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O homicida -



            ...Saco! Viver só por viver já não me interessava, contudo, a morte não me parecia ser uma saída viável. Sentia-me violentado pela imposição do ócio. Sentia-me desgarrado como uma ovelha, andando às cegas, em meio a uma alcateia de lobos. É pesada a cruz da repugnância. Sim, senhor delegado, eu tinha que matá-lo. Quem for me julgar, se sentir empatia, verá que também mataria o desgraçado. Preparei-me, por força paterna, para uma vida de retidão profissional desde os primeiros anos da infância. Enquanto meus colegas divertiam-se com jogos de bolas, eu ruminava livros. Completei o primário com dois anos de antecedência, o mesmo ocorreu no secundário. Enfrentei o vestibular onde consegui ser agraciado com um dos primeiros lugares. Formei-me e pós-graduei-me com louvor. Sempre trabalhei na mesma empresa. Iniciei por baixo, mas conquistei cargo a cargo, e por méritos, a gerência da companhia. Com apenas vinte e seis anos já dirigia meu departamento com competência e afinco. Depois de quinze anos de total dedicação a empresa, fui demitido sem razões aparentes, em 25 de dezembro, no Natal, por fax, onde apenas três palavras explicavam-me: "Corte de pessoal". — Na época, aos quarenta de idade, pensei: "tudo bem. Pagar-me-ão o devido e abrirei meu próprio negócio". No entanto, delegado. Deu tudo errado... Dei um tremendo azar! No dia anterior ao recebimento de minha indenização, o governo confiscou todo o capital do País para lançar uma nova moeda. Resultado: minha indenização e o meu fundo de garantia caíram no confisco. A luta para receber o que me pertencia levou-me à miséria. Endividei-me. O que me logrou o sonho de todo. Então, engoli a seco o orgulho construído durante uma vida e, predispus-me a aceitar o que aparecesse para valer-me e sustentar minha família com o mínimo de dignidade. Caminhava a gastar a sola dos sapatos das cinco horas da manhã às oito horas da noite, isso, diariamente. Foram dois longos anos ouvindo as mesmas desculpas. Bastavam me olhar e já afirmavam que as vagas já estavam preenchidas. Nem me davam a chance de falar. — Sei que minha idade servia, na maioria dos casos, de pretexto para as recusas. — Com tantas dificuldades as coisas em minha casa pioravam. Meus filhos, adolescentes, não compreendiam a queda brusca no nosso padrão de vida. Até o síndico do condomínio, que anteriormente me tratava com zelo e respeito, passou a tratar-me como a um mesquinho caloteiro. Tentei junto à Prefeitura abrir uma banca de revistas, mas fui preterido. Não dispunha de verba para as propinas necessárias. Passei, então, a vender sanduíches na praia tendo que me constranger a cada fuga do rapa. Tentei, também, um empréstimo no banco. Mas, não tendo avalistas e sem bens, não obtive um retorno positivo. Minha mulher, não suportando mais meu mau humor, fugiu com meus filhos de volta para a casa do avô das crianças, o pai dela, que me julga um fracassado e rejeita meus telefonemas. Meus amigos se distanciaram, delegado. E para piorar, soube que minha ex-mulher está namorando um jogador de futebol. Dizem que o distinto artilheiro é incapaz de escrever um 'ó' com um copo, no entanto, desfila de carro importado. — Mudei-me para uma quitinete menor que uma carteira de cigarros. Meus ternos estão gastos e meus pés, devido à finura das solas dos meus sapatos, já se sensibilizam ao toque com o asfalto. Estava no total abandono e a fome já batia em minha porta... Não sou homem de pedir esmolas a parentes ou amigos, e por isso, continuei batalhando e buscando uma recolocação no mercado. Na semana retrasada, olhando a seção de empregos em um jornal diário, encontrei um anúncio que caía como uma luva para minhas qualificações. Então, elaborei um currículo caprichado e enviei-o. Soube, depois, que só dois dos currículos foram selecionados em mais de cinco mil para a entrevista. Então, com o dia e a hora marcada para ser entrevistado, submeti-me ao vexame de tomar um empréstimo com meu irmão. Comprei terno novo, meias, sapatos e arrumei-me a contento para o compromisso...
Cheguei lá esperançoso. Peguei o elevador para o décimo andar. Sentei-me em um sofá de três lugares na ante-sala do chefe do departamento de recursos humanos. Alguns minutos depois, sentou-se ao meu lado uma jovem elegante, bela, portadora de um acetinado par de pernas. Notei que o entrevistador, de quando em quando, passou a olhar de través, de sua sala, para as coxas da beldade, e ela, prontamente, entre cruzadas e descruzadas de pernas, retribuía aos olhares com um sorriso de marfim. Suei frio, mas acreditava em minha capacidade. Após a leitura dos currículos, o Sr. rechonchudo, do tipo “gordo babão”, chamou a jovem. Observei que a conversa entre a bela e a fera fluía sobre assuntos banais. No final da entrevista, o entrevistador pediu à moça que escrevesse cinco linhas para análise grafológica. Por fim, chegou meu momento. Sentei-me para o bate-papo com um pouco de nervosismo, mas totalmente confiante nas minhas habilidades. De saída, vi que o sorriso fácil do entrevistador desaparecera. E, logo após o cidadão reler, minuciosamente meu "currículo" iniciou o colóquio:
    Um bom currículo... Fala inglês?
Fluentemente.
    Francês?
Idem. Leio e escrevo em francês, inglês e alemão. Fora o português, claro!
— Muito bem, rapaz... Por que o Sr. foi posto para fora do último emprego?
Corte de pessoal. A empresa na qual trabalhava sofreu uma fusão.
— O.k!... Agora, escreva cinco linhas, de próprio punho, dizendo no que o amigo nos pode ser útil.
Feita a redação, o entrevistador pegou meu texto em uma das mãos, e o texto da jovem na outra. Leu os textos atentamente. E voltando-se para nós, analisou-nos:
— Vejo pela sua redação e pelo seu “esse” que falta ao senhor persistência e iniciativa. O corte no “tê", contudo, mostra ampla cultura, mas seu “eme”, por outro lado, demonstra que o senhor é de personalidade frágil e incapaz de lutar por si próprio. Falta-lhe ambição... E é o que nossa empresa necessita. Terei que optar pela jovem. Ela demonstra ter inteligência emocional, além de possuir incontestável iniciativa. O que é visto, aqui por nós, com bons olhos. Sinto muito, senhor, ela fica com a vaga... Desesperado e atônito, puxei da mão do gorducho o texto da jovem.  Nele estava escrito em mísera linha:
Aseito convite para jantar. Adoro relasionar-me com colegas de trabalho”.
            — Não me contive, doutor! Mostrei ao hipopótamo toda minha iniciativa...
Quer dizer então, que foi só por isso, que o senhor atirou o pobre entrevistador pela janela do décimo andar!? — retrucou o delegado com desdém.
— Bem, doutor... Se ele tivesse observado meu “dê” de desespero, ao invés do “pê”, das pernas dela, talvez ele estivesse vivo... Mas, não faz mal não, doutor. Sendo preso, pelo menos, terei três refeições por dia, cada filho meu receberá uma razoável pensão do governo, e enfim, eu terei uma chance de trabalho.



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