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Mostrando postagens de Fevereiro, 2017

Sangue e Tempo - Ariovaldo Matos

“Je vous parle des morts qui sont morts sans printemps” P. Elaurd
         Ele entrou, pôs a ficha da consulta sobre a mesa e fez a pergunta: — Posso explicar, doutor?          Respondi sem interesse: — Sim, explique.          Ofereci-lhe um cigarro, ele recusou; — Obrigado. Prefiro os meus. São mais fortes.          O isqueiro era niquelado, boa marca, pequeno entre os dedos longos, manchados de nicotina. Tragou e soltou a fumaça lentamente. Depois sorrindo para os frascos arrumados  no armário, comentou: — Água com açúcar esses remédios.          Admiti, tolerante: — Alguns, com efeito.          Ele não estava preocupado em discutir. Preferiu levantar-se, andar como se fizesse uma inspeção. Em seguida, correu os olhos pela sala e os alongou para o começo da noite que se fazia na rua. Eu me contive naquele silêncio, descobrindo, em mim mesmo, um pouco de curiosidade profissional. Interessante a tranqüilidade dos seus gostos, a autoridade com que os revestia.          Trajava-se com apuro. O p…

O eterno masculino.

Alguns homens, por ater-se a beleza dos atributos físicos femininos, se ferram ou são ferrados devido à distração provocava por ela. Ao pensar nisso, veio-me à memória um acontecimento similar.  Costumava ir na juventude à praia observar, com batimentos cardíacos acelerados, a regada das meninas de biquíni que frequentavam a praia Salva Vidas, Pituba, praia de Salvador - Bahia. O que não imaginava, na época, é que em outras praias a moda já era mais avançada. Lembro que dirigia “Gabriela”, (Gabriela era uma Brasília amarronzada que Ari, meu pai, emprestava-me para ir ao trabalho, mas isso é outra história)... Como contava, eu seguia tranquilamente dirigindo Gabriela quando, ao passar na curva de quem vai em direção a Barra, pouco antes do antigo Cine Rio Vermelho, Mariquita. Eu a vi, despudoradamente nua, uma bunda que me entorpeceu por átimos de segundos, e, de repente, me percebi já sobre o meio-fio desviando do muro e freando o carro para evitar a trágica  batida. Sorte não haver pe…

Por Favor Não Me Ame Não, Gostar até pode.

Por favor, não me ame não, (gostar até pode). É muita responsabilidade para minhas costas estreitas. Se há uma sentença que me mete medo é esta: “eu te amo”. É verdade! Eu iria escrever: “se há uma ‘frase’ que me mete medo”, contudo, preferi usar o termo ‘sentença’. Porque é uma sentença, um castigo, é uma chaga ser amado por alguém.
Quando alguém diz que me ama, na grande maioria das vezes, eu me sinto obrigado a retribuir, a ter que arranjar tempo para quem me estigmatizou como um ente amado. Passo a ter obrigação de ser como a pessoa imaginou que eu seja. Passo a ter que ter empenho de corresponder às expectativas criadas por elas, (as que imaginam que me amam). E, como cada uma delas cria expectativas diferentes, quando somadas, estas expectativas se tornam tanto maior quanto o número de pessoas que me amam e por via de consequência maior é a cruz a ser carregada neste calvário. A primeira coisa que a pessoa que passa a me amar é exigir que eu também a ame, e por amá-la, busque ter…

Mongka - Ariovaldo Matos -

Certa vez, como contamos nas Alagoas, um grileiro parou diante de pedaço de rua e perguntou: “É o senhor o famoso Mongka, matador? Respondeu: “Mongka foi como meu pai me apelidou, mas não sou matador. Sou justiceiro. Só mato, quem morte mereça segundo os ensinamentos do meu pai e os do meu padrasto, sargento Eulábio. E se afaste o senhor ou lhe garruncho na cara”, sendo que, como se conta nas esquinas de Maceió, o grileiro “deu no pé”, abandonando a prática da grilagem para tornar-se pacífico comerciante de secos e molhados... Isso chegou ao nosso conhecimento, arquivista do “Diário de Brasília” e passamos o informe, como do nosso dever, à chefia da redação. Semana e pouco depois, Nádia, repórter muito vivaz, apareceu-nos com uma gravação e disse: -- É a voz de Mongka e há pedaços da história dele. Voz cheia. Ouvimos: “Comecei a gostar de matar perversos e injustos quando eliminei meu padrasto, um sádico. Era forte o bicho, mulato como mamãe, ela porém de cabelos sedosos, mulher de cate…

Rubem Braga e o STF

Havia um passarinho e um Conde, aconteceu, se bem me lembro da crônica de Rubem Braga. O Conde não era apenas um Conde, era o Conde Matarazzo. Tinha também um passarinho. O Conde Matarazzo era um velho conde que tinha muitas fábricas e também muitas honras. E segundo Rubem, o conde gostava de exibir à lapela, amarrada a uma fitinha, uma condecoração. Rubem confessa que ele tinha predileção pelo passarinho e pelo simples motivo. O passarinho cantava e voava. O Conde não sabia cantar. O canto do Conde eram os apitos de usinas barulhentas de fábricas espalhadas pelo Brasil. Eram as vozes dos seus operários de carne que trabalham para o Conde. O Conde cantava com o dinheiro que entrava e sai de seus cofres. O Conde só era conde porque era rico. Sim, como Rubem, eu tenho preferência pelo passarinho. Hoje leio, assim como leu Rubem num Jornal sobre o Conde, que o Supremo Tribunal Federal julgou o passarinho de Rubem que roubou a fitinha com a medalhinha do Conde. Bem, não foi bem o passarin…

Porque todos são diferentes, mesmo iguais.

Daqui de cima vejo todos como se fossem formigas, não dá para distinguir as formigas gordas das magras, as feias das bonitas, as altas das baixas, as machos das fêmeas, porém, porque vivi lá embaixo, sei que eles imaginam estas diferenças. Mas a criança divina que dorme no quarto ao lado e nunca esteve entre os homens vê e sabe que não há qualquer diferença entre os pontos que circulam lentos ou apressados. E se eu lhe contar que agora, neste exato instante, alguém que se acredita diferente está num bar bebendo e rezando por ele para que sua vida mude, ele, com todo seu poder divino, não poderá ajudá-lo porque ele, simplesmente, não vê as diferenças. Para ele o graduado doutor e o esmolé que desistiu da luta são iguais à mulher grávida ou ao financista inescrupuloso. Para ele o assassino sanguinário e frio ou o homem de bom coração são exatamente iguais... Não há diferenças.           — Então, senhor. Por que não o leva até lá para que ele veja as diferenças? — Perguntei. A…

Epitáfio -

Dei o máximo de mim aos que amei quando eram vivos. Sinto se ofendo pela frieza. Não sofro por defunto.
Mas respeito o sofrimento alheio.

Epitáfio

( Redigir em lápide de mármore negro, com
3 m. atura x 1,5 m de largura x 0,5 m espessura.
Letras em dourado: Benquiate Bk Bt )
Quando eu me for, só quero deixar esquecimento, nenhuma lágrima, exceto, as de prazer. Quando for, quero sair à francesa, pois vim do pó das estrelas, para lá irei voltar. Quando de minha ida também não quero "...nem choro, nem velas ". Dispenso até a fita, seja ela de qualquer cor. Dispenso também as flores. (Elas são belas quando vivas, não as matem por mim. Mesmo que isso acarrete prejuízo ao florista e ao floricultor). Se meu cheiro incomodar é só vaporizarem um pouco de "Bom Ar". Quando me for, não quero maquiagens. Quero ir com esta cara descarada que Deus me deu. E diga-se de passagem fiz bom uso dela. Dos amigos sinceros, a eles pedirei que dia vinte e cinco de fevereiro, em ano bissexto,…

Onde ela anda ultimamente?

Ultimamente tenho tido divergências com ela. Ela anda muito desleixada comigo. Mesmos os amigos desejando, todos os dias, que reatemos nossa relação de bem viver, ela só comparece em rápidas ocasiões. Na verdade, ela sempre foi assim e seria muita mentira minha dizer, como vejo muitos dizendo, que o relacionamento com ela é perfeito. Ontem mesmo, acordei de madrugada, procurei-a e nada. Ela simplesmente havia sumido. Vi-me solitário, as cervejas da geladeira escassearam, os petiscos que havia comprado azedaram e o filme que estava passando era chato. Na infância ela morava comigo, apesar de todas as intempéries na vida ela continuava ao meu lado. Creio que minha primeira briga com ela ocorreu na adolescência, eu me apaixonara, e por ciúmes, ela desapareceu por todo esse período. Mas, acabada a paixão, ela foi retornando aos poucos e mesmo tendo que trabalhar e estudar na maior parte do dia ela estava junto a mim. Acompanhava-me quando ia jogar bol…