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O Quarteto de Ondina - Ariovaldo Matos

     
            Esta história curta é dedicada ao cidadão que teve a bondade de enviar ao narrador um desses caixotes de papelão reforçado, contendo 11 volumes de inquérito sobre o assassinato do sr. Euricles Taveira. Um inquérito inconcluso. Com toda segurança, a questão não chegou ao judiciário.

         RESUMO DO ENREDO

         Eram quatro colegas, jovens, de curso colegial: Nair, Dulce (apelidada Baixinha), Eduardo e Rodrigo. Este e Eduardo tinham predileção por Nair. Conta-se, a seguir, episódio decisivo "no universo das explicações" dos motivos que uniram Dulce e Rodrigo.
Eduardo e Nair são outra história. Estão separados até por distâncias geográfica. Ele, por exemplo, encontra-se, no momento, em cidade da Alemanha Ocidental, especializando-se em engenharia de grandes estruturas metálicas. Aprecia especulações e sente especial prazer em corresponder-se com Dulce.
*
         TRECHO DE CARTA
         "Se, querido, existisse o que você chamou, na carta de anteontem, de "ordem natural das coisas", eu seria a sua mulher, Nair não seria forçada a, por orgulho infantil, aceitar o desprezível velhote e velhaco que é o sr. Taveira e sim se casaria com Rodrigo. Desse modo, você não estaria tão distante, os quatro não nos separaríamos todos felizes ou poderíamos tentar sê-lo. Eu admitiria que você freqüentasse Nair algumas vezes, três ou quatro, ou até cinco até, em cada semestre. Ou duas vezes por trimestre. Você a enjoaria, tenho certeza. Ademais, entendo que os homens devem usar de privilégios sexuais que não nos foram deferidos pela natureza.
Não aconteceu, Eduardo, o que sonhei e Nair é a principal culpada. Na nossa juventude, prenhe de promessas maravilhosas, ela não deveria mostrar-se temerosa diante do exibicionismo sexual de Rodrigo, que é, você sabe ( e a condição de esposa desinibe-me quanto a analisá-lo), uma pessoa polida e gentil. Ela amava e ama o sexo que tem, e daí? É um pênis bonito, vigoroso, e por isso o orgulho de Rodrigo era compreensível... Não é também para o amor físico que vivemos?"
         Dulce grifou o também com dois traços vermelhos.
         Neste esboço de relatório, embora não conheçamos todos os antecedentes do assassinato do sr. Taveira, é-nos lícito supor que Rodrigo Spinola assinaria, sem tergiversações, o trecho da carta acima transcrita, embora não seja uma pessoa dada a especular sobre questões do tipo "ordem natural das coisas".
         Assinaria porque, em verdade, Nair foi e é a fêmea dos seus desejos, muito bela a fazer-se jovem, quando a conhecera nos labores estudantis, acompanhando o desabrochar como mulher — e que excitante mulher! Esquecidos ou perdoados ou — por que não dizê-lo? — admitidos os seios avantajados, louros e lisos eram os cabelos, dentes bem cuidados, lábios carnudos e de um vermelho tão hígido que Rodrigo Spinola neles jamais notou esmaecida esta cor, Nem mesmo quando, no afã de mostrar-se, exibir-se, singularizar-se no grupo, pregava-lhe grandes sustos, sobretudo com as ameaças de por o sexo a nu, destemeroso de testemunhas ocasionais.
         Spinola ia além do apenas ser brusco e Nair, tímida, sensível em demasia, atordoava-se facilmente. Assim, pode-se afirmar que o comportamento expansivo do colega, ambos de ruas diferentes, mais do mesmo bairro (Ondina), o tornou desinteressante aos olhos de Nair. Quando nervosamente, Dulce o advertiu sobre a conveniência de suavizar seus modos era tarde demais: nos limitados espaços de Nair, em termos de aspiração, já Eduardo, também filhos de pais ricos brilhava como um sol e tanto que a dissimulava inveja da colega e amiga não conseguia mínimos ensombrecimentos.
         Por alguns momentos, seja-nos permitido esquecer Nair e sublinhar que, a rigor, até por tê-la conhecido primeiro, Dulce foi a primeira fêmea que, de modo ativo, exacerbou os instintos sexuais de Rodrigo Spinola. Não temia os seus repentes: beliscões nas nádegas, sopros nos ouvidos, língua a se mover entre os lábios, etc. Mais: ela, com olhares significativos, o estimulava, desejosa, no íntimo, que Eduardo aprendesse com o colega a ser mais animal (no bom sentido da expressão), policiasse menos sua linguagem e não repetisse, como um disco em vitrola (1) as lamentações do pai sobre os erros estratégicos de Hitlér.
         1945, a II Guerra chegava ao fim, eles viviam, então, seus 14, 16 anos, por aí. Gostavam de percorrer as na época/floridas encostas de Ondina e da Federação, excelente habitat de alegres e bonitas borboletas. Ali, em Ondina, em certa tarde de sol, o mar motivando seu espírito dado a aventuras suaves, à busca de sensações novas, dificilmente doáveis, Eduardo decidiu deixar sozinho os colegas e amigos Dulce e Rodrigo e atirar-se em meio às ondas convidativas, ainda hoje benevolentes àqueles que ousam desafiá-las. Ele estava preocupado com uma frase que Dulce repetira durante a subida à maior das encostas:
         — As moças — ele dissera — não gostam de ser olhadas e tratadas como         bonequinhas e nem como estátuas.
         Intrigado perguntou:
         — Você acha que Nair não veio porque eu...
         Não falei em Nair. Eu falei em moças, em mulheres, Edu, mulheres!
Um tanto agastado, afastou-se em direção ao mar (gostava de masturbar-se pensando em Nair) e Dulce e Rodrigo ficaram a sós. Brincando de caçar borboletas, libertando-as a seguir, eles foram se aproximando e, talvez de repente, sem premeditação, estavam de mãos dadas debaixo de um frondoso cajueiro. Ela contou, então, que, segundo Eduardo, as borboletas, todas elas, são insetos muito especiais. Disse: Nascem e vivem na alegria e quando morrem geralmente escolhem o mar.
         — Bobagem.
         — Você já viu borboleta morta?
         — Não.
         — Nem eu. Acho que ninguém. Porque, ainda segundo Eduardo, as águas do mar ou dos rios ou dos lagos as recolhem.
         — Bobagem. A realidade é morte outra. Quero dizer, elas morrem, caem no chão e aí aparecem as formigas que comem as mortas rapidamente. As formigas não perdem tempo em "leros-leros".
         — Pode ser.
         — É.
         Usando muitas folhas caídas de amendoeiras, Rodrigo improvisou uma espécie de soleira sob o cajueiro, acima do qual, na encosta, havia uma mangueira ainda mais frondosa, e convidou Dulce:
         — Venha, sente aqui que o sol está forte e quentura não é coisa boa na cabeça.
         Aceitando o convite e dizendo "não gosto de ficar suando", Dulce tirou a blusa do colégio, mostrando o sutiã. Ela já não via Eduardo descendo para a praia.
         — Se você está com tanto calor — Rodrigo propôs — então tire também a saia.
         — Não sinto calor em baixo.
         — Imagino que você tem os seios muito bonitos. Tire esse sutiã.
         — Não.
         — Tire esse sutiã.
         Ela não hesitou muito em atendê-lo.
         — É — Rodrigo disse —, você tem os seios de tamanho médio, de acordo com seu corpo, e eu gostaria de beijar os biquinhos dele. Beijar, nada de morder.Chupar.
         Depois, levantando-se, não trepidou em mostrar-lhe o sexo, maior e mais grosso do que ela havia imaginado. E olhou-a com os apelos oriundos do fogo de que são feitos os desejos produzidos por instintos muito afirmativos sentiu-se como um vulcão a precisar de expelir incandescentes lavas já inaprisionáveis.
         Ainda sentada, Dulce não demonstrou medo. Fez carícias, como beija-flor que descobre carvalho novo, e Rodrigo experimentou um prazer inesquecível.
         Em Ondina, naquela tarde, Dulce Maria (Hoje Dulce Maria Argolo Spinola, uma das suspeitas de ter assassinado o sr. Taveira) exultou ao se saber capaz de contentar um homem. No entanto, cabe a circunstância ser enfatizada, não consentiu ser tocada no sexo. Queria, sim, queria ser "tocada em baixo", mas foi forte na recusa: ela imaginou Eduardo saindo das ondas, correndo, nu, querendo vê-la.
         Não há dúvida: naquela tarde, quatro destinos receberam novos motivos e substâncias novas, consolidando as direções que os comportamentos (digamos assim) e as idéias e os instintos vinham construindo, ao longo dos anos . Ali, em Ondina, Rodrigo resolveu que se não conseguisse as atenções de Nair, a amiga Dulce, notavelmente apta como mulher, não seria um consolo e sim um magnífico segundo lugar, medalha de prata: com o que consentira e realizara, naqueles minutos de contato físicos, ela se revelara cooperativa, apetitosa, dotada de vasto potencial criativo. A partir do uso dos seios. Médios, em fase final de formação, eram quentinhos, rijos, com gosto de laranja-cravo. E o mais.
Ela, a também adolescente Dulce, se disse favoravelmente admitira com a desenvoltura de Rodrigo: esperava algo, é certo, mas não esperava tanto. Ponderou, porém, que Eduardo, e só ele, poderia opinar sobre se agira bem ou mal ao acariciar o sexo do colega e amigo, favorecendo-lhe o gozo: queria um "imprimátur" embora sem receio de remorsos. Principalmente queria proclamar-se capaz para o amor.
         Eduardo, Eduardo, ela sempre pensava em Eduardo e ele, ao chegar da praia, aqueles olhos bem negros, de marcante vivacidade, ofereceu-lhe conchas brancas e róseas, além de um búzio de tonalidade leitosa. Até hoje, ao que se sabe, esse búzio é guardado sob escrupuloso carinho e não escrevemos escrúpulo por acaso: Dulce jamais admitiu, após seu casamento com Rodrigo, a idéia de adultério físico. Ou seja, uns carinhos, beijos até, muito bem; intercurso sexual? Não, de modo algum.
         Desistiu de narrar a Eduardo o episódio e, às escondidas de Rodrigo, pedir-lhe opinião. Isso porque temeu perturbá-lo: ele surgira tão belo e mostrara-se tão feliz tentando fazê-la ouvir a canção do búzio! Nem queria sugerir-se "oferecida", desde que ele nunca lhe falara de questões sexuais.
Anos depois, pouco antes do casamento com Rodrigo, ganhando coragem e querendo atraí-lo para conversas que o excitassem, que o fizessem esquecer Nair (ela não estava noiva do sr. Taveira?), Dulce narrou o sucedido naquela tarde, em Ondina, e confessou que, no quente dos fatos, quis formular a indagação mas recuara. Ela disse:
         — Ainda não nos conhecíamos tão bem quanto agora e ainda não éramos adultos.
         Eduardo comentou:
         — Antes de tudo, baixinha, eu conheço bem você desde que nos falamos pela primeira vez. E, amistosamente, eu a amo. Bem, sobre Ondina... Seria uma indagação de ordem moral.
         — Basicamente.
         — Querida, eu teria provado sua audácia e seu destemor. Entendo que você e Rodrigo nasceram para gozar a vida em todos os patamares. E para produzir, se fosse possível, mil filhos e filhas, tanto quanto eu e Nair fomos feitos para doarmos 10 mil crianças ao nosso mundo. Quanto a ela, falo simbolicamente, é claro.
         — Tenho esperança em que ela vencerá o orgulho e recusará o agiota imundo.
         — Queira Deus... Ponha isto na cabeça, Dulce Maria: crianças só para o nosso mundo, nosso e dos nossos iguais, nosso exclusivo mundo, e que em torno haja apenas os que nos devem prestar serviços. Deixemos a hipocrisias e concordemos com Fernando (2): os ricos só gostam de ver pobres nos seus horizontes quando eles estão trabalhando ou para dar-lhes esmolas. Devem prestar, serviços, esquecendo, em seguida, que nós existimos.
         Eduardo prosseguiu falando, agora sobre a necessidade de haver, no mundo, como o pai ensinara, um "socialismo limpo", da qual "a Alemanha, a verdadeira Alemanha, a Alemanha de Bonn é um exemplo soberbo", e Dulce admirava a eficiência com que Rodrigo apanhava cajus no chão, limpava-os e se punha a chupá-los, gostosamente.
Interrompendo Eduardo, perguntou:
         — Você gosta de cajus?
         — Gosto, mas caju-em-calda.
         — Eu gosto das duas formas.
         — Não entendi, Baixinha.
         — Gosto ao natural e em calda.
         — A chacum son goût. (3)
         — É!
         E puxando-a, uniu-se a Rodrigo, deliciando-se com os cajus.

*
         (1) — Vitrola. Curioso: o "Minidicionário Aurélio" não trata desse verbete. Não o registra. Certamente o "Grande Aurélio" dele cuida. Vitrola ou gramofone, desconsiderando os avanços tecnológicos atuais, era o que hoje chamamos de radiola, radiofone, etc. Usavam-se discos de 78 rotações por minuto.
         (2) — Não se sabe quem seja. Ou tenha sido. É irrelevante.
         (3) — "A cada um seu gosto". É expressão francesa; adágio, brocado, provérbio, coisa assim. A depender do momento, ganha diferentes significados ou conotações. Seja isoladamente, seja integrando uma frase, inclusive em termos de oralidade em combinação com movimentos faciais. À luz dos documentos lidos, é impossível hipotetizar sobre as intenções de Eduardo.
*
FIM
Ou seja: fim do primeiro relatório preliminar sobre sangrento episódio que um jornal, em várias reportagens, chamou de "Assassinato e Mistério em Ondina".
Fim.

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