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Conspiração para adultério.



               Tentei recordar o nome dela, não consegui. Sua fisionomia, porém, vem-me com facilidade. Não tinha mais de um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, era uma dessas mulheres que dizem: “falsa magra”. Tinha seios médios, duros, desafiadores. Ancas e pernas roliças, fortes, mas não musculosas, eram belamente torneadas. O rosto era oval, olhos grandes e penetrantes de cor castanho claro, um nariz afilado que apontava para cima, poderia até dizer: um nariz arrogante em uma mulher meiga. A boca era pequena, não muito pequena, do tamanho certo para harmonizar com o todo. Era branca, uma pele macia e aveludada, deliciosamente branca. Era uma bela mulher sem que sua beleza fosse extravagante. Passaria despercebida pelos homens se assim quisesse. Eu a conheci por acaso. (Disso tenho dúvidas). Costumava aos sábados e domingos ir à casa de um amigo para juntos irmos à praia, geralmente, para pegarmos onda. Foi num sábado. Ele morava no terceiro andar de um prédio térreo. Lembro que da rua podia se ver, por trás das cortinas transparentes, uma família a saborear o desjejum. Gritei o nome dele, que, por questões óbvias, omitirei.
— Fulano! Ô! Fulano... Vambora!
Repeti o chamado até que a mãe dele apareceu na janela disse que ele estava bebendo o café-da-manhã e que eu subisse. Eu levantei a prancha de surf para mostrar que eu esperaria ali mesmo. Ela repetiu suba. Suba logo. E eu subi. Coloquei a prancha em pé ao lado da porta e entrei no apartamento. A mãe de fulano me serviu suco e cuscuz. Eu disse já ter tomado café. Ela ao servir a mesa insistiu e eu aceitei e comecei a comer o cuscuz e a beber suco de laranja. A mãe dele saiu de cena e a bela e adolescente irmã apareceu à mesa, esfregou meus cabelos arrumando-os, pegou algumas bolachas na mesa e saiu para o quarto. Meu amigo já esfregava parafina na prancha dele para sairmos. Foi aí que a conheci. Ela me deu um sorriso acolhedor, dentes alvos e perfeitos e seu sorriso formou covinhas em suas bochechas. A mãe de meu amigo nos apresentou, disse: essa é cicrana, moradora nova no prédio, mora no segundo andar, 202. Nunca lhe perguntei a idade, creio que tinha por volta dos vinte e cinco anos. Eu faria dezessete no mês seguinte. O dia continuou sem que eu desse importância ao fato de tê-la conhecido. Eu e esse meu amigo esperamos a irmã dele se aprontar e fomos à praia. Confesso que eu era arriado por ela, a irmã desse meu amigo. Como diziam no meu tempo de juventude, “arriado os quatro pneus e o step”, (apaixonado). Ela nunca me quis. Mas isso é outra história. 
Com as férias escolares, um mês e pouco depois de eu tê-la conhecido, ao chegar ao prédio desse amigo a encontrei na escada, no segundo andar, com ela atrás da porta tendo somente o rosto a mostra. Eu ia subindo quando ela, que o nome me foge a memória, me perguntou,
— Zé. Você pode me fazer um favor.
— Sim, claro... – Respondi assentando a rabeta de minha prancha sobre o pé.  
— É que meu marido está viajando e eu não consigo desentupir a pia.
— Sem problema. — Eu disse — Costumo fazer isso em casa.
Encostei a prancha do lado de fora do apartamento e fui direto à cozinha. Ela colocou a prancha para dentro e fechou a porta. Coloquei a parafina e a camisa sobre a mesa da cozinha. Apanhei o desentupidor e comecei a manuseá-lo. Ela se colocou ao meu lado,  pousou levemente a mão em minhas costas e sussurrou,
— Esses movimentos de vai e vem me excitam.
Devo admitir, até com certo constrangimento, que a minha inocência, da época, fez-me não descortinar as intenções da bela mulher. E visto que a pia não desentupia. Perguntei se ela teria uma mangueira para que fizesse o trabalho. Ela disse sim e apontou o quarto menor ao lado da cozinha. Fui, apanhei a mangueira, encaixei-a na torneira da pia da área de serviço. Posicionei a mangueira no buraco da pia, usei um pano de chão para evitar de fugir a pressão e abri a torneira da área de serviço. Não demorou da pressão da água desentupir a pia de lavar lousa. O suor misturara-se a respingos d’água e escorria pelo corpo.
— Quero esclarecer aos jovens leitores, se é que os tenho, que no tempo que se passa à narrativa, não existia AIDS, sequer a pílula era usada comumente, visto que seu desenvolvimento ainda engatinhava no Brasil e era cercado de preconceitos e mitos. Outro porém. Criamos que mulher casada se pressupunha ser de deleite exclusivo dos maridos e a fuga dessa prerrogativa poderia geram morte justificada em defesa da honra. (Para maiores esclarecimentos busque o caso Leila Diniz). Voltemos ao conto. —
Enquanto eu labutava para desentupir a pia, a senhora do nome que me causa amnésia seletiva já havia posto na mesa da sala café para dois.  Só após desentupir a pia que fui notar que a jovem senhora vestia-se apena de um lingerie transparente, muitíssimo curto, deixando a mostra uma calcinha branca e também transparente. Ela caminhou em minha direção com uma toalha de rosto e começou a me enxugar, levemente. Assim, morrendo de medo do marido retornar subitamente de viagem e nos flagar, nos divertimos. Após a brincadeira banhei-me bebi o café da manhã e quando já ia chamar meu amigo para o surf, ela me convocou para mais diversão.
O marido dela ela um executivo, um cara alto e muito mais forte que eu. Ele viajava por quinze dias e trabalhava no escritório de Salvador os outros quinze dias. E, apesar de já terem aproximadamente sete anos de casamento, eles não tinham filho. Soube mais tarde, dito pela mãe desse meu amigo que suas, (dele), fisionomias faciais se assemelhavam bastante a minha.
Para não dá na vista, passamos a brincar daquilo à noitinha. Eu tinha o cuidado de reparar se não havia ninguém nas janelas, principalmente os da família de meu amigo, para não sermos descobertos. Mas notava nos olhares da mãe desse meu amigo que ela sabia de algo. Foram férias maravilhosas, pontuada de medos e prazeres. No final do verão, do mesmo jeito que ela surgiu, ela desapareceu. A mãe de meu amigo, uma semana após minha linda amante desaparecer, confirmou minha suspeita de que ela tinha conhecimento do ocorrido, já que me perguntou se eu estava com saudades.
Aproximadamente um ano após esse caso, recebi uma carta. Nela dizia,
Zé.
Acredito que deva saber que você é papai de uma linda menina. Não se preocupe. Meu marido acredita ser, finalmente, o filho que sempre quisemos ter. Ela será criada com muito amor e carinho e nunca saberá ser você o pai biológico.
Muito obrigada por seus carinhos e seus préstimos,
Com amor,
Poxa! Como era mesmo o nome dela?     


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