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Teobaldo ou O Suicida.


Teobaldo ou O suicida




            Às seis horas da manhã Teobaldo já havia acordado, escovados dentes e preparado o desjejum. Após arrumar a mesa, bebia um simples café preto com adoçante artificial antes de banhar-se e vestir-se. A esposa, quase sempre, continuava a dormir. As filhas, adolescentes, eram acordadas. Ele punha o dinheiro da condução e da merenda escolar sobre a Bíblia e ia para o escritório. Era o primeiro a chegar, o último a sair.
            Ao chegar para a labuta, Teobaldo verificava o faturamento dos dias anteriores e planejava as visitas a fim de atingir a meta mensal. Era sempre dificílimo cumprir o montante das metas estabelecidas, mas não cumpri-la significava perda de comissões. Só essa possibilidade o atordoava: a escola particular, os cursos de inglês, espanhol e capoeira das garotas sofreriam atraso. As prestações do financiamento do apartamento e do carro além da parcela mensal do condomínio eram sagradas. Principalmente com aquele síndico ranzinza a avisá-lo, sempre, e com antecedência, do possível corte d’água. A ioga e a massagista da companheira, os juros do cheque especial e o salário da empregada também não poderiam ser desprezados. — “Tenho que matar um leão por dia”. — Teobaldo repetia a máxima, cotidianamente, há dezessete anos.
            O almoço, comumente, era engolido às pressas sobre a mesa de trabalho junto a análises de tendências de mercado e dos jornais especializados que traziam sempre as mirabolantes e velhas teorias, com analogias fármaco/econômicas, do ministro da fazenda impondo novas dificuldades. Atitude que o levava a olhar a gaveta, entreaberta, onde ficava o nitrato necessário à prevenção do infarto.
            Ao sair para visitar os clientes aborrecia-se com os constantes engarrafamentos que normalmente truncavam seu planejamento e acarretava atrasos no envio do relatório diário, dando margem aos telefonemas do gerente geral para, de modo insinuante, cobrá-lo competências. Atitude que visivelmente o estressava.
            Após concluir relatório e fechar o escritório, dava-se ao direito de beber uma cerveja, num bar próximo, enquanto esperava desafogar o tráfego para o volver ao lar.
Ao chegar em casa a bela e ciumenta esposa, como comumente fazia, reclamava do atraso acusando-o:
          — Isso são horas? E não me venha com desculpas que eu não sou idiota... Não duvido de você estar me traindo com alguma putinha...
As filhas não o deixavam nem se acomodar, e costumeiramente, pediam coisas à-toa:
          — Pai... Paizinho do meu coração. Estava passando por uma loja e vi um vestido jeans que é a minha cara... Só custa quinhentos reais. O Senhor compra?
          A irmã não aceitaria menos e completaria:
          — Se der a ela eu também quero!
          A recusa surgia instintivamente enquanto a meta não era superada. O que levava a aumentar a antipatia da companheira. 
          — Para cachaça não falta. Daqui estou sentindo o bafo. Mas, basta suas filhas lhe pedirem alguma coisa que você vem com essa ladainha... Garanto que se fosse para uma das putas que você costuma arranjar pela rua, você teria!
As discussões terminavam sempre com uma falsa dor de cabeça na companheira que adiava, por longos períodos, as pretensões sexuais de Teobaldo.
          Para ele o sono costumava ser difícil e intranquilo. As manhãs nunca tardavam a chegar. E mais e mais dias se repetiam, dias quase sempre iguais. Não... minto! O pior foi no último fim domingo. O cotidiano de despertar durante a madrugada e ter que esperar as filhas e a mulher arrumarem-se por intermináveis horas fora o de hábito.
          — Só gosto de praia longe. — Lembrou a companheira, como lembrava, repetidamente, todos os domingos.
          Sairiam de casa às 11 horas da manhã. O engarrafamento fora o comum de todos dias de folga. Após três horas tartarugadas, chegaram ao enfrentamento da busca pela vaga para estacionar. O guardador de carros o ameaçou, como costumeiramente o ameaçava, com uma papeleta cobrando cinco reais, a qual nunca se negara a pagar, mesmo sabendo que a mulher reclamaria:
          — Você é um idiota! Já não pagamos impostos? O governo... etc e tal.
Teobaldo repetiria a mesma resposta de sempre:
          — Se não pagar, ele arranha a pintura do carro, esvazia o pneu... Ou coisa mais que o valha.
          A areia quente, invariavelmente, invadia as sandálias de Teobaldo enquanto procurava por uma mesa numa barraca-de-praia onde beberia cervejas quentes e caras e comeria os mesmos minguados caranguejos.
          — Eu adoro caranguejo — Lembrava-o à cara metade.
         De repente, nesse domingo, Teobaldo foi atingido por um beliscão. Como sempre, dado ao passar uma jovem a quem ele nem notara.
          — Olhe lá! — disse-lhe a esposa — Suas filhas estão de frete com aqueles rapazes. Vá lá, vai!!! Vá lá!
          Teobaldo olhou o mar. O sol cintilava sobre a imensa massa d’água. — "O mar... minha saída é o mar...” — Pensou com nunca ousara pensar antes. Então ele andou até o mar e entrou na água com as sandálias e tudo. Nadou até atravessar a rebentação e continuou nadando, nadando, e nadou, nadou, nadou sempre na mesma direção. Parecia querer atravessar o oceano...

O
          
Sem problemas. O corpo fora encontrado pouco tempo mais tarde. As filhas choraram algumas lágrimas e saíram com os jovens, os da praia, para queimarem um fuminho tranquilizador. A esposa foi serenada pelo advogado/amante durante o velório:
          — Ele tinha um polpudo seguro de vida, o apartamento fica quitado automaticamente e a pensão mensal é garantida. Além do mais, ele tinha uma boa remuneração. E não vai ser atingida pela reforma previdenciária. A vida continua, querida.

  
           

                         

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