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Sangue e Tempo - Ariovaldo Matos


“Je vous parle des morts qui sont morts sans printemps”
P. Elaurd

         Ele entrou, pôs a ficha da consulta sobre a mesa e fez a pergunta:
         Posso explicar, doutor?
         Respondi sem interesse:
         Sim, explique.
         Ofereci-lhe um cigarro, ele recusou;
         Obrigado. Prefiro os meus. São mais fortes.
         O isqueiro era niquelado, boa marca, pequeno entre os dedos longos, manchados de nicotina. Tragou e soltou a fumaça lentamente. Depois sorrindo para os frascos arrumados  no armário, comentou:
         Água com açúcar esses remédios.
         Admiti, tolerante:
         Alguns, com efeito.
         Ele não estava preocupado em discutir. Preferiu levantar-se, andar como se fizesse uma inspeção. Em seguida, correu os olhos pela sala e os alongou para o começo da noite que se fazia na rua. Eu me contive naquele silêncio, descobrindo, em mim mesmo, um pouco de curiosidade profissional. Interessante a tranqüilidade dos seus gostos, a autoridade com que os revestia.
         Trajava-se com apuro. O paletó, por exemplo, era azul esmaecido de legítima casimira inglesa. Mais escura a cor da calça, e os sapatos, como eu nunca antes tinha visto, eram de esporte. Sem gravata, era de seda a camisa branca que usava. Fiquei a repará-lo, enquanto perdurou o silêncio, enquanto ele olhava o começo da noite. Aquela maneira de vestir respondia bem ao seu tipo. Era alto e magro, queixo avançado, os cabelos alinhados sem esforço – e não me tivesse falado em português fluente eu o tomaria por um aristocrata inglês em férias, desses encontradiços nos filmes. De repente, sem voltar-se para mim, exclamou:
         O sol, doutor, repare o sol.
         Era um belo crepúsculo – e somente agora eu o descobria, belo e trágico.
         Há sangue de tempo sobre o sol. Repare, doutor.
         Sim, concordei – parece sangue.
         Replicou:
         É sangue, doutor. O tempo sangra. O nosso tempo. Agora outro tempo se forma, no sangue é gerado, nasce no desespero de milhões. Milhões!
         A afirmativa foi feita com segurança e, logo depois, ele ficou trêmulo, a tranqüilidade se fora. Caminhou para cadeira, levantando-se quase que imediatamente, os olhos em brasa, lábios apertados como se prendesse palavras, tremor nos másculos da face, os dedos, finos, longos dedos, a comer sobre os móveis, o peitoril da janela... Ergui-me, rápido, temendo que se atirasse ao espaço, mas reparei, bem perto, que os dedos se acalmavam, o tremor ia desaparecendo, os lábios se descerraram, pouco a pouco, Era uma crise que vencia. Reparei-lhe os olhos que punha sobre o sol a morrer no mar. Estavam parados. Suava na testa e no pescoço. A luz avermelhada do sol moribundo fazia brilhar a seda da camisa. Ele falou:
         Doutor, meu tempo explode. Hoje eu me explodirei com o tempo.
         Voltou-se e, como identificasse medo nos meus olhos, perguntou.
         O senhor sabe o que é a explosão do tempo?
         Ignoro.
         É a minha explosão!
         Continuou mais calmo:
         Tarde, é bem tarde. Agora o dia está morto.
         Provoquei:
         Ele sempre renasce.
         Sim, mas não é o mesmo. Tudo muda. A natureza é outra, outro o homem. Mais grave a moléstia. Dia a dia mais grave
         Quase sempre a cura. – ponderei, querendo ajudá-lo.
         É tarde, doutor, é tarde. Se bem reparei, lá fora, na saleta, quatro clientes ainda o esperam. Peço permissão para fazer uma proposta: pagarei, em dobro, as quatro consultas, e a minha terá uma remuneração especial. Pagarei tudo e sairemos. Aqui é apertado demais, quente demais, escuro, escuro demais. É preciso haver sempre muita luz. Estreita a sua sala, doutor. Por que isso? Vamos, doutor, responda. Repito que o senhor não terá prejuízos. Ao contrário: asseguro-lhe que...
         Recusei o convite:
         Gostaria de sair com o senhor, sem dúvida alguma. Infelizmente, tenho um compromisso. Devo, hoje, jantar com amigos e minha esposa...
         Ele me interrompeu:
         Lamento também. Lamento por mim e pelo senhor. Haviam-me informado que o senhor, além de profissional, é um artista. Um engenheiro de almas, disseram-me.
         Mas, hoje...
         Sim, hoje há o jantar, os amigos que esperam, a esposa inquieta, o seu mundo, o seu tempo.
         Bruscamente abandonou a sala. Sobre o cinzeiro ficou um cigarro meio apagado. Habituado a estranhos comportamentos de meus clientes, logo o esqueci, e de madrugada, em meu gabinete, estava a estudar quando soou a campainha.
         Do quarto, minha mulher perguntou:
         Quem é?
         Não sei – respondi. Talvez algum cliente. Durma. Caminhei pela sala escura, acendi as luzes e, pela vidraça divisei, na porta, três vultos estranhos. Abri a janela:
         Que desejam? – perguntei.
         Uma voz respondeu:
         Boa noite, doutor. Somos da polícia...
         Polícia?
         Não tenha receio, doutor. Houve um suicídio, e, no corpo do homem, havia uma carta destinada ao senhor.
         Abri a porta, preparado para eventualidade de uma cilada qualquer, e os três homens entraram. O mais baixo falou:
         Perdoe incomodá-lo a estas horas, mas a carta traz um pedido de urgência. Julgamos... Não abrimos, e...
         Onde está a carta? – interrompi.
         Do bolso retirou um envelope. Havia meu nome e, encimando-o, a palavra URGÊNCIA, escrita com energia, tinta negra. Convidei os policiais a se sentarem e minha mulher, inquieta, já estava ao meu lado. Tranqüilizei-a:
         Deve ter sido algum cliente. Vamos, faça um café para estes senhores.
         O policial baixo perguntou:
         Seria possível a leitura da carta, agora?
         Concordei e abri o envelope. Papel elegante, letras negras outra vez, apenas uma frase escrita:
        “Meu tempo explodiu e eu me explodi com o tempo. O senhor poderia ter me ajudado a sofrer menos. Não o quis.”
         Passei a carta ao policial e esperei que ele fizesse perguntas. Não demorou:
         É carta de um louco. Era seu cliente?
         Narrei os fatos, sem omitir detalhes, e o policial baixo repetia, “sim, compreendo, sim, compreendo, sem nada compreender”. Quando conclui a narrativa ele indagou:
         Era louco?
         Não sei.
         Só um louco se mata, doutor.
         Nem sempre – repliquei.
         Caminhamos para meu gabinete e lá o café que minha mulher oferecera. Fumamos, depois, quase em silêncio. Perguntei, então:
         Como ele morreu?
         O policial fez uma narrativa sumária:
         Duas testemunhas afirmaram que ele caminhava, na rua central, às 20 horas, quando maior o movimento. Caminhava e parecia tranqüilo. De repente encostou-se a um poste, retirou do bolso esquerdo interno um revólver, apontou-o contra a cabeça e disparou. O senhor pode imaginar o escândalo...
         Sim, imagino. Não disse nada.
         Uma das testemunhas declarou ter ouvido de seus lábios a seguinte frase:
         “tudo sangra, tudo sangra”. Só. Nada mais.
         Não trazia nenhuma carta, além desta?
         Não. Encontramos três livros de cheques, mais de 8 mil cruzeiros na carteira, um passaporte... O senhor poderia explicar essa história da explosão do tempo?
         Agora, não. Como disse, ele se referiu a essa idéia, em meu consultório. Sabem os senhores onde ele reside?
         Ainda não.
         Eu poderia acompanhá-los? Creio que me faria bem conhecer sua história. Afinal, ele me responsabiliza, implicitamente.
         O policial quis tranqüilizar-me:
         Não vejo porque o doutor deve ficar nervoso, Era um louco. Matou-se e é tudo.
         Minha mulher concordou, mas não lhe dei atenção. No quarto, vesti-me às pressas e, dirigindo meu próprio carro, acompanhei a caminhoneta que abria caminho. Na secretaria de segurança, em uma sala fria e escura, encontrei o passaporte, os livros de cheques, a caderneta repleta de cédulas. Olhei detidamente o passaporte e pude verificar que andara muitas capitais européias, retornando sempre a Londres, que deveria ter sido o centro de suas peregrinações, ao longo de vários anos. Na carteira, além das cédulas, nenhum documento. Apenas um retrato de criança, quase inidentificável porque amarelado o rosto. Nada mais. Momentos depois os policiais trouxeram as duas malas encontradas no quarto que ocupava no principal hotel da cidade. Roupas e livros somente. Livros sobre história e economia. Romances de Stendhal e Balzac. Anotações em inglês e em português. Nada que explicasse, claramente, o suicídio. Todos os livros de Rilke, notadamente o “Cartas a um Jovem Poeta”, no original alemão.
         Tudo aconteceu há mais de quinze anos. E eu nunca expliquei aquele gesto. E eu nunca mais perdoei a minha recusa. Desde então habituei-me a olhar o pôr do sol, sem esquecer aquele homem estranho que já estava morto quando me procurou.

Fim
       
        
          


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