Pular para o conteúdo principal

A vaca, o Brasil, e a felicidade.


        Certa feita me contaram uma história engraçada de uma vaca muito especial. Quando me contaram a historieta não notei sua importância no contexto histórico da humanidade. Hoje, porém, vejo e entendo o sentido daquele conto e posso fazer uma analogia com o atual momento brasileiro. 

Segue a historinha.   

Em um bucólico vilarejo, morava uma família que vivia do produto de seu trabalho realisado numa pequena fazenda no interior da Bahia. Pai, mãe e filhos, viviam sem luxo, mas moravam numa casa aconchegante e alegre. Seu Inácio, o patriarca da família, ficou orgulhoso quando pode, (aproveitando que o progresso chegara a cidade trazendo a bendita tecnologia e a energia necessária), usar de suas economias para comprar todos os utensílios domésticos vendidos na mais nova loja da cidade próxima, e assim ele fez, comprou: televisão, tanquinho, vídeo, celulares, geladeira, fogão à gás e o tal do computador com internet.
          Com toda essa modernidade veio à influência das redes: Globo, BAND, SBT e outros meios de comunicação geradores de mentiras e causadores de depressão. Com o tempo, e sem ser notada, a rotina da família foi mudando. Eles não perceberam, porém, aos poucos, começaram a ter os mais estranhos pensamentos e a criar ódios do nada, e, com isso, a felicidade que tinham foi se esvaindo.
Dona Dilma, a matriarca, notou que as coisas já não eram como antes e, como costumava fazer, resolveu recorrer ao benzedeiro e sábio senhor que vivia na beira da mata em sua chácara.
            Escondida da família, Dona Dilma adentrou a mata e caminhou léguas até chegar a residência do sábio, Sr. Mercadante,
            Ô de casa! Gritou dona Dilma batendo palmas ao chegar.
            Entra, Cumade   Respondeu Mercadante, feliz por receber a ilustre visita.
       Ao entrar, Dona Dilma foi recebida com uma caneca de alumínio, com de água moringa fresquinha. Sorveu a água gole a gole e após se sentar no tamborete, próximo ao Mercadante, perguntou:
            Ô Cumpade, eu vim até o cumpade sem nem saber o que tá me aporrinhando... mas parece que o capeta, o coisa ruim, achou de morar lá em casa... meu veio anda tristonho... os menino avexado... até eu, Cumpade, mesmo depois dos luxos que Inácio comprou e diminuiu em muito meus afazê... ando apoquentada...
            Mercadante se sentou um banquinho de três pernas... matutou... matutou e perguntou:
            Cumade, Vossa Mercê ainda tem aquela vaquinha leiteira maiada?
            Dona Dilma respondeu orgulhosa,
            Sim, Cumpade. Tá aposentada. Inácio tá com mais de vinte parideira nova e de muito leite. Mas a malhada tá lá sim... Tá largada na manga...
          Intão, Cumade. Pega a malhada e coloca ela pra de dentro de casa pra mó de vê se não muda o avexamento.
            Só isso, Cumpade?
            Só Cumade.  Adepois Vossa Mercê volta pra me contar o que a se passou.
            —  Intão vô indo, Cumpade. Quanto é que te devo...
            —  Deve de nada não, Cumade. Amizade num se paga com dinheiro ou presente...
         Dona Dilma voltou para casa pensando na maluquice que o velho amigo aconselhou, mas devido a confiança que a família tinha em sua sabedoria, resolver acatar o mandado, e colocou a vaca velha e malhada para dentro de casa, mesmo a contra gosto de todos.
            Não demorou e a vaca criou os maiores problemas, mijava e cagava a casa toda, derruba os moveis, empatava todo mundo. Resumindo: criou a maior zona. Com todos já revoltados com a vaca e com a ideia de Dona Dilma, que não arrendava pé de cumprir o ensinamento do velho sábio, todos começaram a brigar, arrumaram até da Dilma andar de bicicleta para ir pedalar lá fora. Mas bastou e uma semana e Dona Dilma também já não aguentava mais a vaca bagunçando tudo dentro da casa e resolveu voltar ao Mercadante pra se aconselhar novamente. Lá chegando, arriou todo o desassossego que a vaca provocara. Mercadante, com um sorriso no canto da boca, entre uma e outra baforada do cachimbo disse:
            Apois, Cumade. Agora é só arria a vaca de vorta pro pasto... e jogar fora aquele aparelho de fazê burros que tu vai vê que a tal da felicidade vai vorta rapidinho...  
            Dito e feito:  bastou tirar a vaca de casa e colocar a TV no pasto pra os burros poderem ver, que a felicidade retornou pra casa de seu Inácio e Dona Dilma.
            Como eu disse, meu povo.
          Todo esse golpe é fruto do destino  para lembrar ao povo brasileiro que ele era feliz. Bastou colocar o governo Temer no Brasil, como o Mercadante colocou a vaca na casa hipotética casa de Dilma. É só tirar a vaca que o Brasil volta a ter jeito.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ostra

Ostras
Antes de sair do hotel, tendo a irmã Célia ao lado, escreveu para Ione: “Querida, sua detenção é passageira. Tudo não passa de um equívoco. O marido de Célia, e ele é muito influente, assegurou que eu a encontrarei livre no meu regresso. E que retornaremos a Paris sem nenhum problema. Sigo para Bahia nesta manhã, em busca daquele ferroviário, e já tenho reserva para voltar à noite. Por que diabo você se meteu a doutorar-se em ciências políticas e aventurar-se a fazer perguntas num momento como o atual? Com um beijão”. E assinou. A irmã riu ao ler o texto. Disse: -- Menina de família rica, tantos anos estudando na França, de repente presa, de repente podendo ser solta, que coisa mando preparar para jantarmos? Informou: -- Ione adora ensopado de filé com repolho. Filé cortado em pequenos pedaços, é claro. E como ela gosta de dizer, “mixórdia de picles”. Invenção dela. -- Como é que é isso? -- É simples: compre dois pacotes de picles, ponha tudo no liquidificador, misture com duas col…

Aniversário de Ariovaldo Matos, Os Dias do Medo. Romance.

ESCLARECIMENTO PRELIMINAR

Morto a 4 de janeiro de 1968, aos setenta e um anos, o senador Antônio Petrucci recompôs – por vezes dando-lhe forma romanesca – aqueles que considerou os mais importantes episódios de sua vida. Uma vida que, acredito, foi muito rica de acontecimentos. Dois ou três dias antes de expirar, ainda lúcido e após assinar seu generoso testamento (1), reafirmou o empenho de que eu expurgasse do texto quanto contribuísse, de algum modo, para lhe embelezar a personalidade. Convenientemente cadáver, queria-se nu diante da opinião pública. E não só a brasileira. Terei de investir bons milhares de dólares para traduções em italiano e em francês, obrigação que hoje não me desagrada: suponho experiência interessante ser personagem. Trabalhei com afinco, pesando e sopesando os capítulos e “notas adicionais” que me foram confiados. Quando chego ao “the end” da tarefa, penso ter cumprido, com algum zelo, a última ordem daquele a quem prestei uma colaboração que ele próprio reco…

O Desembestado ou a Escolha. —

O Desembestado
Naquele frio 21 de junho, a sra. Zulnara, piedosa e convicta irmã de Maria, contava ao esposo um episódio da existência temporal de São Luis de Gonzaga e ele, já habituado as eventuais crises religiosas de sua companheira, sentia certo prazer em escutar a narrativa que a voz tímida ia desenvolvendo: — ... e então — disse ela — um terrível surto de peste assolou a cidade de Roma. São Luiz nem padre era, ainda, mas pediu permissão aos superiores do Seminário e saiu a cuidar dos enfermos, a muitos confortando. Aquela moléstia, porém era transmissível e ele também ficou doente. Padeceu dias e dias e, afinal, mártir da caridade, morreu em 1591 com apenas 23 anos mas já estava madurinho para o céu. — Virou Santo? — perguntou Albano, com algum interesse e uma pontinha de dúvida. — Sim. Albano tinha pensado num argumento qualquer, anti-santificador, em que prevaleciam drogas químicas como sulfonas e coisas aparentadas, mas a verdade é que não chegou a concluí-lo mentalmente. Mesmo …