Pular para o conteúdo principal

A doceira


          A doceira era tão boa que se imaginava reduziria a expectativa de vida de sua cidade em, no mínimo, 20 anos. Era um perfeito equilíbrio agridoce. Uma pitada de sal e outra medida com proporções limitadas de açucares e outros condimentos. Disso resultava quindins maravilhosos, bem-casados deslumbrantes e papos-de-anjo de levar qualquer crente ao inferno e ao paraíso ao mesmo tempo. Isso sem falar dos brigadeiros, cocadas, doces de leite e por aí afora. 
          Um novo juiz que chegou a cidade achou de, (a título de prevenir que a próxima geração também sofresse de diabete e outra enfermidade como obesidade), proibir Dona Lourdes de cozinhar.            O Promotor público, interessado em agradá-lo, já que ambos eram de oposição ao governo vigente, prenderam dona Lourdes sob acusação de conspiração para com a saúde pública. Não demorou muito e o feliz povo daquele local começou a agir de modo a fazer a ordem pública ser um problema grave. Assassinatos e suicídios, agressões e roubos cresciam em percentual assustador sem que houvesse qualquer explicação plausível. Próximo a eleição, a polícia já agia com reprimendas violentas contra os eleitores. Temeroso o povo terminou elegendo o juiz como prefeito da cidade. Para comemorar o ensejo, o novo prefeito soltou dona Lourdes e encomendou uma gama de doces como forma de compensá-la pelos anos detida indevidamente. E assim a paz voltou a reinar.
Moral da história.
           Tudo é relativo quando se trata de política. O imaginado bem de poucos não é motivo para se agir por fora da lei. 


Ricardo Matos

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ostra

Ostras
Antes de sair do hotel, tendo a irmã Célia ao lado, escreveu para Ione: “Querida, sua detenção é passageira. Tudo não passa de um equívoco. O marido de Célia, e ele é muito influente, assegurou que eu a encontrarei livre no meu regresso. E que retornaremos a Paris sem nenhum problema. Sigo para Bahia nesta manhã, em busca daquele ferroviário, e já tenho reserva para voltar à noite. Por que diabo você se meteu a doutorar-se em ciências políticas e aventurar-se a fazer perguntas num momento como o atual? Com um beijão”. E assinou. A irmã riu ao ler o texto. Disse: -- Menina de família rica, tantos anos estudando na França, de repente presa, de repente podendo ser solta, que coisa mando preparar para jantarmos? Informou: -- Ione adora ensopado de filé com repolho. Filé cortado em pequenos pedaços, é claro. E como ela gosta de dizer, “mixórdia de picles”. Invenção dela. -- Como é que é isso? -- É simples: compre dois pacotes de picles, ponha tudo no liquidificador, misture com duas col…

Aniversário de Ariovaldo Matos, Os Dias do Medo. Romance.

ESCLARECIMENTO PRELIMINAR

Morto a 4 de janeiro de 1968, aos setenta e um anos, o senador Antônio Petrucci recompôs – por vezes dando-lhe forma romanesca – aqueles que considerou os mais importantes episódios de sua vida. Uma vida que, acredito, foi muito rica de acontecimentos. Dois ou três dias antes de expirar, ainda lúcido e após assinar seu generoso testamento (1), reafirmou o empenho de que eu expurgasse do texto quanto contribuísse, de algum modo, para lhe embelezar a personalidade. Convenientemente cadáver, queria-se nu diante da opinião pública. E não só a brasileira. Terei de investir bons milhares de dólares para traduções em italiano e em francês, obrigação que hoje não me desagrada: suponho experiência interessante ser personagem. Trabalhei com afinco, pesando e sopesando os capítulos e “notas adicionais” que me foram confiados. Quando chego ao “the end” da tarefa, penso ter cumprido, com algum zelo, a última ordem daquele a quem prestei uma colaboração que ele próprio reco…

O Desembestado ou a Escolha. —

O Desembestado
Naquele frio 21 de junho, a sra. Zulnara, piedosa e convicta irmã de Maria, contava ao esposo um episódio da existência temporal de São Luis de Gonzaga e ele, já habituado as eventuais crises religiosas de sua companheira, sentia certo prazer em escutar a narrativa que a voz tímida ia desenvolvendo: — ... e então — disse ela — um terrível surto de peste assolou a cidade de Roma. São Luiz nem padre era, ainda, mas pediu permissão aos superiores do Seminário e saiu a cuidar dos enfermos, a muitos confortando. Aquela moléstia, porém era transmissível e ele também ficou doente. Padeceu dias e dias e, afinal, mártir da caridade, morreu em 1591 com apenas 23 anos mas já estava madurinho para o céu. — Virou Santo? — perguntou Albano, com algum interesse e uma pontinha de dúvida. — Sim. Albano tinha pensado num argumento qualquer, anti-santificador, em que prevaleciam drogas químicas como sulfonas e coisas aparentadas, mas a verdade é que não chegou a concluí-lo mentalmente. Mesmo …