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A doceira


          A doceira era tão boa que se imaginava reduziria a expectativa de vida de sua cidade em, no mínimo, 20 anos. Era um perfeito equilíbrio agridoce. Uma pitada de sal e outra medida com proporções limitadas de açucares e outros condimentos. Disso resultava quindins maravilhosos, bem-casados deslumbrantes e papos-de-anjo de levar qualquer crente ao inferno e ao paraíso ao mesmo tempo. Isso sem falar dos brigadeiros, cocadas, doces de leite e por aí afora. 
          Um novo juiz que chegou a cidade achou de, (a título de prevenir que a próxima geração também sofresse de diabete e outra enfermidade como obesidade), proibir Dona Lourdes de cozinhar.            O Promotor público, interessado em agradá-lo, já que ambos eram de oposição ao governo vigente, prenderam dona Lourdes sob acusação de conspiração para com a saúde pública. Não demorou muito e o feliz povo daquele local começou a agir de modo a fazer a ordem pública ser um problema grave. Assassinatos e suicídios, agressões e roubos cresciam em percentual assustador sem que houvesse qualquer explicação plausível. Próximo a eleição, a polícia já agia com reprimendas violentas contra os eleitores. Temeroso o povo terminou elegendo o juiz como prefeito da cidade. Para comemorar o ensejo, o novo prefeito soltou dona Lourdes e encomendou uma gama de doces como forma de compensá-la pelos anos detida indevidamente. E assim a paz voltou a reinar.
Moral da história.
           Tudo é relativo quando se trata de política. O imaginado bem de poucos não é motivo para se agir por fora da lei. 


Ricardo Matos

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