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No Mar - Ariovaldo Matos


No Mar.
O velho espiava-nos com desagrado. Éramos intrusos naquele  camarote de beliches estreitos, duros, as paredes pintadas de verde, um verde pesado. O homem louro, ao contrário, parecia entre alegre e cerimonioso.
— Lombardi, — disse em francês — Paco Lombardi, um amigo. Compreendem-me?
Disse que sim, compreendíamos seu Francês.
Apontando para o velho do beliche inferior, à esquerda, Lombardi apresentou-o:
— Aquele é o árabe Harmel. Estamos juntos desde Buenos Aires. Disse meu nome e Argileu, o mulato baiano, atreveu-se a  estender-lhe as mãos. O velho mexeu-se sobre o beliche, os olhos remelentos, suor escorrendo pelo pescoço.
— Harmel — disse ele.
Argileu recolheu as mãos vazias, desejando dominar o desapontamento. Lombardi, de novo falando em francês, disse:
— É um velho estúpido. É um velho terrivelmente estúpido. Podemos falar dele e não protestará. Nada entende de francês... Ou vocês preferem espanhol? Espanhol esse velho entende.
Harmel, de costas, olhava antiga fotografia. Lombardi, continuando gentil, ajudou-nos com a bagagem.
— Estudantes? — perguntou.
Além da resposta afirmativa, dissemos-lhe que integrávamos uma embaixada de alguns universitários baianos a caminho da Europa.
— Ótimo! – exclamou. – Além de jovens vocês são universitários e, além de universitários, vocês vão descobrir a Europa. Lindo! Eu, no entanto, sou boxeur. Vou lutar na Itália.
O nariz achatado e algumas cicatrizes distribuídas pelo rosto pareciam confirmar a condição. Ele esperou que mudássemos de roupa e quando nos viu arrumados indagou com alguma mordacidade:
— Vocês não vão dar o último adeus aos papais?
— Não há papais – disse Argileu.
Lombardi disse:
— Bem, em todo o caso há sempre uma cidade para se dar adeus. Eu gosto de dar adeus às cidades. Mesmo quando viajo de avião ou de ônibus. Sim, sempre dou adeus às cidades.
— O velho vai? – perguntei.
— Não. O velho nunca dá adeus às cidades.
O sol forte, estava quase deserto o cais. O navio já na barra, ganhando o alto oceano, Paco Lombardi cuspiu grosso e perguntou:
— Vocês me pagam um conhaque?
No bar da terceira classe ele nos mostrou como jogava o conhaque na boca. Ficamos a repará-lo. Gostava de nossa atenção:
— É uma técnica difícil – disse. Os bons bebedores sabem fazê-lo de uma forma especial e ninguém percebe. De modo que a elegância não fica prejudicada.
Argileu tentou experimentar, sem êxito. O conhaque escorreu-lhe as partes dianteiras, inferiores e superiores, molhando amplamente as gengivas. Depois, pouco a pouco, descerá sobre a língua e sua função é importante: deve impulsionar o líquido para o céu palatino e trazê-lo, depois, sem ruído, para que lentamente alcance a garganta...
Ele próprio não sabia fazê-lo. Ouvíamos o conhaque correndo na boca, de cima para baixo, como a borbulhar.
— É uma forma de alegria – disse. Insisto, insisto, termino aprendendo. Cada um deve ter, enquanto pode, a sua alegria e usá-la, de modo adequado. Eu sou assim, vocês vão me conhecer. Eu nasci para espalhar alegria no mundo. Eu, Lombardi, um mensageiro...
Naquela tarde, pagando-lhe conhaque, fizemo-lo uma das nossas primeiras aventuras.
— E o velho? – Argileu perguntou.
— Às vezes, de noite, ele canta – Lombardi disse. Não se assustem. São rezas em árabe ou coisa parecida. Ele não passa de um velho estúpido que quer morrer ao seu gosto, não no mar – ele teme o mar e os peixes – mas em sua terra, uma aldeia pulguenta do Líbano. Me fala disso desde os primeiros dias. Pensar na morte é a alegria dele. Disse que já preparou tudo, economizando, para as despesas, uns 400 dólares, o que é mentira. Na verdade tem mais de 1.000 dólares amarrados nas pontas do paletó. Uma noite, ele pensava que eu dormia, vi-o contá-los, nota a nota. Até hoje não gastou um níquel sequer. É um velho avarento. Ele não se move por economia.
O velho permanecia no beliche, deitado, as meias vermelhas, esburacadas e sebentas. Nas rugas do pescoço, da testa, da face, havia sempre tirinhas de suor e poeira. Amanheciam secas. Em qualquer momento, mas sobretudo à tarde, quando era mais intenso o calor naquele camarote de terceira classe, exalava um cheiro de mofo a se misturar com o da água sanitária usada pelos marinheiros na esfrega do navio. Todas as manhãs, mesmo aos domingos, punha calças boca de sino, pretas, mantendo o paletó de pijama listrado. De chinelos, os passos duros, gemendo baixinho ao sair do beliche, dirigia-se à mesa do desjejum, levando, no bolso do pijama, um queijo de casca bolorenta. Contava, com extraordinária eficácia, quase transparentes, as fatias que colocava no pão, uma das bandas do qual sempre melava na geléia avermelhada. Ao comer o sanduíche e ao beber o café preto, babava-se, limpando o cuspo com os dedos.
— Um porco... – comenta Lombardi ao vê-lo na mesa.
O velho logo regressava ao camarote, e, nele, ao beliche, deitando-se, os olhos na parede verde, ou, então sobre a antiga fotografia. Nunca fez esforço para olhar o mar, através da cortina. Evitava vê-lo mesmo quando os peixes luminosos multiplicavam-se na escuridão, ao longe, ou quando ondas sucessivas chocavam-se contra o casco e exibiam faces de prata, modeladas pela lua.
Lombardi disse que o árabe, tal como percebêramos no primeiro dia, considerava que eu e Argileu éramos somente intrusos, moços sem experiência da vida, incapazes de compreendê-lo e respeitá-lo. Antes, entregava-se a diálogos mais ou menos freqüentes com o boxeur argentino. Agora que havíamos chegado, dois estranhos, principalmente dois jovens que suspeitava como conversadores e barulhentos, limitava-se a alguns resmungos, às suas rezas noturnas, sempre olhando a fotografia. Apenas, vez por outra, indagava horas. Pouco antes de apagar a luz do camarote, que mais tarde iríamos acender quando retornávamos do convés ou do bar, o velho riscava a folhinha, o dia vencido. Tinha pressa. Preocupava-se em alcançar sua terra, e, ali, morrer.
— Esta tolice de riscar a folhinha, perguntar as horas, essa estupidez – disse Lombardi – Começou depois que um italiano da segunda classe morreu de repente e foi atirado ao mar e aos peixes. Harmel não viu a coisa mas deve ter ouvido o baque no mar. “Que é isto” – perguntou e eu disse: “ foi um velho italiano. O coração pipocou e agora... “ Eu nem terminei de contar. O árabe estúpido começou a rezar. Na verdade faz medo a gente imaginar que pode ser cosido na lona e jogado aos peixes. Sim, faz medo.
O velho Harmel pedia pouco para morrer. Dispondo de seus 1.000 dólares, uma quantia razoável para objetivo tão simples, ele queria morrer em sua terra, os parentes AM volta, lágrimas sentidas, muitas angélicas e rezas, rezas para um velório pungente e demorado. Lombardi imaginava a cena, descrevia detalhes, e assim fazia com que ríssemos do velho e da sua morte.
Os dias passando, sempre a perguntar as horas, Harmel ia rompendo suas reservas conosco. Descobria que não éramos tão inexperientes quanto julgara. Nem tão barulhentos quando temera. Sabíamos respeitar seu silêncio e seu propósito. De modo que poucos dias antes da festa do equador ultrapassado, e sem que tivéssemos provocado, provocado, ele nos disse, como a transmitir-nos grande verdade, que a adequada salvação de uma alma depende, em boa parte, da qualidade e do tempo do velório. Assim lhe haviam ensinado muitos dos seus patrícios, em Buenos Aires. Para garantir-se – disse – reunira aquela pequena quantia, uns 400 dólares e alguns trocados. Lombardi aproveitou a chance para mostrar-se um oportuno mensageiro da alegria.
— A propósito – disse Lombardi – lembro-me de certo episódio  ocorrido na fazenda de meu pai. Um camponês morreu, pisado pelo gado, e como era muito querido fizeram-lhe longo e sentido velório. Havia uma multidão de parentes e amigos, todos a rezar. Pois bem: o velho camponês, bem rezado e bem chorado, pode sorrir depois de morto e disseram, ali mesmo, ainda no velório, que naquele momento sua alma purificada estava chegando ao céu. Daí porque sorria depois de morto.
— Com certeza? – Harmel quis saber.
Lombardi bateu a cabeça. Sim, com certeza, disse com gosto.
Harmel suspirou, parecia feliz. Logo em seguida, preocupado com seus pensamentos, virou-se para parede, os olhos fechados, a fotografia sobre o peito. Pensava. De repente, voltando-se, disse:
— Eu sempre vivi sozinho. Não tive filhos.
— E amigos, você não teve amigos, velho? – Lombardi perguntou.
— Morreram. Foram poucos e morreram.
Quase toda vida do velho, ele contou, fora um armarinho que instalara em bairro pobre de Bueno Aires. Vendera-o e graças a isto reunira aqueles dólares. Família no Líbano? Sim, havia restos, uns primos distantes, já não lhes recordava as feições. Nada mais.
— E viver, velho, como você viveu? – Lombardi de novo perguntou.
Harmel passou-nos a fotografia, quis que cada um de nós a olhasse, como se nela estivesse a resposta. Vimo-lo, então, ainda jovem, olhos espantados, de bombachas e um chapéu típico que a mão segurava.
— Fui isto – disse.
Naquele espanto havia medo. O colorido da fotografia não escondia a brutalidade do tempo.
Recebendo de volta a fotografia o velho não disse nada. Lombardi, sem esconder certa emoção, tornou a deitar-se, o livro aberto sobre o peito cabeludo, de músculo rijos. Somente de noite voltamos a reencontrar o velho. Ele marcava a folhinha.
Nos últimos dias, quando o navio já se aproximava de Gênova, a esperança impondo-se ao temor, o velho árabe animou-se o suficiente para alguns passeios no convés, e uma tarde, na véspera do desembarque, chegou a sorrir, com inesperada alegria, quando Lombardi, apontando para o além do Mediterrâneo, disse:
— Lá está o Líbano, lá...
À noite, o velho deitado, preparando-se para o ritual da fotografia sempre olhada, Lombardi disse:
— Você é feliz, Hamel.
O velho escutava-o, com toda atenção:
— Ouça o que eu digo...
— Sim, amigo, meu querido amigo.
— Você é feliz – repetiu o boxeur com alguma inveja. – Você tem a morte preparada, dispondo de dólares e de parentes, e assim tudo acabará. Quem sabe se você também não sorrirá depois de morto, sem pecados, entrando no céu?
— Hamel bateu a cabeça, dizendo que sim, que sorriria depois de morto, que entraria no céu.
Na manhã do último dia, ele se vestiu de preto, pôs o chapéu e, no beliche, sentado, a mala pronta, espiava pela escotilha a cidade de Gênova. Do outro lado do mar, o velho árabe adivinhava o Líbano, a terra de morrer.

Novembro, 1963
         

  

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