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Uma separação nada divertida. (Nicodemos)


Meu nome é Nicolau Demogenes dos Reis. Os amigos me chamam pelo apelido  de Nicodemos. O que vou contar aconteceu quando retornava da Sexta Vara de Família, pois, havia acabado de assinar minha separação judicial.
Não sei porque, mas resolvi tomar o maior porre de minha vida. Então, parei em um boteco próximo a minha residência e bebi todas as cervejas que tinha direito.  Saí do bar completamente bêbado, tentando a todo o custo conter uma inimaginável vontade de urinar. Como não conseguia encaixar a chave para abrir a porta do carro, larguei-o na porta do boteco e caminhei, pé ante pé, até o condomínio onde moro, segurando a todo o custo o mijo. O que me ocasionou uma dor infernal na bexiga, afora o desconforto da tontura peculiar aos bêbados.
A muito custo, consegui abrir o portão que dá acesso ao edifício e continuei andando, devagar, até chegar aos primeiros degraus da escada de aceso. Quando parei para tomar fôlego e subir os degraus, a dor no baixo ventre triplicou levando-me a sentar. Senti um violento mal-estar. Tudo começou a girar e fui dar de cara com um velho barbudo que me perguntou com sua voz retumbante e de timbre grave:
— Filho! Não nos reconheceis?
— Pais, sois Vós? Minhas vistas estão embaçadas...
— Somos, filho... — Ab initio o enviamos para esse exílio. E viemos saber se mudaste seu comportamento, se conseguiste vencer sua rebeldia.
— Sim, Pais . Mudei muito. Quando Vós me exilastes neste insignificante planeta revoltei-me. Agora, porém, estou feliz por viver aqui. Os seres que pusestes para dominar este planetóide são maravilhosamente desvairados. Eles poluem as águas que bebem, derrubam às arvores que purificam o ar, além  de envenenarem  seus próprios alimentos. E agora, estão brincando com o cerne da vida... Eles  se matam por motivos fúteis. Destroem Vossas obras. Alguns, impõem guerras por puro lucro ou pela diferença na maneira que O louvam. Outros, pela ilusão do poder. E os demais assistem impassíveis à fome, à miséria,  ao extermínio crianças pela fome e pela violência. No entanto, acreditem, Pais! Eles choram e se sensibilizam ao assistirem meros filmes de ficção. Desejam a morte de quem lhes rouba um pão, mas, escolhem sempre aos mesmos governantes corruptos, dando-lhes  poder, para que lhes roubem bilhões. Por certo, levarei mais trilhares de anos para entendê-los. Mesmo assim, Pais. Eu os amo...
— Do que mais se encantaste entre minhas obras, filho?
— Da alma feminina, Pais! Quero entender a insanidade dos sentimentos femininos. Sentimentos esses, que superam a todas as lógicas.
— Você está aqui ab ovo. Seduziu Eva. E até hoje não compreende como são as mulheres, filho?  
— Conheci bilhares de mulheres, Pais.  Mas, compreendê-las? Não... Não fui capaz. Quando Vós criastes às mulheres para serem belas, misteriosas, sensuais e desejosas de amor e aventuras, imaginei que seriam os mais felizes dos seres. Logo que as vi aprendi a desejá-las. Porém, quanto mais mulheres conhecia. Menos às compreendia. No princípio, o que me atraia nelas era a beleza e formosura. Eu desejava a todas, de preferência, as mais belas. Acreditava que fazendo uso do meu poder de sedução e da minha capacidade em saciá-las sexualmente, deixá-las-ia totalmente felizes. Deliciava-me a cada centímetro de pele, a cada som de gozo, a cada lágrima derramada de prazer e cada suspiro de paixão. Mas, após o coito, só observava melancolia nos olhos delas. Com isso, penalizei-me e atendendo aos anseios delas tomei uma decisão. Optei por ter um amor ético ao invés de estético. Larguei de lado meu hedonismo para me casar.
— Conte-nos o que aconteceu, filho?
— Para que pudesse assumir este novo tipo de sentimento, deixei-me apaixonar por apenas uma delas... Pais!, do que estão rindo?
— De nada, Filho. Conclua sua história.
— Como estava a Vós contando, casei-me para atender ao que ela pedira. Jurei no altar em Vosso nome que de tudo faria para torná-la feliz. A princípio, julgava que meu ganho era suficiente. No entanto, em pouco tempo, sem que nada tivesse mudado, o que eu embolsava passou a ser considerado por ela como muito pouco. Meu desempenho sexual, que antes ela maravilhava-se, tornou-se um: "dá pro gasto". Nosso lar que no início ela chamava de ninho, transformara-se em um “apertamentinho”. Eu não era mais seu homem, era apenas um marido. Ela vivia reclamando. Então, quis saber o que lhe faltava para ser feliz. Ela respondeu-me assim:
            — “Você é um acomodado! Só quer me usar! Olhe! Veja às minhas roupas!? Todas surradas. Não tenho sequer um colar para combinar com meus novos brincos. Você nunca me trouxe um buquê de flores.  Você é pão-duro...”
— Daí, Pais. Mudei de emprego e passei a trabalhar dobrado. Tudo o que ela pedia e o que não pedia eu lhe comprava. Mesmo assim, a danada continuava choramingando. Continuava a se lamuriar. E novamente lhe perguntei:
— Diga-me, mulher? O que a torna tão infeliz? E ela me disse:
— “Tenho lindos vestidos, maravilhosas jóias, mas você não me leva a lugar nenhum. De que adianta possuir tantas roupas, tantas jóias, se você, quando chega do trabalho, senta a bunda nesse sofá e fica assistindo à televisão. No entanto, na hora de dormir, você nunca está cansado para querer me usar. Você me trata como uma prostituta”.
— Então pensei, Pais — É. Ela tem razão. Hei de conseguir contentá-la. Daí por diante, mesmo após um dia de trabalho fatigante, arrumava-me e saíamos. E isso acontecia quase todas as noites. Nos fins de semana, quase sempre, viajávamos. Mas ela continuava a resmungar. Era sempre o mesmo mal-humor. Então, mais uma vez questionei-a:
    Por que se lamenta tanto, mulher? Do que realmente careces?
Ela, olhando em meus olhos, respondeu-me:
“— Sou para você como um objeto que se pode comprar para ser mostrada com um bibelô. Quando saímos, seus ciúmes me impedem de fazer amigos. Sou para você apenas um objeto. Quer saber mesmo o que desejo? Desejo liberdade!”
— Pais,  esta foi difícil de cumprir. Quando me falou aquilo, cheguei a sentir um calor na testa. Mas, se era a liberdade que finalmente traria felicidade para ela, então, concordei. Dei, também, a liberdade pedida. Empreguei-a com salário equivalente ao meu. E dei toda liberdade que poderia dar. Contudo, liberdade dela era um tanto desigual. O dinheiro que ela ganhava servia apenas para gastar com futilidades, e a  liberdade exigida, era para arranjar amantes. Soube através de amigos comuns, que a “distinta” trepava mais que chuchu-em-cerca. Quase não sobrava um pouquinho para mim. Mesmo assim, mesmo tendo atendido a tudo que pedira, mesmo me chifrando a torto e a direito, a mulher vivia reclamando da sorte. Perguntei-lhe novamente o que faltava. Ela me respondeu em prantos:
“— Você não sente nada por mim! Você é um corno conformado! Nem ciúmes de mim você sente mais! Você me sufoca... Vive me enchendo de flores e presentes. Eu nem penso numa coisa e você já compra. Você é um CHATO! Vê se encontra uma amante e larga de meu pé. Seja um homem seu bosta!".
— E assim fiz, Pais. Olhei-me no espelho cuidadosamente. A única diferença que notei em mim, foi este par de chifres na testa e esta cor avermelhada de vergonha. No mais, eu era o mesmo. Então partir para novas conquistas, o que não foi difícil. Para as outras mulheres eu continuava sendo um sedutor. Voltei a ser como fora antes. Tinha novamente várias parceiras e todas me elogiavam. Acreditei finalmente que conseguira fazê-la feliz. — Mas não foi bem isso que aconteceu. Ela continuava a de sempre. Um dia, quando eu retornava do trabalho, ela me chamou, olhou para mim com muita raiva e disse-me:
“— Você é "um galinha"! Um descarado! Roubou os melhores anos de minha vida. EU ODEIO VOCÊ ! VOU PROCURAR UM ADVOGADO !” ... Entendeu, Pais?
— Filho. Vamos lhe ensinar como deves tratar as fêmeas...
Foi então que dona Cremilda me acordou.
— Acorda seu Nicolau! O senhor dormindo na escada todo mijado! Levante-se seu Nicolau... O que é que os vizinhos vão pensar!? Vem... Eu ajudo o senhor. Vem tomar um banho. Eu ajudo a subir...


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