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Porque todos são diferentes, mesmo iguais.


          Daqui de cima vejo todos como se fossem formigas, não dá para distinguir as formigas gordas das magras, as feias das bonitas, as altas das baixas, as machos das fêmeas, porém, porque vivi lá embaixo, sei que eles imaginam estas diferenças. Mas a criança divina que dorme no quarto ao lado e nunca esteve entre os homens vê e sabe que não há qualquer diferença entre os pontos que circulam lentos ou apressados. E se eu lhe contar que agora, neste exato instante, alguém que se acredita diferente está num bar bebendo e rezando por ele para que sua vida mude, ele, com todo seu poder divino, não poderá ajudá-lo porque ele, simplesmente, não vê as diferenças. Para ele o graduado doutor e o esmolé que desistiu da luta são iguais à mulher grávida ou ao financista inescrupuloso. Para ele o assassino sanguinário e frio ou o homem de bom coração são exatamente iguais... Não há diferenças.
          — Então, senhor. Por que não o leva até lá para que ele veja as diferenças? Perguntei.
Após um longo silêncio, ele ponderou e disse.
        — Porque temo pelos homens. Quando estive lá tendei lhes indicar o caminho da paz. Disse-lhes que se me seguissem e deixassem de lado suas imaginadas diferenças e agissem todos num mesmo propósito, o do amor, todos seriam abençoados. Alguns até tentaram me seguir, mas suas idealizadas diferenças os impediram. Porque uns se viam romanos, outros se viam judeus, uns se viam reis, outros se viam mendigos. Uns se viam homens, outros se viam mulheres e, por nunca terem estado à altura do divino, eles não conseguem acreditar que para a criança que dorme ao lado, eles são apenas insignificantes formigas vistas como iguais. Então os deixo acreditar serem todos diferentes até que entendam que para a criança que dorme ao lado, eles sempre serão todos iguais.  

Ricardo Matos        



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