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Mongka - Ariovaldo Matos -



Certa vez, como contamos nas Alagoas, um grileiro parou diante de pedaço de rua e perguntou: “É o senhor o famoso Mongka, matador? Respondeu: “Mongka foi como meu pai me apelidou, mas não sou matador.
Sou justiceiro. Só mato, quem morte mereça segundo os ensinamentos do meu pai e os do meu padrasto, sargento Eulábio. E se afaste o senhor ou lhe garruncho na cara”, sendo que, como se conta nas esquinas de Maceió, o grileiro “deu no pé”, abandonando a prática da grilagem para tornar-se pacífico comerciante de secos e molhados... Isso chegou ao nosso conhecimento, arquivista do “Diário de Brasília” e passamos o informe, como do nosso dever, à chefia da redação. Semana e pouco depois, Nádia, repórter muito vivaz, apareceu-nos com uma gravação e disse:
-- É a voz de Mongka e há pedaços da história dele.
Voz cheia. Ouvimos: “Comecei a gostar de matar perversos e injustos quando eliminei meu padrasto, um sádico. Era forte o bicho, mulato como mamãe, ela porém de cabelos sedosos, mulher de categoria cabo-verde. Ele é mau. Me xingava de “japonês”, escarrava nos meus livros de inglês. E bebia muito, o demônio, bebia cachaça, mas não precisava de álcool para bater em minha mãe. Batia por gosto. Bem que o sargento Evilásio uma vez, no bilhar, me disse com intenção de recado: “Saiba sua mãe, menino, que Ezequiel não é sopa. E mostro, se ela quiser, o prontuário dele é um rosário de maldades”. Eu dei o recado a mamãe e ela disse “seja o que Deus quiser” e fomos rezar pela alma de papai diante das fotografias de uns santos
Voz de Nádia – Foi bom homem, boa pessoa, o pai do senhor? “Bom é apelido, moça. Foi alma pura, embora bebesse muito, jogasse muito. Foi de uma pensão de putas que tirou mamãe para uma vida honesta. Tirou, casou, nasci. Porém, é da minha estréia como justiceiro que quero falar. Mamãe e o tal Ezequiel, eu já vi vivente. Tudo flores, moça, no começo do acasalamento. Tudo desandou quando as taras coçaram as feridas do juízo dele, e então os espancamentos despropositados, posso jurar isso, alguns ciúmes contra o passado dela, o nome de papai a todo instante injuriado, sendo chamado de “viado”, de “corno” e piores coisas outras. Isso, como conto, sem tirar nem pôr. Rompeu, o bicho, todos os retratos de papai, todos os retratinhos dos santos, a doidice de querer matar passados, eu espiando tudo, eu escutando tudo, a ira da justiça se formando em mim, no espírito e nos tutanos.
“Uma noite, pisada por porradas, mamãe fugiu para o Cumbe, moça deve ir lá, ver. É um lugar muito bonito. Não há na nossa Maceió pedaço mais bonito, de águas tépidas e mansas.
Mamãe tinha uma irmã, tia caçula, que ali morava, ali perto e foi se agasalhar na casinha dela. Foi ali que soube do espancamento, a gota-d’água, como falou tia Caçula, a gota-d’água.
Andava eu nos meus 14 ou 15 anos. Lia apaixonadamente o que caía nas mãos”
Voz de Nádia – Dizem que o senhor lê em vários idiomas.
“Mentira, moça. Só leio em português e em inglês. Não me interrompa mais, moça, ou perco o fio da meada. Falava que lia apaixonadamente. É verdade. Lia e sonhava, nos meus 15 anos, e já era forte como um touro, sem as banhas de um lutador de sumo. Deixei mamãe ao lado de titia, as duas com pés e canelas metidos nas águas do Cumbe, e voltei para matar o padrasto Ezequiel, o qual, aliás, honra se lhe faça, não deu trabalheira maior.
Dormia o bicho, dormia sono de menino, sono ferrado, o de quem não teme. Por quê? Por não se achar culpado. Não se espanca mulheres a três-por-dois por aí?
“O bicho, ademais, havia deixado a porta aberta, como que no aguardo de mamãe: certeza de grande garanhão e, fisicamente, menos não era, porém um nanico no espírito, sem disso dar contas. No antigo lar chegando, nele abertos os horizontes doméstico, fui ao quarto-sanitário e logo achei a navalha herdada de papai. De imediato conferi as sutilezas do fio. Dando-me por satisfeito, passei a lâmina na garganta da besta, de carótida a carótida, manejando a arma com raiva, mas sem açodamento, impondo ao animal o susto da surpresa, do imprevisto. As mãos no pescoço, um pouco conseguindo diminuir as jorreiras de sangue, me olhou com aqueles olhos esbugalhados e me viu sorrindo o que mais consegui de riso japonês de caretas japonesas aprendidas em filmes”.
Voz de Nádia – O senhor seu pai era japonês?
“Não. Era inglês, marinheiro. Adie as perguntas para depois, por favor.
Caído o corpo do perverso Ezequiel, disse-me: “Seja o que a lei determinar”, já que Deus, como ensinava papai, não se envolve com coisas miúdas. E saí à madrugada das ruas do bairro, em busca do Distrito Policial do Farl, outro bonito pedaço da nossa Maceió. Que a moça verifique e fotografe.
Alegre madrugada foi aquela na qual contei ao sargento Evilásio tudo de tudo, sem mentiras. Ele falou: “Me leva lá, para eu ver como você fez o serviço, e nem mais uma palavra aqui ou no caminho. Bico fechado, menino, não importa quem apareça”. Fomos. Viu o serviço e o aprovou. “Manobra perfeita numa garganta de pústula”, disse com militar nodo de expressão. E acrescentou: “Mocinho, não vá se vangloriar por aí”. Porque, como as provas mostram, que deveras matou, esse maldoso Ezequiel foi um tarado qualquer, desses que andam por aí e sempre se aproveitam de portas abertas nas caladas das noites, esses filhos do cão. Em a hora do crime você estava com sua mãe e sua titia no Cumbe, conforme uma testemunha dirá, testemunha que vou providenciar, pessoa honrada, recatada, acima de qualquer suspeita. Lhe interessa a posse desta navalha? Respondi: Me interessa, bom sargento”, pois foi um dos pertences do meu falecido pai, aquém amei muito. Ele disse: “Seja. Amor é tanto quanto a esperança e a caridade, é tanto quanto honra, justiça e verdade”. Esse sucedido de imediato deve ser comunicado à sua senhora mãe e à sua senhora tia.
“Apanhe a navalha, lave, enxugue e guarde. Vamos, rapaz, se avie. Foi como foi feito. Hoje em dia mamãe e o bom sargento Evilasio vivem juntos. Estão velhinhos mas vivem bem”.
Voz de Nadia – Contam que um grileiro famoso quis “peitar” o senhor para um serviço contra posseiros. “Mentira, moça. Só o bom sargento me conhece para me passar serviços. É meu pai, hoje, é meu farol. Nem anda se oferecendo. Ele ouve histórias de injustiças. Ouve e apura, também lendo para apurar. Ninguém sabe mais do que ele ler nos olhos das pessoas. Me ensinou que mãos e palavras mentem, os olhos não”.
Voz de Nádia – Quantos serviços o senhor já realizou?
“Disso eu não posso falar. Menos do que se diz, mais do que se pensa”.
Voz de Nádia – Fale de um realizado fora do Brasil.
“Gosto do feito no Canadá, na cidade de Montreal que os afrancesados chamam de Mont’Real. Quem está certo? Não sei. Foi um judeu canadense quem contou ao bom sargento a história. Uns nazistas – pai, mãe e filha – que haviam sido responsáveis pelo extermínio de familiares dele. E de milhares outros que são jogados em caldeirões alheios. E estavam lá, em Montreal, no gozo da impunidade. Foi um contrato. O canadense contratante informou tudo. Sabia até os gostos sexuais da fêmea filha dos velhos. Era trintona e bonita, de seios empinados e coxas roliças. Quase quarentona, mas bem tratada. Gostava de homens grandes, fortes, com semblante orientais, além do que carrego na pele essa morenez derivada dos apuros de papai e mamãe quando me forjaram, esta morenez que a moça vê. Estes dentes, estas mãos lisas. Tanto e minha garrucha, quem poderia me impedir? E num restaurante, desses de parques, ao perceber que ela me notava, avolumei com sacudidelas e principal de minhas virtudes viris, a moça sabe do que se trata...
Voz de Nádia – Sou jovem, senhor Mongka, mas já sou mulher. Pode falar com a maior franqueza. O senhor a interessou.
“É isso. Uma fêmea debochada, de inglês americanizado. Foi numa tarde o segundo encontro, nós no casarão, sem nenhum respeito pelo pais que também moravam ali. Nem lhe mostrei o meu principal, moça e ela já estava nua, na cama larga, se abrindo para mim, exibindo o caranguejo dos seu corpo, filha má e obscena. Garruchei primeiro o caranguejo fedorento, a cara logo em seguida, desinteressado em de novo espiar o espanto dos mortos. Depois, renunciei à garrucha. Outra herança de papai, atirando contra os velhos que estavam apanhando restos de sol na varanda do casarão. Eram alemães, eles, nazistas foragidos e assassinos de judeus”.
Voz de Nádia – Quanto o contratante pagou?
“Não sei. Nunca pergunto sobre dinheiro ao bom sargento. É ele quem sabe, é ele quem ordena”.
Voz de Nádia – Por que o senhor me escolheu para contar essas coisas?
“Vi a moça chorando e trabalhando, chorando e sem deixar de trabalha, no enterro do senador Vilela, um homem bom, de muita coragem. Dele papai dizia o seguinte: este terminará sendo santo diabo ou santo. Pedi ao senador, certa vez, a bênção, e ele não estendeu a mão, dizendo que bênção é privilégio de bispo ou padre ou cardeal, isso sem grosserias, com sorrisos. E a moça, eu vi, chorando por ele, sem deixar de trabalhar”.
Voz de Nádia – O nome do sargento é Eulábio ou Evilásio?
“Nenhum dos dois”.
Voz de Nádia – Por que o apelido Mongka?
“Segundo papai, Mongka era como se chamava um justiceiro imperador mongol, no século XII ou XI, quase dois metros de altura, forte como um touro, e agradável como uma donzela em flor. E que o real Mongka corria como uma lebre e urrava como um leão das mais selvagens florestas africanas. Que agia militarmente nas noites e que de dia arava as terras, regando-as com suor e cânticos, de modo que nelas florescessem trigais, roças de feijão, milhares. O melhor nas vindimas , Mongka, o melhor nas danças. Que amava os rios,veias da terra, e garantia haver corações nos grandes blocos de pedras. É tudo por agora. Moça. Outra vez falarei mais.
Prometo, e promessa é dívida”.
Nádia contou:
-- E foi embora, nos caminhos do cemitério. Acredito na promessa dele.
Acredito piamente.
Ariovaldo Matos.


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