que mais tem no meu Castelo, Stellas, e além delas há muitas camas. Ou melhor, leitos nupciais, estrados feitos de ouro e colchões de marcela, tudo muito belo e cheiroso. Vambora?
         —Não deviam vender bebidas a velho.

         Quatro

         Não dê atenção a este pirralho... Outro aliás, negra, é que ela, Stella, me ajuda no trabalho de tradução. É segredo, não o revele a ninguém, não me crie galho, mas estou traduzindo “La Naissance”, ganhando à base de florim-ouro. É teatro de Armand Gatti. Tem um verso – autêntico verso de talho – que diz assim: “Un langage nouveau/est ne” Ou seja “Nasce uma nova linguagem”. É mesmo, não ria. Nova linguagem na arte e em tudo. Agora... Por que você ainda ri?
         — De ouvir tanta bobagem, vovô. Desguia, pô, desguia!
         Uma ova que é bobagem dizer que agora, mais do que antes, é o dinheiro que manda no mundo.
         — Ele tem razão, estudante.
         Sujo, brilhante, imundo, puro, o ouro manda e desmanda: o inquérito sobre a morte do velho Amadeo acabou no sumiço por causa de um dinheiro grosso que Titia deu ao delegado. Ora, por que falar no passado? É ou não é bom esquecer estas coisas, digno senhor alfaiate?
         — Perfeitamente.
         Agradecido... Até, menina, até; aliás, ande, menina, ande, mas na sombra aqui das marquises que este sol está de morte, enquanto que a França, asseguro (já vivi em Paris), o sol é delicado, sempre morno. Não sem sorte, a França é pátria dos gatos, bonito como este seu na bunda desenhado, e não me recordo de em Paris ter visto um mulato sequer. Lá, e não tome isso como ofensa, senhor alfaiate, preto é preto, branco é branco: não tem mistura, tá tudo atado.
         — Então se pique p’ra lá...
         Não posso, menino maluco, porque cá nasci por decisão de Deus. Mas, lá juro, o que é, é, a raça pura, como deve ser. E, negra, mudando de assunto, acho que o verso de Gatti – “Un language noveau/est né” – casa-se com este espichado gato brasileiro balançante nesta sua roliça perna direita. Ou melhor, nádega. Ou assim não lhe parece, estudante?
         — Vá aporrinhar outro!
         Aliás, menino ignorante, nádegas quer dizer bunda, mas me esqueço, neste instante, como se diz bunda em Francês, o idioma de Armand Gatti, meu amigo e compadre. Me esqueci... Culpa da “caipirinha”. Ande, menina, ande, andemos até o meu Tourney. Sim, negra, “Un language noveau/est ne, que beleza! Ou você não crê, lindeza? Ande, remexa, menina, ande, que lá no meu Castelo você vai andar nua, nas ameias, p’ra todo o mundo ver.
         — “Turnê”, Gatti, Castelo, petas de um velho insignificante, mentiroso, com mania de grandeza.
         —Respeite ele, estudante, que ele podia ser seu pai.
         — Engano do amigo. Meu pai é jovem, só vai fazer 40 anos, não é careca nem bêbado, um homem forte que...
         —De qualquer sorte, todo velho merece respeito, estudante.
         Fala prendendo o riso, este mulato posudo, de mocidade estuante, rádio-de-pilha na mão, outra poderosa arma, no momento tão importante quanto o dinheiro que só não tenho na imaginação. Arma que canta: “Vou pela estrada/e cada estrela/é uma flor”. O suor nas costas dela, ah! Que maravilha! Puxa vida, como é bem viver para ver coisas assim... E papai morreu, coitado, envenenado por ele mesmo. Ele tinha uns venenos em casa p’ra formigas, moscas, baratas, ratos. Se Amadeo tivesse morrido antes eu diria que papai seria o culpado. Razão tinha para matar. Ou supunha tê-la. Ou não? Há tantas dúvidas e tô tão confuso.
         — Quando foi que ele morreu?
         O velho Amadeo?
         —Não. O senhor seu pai. Quando foi?
         Vamos mudar de tema, já estou cheio de problemas (Stella não quer agora casar?), e veja, alfaiate amigão, o suor nas costas dela, que bonito!
         —Ele é um saltapocinhas, não se detendo em nenhum assunto.
         Suor? Lágrimas do corpo inteiro, perfumado orvalho, como (eu ouvi) o velho Amadeo dizia referido-se ao de Titia, de Inês de Carvalho, de Isaura, de Raimunda, de todas elas, sempre mastigando alho p’ra defender o coração. Pérolas feitas de luz/E paixão”, ele cantava, valsa, canção ouvida na adolescência, época dos crimes, rua da Poeira, bairro de Nazaré, Poeira querida, rua a cavaleiro desta Baixa dos Sapateiros, rua que era ladeira na outra metade, a descente de quem vinha a pé do Largo do casarão diante da Igreja. Casarão, ladeira e Igreja que ainda estão lá, mais atrás que aqui que vem aí o Cinema Aliança, da reluzente memória. Uma luminescência que se arroxeou quando nele papai morreu envenenado. “acorde, papai, acorde”, eu gritava, mas ele, coitado, já morto, nem ouvia: já estava com Deus, a viver, quem sabe, a sua glória.
         — Tanto quanto é coisa notória o senhor ser um chato.
         — Chato é você, estudante. Deixe ele contar a história que a dona aqui continua gostando.
         Ah! Minha adolescência... No carnaval (melhor do que o de hoje) cantava-se  graciosa marchinha “Taí”.
         — Cante que ela quer ouvir.
         “Taí/eu fiz tudo/p’ra você gostar de mim/ai meu bem/não faça assim comigo, não/você tem/você tem que me dar seu coração”.
         — Quando Stella ouvir esta voz tão bela jamais esquecerá de novo o ovo cozido...
         Então, menina, não é uma marchinha mimosa? Eu me esbaldava, jogando serpentina e confetes em Maria, perfumando-a com jatos de lança-perfume “Colombina”, a mais barata. E hoje, menina, só uso a mais cara, “Rodouro”, importada da Argentina e tenho grosas dela p’ra você lá no meu Castelo.
         — Velho culhudeiro! Ele não tem Castelo nenhum, menina.
         Vambora e agora ou lhe chamo de preta!
         — Velho careta que se não respeita. Vá curar seu porre em casa.
         Negra, bela negra, gentil menina, releve meu entusiasmo. É que estou nervoso com o chulo palavreado deste menino-estudante. E com este rádio sempre em repetição. Vambora, esqueça esta canção que amor não existe, nunca existiu, e toda flor tem espinhos: é o caso da seleção; não lhe coube um Coutinho? Ih, eu termino preso que ele é capitão! Taí, meu povo, seria injustiça minha prisão que eu faço continência até p’ra soldado recruta.
         — É maluco, é malucão. Tá desafiando o Exército!
         — Uma ova que o Coutinho é o Exército. Cadê que Nelinho não foi convocado? Você é um besta, menino. Ou mudam Coutinho ou ele muda a seleção e a polivência dele. Agora é meu assunto. Vamos mudar o tema...
         — Não!
         Pelo amor de Deus, imploro aos senhores... Vocês esqueceram a negra, padrão estético da nossa Nação? Ela é a beleza, é a majestade, é a pureza, nela todas as virtudes se reúnem: a sinceridade, a fidelidade, a lhaneza; nela se fundem a honra, a singeleza...
         — Velho puxa-saco descarado! Eu digo...
         — Não diga! (aí o mulato gritou, Alonso, pô, que grito!) Repito, estudante, repito pela última vez: todo velho merece respeito, inda mais se condena Coutinho na seleção. Ou então que fique, mas acabe com a maluquice da polivência dele.
         (E continuaram discutindo) “Taí”, menina, este o nome da marchinha bonitinha, ou você não acha? Quem a cantava – e como cantava bem! – era a Carmem Miranda, um mulherão com 1.500 dentes na boca e excitantes odores. Até que Titia se parecia com ela, muito bonita a Titia, dantes, no tempo do velho Amadeo.
         — Edinho? Edinho é uma besta. O lugar de Marinho! E cadê que o Baiaco não foi convocado p’ra mostrar seu futebol?
         — Baiaco? Tem dó!
         Um minutinho menina... Não é bem “polivência” , estimado senhor alfaiate; é polivalência, ou seja, aquele que vale muito por onde quer que esteja. É o meu caso em matéria de amor, aqui em Paris ou alhures; Idoso sou, reconheço, mas tenho muito dinheiro e lhe prometo comprar Coutinho p’ra ele tirar Edinho e botar Marinho. E vamos mudar de assunto que agora quero recitar em francês.
         — Taí, numa coisa o estudante fala certo: o senhor mente como corno. “Alhures”, onde é?
         Depende, não sei agora. Qualquer lugar pode ser. Concedam-me uns segundos que preciso pesar. Titia, por que todos e tudo exigem tanto de mim? Sei que parece morto o tempo deste eu agora idoso homem – não, não falem, escutem! – idoso homem com cara de Voltaire, genético legado de papai, e as libras-ouro dele. Ouro paca! Estou mentindo, Titia, mas a senhora não mentia também? É que esta negra é mesmo uma flor e não me vê: ri. Tudo a agredir-me, Tia: Stella deu que quer casar, Gatti só tem 50 anos e tô atrasado na tradução, e quem foi, merda, o Tecun Uman que ele sapecou num poema dentro da peça? Onde já se viu uma coisa dessas, poema encarcado numa peça? Se o Gatti precisava de rima para demain inventasse outro nome, pô! Ou utilizasse um comum. Carimã, por exemplo.
         — Que time o senhor é?
         Bahia. Tudo e todos na agressão, eles, suas indagações cretinas, o passado – e a senhora foi fogo, Titia – papai morrendo daquela forma, Baudelaire, que Stella lê, dizendo que a poesia é a infância reencontrada, aqui que é, ô, aqui! Principalmente me agridem, Titia, as negativas desta negra, seus jeitos de provocação – repare que na bunda dela o gato já tá virando gatão – esta cor etíope me lembrando Salomão e com ele, femeeiro também que era, disso sei tanto quanto sabe a senhora e o velho Amadeo, porco comilão de mulheres. Papai dizia, estudante, que a mais famosa linha de ralfes do mundo foi do Bahia. Esqueço o nome do lateral direito, mas os dois outros foram Munt e Gia.  Será, Titia, que papai teve razão na questão dos ciúmes? Querida, não se zangue: são as dúvidas. Ah! Aquele refresco de tamarindo que levei para o velho Amadeo... E veja, Titia, as unhas dela,     
          — Tá sonhando, velho?
         Unhas pintadas de escandaloso vermelho – a senhora usava grená, se lembra? – esta mulher oferecida, tantos olhos sobre ela, negra sem pudor, pudor que a senhora tinha, embora em casa nem tanto. Por que a senhora gostava de ficar nua, se pegando e me chamando para ver? Que alegria nisso a senhora tinha? Responda por quê? Ninguém vai ouvir, responda que só eu posso ouvir você.

         CINCO

         Nem ela me atende, tudo e todos na agressão (“sua Tia era doente” um dia Stella me disse), o rádio também agredindo (Stella pode ser burra em matéria de ovo cozido, mas não mente), o rádio que o mulato esgrima com a mão, e esgrima, agora, com paupérrima rima: “Mas, a flor amada/é mais que a madrugada/e foi por ela/que o galo cocorocó”. Reafirmo, mulato: rocô e flor, que idiotice. Rocô só rima com coco. A menos que você me prove...
         — Respeite Caetano, vovô, que ele é de minha terra, Santo Amaro da Purificação, onde nasceu a mais bela das danças: o maculelê.
         Besteira. E amor não existe, menina, salvo em a-be-cê, novela de rádio e televisão, além de outras bobageiras. Já disse: venha comigo que te dou 300 mil reis, que repito outra vez, sou rico e lhe adianto agora estes duzentos cruzeiros aqui já a minha mão. Tudo dentro da moral e da mais apurada ética, sendo que já esqueci a mulher soviética de quem antes falei, poemando sob influência do tal Armand Gatti, aliás meu primo.
         — Primo ou compadre?
         Compadre e primo e num aliás bem grande digo que isto é irrelevante apesar do riso idiota deste estudante. Nem das ameaças desse rádio. Vambora, menina, pegue o dinheiro. Que valem contra estas cédulas um rádio boboca e uma canção que não fala de carnaval, o máximo da bacanal em todos os tempos? Duas pelegas de 100, menina, e isto é só um adiantamento...
         Numa paquera justa, vovô, num samba legal, samba de amor, este não é um bom andamento. Respeito os velhos, mas não empene o jogo. Nada de falsetas recorrendo a dinheiro, nem admito debiques com meu rádio.
         Apenas murmurados, versos de Gatti me chegam, apropriados à situação. (Precisava impressioná-los, Alonso, senhores deste bar, que eu (só tinha aqueles 200 cruzeiros). Escutai, menina, negra, escutai: “A mulher abre/seu estojo de folhas/a águia vegetal parte/ incendiando pinheiras/e pinheiras (...) Nasce/uma nova linguagem”.
         — Não entendi porra nenhuma!
         (O estudante grita, o alfaiate ri: terá entendido o que foi dito apenas pela metade?) Sim, nasce, nasce novo canto que entendo, sob o prejuízo da idade, como não entendi o de antes, dos tempos idos. E, segundo Gatti, nas selvas da Guatemala, onde se cala a revolta (onde, Deus, onde, um dia a revolta se calou?) o nome do novo canto se chama Tecun Uman, seja ele quem for, seja quem tenha sido.
         — Agora, sim, agora o senhor tá falando bonito.
         É como diz Stella: a revolta pode ser muda, mas nunca se cala para sempre. Sentimentos nascido em diferentes entranhas, pode modorrar algum tempo, mas uma vez tocado pelos ruídos/luzes/trompaços da memória, da simples memória até, põe-se de pé e fala e canta e chora e clama e grita como em mim acontece agora. Será mesmo, como Stella diz, que estou ficando evoluído?
         — Às vezes, reconheço...
         Que tal mudar de assunto?
         -- Deixe eu falar também, bolas! Esta é uma exigência, morou? Às vezes, reconheço, o senhor perola bonito. Há no senhor uma certa chama do tricolor baiano. Por que o senhor não para de mexer as mãos, por que?
         Prometo contar depois. Agora, amigos, menina, um minuto, silêncio, que vou declamar em francês.
         — Só se for em alemão.
         Tá bom, alemão, estudante. Escutai, crianças, escutai Chant de la Naissance, Armand Gatti anunciando um possível amanhã.
         — Seja breve, vovô, e nenhuma palavra de gringo.
         — Dê uma chance ao velho, menino. Como é que pode falar alemão ou francês sem usar palavra de gringo? Manda brasa, vovô, mas não demore, por favor, que agora o sol tá ficando quente. Peço por favor.
         Silêncio:
                            “Le femme a ouvert
                            As gaine de feuilles
                            L’aigle vegetal est sorti
                            Il prend feu d’épines
                            en épines”.

         — Fê? Fê, pê, porra. Acabe logo!
         — Ainda dou uma bolacha em sua cara, menino. Ouça o velho.

                            “L’araignée
                            et le serpent
                            ont noué neuf fois trente soleils”.
        
         — Mas, este alemão dele só tem fê, pê, porra!
         — Cala a boca, menino!

                            ”Autour de racines
                            Un langage nouveau
                           Est né.
                            Incendie blane
                            Demain dans la fôret
                            Les balles traçantes
                            Inscritont um nom
                            D’homme nouveau
                            Tecun Uman”

         — Não entendi nada, mas é comovente.
         Vocês sabem quem terá sido ele? Sabem se foi ou se é?
         “D’homme nouveau” significa novo homem?
         É significa. Estará ainda nas selvas? Ter-se-á ido em exílio de dor? Estará vivo? Tecun Uman...
         — Desguia, vovô, que não sei alemão e nem a garota aqui é alemã. É negra e é joia.
         Outro insondável mistério, Tecun Uman. Talvez seja o Tiradentes deles. Outra dúvida para mim, é meu nome, deixem que eu me apresente, é Antônio Soares Reys.
         — Nome bonito, nome nobre e ficaria mais bacana se fosse Antônio Tecun Soares Reys.
         Obrigado, alfaiate. Reys com ipissione, se me faz o favor, Reys do idioma holandês, vindo do meu tataravô que foi primo, embora distante, do Maurício de Nassau,
         — Impressionante!
         que, por sua vez, teve uma participação qual na formação da honrada família Pessoa, pernambucana, que deu origem à baiana família Baraúna, cujo principal galho genealógico
         — Sensacional!
         foi meu colega Babau, o rapaz mais elegante dos meus tempos de estudante no finado Ginásio da Bahia. Elegante e pragmático: com ele aprendi a técnica de cantar com duas pelegas na mão. Geralmente uso dólares, por distração é que hoje trouxe cruzeiros. Às vezes utilizo marco alemão... Que é que digno alfaiate tá querendo me dizer?
         — Tudo está muito engraçado, mas vai ficando tarde. Por isso senhor...
         — Senhor, não diga “sinhô”, que ele com esse dinheiro na mão só pensa em termos de escravidão. É corrupto e corruptor. E bêbado até em alemão. Ele está enrolando vocês.
         — Bobagem, rapaz, que ele falou francês: seu corpo é de adulto mas seu pensar é de menino. Você não entende que estamos nos divertindo? Entretanto, senhor Antônio, como eu dizia à dona de tanta beleza,
         O velho Amadeu, Titia, também comeu Amélia Inês de Carvalho!
         dizia a ela que este meu rádio não é nenhum demônio. Também toca músicas de Carnaval, senhor Antônio Tecun Soares dos Reys. Se repete “É de manhã...”, repete o meu pedido que o disco-jocquei da estação é meu freguês. Tá entendendo? E vamos andando, dama, dona, jóia.

         SEIS

         (Pode ter sido paranoia, Alonso, senhores deste bar, mas vi unidos contra mim os três, em empenho de gozação, desrespeitando a idade e meu etílico estado. Bote outra “caipirinha”. Desrespeitando a idade e meu etílico estado. Bote outra “caipirinha”. Desrespeitando meu passado também e tudo mais, tudo e todos e a multidão. “Vai aqui um picolé”, o negrinho me perguntou, uns dez minutos atrás, me esbarrando o caminho, tendo eu já visto a negra, aos saltos o coração, ardentes e galopantes desejos, tesão de leopardo).
         — Ela quer saber de que línguas o senhor é tradutor.
         Latim e sobretudo francês, que amo, mas odeio os franceses, com exceção do Voltaire pelas razões de parentesco que antes contei... Riem na esculhambação do “ai,ai,ai” – e ele caminha – ai, num guento mais, um dente cariado, mas só um – agora negra Ingrid Bergman, quase no passeio do Cinema Aliança, cine desaparecido e primeiro túmulo de meu pai. Sim, Titia, se morda mas fique sabendo: o velho calhorda também comeu Inês e ali – digo porque vi ela sentada no colo dele – no Cinema Aliança. Ele comeu, sim, ainda que ela tenha negado temendo o ódio da senhora. Vocês três ouviram?
         — O que?
         Ele também comeu Inês que era amicíssima de Titia. Juro aos três que... Três. Não, eles agora são dois (feijão com arroz: como se entendiam), eis que o menino, decerto temeroso do mulato e com a negra aborrecido, deu a forra, foi embora.
         — Pelo visto, o velho faturou toda a Bahia daquele tempo.
         Bobagem de dois, são três: ele e o rádio usando como arma de conquistação. Nas letras da prostituição, senhor Contreira, de fato, falta o R de rádio e sei do que falo, ei, Antônio, o desmamado desde bebê.
         — Pois fale, velho, que se a moça vai ficando, eu fico também.
         Falo, eis o que ela amava. Titia: falo-e-falo, eu chorando, querendo leite, atenção, gozo bucal, que gostoso era o peito dela (especialmente o esquerdo), e ela gemendo de prazer no falo de alguém. Não sei quem, então, que eu era bebê, mas sentia, sabia, mas não sabia dizer. É terrível ter sido bebê e voltar a ser agora. Entenderam?
         — Dona, este é o porre mais estranho que já presenciei. Que gente complicada!          Baudelaire mentiu com “La poésie c’est l’enfance retruvée”, eis que na infância não há poesia nenhuma, nem na adolescência, nem na velhice: amor não existe em parte alguma, em nada. Deus é falho, gente, que se fosse nem ele existiria! De suas falhas precisa para seu próprio existir.
         — Não meta Deus na história... Quem avisa amigo é. Deus é Deus, não se brinca com Ele.
         Mas, por pior que seja a dor, p’ra que lamentar? Nem na infância fui feliz, e quis ser, me lembro. Mas, p’ra que repetir? É como pergunta a canção: “para que chorar o que passou/Lamentar perdidas ilusões?” Certo é ir em frente, e vou querendo amor de cama. É. Gozo físico, aquela rápida sensação, e antes, a caça pelo fugaz momento, tudo se repetindo.
         Negra, negra de um negro etíope, Baixa dos Sapateiros, o sol a pino, o mulato atrás, agora sumido o menino/rapaz, afinal convencido que não somos iguais: o mulato é dois, ele e o rádio, no rádio a canção que se vai indo, e, quanto a mim, se na memória há conhecimentos excepcionais (comparados com os deles, é claro...) Tenho ouro na imaginação, tenho duas notas de 100 cruzeiros na mão, e milhões, bilhões, fundidos na febre do desejo, um desejo infernal, sem igual e botem nisto. Bendita “caipirinha”! Dizem, aliás, segundo li nos jornais (ou num só jornal?), que Noé um dia tomou um porre retado e então eu sou ele... Sou o Tecun Uma do asfalto, mulato, e se arrede do meu caminho que sou o próprio leopardo. P’ra usar a linguagem do menino, “se pique, pô, se pique!” É, se pique.
         — Baixe o tom de voz, vovô, ou eu perco a esportiva... Tô a fim de divertimento e não de barulho, mas não me provoque. Carece de ficar tão pálido... Por que o senhor não recita outra vez o poema da mulher soviética até? É tão engraçado. Recite. Será bom para a alma.
         Não sou palhaço.
         — Ninguém disse que é, mas esteve a ponto de perder a calma. Que tal a rima? Alma e calma.
         Conversa mole. Menina, venha comigo que lhe dou 800 mil réis, esta a palavra de um Reys. Réis de Reys são ouro e de festas são estes dias iniciais da grande alegria, manhãs, tardes, noites de bacanais. É, menina não se arreceie, vinde comigo, andai. Tô com doentia mania de ais, de al...
         —É.
         Em honra da genial “caipirinha”, menina, elevo a oferta mil cruzeiros e um milheiral, um cacaual, dois barcos de Navegação Baiana, um bando de mucamas, mucamal, servis mulheres brancas pra você vingar nelas todo o sofrimento de antes. E, roseirais, negra, imensos, uma flor de pedra, e permitirei eventuais cornos (semestrais, é claro) que me darás com Tecun Uman, que os heróis e os poetas – este é o meu caso – têm o direito a vantagens informais. São ou não ofertas piramidais? Vais ou ao vais? Tá bom, interesseira, aumento para 1.500 cruzeiros. Vens?
         — Não ofenda a dona, velho, com propostas de dinheiro. Não seja demais, melando um jogo que estava limpo. Onde o senhor meteu a ética se é que a tem? Seus vinténs a agravam e agravam a mim também.
         Ética?
         — É. Como o senhor gosta de dizer: é.
         Ética, pois bem. Eu quero mulher soviética até. Ou céltica ou déltica. A procedência não importa, desde que tenha decência e seja eficaz  nos trabalhos do amor. Pode ser chupando picolé de groselha ou qualquer outra porcaria. Essencial é que seja mulher e no nome não tenha Maria. Nem me lembre Titia.
         — Assim é que se fala, vovô. Siga em frente com sua dialética que vou adiante também, ajudado pela herança dos meus ancestrais, negros como ela é: isso de raça é bobagem, doutor, como a todos ensinou o Divino Mestre e o dia-a-dia da minha gente. Pobre, aprenda, não tem tempo para reparar em cor. E os carnavais não são bacanais: são a alegria do povo, seu jeito de ser, nada mais. É. Tô disputando rima com o senhor... 1.000 cruzeiros para ela? Tá legal, é quanto vale meu rádio. Um vintém além e seriamos desiguais. E isso, pra haver moral na paquera, isso eu não admito, seja o senhor holandês, baiano, francês ou suíço, mesmo sendo o senhor, quanto à idade, irmão gêmeo de Matusalém.
         Voz grossa a do mulato, Alonso, voz retada, rugido de leão enfurecido... Alí, negra, era o cinema Aliança, de glorioso passado, antes da morte de papai. Ali fiz um discurso saudando Ruy Barbosa, o paladino. Castro Alves leu um soneto meu, ali, em matinal poética. E os dois, posteriormente, numa retreta no Campo Grande, após cantarem em dueto, elogiaram minha prosa publicada nos jornais e meu tratado sobre “A Ética da Estética em Sófocles”.
         — Nem de mentir o senhor se cansa?
         Ah, enfim, aqui está ele, trágico e belo: papai morreu no andar de cima, depois de beber um coquetel dos muitos venenos que tinha guardados lá em casa.
         — Foi aqui o Cine Aliança?
         Foi. Tinha um palco enorme, uma tela grandona assim, mas a Maria do teu nome principia na palma da minha mão só apareceu depois, meu nome já consagrado. Ela me surgiu quando inaugurado o lá atrás ficado cinema Pax ou Paz. Pax é latim, sabeis... Queres ir vê-lo, menina?
         — Dura Lex sed Lex ela agradece e não vai. P’ra frente é que se caminha, nunca para trás. E não vale a pena insistir, velho.

         SETE

         Baixa dos Sapateiros, 11 horas da manhã, minha pomba não mais serena, e sim alvoroçada, 11 e sete, 11 e seis, talvez, tudo rodopiando, eu suando parecendo um pinto molhado. E, como antes dito, é véspera de um desses carnavais, em quase nada igual aos antigos: tudo é novo. Pois não é, minha gente, que o ignorante do Cincinato é candidato a vereador, podendo até ser eleito? E não é que Stella a pulso que casar? Onde já se viu uma mulher de 55 anos querer matrimônio? Um mês p’ra traduzir um livro, um mês!
         — O senhor fala depressa como quê. Ela não está capiscando nada. Ou estais, dona? Responda: estais? Responda, flor, rosa, margarida, açucena. Por acaso seu nome é Helena?
         Agora me lembro que Titia tinha Maria no nome! Sim, eis que quando solteira se chamava Verena Maria Vergueiro. Virou Verena Maria Vergueiro Reys quando papai se quis casado e, com o casamento, campado.
         — És Helena ou não és?
         “Não”, a negra responde... Sim, tudo é novo, é. Nos antigos carnavais virgem alguma respondia perguntas, inda mais aqui na Baixa dos Sapateiros. Caminhavam duras, tesas, apressadas, mudas. Calças? Jamais! Usavam vestidos de cores escuras das canelas aos pescoços e era duro o simples olhá-las. Tudo é novíssimo: alfaiate com rádio-de-pilha na mão seria uma sensação impossível de se imaginar, porque eles não existiam. Eles, quero dizer, os rádios. Ou melhor, havia raros, ou da galena, dificílimos de ouvir. Hoje, no entanto, com que facilidade uma pessoa comum...
         — Já é comunismo, alfaiate, ter rádio?
         Não se esgane em gritos assim que não pretendi insinuar isso, meu caro amigo. E este mulato, Titia, vereis, não vos apresseis, será ditoso terceiro cavalheiro, a menos que – tomara! a intuição me engane. É. Tomara que eu esteja errado. E passam uns gringos cretinos, um deles aparvalhado diante da beleza dela, sacana de pele cor da minha, branquela, outro descorado como eu sou. Descendentes de antigos negreiros, nesta Baixa dos Sapateiros são desengonçados, sem ritmo, tudo fotografando, parecendo uns palhaços. E a negra, saindo da dela, faz pose p’ra eles. É uma esculhambação! Cadê a revolução que não vê isso?
         — O senhor ainda termina preso... Xingando bastante o Coutinho e acho que já terminou nossa dose de permissão. A de hoje pelo menos. No particular de futebol, insistir seria besteira. Não abuse da sorte...
         Mais autocensura não! Basta desses venenos. E, de resto, sou livre, sou forte, sou nascido no Norte, sou lança e metralha, canhão e bomba.
         — A A ou a H?
         Defendendo o Brasil contra a canalha estrangeira. Estes gringos são uns bananas, nem ao de leve sabem sobre a rua da Poeira, tão heróica quanto Cachoeira, e ignoram que aqui resplandeceu, no céu de anil, o magnífico Cinema Aliança, honra do Brasil, o valoroso Cinema Aliança, onde papai morreu e não apenas isso. Vamos nos aliar contra os gringos. Cadê o rapaz estudante?
         — Fugiu com medo do senhor. Deu sumiço.
         (Outra vez a negra riu, Alonso) Agora, amigos, e com a maior tardança, é que desses sacanas holandeses, e americanos e franceses suíços, acharam de nos descobrir e aqui sob o glorioso sol do Cinema Aliança. Moleques descarados, safados, imperialistas vagabundos, comunistas, fascistas, nazistas, integralistas, fora, gringos, fiau, fiau!
         — Fale baixo... E não seja mau com eles, doutor. Acho que entendo tamanha exaltação: ciúmes porque fotografaram ela... Ah, que delicadeza de sentimentos!
         Mais do que sentimentos, são meus brios de brasileiro. Stella tem razão: gringo não presta, seja de onde for. Por isso, de tal convicção forrada, é que o velho Amadeo, aquele milanês anarquista jamais a alcançou. E, ele tentou, ou melhor, insistiu, segundo ela me contou. Stella é uma porreta! Fiau, gringos, fiau!
         — Fale baixo... Tá, se o senhor quer ser mau com eles, seja, mas fale baixo que tem nego aí a fim de dedurar. Bobão se abriu, eles deduraram. E esses gringos, repare, são como ondas de praia, cansadas, frouxas, fácil se dissolverem na areia. Sei disso porque sou de mar. São ondas que umedecem, mas não fazem frio. Ondas velhas, fatigadas de lutar. Sabe, doutor, às vezes fico olhando o mar e aprendo cada coisa! Não é mesmo, prezada donzela?
         Um gringo descarado diz troços pra ela e de volta, recebe o mais gélido olhar. Grande e heróica negra! (O gato na nádega dela já era um gatão, Alonso) Tarde piaste, gringo bobão, branquelo holandês, que desde há muitas bacanais, e por de vocês, a mulataria tomou conta de tudo e os de pele branca, como nós, já não têm vez.
         — O senhor tá se dando de racista... Disso eu não gosto.
         Estamos campados, holandês. Fiau, fiau se piquem pra Portugal, adiram ao tal Cunhal e ponham bombas atômicas o mundo. Oito milhões de bombas A, combinadas com a H, matado todos. Menos eu, o gatão da bunda dela e umas índias surdas e mudas com as quais repovoarei o Universo a partir da Ilha do Medo.
         — Não acho nenhuma graça e tô retado com o senhor. Tô puto.
         Será um mundo bacana, todo o mundo nu, ninguém sabendo quem é o pai ou a mãe de quem, muito menos as Tias. Um mundo de carnaval todos os dias, tudo misturado, as dúvidas postas de lado... Fiau, gringos, fiau. Tô parecendo maluco, alfaiate?
         — Tô puto com o senhor. O senhor traiu nossa amizade recente. Tô muito triste, vovô, fracamente.
         Não sou contra mulatos, entenda, condeno a mulataria. Esta é minha contenda e não fique assim tão enfezado, por favor. Esqueceu o amigo que também sou tricolor e dos brabos? Alfaiate, sim senhor, que digna profissão! Tô com saudades do estudante. Quem sabe não ficaríamos amigos? Eu lhe pagaria uísque às sextas, sábados e domingos e cervejinhas nos dias restantes. Se ficássemos juntos iríamos à Biblioteca Central e, de estante em estante, afinal descobriríamos quem foi Tecun Uman.
         O mulato ainda calado, enfezado, o rádio cantando “é de manhã/ É de madrugada/ É de manhã” e o escambau seguinte – flor, estrada, estrela, madrugada, galo cocorocando, etc – e tudo em nome do amor, isso que não existe, coisa inconstituinte do real. O amor só existiria, admito, se Voltaire reinasse em todo o planeta: ele não perdoou Madame Chatélet que o corneou? Ela morrendo e ele perdoando. O perdão é fundamental para boa convivência das pessoas. Entendeu, negra, meu ponto de vista?
         — Ainda tô puto com o senhor. Uma ova que convivência!
         Voltando a Voltaire... Ele foi um porreta, uma exceção que pode se repetir aqui, pois o mundo, indômito alfaiate, sorria, pô, sorria! – é uma convergência de erros planejados por Deus. A culpa não é nossa, é do planejamento celestial. Ora, por que não desceu à terra aquele heroico francês antes da pretalhada escrava chegar aqui? Repugnância das índias, diante delas? As suas caravelas já estariam abastecidas de mulheres insaciáveis como Titia, fêmeas brancas e/ou amarelas? Indagações imbecis, perdoai, digníssimo senhor alfaiate. É que nas atuais circunstâncias eu me perdi e a culpa deve ser do Armand Gatti que anda metendo coisas em minha cabeça. E de Stella que me quer evoluído, um socialisteiro, como se possível fosse existir socialismo uma terra que tem Baixa dos Sapateiros e onde carnaval começa num sábado e vai até uma terça! Tá puto, ainda?
         — Tô.
         E a culpa é minha. É. Estou ficando pior do que Babau. Agora, e há luto na minha saudade, me lembre dele, todinho, e não só e sua elegância. Diz Stella que “quem muito fala esquece a remela”, mas vamos em frente. Como era broco o Babau e proverbial! (no Colégio da Bahia) era sua ignorância sobre os temas mais pueris. De Voltaire, por exemplo, não sabia nada. Desenfeze o rosto, amigão... Veja como ela ri, veja, apesar do maluco deste holandês! Voltaire, segundo papai contava, também ficou broco, na velhice, e por isso Madame Chatélet meteu-lhe chifres mis, alguns militares. Que tal? É ou não é engraçado?
         — Não.
         Pô, imperial alfaiate, somente peço que desenfeze o rosto...
         —Vá embora, holandês, porra! Vá fotografar a mãe ou a Tia!
         Aí, amigão, nasceu o filho de Madame Chatélet com um capitão batuta que, aliás, obviamente, não era um Coutinho qualquer, mas tinha feições de Baiaco; aí o menino nasceu. Ela, porém morreu. Eclâmpsia, possivelmente.
         — Vá falando. Tô melhorando...
         Morreu como disse. Mulher horrível, amigão, de cara e corpo, pior que Stella, cuja – já informei – quer a pulso casar comigo. Ou caso ou ela não me dá mais trela e então adeus mingau de carimã, adeus ovo cozido. Já pensaram o enguiço que será? Isso, amigão, desanuvie o rosto, sorria, caminhando contra o vento, alegria, alegria que amanhã é carnaval. Sabe como é que se diz carnaval em francês? Chienlit... A circunstância, sei, não aconselha, mas repito o que escrevi num artigo sobre Voltaire iniciando as comemorações do bicentenário de sua morte gloriosa: tenho ódio de francês, ou melhor, tenho mágoa que odiar não se pode a uma raça que nos deu Voltaire. Mágoa não do idioma, que aprendi desde a infância.
         — Mude o disco, não seja chato, presunçoso...
         Mágoa do povo, não o atual e sim o antigo,
         — O senhor é um “vaselina” retado,
         aquela gente que não fez do Brasil seu segundo lar”.

         OITO

         Max Picard tem todíssima razão: as ruas são como tubos que aspiram os homens. E esta Baixa dos Sapateiros é um tubo quente que engole a gente.
         — É, este calorão não está mole.
         E lá no alto o sacana do sol cada vez mais fervente. Tá tudo tão confuso que me sinto obtuso. Bobagem eu ter bebido a “caipirinha” com o estômago vazio, há dias os intestinos sem uso, e vazio, dito estômago como já disse, por causa da inepta  Stella, incompetente em matéria de ovo cozido, excelente, todavia em matéria de política: Cincinato, se eleito, será o porta-voz dela. Falar nisso, menina, 1.500 cruzeiros é dinheiro p’ra chuchu, aproveite!
         “Jamais” – a negra diz e repete. — “Dinheiro nenhum, jamais”, a voz é de Rainha, “Jamais”, o furão do mulato atrás, rindo de novo, Rei, rádio-de-pilha na mão, se olhando na vitrine vizinha ao Cinema Aliança. Eu velho, ele viril, puta que pariu. Cadê Deus que não vê essas coisas? Cadê a gloriosa Revolução que não nivela as idades e nem padroniza cor de pele, timbre de voz, postura?
         Cabral, Sacaduras, Gagos Coutinhos (inclusive esse filho de um Couto que ameaça campar a Seleção), eis o que nos coube. Nenhum francês em nosso passado étnico e tinha
tanta índia pelaí dando sopa, umas índias bonitinhas... Vai daí, prefiro qualquer bucho soviético, mas Stella, não! Ou melhor, eu e ela tá certo, mas nada de casamento. Amigão, ela e mesmo horrível, lábios fininhos, pernas secas, umas nesgas de peitos murchos, mas, reconheço, para não me incluir entre os injustos, que em antes-ontens de anos vencidos ela me quebrou o galho, em noite de inicial desesperação após a morte de Titia. Entrei de mansinho no quarto dela, fui indo devagarinho, puxando meu passarinho.
         — Fale baixo e controle seus gestos, velho!
         De mansinho metendo, ela querendo, não grite! (e o mulato ri) e meti. Por que Armand Gatti ao invés de se preocupar com guerrilheiros, Tecun Uman, esses temas perturbadores, não me vem entrevistar? Aí começaram meus problemas, porque ela gostou do meu galho, modéstia à parte. E a safada, desde então, sempre quer repetição, de noite, de tarde, de dia. Geme e gemia que nem Titia com o tal alguém, quem sabe o velho Amadeo – cena que nuca esqueço – quando eu era bebê, ou seja, eu com uns quatro ou cinco anos. Queria gritar coisas como “Papai, tão roubando você”, mas não podia porque era bebê.
         — Isso é verdade? (a negra pergunta ao alfaiate). Amava a Tia?
         — É. Sei quando ele mente. Mas, já não era bebê, tá na cara.
         A poesia é a infância “retrouvée”, uma porra, Baudelaire!
         — Évem Voltaire...
         Onde é que eu estava, amigão alfaiate? Ah, sim, Stella, mulher descarada, burra casamenteira, comigo ela mama mas é no bico da marmita e mama a sopa que já azedou ou pego uma “Ita” aí me pico. Esta seria a melhor solução, eu acho.
         — Tenha calma, professor.
         É que sou macho e em sendo sou solteiro reinando na pensão, apesar de atrasado um mês e picos, e atrasado, explico, porque tinha que comprar um novo dicionário de francês, o de J. Veríssimo.
         — Ô, o senhor não disse que é rico
         Riquíssimo, em cheques, cartões de crédito, barras de ouro, joias, ações... Vamos mudar de assunto. Quanto ao dicionário eu disse a ela: “Esta, afinal, Stella, é a minha primeira tradução (remunerada) de peça teatral e o gentil editor já me pagou 25% em ações do Grupo Bardella, poderosíssimo”. Todos os pensionistas me apoiaram e Stella, após ler o original, obra do sensacional Gatti, disse: “Traduza isto com perfeição, explique quem foi, ou é, Tecun Uman, que te darei minha mão”. Traduzirei? Não sei. Cadê o holandês.
         — Saiu por aí.
         Pensão do Maltez: há 28 anos moro lá, terças, quintas e sábados.
         — Nos outros dias o senhor fica no Castelo...
         Exatamente, mas não fale disso a ninguém – nem você, negra, tá ouvindo? – que a imprensa é muito abelhuda: não há um tal de Joaci, por aí, a assoalhar que Stella é minha teúda e manteúda? Mas, entendo as suspeitas dele. É que lá, na pensão, aliás este é um fato notório, moro com regalias especiais, inclusive a do ovo cozido, hoje esquecido, com sal polvilhado, pó de sal... polvilho de sal... ilho de ovo, Ilho de sal, ilho!
         — Stella trata o senhor como um filho, é isso?
         É exatamente. É. Titia, juro, nunca olhei Stella com atenção nela enquanto Maltez vivia. Nem a senhora, é claro, que sempre fui sério, diria mesmo seriíssimo. Lá na Pensão do Maltez, amigos, tem uma escurinha, empregadinha, que se chama Beatriz. Muito sisudinha, a burrinha é cara, corpo e voz de Amélia Inês, amicíssima de Titia e aí... Titia, querida, com exceção (Eu falava olhando o céu, Alonso...) da senhora e talvez aqui a negra menina, tudo quanto é mulher é puta.
         — Não há talvez nenhum, há fato, velho. E me diga uma coisa, falando assim para finada Tia... É espírita o amigo?
         Com certeza, amigão, aqui a nossa bela fera negra, a mais dócil e doce pantera do mundo, é outra exceção. Mamãe também... É. Mas, Titia, não sei não. E a tal de Beatriz lá da pensão do Maltez... Perguntei a ela, em cuidados de precaução, perguntei: “Você é virgem, garota?”. E riu e disse: “Sou devez...”
         — Não entendi.
         (Sorri a menina: ela entende) Devez de fruta entre verde e madura? Um modo Cortez de dizer é mas não é ou sou mas não sou ou ainda é não querendo ser? Mulher é fogo, velho.
         Devez... Tecun Uman... Stella, o casamento, a mão oferecida. Dúvidas! (Bote outra “caipirinha”, Alonso, e diga aí aos senhores deste bar que mamãe morreu tuberculosa quando eu completava dois anos. É ou não é? É. Diga alto para eles, porra! É.) Este século da franqueza, amigos, devemos enriquecê-lo com nossas revelações. Mesmo as mais íntimas (E Titia, Alonso, você não a conheceu? Conheci. É isto aí. Ela não morreu de pneumonia Quem? Titia, porra, Titia! Morreu. Você não teve um caso com ela? Tive. E o padre Arquelau? (Também teve).
         — Gozado, doutor, é que o senhor falou mais não ouvimos nada. Outro espiritismo?
         É. Ou melhor, será, se eu tiver forças para chegar de volta ao bar... Os gringos se indo, nos celuloides deles impressa a figura dela, a negra caminha economizando passos – que beleza no horizonte do Cinema Aliança! – como se a rua fosse uma festa de asfalto, sol e hinos, estrada de grama inglesa, certeza de triunfal caminho, glória em gestação. O mulato? Olhos no cangote dela, caminhando, cantando como o rádio, sorrindo, gingando, eu atrás num momento, noutro parelhado, quase exaurindo meu ardor de leopardo cansado. Amanhã (prometi-me, Alonso, prometi-me) vou comprar um rádio a prestação e quando a Biblioteca Central abrir vou saber quem foi Tecun Uman. É que sou um desvairado, amigos, e preciso estar sempre agarrado a um fio de esperança. Capaz de arder como ardo, Titia, eu daria um grande herói. É incrível, negra, amigo alfaiate, ver como ela foge de mim. Como fugiu de papai. Por isso é que ele se suicidou, aqui o Cinema Aliança.
         — Ela quem? Stella? A Stella do ovo cozido?
         Não, a esperança. A esperança de saber o que realmente houve. Não teria sido mais consentâneo com o real, Titia, ele perguntasse à senhora se, de fato, em momentâneo arrebato, a senhora cometeu boatado deslise com o velho Amadeo? Eles não eram tão amigos? Por que ele veio beber veneno-de-rato exatamente aqui neste sagrado Cinema Aliança onde por Ruy Barbosa e Castro Alves fui glorificado? Aqui veio com o veneno, aqui o bebeu, aqui morreu estrebuchado. A vida é uma porra em dó maior. A vida é um ato de tragédia e só, nada mais. A vida não é palco somente, como uns dementes querem; a vida é o que se passa em areias, em terras, em asfalto e quem a vê de altos – seja de morros, de Castelos Feudais, de favelas – não entende merda nenhuma. Papai não entendia nada. E morreu, fechando o fim de um trágico ato.
        
         NOVE

         — Minhas condolências, doutor.
         — Idem as minhas (diz o mulato).
         Obrigado. Acho que estou falando demais.
         — Se, de fato, como o senhor disse, este é o século da franqueza, tá falando certo. Porque pai é pai.
         É. Apesar dos pedidos de Stella, eu só voto em Cincinato para vereador se ele botar o nome de papai nesta ladeira ali, enviezada, aspiralado tubo, quase defronte aqui do Cinema Aliança. Vai dar na antiga rua das Putas, não faz mal. O Açouguinho, amigos, o Açouguinho! Notem a dura mordacidade do povo, o seu linguajar: açougue, Açouguinho. Stella, que lê muito, diz que não. Diz que a coisa vem de “Azougue”, coisa ligada a comerciantes espertos, essas safadezas, mas não se pode esquecer que pertinho havia o Pelourinho, onde, num dito “inho”, escravos eram espancados, o que era, covenhamos, uma espécie das muitas espertezas dos senhores.
         — O senhor é professor de História da Bahia?
         Não. Ensino História Geral, Francês, Moral e Cívica, Latim, Geografia, Economia Política, Estatística, e Ciências Afins, além, é claro, de Português. Depende do Colégio, do Ginásio, dos cursinhos de pré-vestibular. Ah, sim, e Sociologia do Microrreal, ou seja, aquela em que a gente apura a relação existente entre as formas novas de cuecas e a quantidade de vezes que o pessoal da produção (de fábricas, de escritório, etc.) vai aos sanitários. Quer dizer: a gente apura e o pessoal da Produtividade Geral segura os salários. O cosumo de chuchu é muito importante. Stella fica retada com isso, mas que é que há? As coisas estabelecidas existem para que sejam cumpridas.
         — Então o senhor é um baita dum especialista.
         Exatamente. Mas isso não me impede a confissão franca: a verdade, amigos, é que papai gostava muito de putas. Daí (suponho) é que o velho Amadeo abandonava a labuta na Casa Barletta e ia tanto ver Titia. Mamãe já estava morta, não se esqueçam. Ia p’ra fazer companhia a ela, sempre sozinha, coitadinha da Titia, os dois bebendo mingau de araruta, os dois uns bons filhos-da-puta! Ou não? Tô com vontade de chorar... Quando ela chamava “vem cá, capeta queridinho”, eu ficava nuínho, ela nuazinha, a quentura do corpo dela, ih!, só de recordar fico todo arrepiado, vejam!
         — Ânimo, senhor Antônio, ânimo; lembre-se que capeta dá rima rica e não caia na tentação, vou logo avisando que tenho raiva de mutretas, de pagodes.
         Posso rimar com micaretas?
         — Com etas decentes, pode... Nessa confusão toda, onde entra (ou onde sai, não sei) o tal ovo cozido hoje Por Stella esquecido?
         Depois eu conto. Agora estou é retado com os franceses que o heróico capitão francês – o que trouxe Caramuru, não o que comeu a mulher de Voltaire – não engravidou as índias, índias de peitinho bonitinhos (como se vêm em gravuras antigas), preferindo grossuras com a invasão do Rio. E então, como ensino em minhas aulas sobre “As Grandes Navegações”, chegou-nos o português trazendo muitas negras, negras de muitas nações africanas – cada bitelo de mulher, puxa vida! – e aí “Serena, pomba, serena/Não cansa de serená/O sereno desta pomba/Lumeia que nem metá”, como ouvido em candomblé por Sosígenes Costa, num dos seus poemas registrado à guisa de epígrafe.
         — “Serena, pomba, serena”... Bonito.
         Aí é que está o malefício, a “grife” da perversão: é canção negra, pomba a voar, serenando a fim de perturbar ao invés do normal serenar. Não é racismo, amigão, é fato de histórica dimensão. Eis que, com efeito, só na América Latina acontece a subversão da mulataria da qual o magnífico alfaiate, amizade que estimo e respeito, é inconsciente agente. Amigão, escute: para a coquista da perfeita etnia faça o que fizeram mamãe e Titia, ambas mulatas de pelos dourados. Ou seja, só cruze com gente de raça branca. Ah, eram gostosíssimos os pelos dourados de Titia, todos os pelos, e ela e eles pareciam sonhar com grandes cobras azuis e jacarés negros e negros leopardos.
         — Os bichos entrando nela...
         Exatamente. Todos os bichos e só as cobras azuis, negro tudo quanto mais saísse do zoológico de sua imaginação, uma malvadeza que os maus espíritos faziam com ela (impondo-lhe negritude de tal jaez) – e tudo por culpa do francês, daquele capitão que trouxe Caramuru, safado um, canalha outro. Povo descarado o francês antigo. Só queria moleza. Sua Constituição, ou lei Magna, como se diz, só tinha um artigo: “Não faça comigo o que faço contigo”. Daí ter conquistado (na época) o melhor pedaço dos Estados Unidos, a zona do rico algodão, do fumo perfumado, uma incalculável riqueza. Lá eles transam com índias e, se estudaram vocês devem lembrar, a partir do Canadá, terra de ouro, fizeram misérias e com inaudita crueza.
         — É isso aí, doutor: malho no imperialismo, pau no couro deles. E pode falar alto que está em moda esculhambar americanos. Outro dia, eu li, um general aí baixou o pau os franceses...
         Deixe eu continuar minha dissertação. E esqueça política moderna: é muito perigoza. Como tenho advertido Stella, a jogada é falar de coisas passadas, amenas.
         — Pombas serenas...
         Exatamente, amigão, exatamente! Então, vejamos: se os franceses que trouxeram Caramuru e arrumaram aquela cena – ele surgindo nas pedras do Rio Vermelho (onde hoje é o morro do conselho) – se ao invés de tal palhaçada descessem à terra e engravidassem as índias (elas paririam agradecidas, é claro), eles ficariam com o pau-Brasil e tudo mais. E os Reys, isso é o mais importante, seriam de fato reais, sendo que a Bahia, consequentemente, teria menos pretos do que tem.
         — O senhor só fala do passado com ódio o coração e isso não faz bem a ninguém. Descubra o que há de bom em sua vida. A jóia aqui, que antes ria tanto, está ficando triste.

         Dez

         (Contei uma porrada de casos a eles, Alonso, tentando agradá-los e conseguindo... e me entristecendo). É, é, repito, Carnaval é festa que deveria ser hoje, agora, aqui, nesta Baixa dos Sapateiros, todo mundo nu. Desde que te vi, negra, este tem sido o meu maior desejo. E ainda não é carnaval, porra!, não é. Oca e sem eco tem sido a minha vida. Assim desde que nasci. Por que, diabo, não mudam a música deste seu rádio? Por que repetir que estrela é flor e esse cretino repeteco de acordo com o qual o amor existe? “Flor amada é mais que a madrugada”, que besteira! Ou amor existe e eu não sei? E segundo Stella, tenho medo de saber? Uma vez, de dedo em riste ela me disse: “Toninho, talvez seja bom você vomitar todo o seu passado”. Será?
         — Não sei, não opino. Case com ela e o senhor saberá.
         Esta sua idéia é idiota e aquelas minhas, sobre se há o amor, compõem outra dúvida. Em muita oportunidade tive vontade, inclusive considerando que nossas idades são mais ou menos iguais, de me abrir com Stella e contar tudo: eu, papai, Titia, Amadeo. Ela é uma mulher estranha. Stella da Conceição, Stella da Conceição Maltez. Ela tem caráter, personalidade, mas é estéril. Este é outro drama meu, que homem sem filho é homem sem nada, é pária escravo da pior solidão. É de lascar.
         — Pô, doutor, tradutor, volte a contar casos. Os de dores.
         Homem sem filho, mulato, é escravo de um silêncio enorme. E como galo lutador, poderoso, bem conforme as exigências dos máximos apostadores, mas, triste, magoado, porque sozinho na rinha principal: o lar. Que tal mudar de assunto? Falemos de outras coisas que, até, tô meio me sentindo vencido.
         — Modéstia do orador.
         É, pode ser. Um dia vocês vão envelhecer e lembrarão disso tudo, de todo o acontecido. Eu, por exemplo, jamais serei esquecido. O ido estudante, com certeza, será. Porque ele só tinha ânsias. Nada nos doou, nada. Foi um já secado rio que passou. Tão jovem, pobrezinho, e é somente fato passado. Nenhuma marca deixou.
         — Ânimo, senhor Antônio, ânimo que assim tá ficando chato. Ela já deixou de rir, novamente.
         (Rir, Alonso, rir, senhores deste bar, tudo o que queriam era rir! E eu podia sair dali porque as seduções da negra me prendiam. Fiquei. E foi bom ficar). É, negra, negra de um negro etíope, nesta Baixa dos Sapateiros tem de tudo o que você possa imaginar. Aqui tem candomblé, umbanda, “giros”, aqui tem ferramentas, discos, eletrodomésticos, chitas, frutas, sardinhas grandes apelidadas de trutas, remédios da Farmácia Silva, aqui tem gatunos, ladrões, assassinos convivendo com pregadores de várias religiões, umas tradicionais, outras insólitas, e turistas, comunistas, sobreviventes de anarquistas,
         — Alfaiates.
         Mascates (eu me lembro do finado “Nada Quer?”), putas honradas e putas devassas, feirantes, uma filial do Exército de Salvação, pensões de comerciários, veados e seus exploradores,
         — Moças honestas que buscam namorados,
         operários de pequenas indústrias, médicos, advogados, dentistas, estudantes,
         — namorados dispostos a experiências antes do casamento desejado,
         Funcionários municipais, estaduais e federais, bancários,
         — e casamento permanente se der certa a junção. O senhor tá querendo encucar a menina não sei com que!
         É. É possível. Falarei sobre Amadeo.
         — Tô vigilante.
         Esteja. Lá adiante, negra, está a Foto Ideal, pertinho da Loja das Louças, e como vimos (uns metros atrás) está morta a Casa Barletta, da qual, se não me engano, ele foi o mais famoso artesão. Ele e Torlucci, ambos italianos, duelavam em matérias de acabamentos. Torlucci constituiu família: morreu sabendo ter netos, o que é importante. E Amadeo... Sobre ele a menina já sabe o bastante... Uns dois passos além de onde existiu a Casa Barletta,
         — Nada de rima suja, tô avisando!
         Quase defronte, o velho Calina vendia revistas usadas, principalmente de quadrinhos: “Gibi”, “Guri”, “X-9”, eticétara. Outras, me lembro, continham desenhos eróticos, desenhos imorais se considerados antigos padrões convencionais.
         — Gostaria de gravar o que o senhor está dizendo, para papai ouvir. É que ele nasceu aqui perto, no Largo da Saúde.
         O Largo da ladeira que vem dar aqui. Acontece que tudo está sendo gravado graças a um gravador miniaturizado que Stella comprou no contrabando. Tá vendo esta flor? É flor, flor de plástico e é também microfone. Barletta, Calina, bons tempos, amigão e negra, bons tempos que não voltam mais, Menina, negra, venha comigo, você que é flor (segundo o rádio) deixe eu despetalar você, delicadamente, em meio a cantares de amor e a sonetos. É tudo que ora requeiro e tenho respaldo nesse requerimento: toda a Bahia sabe que os Reys (com exceção de papai) foram e são peritos em mulher, havendo evidências de que meu tataravô também corneou Voltaire. Stella, por exemplo, que é magna estrela, quase/quase tão bonita quanto Greta Garbo o foi, adorou meu galho.
         — Mas, esqueceu o ovo cozido.
         Não se intrometa! Vá você na pensão, vá também, e pergunte a ela se ela não gostou do meu galho. Ela dirá com certeza, que sou rápido, alegre e brilhante que nem um cometa, confirmando, aliás, menina, o que a meu respeito tem dito a grande Garbo, Greta. Não, não se assuste, mulato! Greta, a dos pequenos lábios. Outro aliás, menina, é que a pensão é somente um esconderijo meu, disfarçado planeta que um dia uso, outros dias não. Porque, nisso insisto, sou dono de um Castelo Feudal, patrão de oito Duques e 211 Viscondes, um dos quais sobrinho-neto (ou tataraneto) do famoso Plantageneta, o Godofredo, de ilustre dinastia inglesa.
         — O vovô é culhudeiro paca.
         Não sou de petas, alfaiate, não sou de petas! Quando a você, menina, é vero tudo o que foi contado sem falar na incalculável fortuna do Gontijo D’Almeyda y Balmaceta, meu Primeiro Ministro, alcaide mor do Reinado de Serigi, pátria das cobras azuis e dos negros leopardos. Aliás, o mais negros dos meus leopardos é fêmea e se chama Sheeta.
         — Tô puto, vovô, tô puto com seus êtas. Não ouse!
         (Ai eu mudei de tema, Alonso) O homem das pernas-de-pau – ele vê que acendendo meu “Pall-Mall” – se veste como um palhaço de cores tristes, uma tristeza desbotada merca chitas grita preços, merca madrastos, morins, gurgurão. E lamês, ouça, negra, lamês. Aliás, madrasta foi Titia e sacana foi aquele herói francês “Lamês de todos as cores, senhores e senhoras, lamês”. Quando houver outra Revolução, vou acabar com isso que lamês com sol deste é uma esculhambação contra o povo. Brancos, vermelhos, azuis, lamês, “preços de ocasião”. (Morre, afinal, o “É de Manhã”do rádio. Agora é noticiário). Lamês brilhantes, lamês, e um calorão retado, este sol desgraçado queimando minha cabeça. Por que eu saí sem chapéu?
         — Por que Stella esqueceu o ovo cozido?
         A negra também ri... De que vocês estão rindo? Não tenho encontrado meu ovo na mesa do café, e havendo conferido a ausência de Stella saí aborrecido, apressado, esquecendo o chapéu. Papai, eu me lembro, usava chapéus Panamá e o Panamá, aprendam, é mais um país juntinho da Guatemala. Aliás, não me deixem esquecer a Guatemala, por favor. As roupas de papai também eram brancas, de linho. As meias e os sapatos, as ceroulas, a especial camisa de dentista e o casaco. Todo de alvo ele saía e diziam, na rua, que ele era lindo. Saía e Titia ficava sozinha, de manhã, de tarde, de noite. E aí o velho Amadeo ia distraí-la. Entenderam? É por isso que, na rua, papai era chamado de “Dr. Distraído”. Eu remava num caíque, no Dique, eu e Clara Maria. Tudo ignorava, mas ela sabia sobre o rádio de galena dele. Vá se ver e ela até sabia sobre as cartas anônimas enviadas a papai! Acredito que mamãe...
         — Ora vovô, mude o disco: isso de pai, de mãe, isso deve ser coisa sagrada. Procure outro modo de impressionar aqui a jóia. Este é chato. Porque o senhor se diminui, se agacha. E aqui entre nós: mulher, se é mulher, não gosta de homem fraco.
        
         ONZE

         Negra – (grande mulher, Alonso, grande mulher!) —, negra de um negro etíope, diante do Cinema Aliança: ela não concordava com o mulato. Quero dizer, no que se refere às minhas revelações. É. Bom. Uns tantos minutos vencidos, ficou invicta a “Loja das Nações”, defronte da qual bebi a doce “caipirinha” inicial. Roupas, cintos, gravatas/Não, negra, papai nunca traiu mamãe e nem por ela foi traído!/, calções, tecidos tropicais/. Um dia muito alegre ele entrou em casa e, após beijar mamãe, disse que se um dia escrevesse um livro usaria a dedicatória seguinte: “a minha meia célula e nossos desmembramentos celulares”. Eu fui o único e trágico desmembramento/ ainda lá o longevo Sr. Cacildo Magalhães, português dos bons. Bem que eu podia ter pedido um dinheiro emprestado a ele. Não seria nada demais. Ele não me conheceu rapaz?
         — Trágico desmembramento... Quero crer que o senhor não é um farsante. Porque se for...
         Não sou. Tudo o que digo é verdade. Aqui, agora, nesta altura do estirão de asfalto, confirmo que está definitivamente morto, negra, o glorioso Cinema Aliança. Aqui cantou a mais divina contralto do mundo: Melba. E recordo a fita “Êxtase”, como Hedy Lamar, filha da ilha prisão do Grande Napoleão: Elba. Hedy, ah, Hedy: que beleza de mulher, que deliciosa sensação em todos ela despertava. Entenda, menina, ela era grama e fruto, relva. Sexo vegetal, degustante, selva de excitante mistério, fenomenal mulher, e, como todas, má, intrinsecamente má, tal qual Greta, a mais porreta mulher deste planeta, e eu, menina,
         — Não, não rime!
         Que diabo de bebida o senhor bebeu eu não ia rimar, juro.
         — Ia, sim, Vi a rima os seus olhos assafadados!
         Fala grosso o mulato, rádio-de-pilha na mão.
         — E se afaste dela. Fique como eu respeitoso.
         Sim, fala grosso. Mão? Mãozorra! A negra nada diz, mas se vê que ela me vê como um desses desafiados incapazes de responder à altura dos desafios. (No caso, Alonso, a altura se continha no território das insinuações, eis que ele é quem lembrou a rima rica. Percebeu?). É. É um desafio do mal que está implícito no mulato, e, aliás nos jovens em geral. Parada a negra, um elefante é agora o que foi gato e gatão na sua anca principal, esta que às vezes toco, em primícias de carícias, com meus dedos de mal, querendo dizer de metal, anca que quero âncora prisioneiro desta vitrine onde se anunciavam os filmes: Buster Keato era meu cômico preferido. O elefante apura as formas, bicho eficaz, crescendo a tromba na direção da incendiária águia vegetal, emergente (é percebível!) do sacrossanto estojo de folhas. Soltas suas aranhas (os gestos), a serpente de metal leve, dúctil, flexível, que é a coluna vertebral, alonga-se em duas pernas roliças que recheiam a calça de Carnaval. E, negra, vejo está também suando seu mágico estojo de formas, grandes lábios a guarnecê-lo, jóia que tinha outro nome – tinha uma porra, tem e é lindo! – bulindo com nossos desejos, bulindo com nossos anelos de reprodução, cê a sílaba do meio/ Já não posso parar, alfaiate, não se meta/ naqueles tempos de que é feito o meu ontem. Êta nome gostoso, salgadinho, mas Titia o achava horrível, imoral, essas coisas, e Stella se lembra disso e me disse entender tal conduta como um compromisso estabelecido pela repugnância com o irracional, do qual Titia foi o que ela chama de “produto típico”. Mulato, menina, não se enganem: Stella até já leu “O Capital”! Você me olha como “pessoa que sabe”, você já leu?
         — Não preciso: eu sinto o bicho na pele.
         Obreirista (Stella diria assim, senhores)! Falemos de outro assunto que este é feito de sol e asfalto: queima.
         — Conte os casos, pinique a memória que é disto que a jóia gosta: não é, dona?
         Tá bom... Agora, aqui, menina, ao invés das fitas, filmes, películas, há as chitas, os lamês; aqui papai morreu, interrompendo a sessão, uma matinê. Morte com péssimo gosto que a fita foi aquela na qual o Richard Windmark, do alto de uma enorme escada, empurrou a velha paralítica (igual que mamãe, Titia morreu tísica), matando-a. A velha assassinada, é bom que se diga, era a mãe de um adversário dele. Na época achei uma perversidade a morte da idosa senhora. Hoje? Nem tanto... Ah, as voltas que o mundo dá: hoje não me parece ímpia aquela que julguei santa do meu único altar?
         — Altar ou cama, velho?
         Aquela que ao me trazer a este morto cinema Aliança ainda o chamava de “Cine Olympia”? Ironia brutal, inda mais que Olympia, sabeis, vem de Olimpo, morada dos deuses. Altar, mulato, altar. Ou se quereis, altar e cama. Brutal ironia, sim, eis que aquela morte, sem harmonia com as Leis de Deus, no artigo único reservado ao suicídio, aconteceu num solstício de verão e numa terça... de Carnaval, no ano de “Taí”. Não é triste? Não é, para mim, irremediável malefício? É, sim, é.
         — Meus pêsames, vovô, apesar do solstício de verão”...
         É um vício meu... Mas juro, é verdade o contado.
         — Acredito. E pelo visto, não foi lírio aquela que o senhor julgou santa de altar e cama. Não é dona?
         Não se meta, alfaiate, entre ela e eu, se afaste! E você, negra, por que tanto assim ao sol, impondo-me tal martírio? Já sou idoso, mas não esqueça que tenho ouro, tanto quanto a Guatemala tem bananas e o Brasil tem colírios e Titia tinha monumentais delírios: ela queria búfalos, touros, elefantes, cavalos grandes, tigres de Bengala (aqueles de longos dentes), leopardos de permanentes tesão – é o meu caso, menina, é o meu caso – e leões, imensas cobras azuis... Saia do Sol, negra, chegue p’ra cá! Jacarés de quilométricas caudas. E me chamava de morcego. Pedia: “me morda, morceguinho, me morda!” e eu mordia.
         — Ela gostando...
         Adorando. Chegue p’ra cá, menina! Será que ao menos você tem alma? Venha p’ra sombra que este é um sol sob o qual ardo, e como ardo, puta-que-pariu!
         — Olha a falta de respeito, velho! Onde já se viu falar assim com uma dona que é a joia e gema do Brasil? Ela tem alma, sinto-a, e até posso vê-la, cheirá-la. O senhor é que perde a calma por ela não ser freteira. E o sol queima coisa nenhuma que esta é uma cidade de mar, um grande útero permanentemente cheio de deliciosa água. O sol é útil, vovô, o sol esquenta as palmas dos coqueiros da Boca do Rio, onde tenho casa. E casa própria, dona, quer ir ver? É ali pertinho, um pouquinho de quilômetros, e Itapuã. Que tal, antes bebermos uma cervejinha?

         DOZE

         “É de manhã/ É de madrugada/ É de manhã/Vou ver minha amada/É de manhã/Vou ver meu amor”. É o mulato quem canta, mulato que, se não mente, tanto quanto mentindo estou, tem casa em Itapuã. E tem mocidade! (Isso de envelhecer, senhores do bar, Alonso, meu irmão isto é uma porra; por que morrer logo agora que o mundo tá começando a ficar lindo?) Eu devia ter tomado dinheiro emprestado ao Sr. Magalhães. Devia, mas não tomei. Tudo contra mim, tudo: Stella esquecendo o essencial ovo cozido, meio azedado o idem essencial mingau de carimã, a gostosura da inicial “caipirinha”, tudo isso e o alfaiate que tendo casa própria na Boca do Rio (Itapuã) tem também – suponho... – frequente virilidade. Conluio contra mim, conluios e (eu pensava) disso concluo, ora, porra! Não concluo nada. Crueldade, crueldade!E iníqua. Tão entendendo, vocês, tão? Por que esta terra tão profícua em terremotos – na Grécia, no Irã, etc – não se abre para ter esta negra, você, menina, você, para tê-la integral, matá-la com terrenal paixão, se, pouco a pouco eu morro de amor? Se perdidamente, me apaixonei?
         — Comovente, velho, comovente. Tenho pena do senhor.
         Guarde sua piedade para os necessitados que este não é o meu caso, que nem de Deus sou temente e sim amigo d’Ele, e tanto que lhe faço umas críticas construtivas, a tanto me limitando, pois se tanto me atrevo, amigo velho, polivalente não sou: tenho horror aos Coutinhos. Por sinal, qual é a sua graça:
         — Dirceu.
         Bonito nome. Já disse que mamãe se chamava Anastácia? É. O seu é bonito. Lembra de um colega meu que tinha Benício no meio e Divino dos Santos no fim. Dirceu, sim, bonito nome. Menina, qual é o seu?
         — Ela não diz, vovô. Nem p’ra mim disse. Mas acho que é Helena... Tão serena me parece, tão segura de si.
         Seja Helena, Açucena, Verbena, seja qual for seu nome, mesmo Verena – que já se foi, já disse, o nome de Titia – Cleópatra negra é você, fêmea incendiária, gloria nacional ainda sem medalha, Cleópatra de uma cobra só (a minha), futura amada-esposa-amante do Antônio (eu) que irá vencer quantos Dirceus e Césares existam, ainda que tenha Amadeus no nome! En garde, Amadeos, em garde!
         — Gozado, dona, gozado, veja: ele agora é espadachim!
         Cleópatra é você, negra deste elefante ondulante nesta sua anca principal, aromatizada e glorificada por estes meus dedos de metal. Metal e ouro. Dinheiro é fundamental menina. Aliás, bonito bicho este elefante de tromba açudante e agudante, como diria o finado Babau. É garboso, ardente, crescente, é animal digno de majestade imperial.
         — É, realmente, o senhor tá com mania de al. Mas, não esqueça a Guatemala, o ovo cozido, o casório com Stella... Não esqueça também de Tecun Uman!
         A menina sabia que meu defunto avô, Napoleão Carvalhal Reys, financiou Artemisa na construção do Taj Mahal, grande túmulo onde repousam os restos de Mausolo, notável intelectual e atleta sexual? Falar nisso, ou seja, falar em intelectual, Titia era muito sensível e, segundo o padre Arquelau, uma grande poetisa, sensacional em duetos, tercetos, quartetos e sextetos. E tanto que o velho Amadeu verteu um soneto dela para o italiano, com palavras de dialeto meridional.
         — Que diabos o senhor pretende com tanto al?
         Vamos mudar de assunto... “A Procissão de Cleópatra”, negra, é poema de Sosígenes Costa, amante de bichos poderosos como elefantes, leopardos, tigres, leões, fanáticas cobras, eticétera. Não por acaso foi amigo íntimo do Grande Rei Salomão. Morreu com 68 anos – aliás, eu só tenho 59, juro... – e ainda dava no couro, sempre elegante, um mestre na dialética...
         — Mesmo amando mulher soviética?
         Não se meta, ô, não se meta! Quando eu era assim como você é agora, mulato presepeiro, na sua idade, vovô, bastava eu pensar em bobagem (nem precisava dizer), botava em minha língua um ovo. Um ovo.
         — Cozido?
         Quente! Um ovo pelando de quente. É que, naquele tempo, havia respeito pelos mais velhos, havia moral. Todo o povo era decente. Se um velho queria uma coisa, fosse o que fosse, toda a gente dava. Ou cobrava baratinho  e era grande a satisfação. Me lembro que vovô Napoleão alugava com uns vinténs “uns minutinhos de Celeste”, uma escurinha que era empregada lá de casa. Todo mundo feliz. Ninguém chueteava de velhos, vivos monumentos da civilização cristã e ocidental, eis que a educação era apurada e geral.Ótimo que me tenha escutado com tal consideração, sem risos de mofa. Onde é que eu estava antes desta digressão casual? Ah, sim, o poema do imortal Sosígenes Costa... Ouça dois quartetos apenas, negra, e se sinta ela, Cleópatra. Imperial me sinto pombo voador. Ponha-se com porte de monumental majestade. Isso, levante a cabeça, peitos p’ra frente, cante comigo: “Ô, abre alas/Ô/Que eu quero passar...”
         — Pô, velho, declame logo! Já é tarde.
                  “A Rainha do Egito, entre lótus de opala
                  Finalmente surgiu o poente amarelo.
                  Na ânsia de contemplá-la o céu se fez mais belo
                  E o Nilo, que se azula, ao próprio céu se iguala”
         — É bonito, admito.
                  “E Cleopatra cintila, irreal, sem paralelo,
                  Na charola do sol, pelo Nilo opala.
                  É proclamado o arcanjo! E esplende o Nilo em gala
                  E em luz se desenrola esse momento belo”
         — É realmente bonito, mas, dona, agora a sério falo, que tal uma cervejinha ali adiante, no Mercado?
        
         TREZE

         Aqui tá bom, mulato, é aqui que foi o morredouro cinema Aliança. E esta rua é teu Nilo, negra, negra de um negro etíope, amor do meu coração e de tudo o mais: por ti serena minha pomba, de metal-ouro são meus dedos, por ti. Por ti, “yo me rompo todo” e Tecun Uman que se campe! Por que mesmo rindo, não olhas teu exaltado cantor e imperial cavalheiro? Aqui entre nós, menina: não aceite a cerveja que o principal elo da perdição é o álcool. E minh’alma de sóbrio senhor ao próprio céu iguala, na pureza das intenções. Em tudo e sobretudo na grandeza e na riqueza, indicadores de uma paixão sem paralelo. E vambora que dou meu reino pelo teu amor, sem que sejam só minutinhos, o bastante para que minha gala perfume o teu útero belo.
         — O senhor ficou muito magricelo, vovô. Não dá mais. É pena, mas seu tempo já passou. Vá indo, vá repousar.
         Uma ova que vou!
         — Não grite comigo, pô!
         É leão agora, o que antes fora gato e gatão, elefante depois, leão de grande juba na sua anca principal, enfiada na calça azul celestial: a blusa, fininha, é de tons amarelos, e ela provocante, rege a dança dos seios belos, dois biquinhos gordinhos parecendo caramelos, vá ver que com gosto de marmelo. Vambora, menina, vambora, que te dou dois contos de réis. Dois, não, três, cinco, seis!
         — Voltou a provocação do dinheiro? Se voltou apelo P’ra a ignorância e de saída, seu tagarelo, volto a ligar o rádio, e a base do “É de manhã, sendo o senhor, como é, já uma noite. Ou não é?
         Mudando de assunto, menina... Ah, o velho e querido Cine Aliança. “Tirem este pau da frente!” – assim gritou (eu era jovem, na sua idade, suponho) um idoso espectador deste desaparecido cinema. Foi uma gargalhada geral, unânime, e ri de uma tragédia. Me disponho a contar o caso tal qual ele se passou. Rimos muito do velho, eu e Clara Maria. Mas antes, negra, num tempo antes de Clara Maria, tive uma namoradinha de nome Laura Luiza. Ela era loirinha e o velho Amadeo a papou primeiro que eu, atraindo-a com biscoitos, bolachas-de-macaco e refresco. Ele era tarado por refresco foi numa dessas que se campou. O de tamarindo. O que Titia mandou eu levar. Levei. Bebeu e se estrebuchou. Suicídio. Foi. Ficou provado no inquérito. É. Sua alma, sua palma. Pô, não gosto nem de lembrar. Ah, Laura Luisa eu e ela neste cinema Aliança. E eu não fui o segundo, após Amadeo. O segundo foi Osiris, descarado como quê, bonitão, parecido com Maurice Chevalier. Depois? Nesse terceiro depois foi Anfilófio quem penetrou no estojo de folhas dela. Depois – deixem eu me lembrar, pela ordem – depois Almirindo, Demerval, Carlos Porquinho, Leão, Niltinho, Amon, Periquitiho Verde, os irmãos Ícios, os irmãos Maia... Ah! Também Almério e Desidério, o pai do delegado Furtado, o que inocentou Titia no caso do tamarindo... Quem mais, alfaiate? Ninguém (que seja do meu conhecimento) e então eu.
         — Pobrezinho... O senhor é um sonso.
         E ela, menina, já tava um bucho. É, todos cantam seus amores, eu conto meus dissabores. Vambora, negra, vambora, que preciso me reabilitar. Só quero trinta centímetros quadrados do seu corpo, uns minutinhos lá no meu Castelo Feudal, e o direito de fazer agradinhos nos biquinhos dos seus peitinhos, tudo devagarinho, com jeitinho, que é p’ra não doer e sim para alegrar. Vambora que o distinto alfaiate, homem educadíssimo que é, não ficará zangado. Se tenho rijo pombo e dinheiro, o que mais quer?
         — Amor por dinheiro, ela, velho? Jamais! Fique com Stella que ela é sua única passarela. E adeus.
         Não, não andem, fiquem aqui, que há o engraçado caso-do-pau-do-Cinema-Aliança-no-filme-de-Hedy-Lamarr-nua. É engraçadíssimo, vocês vão rir de mijar. Titia, onde estais que não respondes? Em que estrela tu te escondes, perseguida por papai? Desça, me ajude.
         — Tá de novo atacado de espiritismo, velho?
         Uma ova! Tô é pensando alto... Além de Titia e madrasta, se lembre, você foi minha madrinha e você me fez jurar que eu seria só teu e que tu serás só minha, naquela noite do fatídico refresco de tamarindo para o velho Amadeo. Ou você esqueceu? Você, não, a senhora. Me ajude, pelo amor de Deus. Bote juízo de comerciante nesta negra e calma, compreensão, amizade, no senso deste mulato. Ou, então, se grude ao velho Amadeo pedindo p’ra ele me ensinar algumas artes da conquistação. É, sim, Titia, se grude nele que dessas coisas ele sabia ou não seria o garanhão que foi, a todos derrotando na rinha.
         — Esta caladice toda... Tá se sentindo mal, velho?
         que as mulheres não passam de galinhas. Ou você esqueceu? Quero ser galo antes de morrer, Titia, e esta negrinha é a melhor franguinha que já me apareceu. Me ajude!
         — Mesmo aqui, na sombra, o senhor tá suando. É a idade, é o ovo cozido, é a Guatemala, é o Tecun Uman, enfim é uma cachoeira de coisas. Vá descansar, vovô, mas antes conte o caso do pau-no-cinema-Aliança. E nada de nomes feios. Quem é educado, como papai ensina, insinua. Entendeu? E, quando as rimas, nada ouse...

         Quatorze

         Era de tarde, matinê, domingo ensolarado, neste morto Cinema Aliança. Taí: aqui, onde tantas vezes emocionado chorei e ri, não há mais sonhos, ilusões, divertimentos. É outro tempo, este, e vendem-se chitas e gurgurões onde antes se vendiam fitas e inesquecíveis seduções: femininamente, negra, Hedy Lamarr foi a maior.
         — Mulher branca?
         Brancura, como diria Camões, feita de neve e luz pura. Grande arte é o cinema. Ah, como eu gostava de ver, e seguidamente, o “Se Eu Fora Rei”, com Ronald Colman. Aliás, meu bigodinho era igualzinho ao dele. Titia fremia ao vê-lo e isso eu entendi quando fremi vendo Hedy Lamarr nua. Titia ainda mais tremia nos filmes de Charles Boyer, com quem, também eu parecia, segundo ela, dizia, ah, o Boyer, meu amigo. Me lembro dele de Dolman, sendo Napoleão Bonaparte, e então foi melhor que tudo o que o Colman fez. Ah, Titia sabia fazer comparações. Mas morreu. Todos morreram.
         — Esqueça os finados, vovô, e conte o tal caso que já é tarde. É meio-dia, quase.
         O honrado velho do maior drama do cinema Aliança se chamava Alpheu, um conterrâneo pacato, contabilista de nome no mundo do Taboão, que é ali pertinho, onde aliás, vige a desgraça da tal cervejinha e do tal vinho. É. Menina: nunca beba álcool. Bom: o velho Alpheu gritou: “Tirem este pau da frente”, e foi uma gargalhada geral. Ele não berrou ao homem de pernas postiça, presente na matinê, profissional do reclame comercial que aparecia nos intervalos. É que um grosso tronco de árvore, como que maldita proibição na tela impressa, impedia o velho de ver o corpo nu de Hedy Lamarr em “Êxtase”. Era tudo o que ele queria: ver, a beleza que o pau impedia. Tão pouco, afinal, e até isso o tronco “moral” lhe proibia. Tão pouco e foi detido por atentado aos bons costumes. E detido aqui-oh! Grossa ironia! – onde papai se matou por ciúmes.
         — E o senhor riu do velho, como disse.
         Ri, confesso, ri, e aqui se bem procurar encontrarei poeiras do meu riso. Ri, porque não sabia nada sobre o senhor Alpheu, aliás tradutor de Schopenhauer,
         — Não rime com uísque “sauer” que o caso é sério.
         tio do meu amigo Hélio que traduzia até alemão, autor de um ensaio sobre as virtudes do ovo cozido, todas as manhãs.
         — Com mingau de carimã.
         Exato. Agradecido pela lembrança. Entrementes, negra, o velho Alpheu sendo preso por tal delito – veja que esculhambação! – ela, Hedy Lamarr, impassível diante do sofrer daquele exaltado admirador, ficou odiosamente deitada, e nua, em cama de um chalé, em posição de total impudor. E, sem gritos mas em ânsias a ela favoráveis, agindo como uma fêmea qualquer – uma loba, por exemplo, ou uma cachorra – sonhava-se possuída por um cavalo negro, de crinas ao vento, de imensas patas que ainda hoje me atordoam: não queria tê-las, quando jovem, templo em que meus primeiros sentimentos, e os primeiros sempre são muito puros, comandavam meus pensamentos e, em consequência, meu modo de agir. É. Eu não queria ferir ninguém. Nem para fazer o bem. É. Eu fui inconsequentemente puro. É. Imensas patas que até hoje me magoam.
         — Não se emocione, vovô: Olhe a idade. 
         Patas daquele cavalo negro. Peço desculpas. É que eu choro com facilidade. Vou jurar: não choro mais. Tá tudo rodopiando, pô. É que além do álcool, memórias assim me ferem fundo, me encanoam para direções que não somam a meu favor.
         — O senhor devia era ir dormir. Vá. Quer que a gente leve o senhor?
         Agradecido. Não. Amigos, o mundo não é bom, mas precisa ser. Precisa de ser um mundo de Tecuns Umans. Precisa. Em toda a parte. É o que Stella diz: “quando materialmente o mundo for bom, espiritualmente nós vamos identificar o mal. E prevení-lo. E conjurado”. Stella é cristã, amigos. É a maior fã que João Vinte e Três já teve. É o que ela quer: um mundo de Tecuns Umãs. Um mundo de gentes capazes de gritos como: “Tirem este pau da frente”. Um mundo de revoltas institucionalizadas com grandes prêmios para os melhores. Um mundo em que a revolta contra erros se torne um dever, uma obrigação. Um mundo que está vindo, um mundo que eu não vou ver.
         — Bonito, velho, bonito.
         Um mundo que, talvez traduzindo “La Naissance”, de algum modo eu também esteja construindo. É, mas eu ri quando prenderam o velho Alpheu, tio de Hélio. E ri aqui, na época de “Taí” como principal canção de carnaval, me digam: que porra é mesmo moral?
         — Se apresse com o caso velho, velho.
        
         QUINZE

         Nunca vou esquecer o cavalão entrando em minha Hedy. Negro e enorme. E eu sou branco que faz vergonha, branquelo. Cabelos loiros, pentelhos loiros, pelos loiros: “você é de ouro”, Titia dizia querendo me ninar. Tá bom, mas cadê o ouro, cadê? Tô é fodido. Tudo que eu tenho é Stella, meu querido Alonso, se é que a tenho, Tinha, ontem, tinha, mas hoje ela esqueceu meu ovo cozido.
         — Alonso? Que Alonso?
         E esqueceu de propósito, p’ra forçar o casamento. Que jeito? É a idade, Alonso, é a idade. Ela deve estar caducando. Sim, que jeito? Cabelos e pelos já eram e hoje os pentelhos meus têm cor de cinzento sujos. Deus é um imbecil, é como o menino-estudante que confundiu fevereiro com abril. Porque a gente deveria era viver eternamente, tomando sempre novas qualidades, mel com diferentes gostos, mas sempre doce. Bobeei com as Marias? Tá noutra idade não bobeia com Cristina Izabel. Me entendeu, Alonso? O principal erro de Deus é o erro do tempo. Não devia haver tempo. Devia haver só espaço.
         — Onde é que está este tal Alonso? Quem é?
         Amigo meu, gênio na transmissão de pensamentos, e tá na Confeitaria ou Bar ou Mercearia, sei lá. “Alá-lá-ô/Ô/Viemos do Egito”... e não viemos de porra nenhuma: Tô com saudades do velho Alpheu. Que coisa! Ele só queria ver a bichinha nua. É uma joça esta vida. Viemos de uma confusão retada. Basicamente cúpida, minha árvore genealógica é estúpida: avós holandeses, tios ingleses, um tataravô sueco, todos boiotas duns peles sem tinta, tinta brasileira que  mamãe não me legou. E era negro, possante, enorme, aquele cavalão. E negra é ela, Titia, é um pedaço de saúde, derradeira alavanca da minha pomba, pomba que a senhora amava até o velho Amadeo surgir, pomba que você abandonou, mulher descarada, você!
         — Quer dizer que o senhor pensa fala aqui e ele escuta, lá, no tal bar... É isso?e
         É exatamente. Que inveja tenho do Tecun Uman, Alonso. De sua beleza, de sua juventude, de seu saber, de sua coragem, de sua linguagem. (Se eu fosse Tecun dava era um soco na cara presepeira daquele mulato sempre risonho, a ameaçar com o uso do rádio embora me visse tristonho. Sentimentos humanitários nele? Nenhum, Alonso, nenhum. Ou melhor, tinha um, o de desejo nela).
         — Uma cervejinha, dona, vais? Vais ou não vais?
         Jamais. Uma filha do povo, súdita de Iemanjá e do Rei Salomão, abomina bacanais alcoólicas. Digo e repito, me mate se quiser senhor alfaiate. Tudo tem um dia e hoje calei a covardia que havia em mim. Sim, sou O Espadachim pelo amigo falado. Desde que eu era bebê nunca falei assim, mas agora digo e sustento. Quer que eu diga em latim?
         — O senhor tá é bêbado e tanto que não se aguentava mais. Quem pensou em bacanais foi o senhor. Sugeri uma vervejinha...
         Não, ela não sai daqui que eu vou contar outro caso. Olhem amigos, Napoleão Bonaparte se campou quando deixou que a gula do poder-pelo-poder, doença que se contrai na mocidade, se aninhasse nele e o empolgasse. E. Tudo por causa da mocidade, da inexperiência, a mania de andar bebendo vinhos, cervejas... Ele foi magistral, mas antes de conquistar o Egito, tua verdadeira pátria, negra. Gritou, agitando o estandarte tricolor: “Do alto desta pirâmides, soldados, 40 séculos vos contemplam”. Mentira dele! Mentira que séculos não contemplam ninguém.
         — Vem comigo à cervejinha, menina, vem. Assim, jóia, caminha.
         Século é tempo e tempo mata a gente, tal como vai matar vocês. Aí é que está o enguiço, aí o principal erro de Deus. É uma zorra, é, mas é verdade. Quando eu tinha 19 anos (e amava Clara Maria) o tempo devia ter parado. Eu e ela, o tempo parado. Nós nos amando e o tempo parado, ali, no Dique, ela e eu no caíque. Titia não se agarrando com o velho Amadeo, e sim me esperando, o tempo parado.
         — E a gente andando, falando, tal como agora.

         DEZESSEIS

         Por que tudo enfeitado neste Mercado? Desde quando Bárbara é a santa dos Carnavais? Que esculhambação é esta? Sangrentas carnes de bois, de vacas, frutas e pandeiros, cuícas, feijão e arroz, e a negra hesita diante do convite do mulato... Não deveis esquecer o sábio Salomão, as negras dele, etíopes ou não, vossas ancestrais, todas mananciais para generosas bicas.
         — Olhe a rima safada, velho, olhe a rima! E você, menina, vais ou não vais à cervejinha? Vambora, dona.
         Ela não vai que a perdição está no álcool e sei do que falo: Titia, começo e fim da total perversão, bebia muito jenipapo, a fruta macerada na cachaça. A fruta e o açúcar. Açúcar, fruta e álcool, rica e terrível mistura a lhe incendiar a cona. Negra, negra de um negro etíope, escutai a eterna lição de Sosígenes:
                  “Dorme a loucura em ânfora de vinho
                  (ou na garrafa de cerveja, acreditai terna menina)
                  “e a ilusão está dentro deste poço”
                  (no caso, o poço é o mercado e a verdade é o ouro)
                  Nunca a verdade esteve neste vinho
                  Nunca a verdade esteve neste poço
                  nesta cisterna aberta no caminho.
                  A ilusão é que vive neste poço.
                  A loucura é que dorme neste vinho”
        
         — Eu não falei em vinho. Falei em cervejinha.
         Notaram, vocês, como é viril minha memória? (Eu sabia de cor, Alonso, antes, o “Cânticos dos cânticos”, “A ilha e o Ninho”, a Obra Completa de Omar Khayam, o inédito discurso de Tecun Uman, todos os enredos dos contos de Machado de Assis. Viril, também, reconheço, a memória do mulato: “É de manhã/é de madrugada/ é de manhã/vou ver minha amada/é de manhã/vou ver meu amor”.
         E o amor caminha quase esquina do cinema Jandaia, depois do Taboão, ao lado da Ladeira do Alvo, o leão dançante na bunda dela. Gostoso cinema, e grande, grandão. Laura Luíza também gostava dele. A gente ficava muito juntinhos, muito descaradinhos eu de linguinha no ouvido esquerdo dela, lembrando-me do tempo bom que fui bebê... (Atrás, entenderam os senhores, Alonso, ficara o mercado, e as carnes-de-boi, dependuradas nos açougues, pingavam sangue no chão, atraindo moscas, lacraus, aranhas, compondo estranhas figuras animais: recordo o cavalo vermelho, as dianteiras patas no ar, magoando ele, ferindo-o).
         Te dou oito mil cruzeiros, menina, nem um centavo a mais. Não chegue naquela esquina, fuja dela, que é perigoso o cinema Jandaia. Menina, vambora, oito mil cruzeiros  e mais não dou que não sou mina, apesar de ser muito rico e graças a Voltaire, de quem sou herdeiro, o principal entre os principais. Isso, menina, fique assim parada que já ouço o que vão dizer os teus olhos de negro etíope. Não precisa falar. Basta olhar e vir. Nós, então...
         — Não seja puta, dona, até porque além destes duzentos cruzeiros ele não tem mais um vintém. Como é, vais ou não vais à cervejinha? Sentaremos no bar, ficaremos sós e ouviremos rádio. Quem sabe se, desse papo, não sairá casamento que você quer? E é maluquice dele isso de Mercado ser poço. Você vem?
         Não vá. Apelo, não vá. No álcool, negra, está a perdição. Diga, diga com os olhos, esquecendo a intriga dele, o que já na imaginação ouço.

         DEZESSETE

         -- Vou com o vovô.
         Com seu ódio, na saída do Mercado, rádio-de-pilha na mão, fica o mulato com sua verdade e seu poço. E a negra, negra de um negro etíope, ao meu lado voa, escrava do meu delírio. Beija o sol e não se queima, a lua com inveja dela.
         — Vais ou não vais dona, jóia?
         Ela não vai. Quase grito com o mulato e a preferida de Salomão caminha ao seu lado. Sim, dócil que nem uma gatinha, caminha. E o leão é uma leoa, o elefante agora é elefanta. Napoleão e Salomão batem palmas, todo os que já  morreram cantam o hino do Bahia. Mas, atenção, perigo: o velho Amadeo, velho sujo (de braços dados com Titia), se aproxima de nós. Com olhar de raios protetoriais – made in USA, é óbvio – eu cego a negra para que não veja a sedução do Caifás. E explico: é cegueira passageira, eis que no amor, menina, como a experiência ensina (particularmente a de Medusa, muito amiga minha) a maldade domina. Domina e não acaba mais. Romeu e Julieta, não esqueça, Dante e Beatriz, eu e Clara Maria... Toda história de amor, se feliz, não passa de filme de cinema: a mulher querendo cavalo, o homem sonhando com a flor e com o ovo, esta é a verdade e ela não está no poço. E será assim até que haja o novo homem, a nova mulher. Stella acha, aliás, que eles já estão vindo, o que pode ser maluquice dela e o que pode ser verdade. É.
         — Quem foi Tecun Umã, vovô? Responda e não minta.
         Herói da Guatemala, eis o que ele foi. É... Vamos mudar de assunto. Haverá fanfaras e Duques especializados em perfumar femininos corpos com essências de tamarindos bons e todos te saudarão ao entrares no meu Castelo, sede do reinado da Cova da Onça. Lá menina, Voltaire é meu escudeiro, é meu escriba nas horas vagas. Verá como eu transformei o Dique no Lago Como, ali entronizando Iemanjá. Verás Amadeo ao lado dela, querendo ela, mas sem poder se mexer.
         — Vais ou não vais, dona?
         Meu verdadeiro nome? Eu já disse, Antônio Soares Reys. É. Mas, hoje, em face desta realidade assim dada, sou o Salomão do Asfalto, menina Salomão, com passaporte de ida-e-volta ao inferno do sofrer, da dúvida masturbada; é lá, ou aqui, acordando-e-dormindo, que beijo Titia (na testa) e cuspo na boca dela. É aqui ou lá que vejo papai e faço-de-contas que não: evito muito chorar para salvaguardar a formosura do meu rosto, a saúde da minha tez, a limpidez dos meus olhos, a olímpica conformação do meu nariz que, mais de uma vez, a Greta beijou. Greta, a porreta, meu primeiro amor nórdico. E saiba que tudo isso é segredo. Não diga a ninguém, especialmente a Stella, Stella da Conceição Maltez.
         — Quem foi Armand Gatti, o tal autor? O que é que ele fez?
         Não foi, é.
         — Vais ou não vais, dona? Se decida!
         Gatti não fez, faz. Poeta, dramaturgo e cineasta francês... Em todo o caso, no momento, ele é um chato. Boa é você... Lá, no meu Reinado, uma Duquesa, a dedo escolhida, te dará banhos com mágica folha trazida do Paraíso Sul.

         DEZOITO           

         — Vais ou não vais, flor, jóia?
         —  Vou. Adeus, vovô, Seja feliz com Stella.


         DEZENOVE

         Homem branco bebe uísque. Alonso, senhores deste bar. Holandeses, ingleses, suíços, franceses, aprendei: bebida de branco é uísque. Até os ianques sabem disso. E eu, incendiado pela presunção (é minha primeira tradução remunerada), bebi a diaba da “caipirinha” e saí com aquele pique retado, completamente, amalucado, baixando no âmago da Baixa dos Sapateiros. Deu o que deu, já sabeis, tá tudo gravado, e isso porque Stella, esquecida de forrar meu estômago, não me ofereceu o tradicional ovo cozido com sal polvilhado.
         Carece de lamentar, mas a sério é verdade: eu vi a negra primeiro. O rapazote foi o segundo e o mulato presepeiro, com aquele maldito rádio-de-pilha na mão (e casa em Itapuã), foi o terceiro. Com certeza. E se a negra se chama Tereza, cumpriu-se o historiado pela cantiga de roda:
         “Terezinha de Jesus
         de uma queda foi ao chão
         Acudiram três cavalheiros
         Todos de chapéu na mão.
         O primeiro foi seu pai,
         O segundo, seu irmão,
         O terceiro foi aquele
         A quem ela deu a mão”.
        
         VINTE

         Brutal ironia, Alonso querido, senhores deste bar, meu povo: diante do acontecido é nesta véspera de Carnaval que este vosso amigo Antônio Soares, sem Reys, sem réis, sem porra nenhuma, decide contrair matrimônio com a honrada senhora Stella da Conceição Maltez. E vamos esquecer Titia, o velho Amedeo, papai, o esquecido ovo cozido, e as infiés Marias, sobretudo a Clara, aquela do teu nome principia na palma da minha mão. P’ra que lembrar tais idos? Maltez, amigão, obrigado por você ter morrido. Nada lembra, nada, nem mesmo a gostosa Beatriz com seu cretino “devez”. Tudo esquecido, tudo. Como no cantar de Pompeu, grande almirante romano, “Navegar é preciso, viver não é preciso”
         — Verdadeiro, professor. Aceita um uísque nacional?
         e pimenta no cu dos outros é refresco, máximo da sabedoria popular, ao que permitido me seja, acrescento ensinamento meu: um homem, para ser um homem, não pode prescindir dum lar, seja qual for o século, o ano, o mês, o dia. Uma família, senhores, uma família, um ponto de referência, um lugar, número em uma rua, e, no número, nome, identificação, endereço, moradia, segurança, o desesperado pau que ao náufrago possibilita a última esperança, certeza contra fome, o frio, o silêncio, o abandono. Jovenzinho de merda, de que é que vocês estão rindo?
         — Se acalme, Tonho (aconselha Alonso)
         Uma família... Inglesa, belga, holandesa, brasileira, alemã. A nacionalidade não importa. É, até alemã, desde que não haja frio. Nacionalidade bretã ou até soviética. Ou papuia! Tô até a fim de tomar um mingau na cuia, mas quero ter mingau, e de carimã. A mulher pode ser nova ou velha, giganta ou anã. Mas, tem que ser mulher, esposa, amante ou irmã. Mulher é fundamental! Mesmo com o sexo cosicado ou cozido, embroado. Porque mulher, seja o que for, tem sempre fortuna de mãe. De que é que os senhores tão rindo?
         — Eles não sabem de nada vovô. Por favor, aceite meu uísque.
         Não. Alonso, amigão, bote outra “caipirinha” p’ra mim e outra – outra enorme, tá ouvido? – p’ra Tecun Uman, que ele já vem aí, ingênuo, tolo, heróico, coração lírico, vem vindo descendo a ladeira da Poeira, sorrindo e cantando, acordado pela certeza de um novo amanhã. É um menino, sabe, Alonso, é um menino magrinho, chinfrim de físico, corcunda, também Antônio de nome, um menino que mal vi nascido em letras de livros por Stella oferecidos, um menino  que não morre em mim. De que porra os senhores tão rindo seus zebedeus de merda, ignorantes?

         SEGUNDA PARTE

         Ouçam este poema meu, dedicado a dois corcundas (o da Notre Dame e o de Turim), também póstuma homenagem ao velho Alpheu, expulso do cinema Aliança. Ele que teve a coragem do grito covardemente contido no coração e na vontade de todos aqueles espectadores. Inclusive eu.
         1
                   Procura-se mulher. Soviética até,
                   Qualquer que seja o País, a Nação.
                   Chinesa, baiana, sueca, céltica.
                   O continente não importa. Essencial
                   É não ser negra. Básico, a moral,
                   O comportamento, zelo, a boa ética.
                   Sim, procura-se até mulher soviética.
         2
                   Soviética significa origem popular
                   Mas, negra, não! Mulher de resguardos.
                   De recato, que não mostre peitosbundas,
                   Ancas feudais, sibéricas, salvo no lar.
                   Devo trazer, evidente, bom dote e ser,
                   Obviamente, muitíssimo boa de amar.
                   Alegre, eficaz, e de fidelidade canina.
         3
                   Negra? Jamais! Pode ser sarará até,
                   Ou loura, pode ser. 18 anos, idade mínima,
                   Para evitar complicação. Boa de cozinha,
                   Amiga, nada patética, bastante afim
                   De quatro filhos: uma bela menina
                   E mais três/quatro homens. Afinal
                   De magnífica estética e de sadia moral.
         4
                   Necessário ter cultura, tudo além do banal,
                   Sabendo falar Frances, capaz de muito amar,
                   Com oficial atestado de saúde. Desse modo,
                   Pois, inluética, incapaz de deixar o lar.
                   Assim, valem índias, amarelas, enfim a cor
                   É o de menos. Mas, negra? Jamais. Negra não!
                   Que é gostosa, sei, é flor, mas cadê amor?
         5
                   Negra não presta, insisto, não presta não.
                   Daí... procura-se mulher soviética até,
                   Não importam País e Nação. Mesmo a China!
                   Vou terminar o xadrez... obs: favor ligar
                   Urgente para vinte e quatro, sete ou oito,
                   Três, três meia cinco e mais dois seis.
                   E urgentemente, repito. Obs: paga-se bem.
         6
         Paga-se em ouro, barras d’ouro autografadas por Voltaire e Tecun Uman, ouro que não tenho meus grandes irmãos, Napoleão e Salomão, Gatti, Max Picard, senhores deste bar, ouro de sonhos loucos, tigres, leões, leopardos, enormes cobras azuis e jacarés doirados, amando Cleópatra com seus lábios tamarinados em estranhos reinados: Surimãs, Surimãs, Surimãs!
         7
         Por que, diabo, eu fui me meter a traduzir “La Naissance”, ganhando micharia de um editor desalmado? E por que, ao mesmo tempo, fui me iniciar na poética de Sosígenes, lendo, febril, “Pavão, Parlenda, Paraíso”, de um tal Paes? Por que, de repente, Stella passou a me considerar “evoluído” a ponto de esquecer o ovo cozido, dando azedado o mingau de carimã? Principalmente a ponto de querer casamento com comunhão de bens? Bom, ela tem a pensão...
         8
         Eu tava tão na minha, também lendo Voltaire, e de repente – pumba! – esta confusão toda. Ah! Aquela negra desencadeou tudo, foi o ponto de fusão. Tecun Uman... Acho que enforcaram, esquartejaram e queimaram ele. E a mãe dele. E o pai dele. Uma perversidade. Bote outra “caipirinha” aí Alonso, “Espanha” imperialista, franquista descarado. A mãe, o pai, e o avô. Mataram todos (Um homem p’ra ser feliz, não deve ler porra nenhuma. Nem ouvir rádio, nem ver cinema e televisão. Ou melhor, televisão pode. Nem sempre, mas pode. Sobretudo deve é se preocupar sobre se, de fato, Titia traiu papai. E verberar a burrice do herói francês. E porque Camões chamou o ouro de metal louro. Essas coisas. É). Na selva da Guatemala. Mataram e mataram. Mas, não podem matar revolta, principalmente produto partogenético da Mãe Necessidade. Matam um, surgem cem. Gentes e livros que as ficções são verdades tensionadas. É ou não é Tecun, Stella? É.
         9
         Digam à negra (se eu for preso) que a perdoo. Ela soube amar os bichinhos que criou, com aquele suor perfumado, nas ambas bochechas da bunda e nas cercanias do seu estojo de folhas: o gato, o gatão, a serpente, o elefante, o leão. “Adeus, vovô, e ela falou tão delicadamente... Ah!, negra, se me ouves saibas que é dourada tua maravilhosa Águia Vegetal, pequena e fundamental porção do Grande Útero do Incessante Tempo em floração do mundo que tá ficando lindo.
         10
         Deus te abençoe, negra, negra de um negro etíope, amando o moço mulato, rádio-de-pilha na mão, ditoso terceiro cavalheiro e proprietário de casa em Itapuã, “palhoça” – ele disse – mas sob frondoso coqueiro”. Ótimo o “mas”, ótimo! Adeus, mulato, asfáltico Tecun Umã, embora disso ainda não saibas, e abaixo os Coutinhos e viva a Seleção. Adeus, negra, que Stella me espera, estéril ela, estéril eu. A maior porra do mundo, negra, é isto que se chama solidão, tempo de noites repetidas, tugúrio sem manhãs. Mas, por força do teu riso, da tua mocidade, da tua alegria me deste esperança ao falar mentiras e, nelas, muita coisa plena de verdades.
         11
         Bom Carnaval p’ra você e ele, teu mulato amado-amante, e ele tenha luzes e óleos puros e dulcíssimos tamarindos para todos os teus lábios e o mais profundo do teu estojo de folhas, tua águia vegetal incendiária, vermelha espiga reinante em negras e rebeldes gramas: negros incêndios para brancas manhãs:os tecuns Umans precisam de netos valorosos, se é que vocês me entendem.
         Alonso, irmão me leve na pensão que Stella já deve estar retada. E com razão. Me leve urgente, Alonso, que preciso de dormir, acordar e terminar a tradução. Venha, amigo, venha, tô velho, tô cansado, venha, me dê a mão”.
                                                                  0
         Curiosíssima a maneira como o velho Antônio, naquele início de tarde, véspera do Carnaval/78, após entregar-me a fita da gravação – eu sou o Cincinato falado... – se despediu dos abancados e de pé no Bar e Pastelaria Centro-Americano, Largo de São Miguel, o mais importante da Baixa dos Sapateiros. Ele disse:
         -- Acho que Deus brinca com a gente. Quando pensamos saber tudo sobre uma coisa, não importa que coisa seja, eu ou o ar que tá por aqui, nela aparecem substâncias novas ou sentimentos novos dos quais nem sonhávamos ter notícias. Não é gozado?
         E, trôpego, ajudado por Alonso, foi andando, sempre rindo. Feliz.

Fevereiro, 1978
                

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