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Cartas de Bochum. - Ariovaldo Matos

          

         Na alegre rua da minha adolescência havia um espanhol que escrevia cartas para a cidade alemã de Bochum. De acordo com as informações do carteiro Demóstenes, o espanhol recebia respostas igualmente freqüentes. Eram cartas longas, em bojudos envelopes. Nos selos coloridos aparecia a efígie de Adolf Hitler.
         — Letra de mulher? — perguntava D. Amanda, esposa do sr. Marcionílio.
         Demóstenes movia a cabeça, de modo afirmativo.
         Era gordo, velho e estranho aquele espanhol. Recusava-se, em geral, a receber vizinhos, tratando-os a distância. O sr. Pepe, seu patrício, fora visitá-lo uma vez e apenas por respeito à idade não o esbofeteara logo nas primeiras frases do rapidíssimo dialogo mantido. O gordo espanhol negara ao patrício, dono do pequeno armazém de nossa rua, as poucas gramas de amizade solicitadas com o gesto da visita.
         — É da Galícia, o senhor? — ele perguntou a Pepe.
         — Sim, sou da Galícia. O senhor é basco?
         — De fato, eu sou basco e lamento que o senhor seja um galego. Mais ainda: espero que o senhor seja uma exceção.
         — Não entendo, senhor...
         — Penso que todo galego é mesquinho. Os galegos nos envergonham Repito: espero que o senhor seja uma exceção.
         O sr. Pepe deu-lhe as costas e não voltou a procurá-lo, certamente sem pesar do velho que se queria sozinho, isolado, entregue aos seus hábitos.
         Sua casa era a melhor da rua, a mais ampla. Possuía, de frente, um jardim, e, nos fundos, o quintal alongava-se em ribanceira que alcançava as margens lodacentas do Dique. Naquela área, sabia-se, o velho inspecionava suas árvores frutíferas, cuidava do galinheiro e do pombal (ele adorava pombos assados, aos domingos), protegendo-os de possíveis ladrões mediante o emprego de cães ferozes. No entanto, era no jardim, onde os cães nunca chegavam, que o velho permanecia grande parte do seu tempo, à sombra de uma mangueira de muitas flores e bom cheiro. Sentava-se na cadeira de lona ajustável, trazia livros — grossos volumes encadernados — e lia-os, horas seguidas. De noite armava o gramofone de corda e, quase envolvido pela escuridão, ficava a ouvir músicas violentas, temas de sua Espanha.
         Agora que rememoro a cena dou-me conta de que havia, ali, uma contradição, em termos que há anos eu imaginava mas não sabia como dizê-lo, de que maneira formulá-la. O velho, na cadeira de lona, espreguiçava-se  dolentemente ou permanecia imóvel, mas aquelas músicas induziam-me a supor que, de repente, impelido por forças misteriosas, ele, de um salto, mandaria toda a tranqüilidade às favas o com olés enérgicos simularia sangrentas lutas, combatendo touros feitos de sombras. A música espanhola, e, ainda, as circunstâncias em que me punha a ouvi-la, mexia-me nos nervos, nos músculos, excitava-me a fantasia juvenil. Imaginava touros para enfrentar e vencer, mas a música, talvez desejando, com apelos à memória, reencontrar a música, a agulha do gramofone restava minutos seguidos a arranhar o espaço sem sulcos, ele dormia. Por volta das 11 horas da noite, o filho único, Baldomero, que dirigia a panificadora localizada na Baixa dos Sapateiros, regressava e o acordava, para que entrasse. Antes, o velho ainda na cadeira de lona, Baldomero sentado no batente, conversavam alguns minutos, nunca sorrindo.
         Falam de Bochum — eu pensava.
         Bochum, para mim, era um mistério e uma dificuldade. O mistério, devo confessá-lo, nunca foi solucionado e a dificuldade (mais do que uma simples dificuldade, quase uma tortura) consistia em que quando o espanhol e o filho conversavam sobre Bochum ou outra porcaria qualquer, eu ficava impelido de penetrar no jardim, pé ante pé, até alcançar, no fundo, o quarto escuro da negra Damiana, que me esperava nua.
Uma pausa, senhores, pausa como uma rosa, em homenagem à negra Damiana do Espírito Santo, que me esperava nua e gozava meus 14 anos, e ria com eles, tocando-me todo o corpo, permitindo-se toda percorrida, grande Damiana, negra, intrépida guerreira do amor, Damiana alta e forte que eu imaginava tão bela quanto Carmen Brown, afundando-me nas suas carnes, na sua alegria, ouvindo-a falar dos pombos que matava, aos sábados, para o espanhol devorá-los aos domingos. "Seis pombinhos" — ela dizia triste — "todos os sábados eu mato seis pombinhos". Era uma tristeza rápida porque logo recomeçávamos a batalha do amor, Damiana mexendo-se, fazendo exigências, e sinto vontade de escrever que depois de tudo, quando ela saltava da cama, não caminhava sobre o cimento frio, mas sobre astros, distraída... — o que seria mentira, grossa mentira, que nem eu, naquele tempo, sabia a letra da canção. E também porque, na verdade, o quarto era escuro, sempre escuro. A luz, ali, somente Damiana, seus dentes brancos, seu sexo quente, seu sorriso de fêmea negra e feliz.
A negra gostosa nunca soube explicar o mistério das cartas de Bochum. Nem tinha notícias de que o velho as recebia, mas disse-me que ele, com seus hábitos esquisitos (especialmente aquela maldade de comer pombos assados, aos domingos) poderia muito bem ser internado num hospício, e que o filho Baldomero terminaria maluco também. Um homenzarrão daqueles nunca a beliscara, nunca lhe soprara no cangote, e nem olhar, de jeito, olhava a negra Damiana, sua bunda lindíssima, os seios duros, empinados, o riso de pura inocência, alegria quase infantil na hora do gozo, repetindo-o, sempre a querer repeti-lo, negra insaciável, pedaço de saúde.
Logo que o pai e o filho Baldomero terminavam de tagarelar sobre Bochum ou outro mistério qualquer, eu os espionava pelas frestas da janela da sala de visitas de minha casa, Damiana esperava uns minutos, tempo feito de tranqüilidade e temor, e vinha abrir o portão correndo, depois para seu quarto sem luz, despindo-se e deitando-se para esperar-me às terças e quintas, porque nos outros dias, negra mentirosa, ela era de Tonho, e em outro, negra safada aquela Damiana, era de Alípio, mas só uma vez por semana.
         O meu segredo, na rua, só quem descobriu (Tonho e Alípio conheciam-no, claro, porque nós dividíamos o pitéu, falávamos dos pombos chorados por Damiana, tê-los-íamos libertados do pombal, não fossem os cachorros ferozes), só quem descobriu meu segredo foi D. Amanda, a esposa do sr. Marcionílio, fiscal de rendas ou do consumo, coisa assim, sujeito caladão e bondoso que ajudava Pepe a enriquecer, bebendo três ou quatro cervejas por dia nuns bate-papos demorados e provavelmente imbecis.
         D. Amanda, suarenta e de olhos vivos, disse-me uma manhã, quando eu ia, cedo para o colégio:
         — Eu vi, Guga, eu vi, mas não conto a ninguém...
         — O quê, D. Amanda?
         — Ontem, Guga, você no quintal do espanhol...
Fiz uma cara de espanto e ela insistiu:
         — Damiana, Guga, Damiana, eu vi...
         Ela me olhava gulosa, eu tinha 14 anos, era taludo. Fiz-me vermelho, sem jeito, descoberto, sem mistérios para a mulher gorda e suarenta.
         — Se aquiete, Guga. Eu vi mas não conto a ninguém.
         — Agradecido, D. Amanda.
         — Apareça, Guga, para tomar uns refrescos.
         — Sim, D. Amanda.
         Nossa desgraça foi a guerra, foi Hitler, aquele monstro de bigodes ridículos que aparecia, a cara de lado, nos selos das cartas de Bochum. A guerra apressou a morte do espanhol, facilitou a inominável traição da negra Damiana (quando xingamos, eu e Tonho, aquela negra suja!) mas como a bem em todo mal, a guerra, de modo indireto, libertou-me de obrigações não especificadas com D. Amanda, esposa do sr. Marcionílio.
Sim, foi a guerra que causou todos os transtornos.
Lembro-me do dia em que alguns oficiais do Exército, argüindo uma denúncia séria (aquelas cartas de Bochum, quem delas teria falado aos Militares?), cheios de zelo patriótico que reveste os defensores da integridade nacional, e, ainda, sob o suspense de toda a rua, vieram prender o espanhol, confiscando-lhe documentos, os livros, a correspondência, ocupando o sobrado com um destacamento sob o comando de um sargento mulato, falador à beça e mentiroso como nunca vi igual.
Foi uma prisão de duas semanas ou um pouco mais. Logo o espanhol encontrou-se solto e retornou aos seus hábitos — a leitura e a música no jardim, as inspeções cuidadosas, no quintal — mas a negra Damiana, ingrata negra, e aí está o pior da história, a negra apaixonou-se perdidamente pelo sargento mulato e deu-se a recebê-lo, noite após noite no quarto que fora nosso, meu de Tonho, de Alípio. Protegida pelo exército, ela ria-se de nós, acenava adeusinhos canalhas, uma esculhambação em negra. E nós sem direito a um pio. E eu em particular, sujeito aos olhares de D. Amanda, às suas pilhérias cretinas. Uma tarde ela me perguntou, provocativa:
         — Não é um rapagão, aquele sargento, Guga?
         — Parece, D. Amanda, parece...
         — E Damiana, Guga, como vai Damiana?
         — Bem, D. Amanda.
         Ela riu, mais gulosa do que nunca, sabendo que há dias eu não mais penetrava no jardim, onde se postavam alguns soldados, sob a lua e sob o sol, vigilantes à ordem do sargento mulato, que na rua ganhou o apelido de "Osvaldo Culhudeiro".
         Quando o espanhol voltou (dizia-se que ele fora libertado porque, antes, tivera o cuidado de queimar as cartas de Bochum) a negra Damiana, então simples putinha, partiu com o sargento. E nem me disse adeus, nem olhou.
         — Tá com vontade de chorar, Guga? — perguntou D. Amanda.
         Não lhe dei resposta. Preferi caminhar sem destino, no Beco da Agonia, na Saúde, toda a Baixa dos Sapateiros. De noite, já sem necessidade de espionar o espanhol pelas frestas da janela, já sem ânsia de ouvir os passos de Baldomero seguindo a ladeira, empurrando o portão, dei-me a pensar tolices. De repente, apossei-me de uma convicção inconsequente: o velho não escrevia mais para Bochum. Horas e horas fiquei a olhá-lo e a ouvir sua música, mas não me assaltava mais, como antes, a violência do ritmo. Meus nervos e meus músculos estavam distensos, quase sem vida, e teria de perder, depois, muitos meses para de novo adestrar-me com Damianas insulsas, sem risos no gozo, sem cheiro de fêmea pura, mulheres somente, coisas, eu as tinha como objeto de uso.
Da aventura com a negra Damiana ficou-me o hábito de reparar no velho espanhol. Continuava a ler, na sua cadeira de lona, esperando a morte, que, afinal, um dia chegou. Baldomero, o filho, numa noite de lua, ao voltar da padaria, chamou-o para acorda-lo, e chamou em vão. Estava morto o espanhol. Do rapaz não ouvi apenas os gritos...
         — Pai! — chamava — Pai!
         Mas vi os gestos de desespero porque naquele corpo derreado não havia mais resposta. Morreu dormindo.
         O enterro, no dia seguinte, liberou a casa, e não mais somente o jardim , à nossa curiosidade. Vimos a roça, a ribanceira que alcançava o Dique, as mangueiras de troncos protegidos e pintados de branco, os pombos, os cachorros presos, que latiam, sapotis apodrecendo no chão. Atrás, perto da varanda que dava acesso ao quintal, havia um monte de papéis queimados e, sem saber por que, eu disse a Tonho:
         — As cartas de Bochum.
         No quarto de Damiana, que pela primeira vez vimos sob a luz do dia, não restava sequer o cheiro da negra. Havia baratas, teias de aranha, um fedor de mofo, a morte também ali.
         A empregada que substituía Damiana. Jantou com D. Amanda, com o sr. Marcionílio. Era preciso esperar que Baldomero chegasse, o que não demorou muito.

         De pijama, ele reapareceu no jardim. Abriu a cadeira de lona, pôs discos no gramofone, cerrou os olhos, como a dormir. Demóstenes, o carteiro, sob nossa expectativa, chegou-se ao portão, chamando-o. Ele não abriu a carta, sobrescrita com letras de mulher. Não, não a abriu. Os gestos calmos, tranqüilos, recebeu o envelope, verificou o nome do destinatário, meditou um pouco, sem pressa. Depois acendeu um fósforo e queimou-a. Vimos como se consumiu no fogo aquela carta, a última de Bochum, que ficou sem resposta e manteve para nós, intacto, até hoje intacto, aquele mistério.

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