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Urbana - Ação de divorcio



 — Sou uma covarde!, Meritíssimo. Uma verdadeira covarde! Não! Não é a morte o que temo. Não é assalto, bala perdida (ou achada). Não me mete medo os planos econômicos os furacões ou terremotos... Temo o rural. Odeio mato... mosquitos, percevejos... de vespas então!, tenho verdadeiro horror. Tenho fobia de tudo que me lembre da natureza. Até as flores nos vasos de meu apartamento são de plástico. Não consigo entender como alguém consegue gostar de cheiro de bosta de vaca ou ficar feliz por ouvir grilos, coaxar de sapos, e, em sã consciência, admirar a outros sons que não sejam rítmicos e melódicos. Quando muito, um pássaro. Desde que gravado e reproduzido em aparelho de som. O senhor sabe, meritíssimo! Gravador não defeca... É! Sou medrosa. Detesto banho de rio. De mar, ainda vai, mas de rio? Nunca! Só se cimentarem e azulejarem o curso e margens do dito e, mesmo assim, na certeza de não haverem cobras, protozoários e peixes. Ouvi dizer, que existe um certo peixinho que entra pelo canal urinário e expõe os espinhos*. Só em imaginar a dor, desmaio. Odeio cobras, lagartas, lagartos e todos os bichos. Já não basta as baratas que me obrigam a dedetizar meu apartamento duas vezes ao ano?!  Aí, vem meu marido e compra aquela fruta chamada araçá, goiaba, sabe-se lá o nome correto! E ele mordendo aquela coisa, diz-me ser maravilhosa. Eu experimentei...  Ah!, senhor juiz! Tinha uma larva vivinha, vivinha, senhor juiz! Não dá mais! Basta-me olhá-lo que sinto engulho. Com esse filho-duma-vaca eu não fico. E que Deus se apiede dos rurais.
Logo após relatar seu infortúnio, Márcia vomitou sobre a mesa do magistrado, que lhe concedeu, de imediato, a separação litigiosa.              





*Candiru: Peixe comum da bacia amazônica.  (Reza a crença popular, que o candiru penetra na uretra das pessoas que estão se banhando nos rios e expões espinhos para suga-lhes o sangue.).




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