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Um Velho num Shopping





Fim de tarde. Início de outono, sentado num banco duro em um shopping de Salvador, esperando o shop negro. Dizem fazer bem para o sangue e é ótimo para mães que amamentam. De tanto ouvi falar sobre o tal shop resolvi experimentá-lo. Costumava ser avesso a novas experiências quando jovem, mas já que estou de saída, e seja lá para onde eu for, alguma alma pode me perguntar se eu já provei do shop preto, e caso eu diga que não, teria que ouvir dos outros fantasmas um discurso sobre o saboroso paladar do shop preto.
O garçom pôs o drink na mesa, dei um gole. Era muito adocicado. O engoli fazendo careta. Pedi ao garçom outro shop, desta vez o convencional, sem preferência de marca, mas bem tirado, com colarinho de quatro dedos e não muito gelado apesar do calor que fazia. Shop muito gelado perde o sabor.
 Divagava, enquanto bebia o shop preto, sobre iguarias que nunca provei. Ouvi o burburinho das vozes misturadas no entorno, foi quando vi a mocinha que caminhava nervosa à procura de uma mesa para se sentar. Deveria ter entre treze ou quatorze anos, não mais. Os seios apenas brotavam. Notei que escondia um choro sentido, de revolta. Suas mãos tremiam ao tentar, ainda em pé, discar no aparelho celular. Procurei observar ao redor para descobrir algo que a estivesse incomodando. Nada notei além da zoeira comum de uma sexta-feira num shopping. Duas jovens, que estavam sentadas a mesa ao lado, se levantaram de mãos dadas e se beijaram. Um casal de namoradas que partiu. Pensei, coisa da moda, nada que me afetasse o humor. Já estou me acostumando com essa novíssima geração e sua sexualidade pós-moderna. Ambas eram belas mulheres, cheguei a imaginá-las na ginástica frenética, na cama, das duas trocando carícias e segurando algum objeto fálico nas mãos. — Lembrei que em certa oportunidade usara uma calabresa, das que se põe no feijão, devidamente encapada por uma Camisa de Vênus, para saciar desejos libidinosos de uma namorada atrevida, que mencionara só gostar de falos avantajados. — Desperdício essas moças lésbicas, ponderei solitário. Que seja! — A menina-moça arrastou a cadeira da mesa onde as sapatas estavam e se sentou. Pensei em perguntar o que a afligia, mas retroagi na intenção. Hoje já não se sabe o que se pode imaginar se eu, um sessentão, puxar assunto com uma adolescente. Tal atitude pode ser mal interpretada. Arrazoei comigo mesmo que poderiam me imaginar um pedófilo e, até explicar que urubu não é meu louro, apanharia feito mala velha.
O garçom se aproximou, colocou o shop claro sobre minha mesa, perguntou se poderia levar o outro copo com shop ainda cheio. Eu disse sim. Ele, bem humorado, brincou: “não gostou do afrodescendente” — referindo-se ao shop —. Eu fui rir e me engasguei e, ao me engasgar, o garçom deu de leve um tapa em minhas costas, tossi e minha dentadura despencou e saltitante foi quicando até os pés da menina. Ela engolindo o choro pegou a perereca com um guardanapo de papel, demonstrando nojo da prótese, e, após me olhar com provável sentimento de pena, esticou a mão com a dentadura acompanhada de um “— toma, vovô”. O garçom, com gentileza, pegou a dentadura da mão da menina e a levou para lavar. Sentindo-me humilhado pelo vazio na boca, bebi o novo shop de um só gole, enquanto meditava sobre ir embora. O garçom retornou com a dentadura envolta num guardanapo de pano já trazendo o cardápio e outro shop convencional. Recoloquei a dentadura e mudei a ideia de ir-me embora... Ficaria ali. Experimentaria qualquer outro petisco que nunca antes ousara fazer. Olhei o cardápio atentamente, e não havia nele nada que eu já não houvesse experimentado. Rememorei todos os anos de trabalho duro, centavo por centavo economizado e agora, não deslumbrava nada a me satisfazer que o dinheiro que eu juntara ao longo do tempo de vida trocado por moedas pudesse comprar.
Senti um vazio de oportunidades e retornei o olhar para menina que voltou a choramingar. Dei um gole no novo shop. Tomei coragem e perguntei a mocinha qual o problema. Ela disse “nada, Senhor. Nada que o Senhor possa ajudar”. Perguntei se ela queria um refrigerante. Ela disse:
—  “Vou pedir, mas não se incomode que eu tenho o dinheiro para pagar”. Estou esperando minha mãe que ficou de me encontrar aqui.
Novamente reconjecturei que não deveria me envolver e voltei para refletir sobre meu próprio mundo triste, solitário e pequeno. Mundo que o temor da vida me encarcerara. Busquei no fundo da alma recursos de coragem e levantei o braço chamando com gestos o garçom. Ele serviu alguns jovens barulhentos e veio por entre às mesas, com os dentes brancos a mostra, contrastando com a negra cor da pele.
“— Pois não, meu tio, quer algo para beliscar”, perguntou-me solícito.
Olhei por sobre a mureta de madeira e notei uma delicatessen que vendia importados. Perguntei a ele, ao garçom, se ele queria ganhar uma gorda gorjeta. Ele me olhou estranho e eu antecipei alguma maldade que pudesse imaginar e fui esclarecendo logo;
“— Quero comer caviar e só deve vender naquela loja de importados”.
E apontei o local da delicatessen. Ele disse “um minuto se o gerente permitir eu vou lá”. Não demorou. Ele retorna e me avisa:
“— Vou lá ver quanto é”, e saiu.
A menina ao lado se levantou, foi ao balcão e retornou com um copo de coca-cola e um enorme pastel e já acomodada novamente mordiscou a merenda. Uma senhora aparentando trinta anos, um pouco mais ou um pouco menos, veio ao encontro da menina que praticamente já engolira o petisco. “— Demorei, filha? Está foda para estacionar”. — Disse a senhora mãe da menina sem pudor. E de logo percebeu que ela havia chorado. Sem pedir licença, puxou uma das cadeiras da mesa que eu ocupava e já se sentou perguntando: — “O que foi que houve?”
A menina respondeu ,
— “Nada mãe...”
A mãe insistiu:
— “Vá! Me diga logo o que aconteceu...”
 A menina ainda pensava quando a mãe, elevando a voz disse;
 — “Porra! Conta logo! Deixa de ser fresca”.
 Ao ver a mãe já descontrolada a menina voltou a chorar... Até eu me abalei com o destempero da mulher que me olhava desconfiada. Segurei logo a minha bengala e a puxei para perto antecipando alguma reação da balzaquiana contra minha pessoa, quando a menina falou com foz em falsete.
—  “Marcelo, aquele menino lourinho de minha sala, espalhou na escola que ele tinha me comido...”
A mãe perguntou atônica;
—  “Mas você não me disse que ainda era virgem?”
A menina falando entre choro e soluço disse:
— “Eu sou virgem, minha mãe... Ele está inventando...” e voltou a soluçar.
A mãe se levantou e andando de um lado para outro começou a resmungar...
— “Deixa seu pai chegar que nós vamos ‘na casa’ daquele moleque tirar isso a limpo... Quero ‘ver ele’ dizer isso na frente se seu pai... Mas se for verdade, Ana Claudia, você vai se ver comigo... Ah se vai... é bom que seja mentira dele...”
A menina, ainda em soluços, disse:
 — “É por isso que eu não queria lhe contar... eu não fiz nada, maínha. Eu juro!”
A mãe deu conta que estava sendo observada pelas pessoas ao redor e se sentou. Depois passou a sacudi uma das pernas impulsivamente... e resmungando baixinho pegou o refrigerante da menina e deu seguidos goles. Até que, de surpresa, ordenou:
— “Pare de chorar, Ana Claudia, você já está chamando atenção...”
O garçom retornou da delicatessen e disse, constrangido, próximo ao meu ouvido:
— “É caro pra burro, senhor... dois mil e oitocentos contos uma latinha de duzentos gramas...”
Eu respondi
— “Não faz mal. Pode comprar”.  
Puxei o talão de cheques, preenchi o valor e entreguei ao garçom. O garçom retornou a delicatessen levando o cheque, meu cartão e a minha identidade. Pensei comigo mesmo, “quando chegar ao céu ou ao inferno poderei dizer do caviar, do shop preto e das delicias da vida...” Fui interrompido de meus pensamentos pela chegada do pai da menina chorosa, que malmente se sentara e já recebeu a intimação da mãe da menina;
— “Um tal de Marcelo, espalhou na escola, que comeu sua filha! Vamos lá na casa dele agora para tirar isso a limpo”.
O pai da menina chorosa, me pareceu um coroa simpático, via-se muito educado e, após ouvir a esposa, pediu calma e deu um beijo na testa da menina chorosa e sentou-se ao lado dela. Calmamente perguntou...
— “O que houve, princesa?”
A mãe tentou interromper, mas com um gesto, feito com uma das mãos, ele a calou. Então falou com voz pausada dirigindo-se a menina que se acalmara frente à presença do pai.
—  “O que foi filhinha, pode falar. Não se amedronte”.
A menina, já controlada, falou ao ouvido do pai. Ele sorriu e disse;
—  “Bobagem, filhinha”.
O pai olhou para mãe gesticulando como se perguntasse se ela pirara, então se levantou e ao levantar se esbarrou levemente em mim. Pediu-me desculpa e perguntou se o shop estava bom. Eu disse que sim. Ele pousou a mão em meu ombro e pediu a outro garçom que trouxesse um shop igual ao meu. Falou a mãe que viera de taxi e que o engarrafamento estava um verdadeiro inferno, praguejou do prefeito e do fato de gato e cachorro hoje poder ter caro. Mulher e filha esperavam uma decisão sobre o vexame moral que a menina sofrera. Ele olhou para filha e disse;
— “Não dê importância, filha. Isso é coisa de auto-afirmação do rapaz, seu colega, que quer se mostrar homem”.
A mãe insistiu que ele deveria ir à casa do garoto para tirar satisfação. O pai, sem demonstrar interesse no que a mãe falava, olhou a filha de maneira meiga e disse.
—  “Você quer mesmo tirar satisfação dele, filha?”
Ela ficou calada sem saber o que responder. A mãe disse sim. Ele se voltou para mim e dizendo que eu lhe lembrava o pai dele me perguntou: o que o senhor faria? Eu ponderei um pouco, me aproximei de seu ouvido e disse em segredo.
— Manda sua filha dizer que foi verdade. Que o garoto tentou desvirginá-la, porém que o pau dele era tão pequeno que ela continuava virgem. Ele ficará desmoralizado e nunca mais inventará inverdades sobre a filha de ninguém.
O coroa, após uma gargalhada, disse-me:
—  “o senhor é mau... muito mau.. coitado do garoto, se ela fizer isso o rapaz passará a vida fazendo análise e, ainda por cima, virará chacota na mão dos colegas. É capaz de se traumatizar para sempre... Não. Na segunda-feira irei à escola e o chamarei a diretoria. Lá darei um susto nele. Direi que ele terá que assumir o fato e se casar com minha filha...”
 Eu o interrompi. Disse;
—  “também funcionará. Diga-lhe que ela está grávida e que ele terá que assumir o filho.”
E sorri ao imaginar a cena e a fisionomia do rapaz mentiroso. Não demorou ao garçom chegar com a vasilha do caviar. Eu convidei a família e o garçom para provarem da iguaria, eu mesmo só experimentei uma colherinha de plástico e, confesso, não achei nada de excepcional. As ovas do esturjão têm gosto assemelhado à ostra, um pouco mais salgadinha, só que findando o paladar há um leve sabor de ovo. Deixei o casal e a filha no shopping, deixei também a lata de caviar ainda com alguns gramas sobre a mesa. Fui para casa pensando em mandar importar da Itália a tal da trufa branca. Ainda quero experimentá-la mesmo após o decepcionante caviar. Assim, quando chegar ao céu ou ao inferno, sabe Deus, poder tirar onda com a maioria dos fantasmas que imaginam ser a trufa apenas uma sobremesa de chocolate.


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