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O Dotô de Cuba e a Cura Gay



        
         O médico, estetoscópio no pescoço, exausto, já no final de seu plantão, após atender doentes em macas improvisadas pelos corredores de num posto de saúde, público, no alto sertão da Bahia, consegue, enfim, entrar em sua sala. Um caboclo, com chapéu-de-couro, põe a cabeça porta adentro do pequeno consultório e pergunta se podia entrar.
         Me dê apenas só um minuto... Respondeu o Médico e perguntou:
O Senhor viu a enfermeira por aí?
         Não vi não, Dotô. Disse o caboclo de pele curtida, olhos claros e gestos rudes, com um facão na bainha preso na linha da cintura,
         Qué que eu chame ela? Perguntou o Caboclo
         Não, não. É que antes o senhor teria que passar pela triagem. Fazer fixa, tirar a pressão arterial, essas coisas... Mas já que está aqui o senhor pode entrar.
         O médico já imaginara dizer: é uma virose, receitar uma aspira e mandar embora. Mas, viera em missão especial ao Brasil e queria mostrar seu empenho. Então, resolveu prestar atendimento mesmo fugindo as formalidades burocráticas. Com sotaque estrangeiro, mas precisamente de Cuba, pede que o paciente retire a camisa e se deite na maca. Por alguma dificuldade com o idioma, o médico costumava evitar conversas prévias com seus pacientes. O caboclo obedeceu sem questionar.  Após caminhar até a pia e lavar as mãos o Médico retornou, procurou uma luva e notou que o estoque delas já acabara. Sem lamentar, resolveu fazer a consulta de mãos nuas e foi apalpando o paciente e perguntando, a cada pressão feita pelas mãos, se estava doendo. As respostas negativas se sucederam. Após a apalpação o médico pediu ao paciente que se sentasse e com o estetoscópio foi escutando os pulmões. O paciente ao sentir o aparelho frio sentiu um arrepio e, com certo ar de desconfiança disse,
         Não é aí não, doutor.
         O médico segue com a auscultação, apesar de estar receoso com a presença do caboclo, principalmente pelo facão na cintura. Depois de auscultar os pulmões o médico parte para os batimentos cardíacos e nota que, a primeira vista, está tudo bem. Seguindo a ritual da profissão mediu peso e altura, antes de retornar a sua cadeira e ordenar:
               Pode se vestir.
         O caboclo vestiu a camisa e de cara amarrada sentou-se na cadeira em frete ao médico. O médico colocou o manômetro e mediu a pressão arterial. Tudo normal. Então ele apanhou o bloco de exames e perguntou,
              Qual seu nome?
               Policarpo, Doutor.
         Policarpo, vou passar alguns exames para o senhor fazer e vamos ver se descobrimos o que está lhe incomodando, provavelmente é uma virose. Se puder fazê-los numa clínica particular vai adiantar o processo. Pelo SUS demora um pouco mais... E, baixando a cabeça, foi preenchendo, após ter ciência do nome completo do paciente, a série de exames. Os olhos já lacrimejam pelo cansaço da noite que passou em claro no plantão.  Finalmente, após preenche a séria de solicitações de exames, entregou-as ao paciente. Só então, o senhor Policarpo resolve se pronunciar:
                Não, doutor, o senhor não entendeu. Comigo tá tudo bem.
               Já demonstrando cansaço e alguma irritação o médico pergunta.
                Não entendi, Senhor. Então por que o Senhor não me disse logo?
              O senhor não perguntou, né? É que o pastor Armando me mandou procurar o SUS para ver o tratamento...
               Mas que tratamento?  
               O Dotô não é o médico de cu vindo do estrangeiro?
               De Cuba? Sim... Vim de Cuba.
             Intão, Dotô, eu vim buscar uma receita pro meu filho, o Feliciano. É que o pastor disse pra minha mulé que agora o SUS tem remédio que cura boiolice...  



              Fim.  
          


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