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Aniversário de Ariovaldo Matos, Os Dias do Medo. Romance.


ESCLARECIMENTO PRELIMINAR


Morto a 4 de janeiro de 1968, aos setenta e um anos, o senador Antônio Petrucci recompôs – por vezes dando-lhe forma romanesca – aqueles que considerou os mais importantes episódios de sua vida. Uma vida que, acredito, foi muito rica de acontecimentos. Dois ou três dias antes de expirar, ainda lúcido e após assinar seu generoso testamento (1), reafirmou o empenho de que eu expurgasse do texto quanto contribuísse, de algum modo, para lhe embelezar a personalidade. Convenientemente cadáver, queria-se nu diante da opinião pública. E não só a brasileira. Terei de investir bons milhares de dólares para traduções em italiano e em francês, obrigação que hoje não me desagrada: suponho experiência interessante ser personagem.
Trabalhei com afinco, pesando e sopesando os capítulos e “notas adicionais” que me foram confiados. Quando chego ao “the end” da tarefa, penso ter cumprido, com algum zelo, a última ordem daquele a quem prestei uma colaboração que ele próprio reconheceu como eficiente, “mas, no conjunto, Abelardo, no conjunto!”.
            Neste “Os Dias do Medo”, e advirto que o título é meu (ele queria o prosaico “Uma vida, árdua vida”), a tal ponto fui imparcial que não omiti, embora pudesse fazê-lo, nenhuma assertiva ou insinuação prejudicial à minha pessoa. Inclusive sobre atividades políticas e comportamentos outros nem sempre bem compreendidos pelo finado. Os “cortes” aos quais me vi obrigado – episódios e trechos outros que, somados, se alongam por mais de trezentas laudas pessimamente datilografadas – devem-se a conveniências hodiernas. E eu as reputo da maior relevância, eis que (esta expressão é dele, eis que) se relacionam, envolvendo-as em meio a injustiças ou desajeitos, com numerosas personalidades. Preocupam-me, em particular, senhoras e senhores que me honram com amizade e respeito. Não raras dessas pessoas podem me ser úteis e eu a elas. Como tia Cândida ensinava, “ninguém sabe o dia de amanhã e o futuro a Deus pertence”.
            Creio ter cumprido meu dever como cidadão deste belo País, ao qual, e até morrer, cotidianamente continuarei servindo, de modo morigerado, como é dos meus hábitos. Ainda hoje, remeto as páginas para a tipografia já contratada com meu dinheiro. E, em seguida, na Europa, promoverei as aludidas versões italiana e francesa, antes, é evidente, cuidando de reencontrar Narda, esteja onde estiver, mesmo na Calábria. Ah, que doido amor ele nutria pela Calábria. Aliás, a epígrafe da edição italiana, escolhida e moldada com suas já trêmulas letrinhas, é a seguinte: “Calabreses, acreditai-me, eu vos amei”.

            A tarja que encima este esclarecimento preliminar é um preito sincero e saudoso e também homenagem à minha irrequieta e tão querida Marluce, tragicamente morta meses após tornar-se minha esposa.

Quero ainda agradecer a preciosíssima colaboração do meu estimado e jovem amigo Cristovão Miguel Dias (2). Não só por me ter ajudado a datilografar os capítulos finais e sim principalmente pelo seu calor afetivo, abrasante algumas vezes, reconheço, mas em geral satisfatório.
Guanabara, 5 de janeiro de 1970
Abelardo D’Antunes

(1) – Numerosas pessoas, jurídica e moralmente aptas (a exemplo do dr. Nazareth), podem testemunhar sobre a lucidez do senador Petrucci no instante, tanto quanto em dias precedentes e posteriores, em que assinou o testamento, cujos termos causaram surpresas e maledicências na Bahia, aqui no Rio, em Brasília, e – curioso, só agora disso tenho ciência – também em São Paulo, este um lugar de gentes e paisagens que abomino. Concordo, em número, gênero e grau com um dos muitos repentes do senador:
            -- Diante de tudo isso, Abelardo, -- ele gritou – o certo é o dr. Getúlio Vargas pegar esses malucos, com seus cacarecos e tudo, e jogá-los na China! Ou você não acha?
            Achei, continuo achando. Os paulistas são perturbadores. Quanto ao testamento, o falecido me legou, em diferentes valores, setenta e cinco por cento de todo o seu espólio, não tão vultoso como foi e tem sido assoalhado. Os vinte e cinco por cento restantes, em sua maioria, foram entregues à sra. Lourdes Carvalho Assumpção Borges, presentemente à residir na Calábria, ora numa outra vilazinha, como atestam os postais que me envia com religiosa regularidade. Narda a definiu como “uma mulher em busca”. E aduziu, interessada: “Fascinante, Abelardo, fascinante”. Ela amou, de fato, o senador Petrucci e fez questão de seu nome integralmente impresso. Porque, ela viúva, não se casaram é, para mim, um mistério.
            Ainda no que se refere às disposições testamentárias, unicamente lamento as canseiras de duas obrigações:
a) – devo manter permanentemente floridos dois túmulos no classe média cemitério da Quinta dos Lázaros, Bahia: o do pai do senador, sr. Vincenzo Petrucci, -- aliás, pelo retrato, homem avantajado quanto a porte --, e o de um certo Arimar Cardoso, de quem o senador, quando jovem estudante, foi colega na Faculdade de Direito, fim dos anos dez, início da década vinte;
b) – devo, igualmente, todos os anos, em janeiro ou fevereiro, comprar jangada já bastante usada, atapetá-la com flores as mais alegres, provê-la com garrafões de vinho tinto, de sempre mais caros salames e queijos populares calabreses, e fazer com que uma lancha a reboque, vazia de gente tal jangada, até os começos do oceano Norte baiano. E ali abandoná-la ao sabor e aos caprichos das águas, “bem onde – ele explicou – as ondas não fraquejam e não morrem”. Diante de tal exigência, contida no testamento, mostrei o espanto dos repentinamente surpreendidos. O senador, então, disse:
-- Papai, eu, tio Leonardo, Lisa, guiados pelo bom Deus, nós encontraremos as jangadas, ano após ano. Faça o que eu mando, Abelardo, ou perseguirei você até o mais abissal dos infernos!
Tenho obedecido, por via das dúvidas...
Cris é o carinhoso apelido de Cristovão. Cris, compreenda, faça esforço para compreender o motivo desta minha viagem em busca de Narda, mesmo esteja na Calábria ou em Moscou ou no Tibet. Bobo! É tolice pensar que fujo de você para sempre. Acontece que não posso recusar o silencioso desafio que Narda me lançou naquela tarde em que, você desesperadamente ausente do Campo Santo, nós demos à Marluce sua última morada.
Se eu não regressar até o dia 25 de fevereiro, cuide da jangada – e esta é uma ordem! Ivo o orientará. Ivo o admira muito, Cris, e me tem sido um servidor fiel. É diante de todos, e aqui atendendo ao seu desafio – “façamos o jogo aberto”, ou você recuou? --, que mando um até breve, querido, até breve.
Guanabara, 5 de janeiro de 1970.

A.     D’Antunes   
                


ESCLARECIMENTO – I


            Antes de dar a palavra ao senador, para um relato que se desdobra em sete partes, devo esclarecer que o de certo modo saudoso homem contratou-me como secretário particular quando em 1933, já deputado estadual, aspirava à Câmara Federal. Uns tantos mil réis, casa e comida. Feita as contas, não me arrependo.
            Ao contratar-me não desejou apenas um rapaz, promissor jornalista, em condições de promovê-lo, ajudando-o em discursos, artigos, entrevistas, pareceres e o mais que a tanto dissesse respeito, conforme o apalavrado. Desejou além, indevidamente, a escutá-lo horas e horas. Creio ter sido o primeiro “audiente” remunerado, senão no Brasil pelo menos da Bahia. E quis usar-me, também, como uma espécie de guarda-costas. Quanto ao nosso relacionamento pessoal foi meu primeiro grande erro. A propósito, é melhor transcrever trecho de uma das “notas adicionais” escritas para aclarar esta narrativa. 1933 o ano e o texto remete-nos a um comício no Largo do Teatro (já, na época, oficialmente, Praça Castro Alves), reunião que poderia ser, como foi, bagunçada por adversários políticos lá com suas verdades e, sobretudo, encastelado no Poder. Sugeri:
            -- É melhor o senhor não ir.
            -- Conselho e água-benta só se dá a quem pede, Abelardo. Iramos.
            Fomos. Mas, que fale o senador:
            “... o melhor, resolvi, o menos perigoso, era emudecer sobre as questões que suscitavam polêmicas idiotas, no entanto travadas com fúria, paixão, temeridades. De outra parte, ponderei, faria de mim um maricas se, em manifestações públicas como aquela, eu me reduzisse a ensinar aos eleitores de que modo deviam ser preparadas ‘babas-de-moça’ ou ‘quindins de yayá’. Cabia-me, sim, a todo custo, buscar o equilíbrio, contentando os gregos sem impor desgostos aos troianos.
            Eis que, na véspera do grande comício, presumivelmente muito concorrido – em verdade só apareceram alguns dos nossos, alguns adversários, além dos habituais farricocos (1), uns tantos policiais que eram deles --, animei-me a discursar, não obstante desaconselhado pelo Professor (...) Disse-lhe, e à Lucinha repeti, dispor de argumentos capazes de empolgar até os farricocos e que teria em meu lado, qualquer violência ocorresse, um rapagão como Abelardo (2). Alçar-me-ia, afirmei-lhe, acima das facções desvairadas e desavidas por miuçalhas.
            -- Há que por cobro nisso, Professor. Há que colocar a Bahia acima de tudo.
            Abelardo e a tese superior, ótimo, papai e tio Leonardo lá do céu enviando-me estímulos, magnéticos, e fui ao meeting. Aqui permito-me uma digressão. Naqueles anos, a boa técnica recomendava, em comícios, que os melhores oradores fossem os primeiros. Não existiam os alto-falantes. Julgava-se hoje a empostação como novidade. Tolice. A voz, os de minha época, sabíamos tê-la empostada, usando-a, tanto quanto as pausas, com precisão: éramos consumados atores, embora nossos mestres, na arte, fossem os amigos e os espelhos, estes mudos, aqueles exigentes de melhor desempenho. Fui o segundo, e o primeiro declamador profissional, deu o tom embasbacante. E assumi-lhe o posto e fiz o elogio da Bahia, a necessidade de reencontrarmos a grandeza ímpar do nosso passado glorioso, soltando algumas frases pacientemente decoradas:
            -- Se pertenço, e pertenço com muita honra, aos quadros da oposição estadual, oponho-me de igual modo, aos Poderosos Federais, a incidir em passageiro equívoco.
            Ninguém entendeu nada, ainda bem, e fui em frente:
            -- Nesse transe, reclamando pela luz do entendimento e d razão, luto e não cessarei de lutar pela Bahia, a nossa eterna Bahia, aureola pelas lições do nosso Sábio Maior, Ruy Barbosa, e pela altaneira poesia do Insuperável Gênio, o vosso e o meu Castro Alves. Deles direi, como digo, que as suas efígies imorredouras estão impressas em nossos estandartes, em nossos baianos corações.
            Sonora tirada, pois não, mas a massa, em baixo, de olhos no palanque, permaneceu fria, ela que, antes, se mostrara comovida com o poema “Lágrima de Mãe”, um bestialógico do declamador profissional. Todos, no bolo os adversários, absolutamente todos, esperavam que, a exemplo dos oradores habituais, eu fizesse malévolas insinuações contrárias ao respeitadíssimo senhor capitão que governava (3), coisa que não me interessava. Coisa que me seria prejudicial, eis que no interior do nosso vasto Estado, dádiva do senhor, os meus correligionários excetuavam-se entre os hostilizados pelo partido governista. Olhei cada olho, estudei cara e cara. Em todas e em os olhos, por diferentes propósitos, havia a mesma ordem irracional: ‘xingue o homem, xingue!’ Puta merda. Era como se ordenasse a Pilatos que absolvesse Cristo e lhe fizesse cafuné, embalando-o com lânguidas modinhas. Lógico, não podia ser, e mantive minha linha:
            -- Antes que existíssemos, os que aqui, neste largo histórico, em comunhão agora estamos, existia a Bahia, e a ela, senhores, à nossa Bahia, todos nos curvemos, em reverência ao passado e em luta para a construção do futuro.
            Um dos nossos, mais baderneiros, cochichou-me: “deixe de frozô, Petrucci, malhe os descarados!”. Não lhe dei trela, prosseguindo:
            -- Sim, a Bahia, antes de tudo a Bahia, e todos e tudo unidos no examinar a fundo suas queixas, seus reclamos, pressentindo suas aspirações de terra mater do Brasil, aspirações de hoje e as dos amanhãs, que já se anunciam nas fímbrias de um horizonte onde o azul do mar – olhai-o! – e o verde da esperança de mãos dadas marcham a indicar novos caminhos, novos tempos. Caminhos para todos nós, todos, sem exceção, com casto amor filial.
            Bobagem o propor olhar o mar de noite, buscar azul de noite, estava uma escuridão danada, mas ao insistir no “todos nós, todos, sem exceção”, implicitamente incluí os homens do partido oficial. Calhou bem e tanto que a malta dos adversários foi-se afastando, ostensivamente. Quem, no entanto, me assegurava não terem ali deixado um espia? Não tínhamos os nossos, treinados para decorar frases, períodos, parágrafos, recitando-os?
            Tática mantida – Bahia, grandeza, Ruy, glorioso futuro, Castro Alves, etc. – na operação vi-me interrompido, um gaiato a gritar com esculhambada voz:
            -- Basta de frouxidão! Abaixo os holandeses (4).
            A canalhice contagia e outros pegaram o pião da unha:
            -- Botem um macho prá falar! Chega de frouxidão!
            Raciocinando com rapidez, percebi que: 1.) – era essencial terminar a imprudente intervenção oratória, terminá-la logo; e 2.) – devia reagir contra o principal frenético, fiado na proteção de Abelardo e na possivelmente numerosa turma do “deixa disso”, sempre benemérita. Assim, forrado de boas expectativas, cumpria-me confundir, com resposta, o moleque aparteante, dando prova da coragem conferidora de prestígio, eis que covarde, covarde mesmo, nunca fui. E bradei, pulmões em fogo:
            -- Um “Não-Sei-Quem-É, cujos traços de tipo lombrosiano daqui bem identifico, aqui e agora, receberá o castigo que merece.
            Fez-se silêncio e avancei, incontrolável minha justa ira:
            -- Contra este vosso candidato, baiano, patrioticamente baiano, ele empregou o chulo vocábulo “frouxidão”. É um provocador, correligionário, amigos, um reles provocador. E (note, Abelardo, sutil alusão à Holanda...) um provocador vindo de terras que não são as nossas (aí, Abelardo, apareceu junto ao nanica um negão que deve ter feito alguma coisa nele, eis que o safado gritou um ‘ui,ui’!), estranhas terras que não são as nossas, estranhas terras estercadas por fezes de urubus pestilentos. É este energúmeno que quer atrair-me para um terreno que não é o nosso e nem o vosso, heroicos baianos. (O negão lá, segurando o nanica). Não recuso, porém, o desafio mas à pútrida lama não desço. Capadócio, em tal lama arraste-se você e ouça, animálculo, ouça: frouxo, maldito estrangeiro, frouxo é a puta-que-o-pariu!
            Rodopiei os olhos, querendo avaliar reações, e no giro, ao completá-lo, não vi mais nem o negão e nem o nanica, Abelardo ao meu lado, indômito, fiel.
            No entrementes do giro ocular, chocante o palavrão (hoje a profonia é moda), o ‘comitê’ organizador do comício – havia um velhote surdo que não entendia picas do acontecimento, eu inda rio quando lembro a cara dele – agiu prestamente. Fez apagar as pálidas luzes do palanque, enquanto eu gritava que não me segurassem, eis que, por não admitir ofensas à minha honra, iria esmigalhar, com balas, as fuças do bandido.
            -- Exijo que me larguem!
            Não largaram, perfeito.
            Tudo saiu superlativamente perfeito. Tanto que, além de salvo e livre, pouco tempo depois, já no gabinete do Professor (...), do assunto não tratei. Pedi chocolate e sequilhos, interessando-me por informações sobre o estado de saúde de dona Carmen. Coitada, a erisipela avançava.
            Lucinha foi quem puxou conversa sobre os acontecimentos do meeting. Não me fiz de rogado e narrei o episódio, evitando os pormenores e palavrões, mentindo ao dizer que minha arma fora roubada, afirmando:
            -- Jamais comprarei outra. Estive a minutos de ser um assassino.
            Devo ter sido convincente, mas a arma é utensílio que nunca pretendi à minha disposição, em qualquer minuto de minha vida, vida que agora se esvai na quentura amiga do corpo de Nezinha (5) e some enquanto me cresce a certeza de que o Senhor Todo Poderoso, bem sabemos das grandes tempestades e dos grandes estios de tantos anos, me poupará do inferno e não me fará Cavalcante (6).
            Voltemos à cena do comício, que os leitores não devem ser suplicado por indagações. Quem era o negro?
            Não sei. Um admirador, quiçá, descrente que sou quanto a Anjos da Guarda e Santos. Abelardo (como você foi corajoso naquela noite!) retirou-me do palanque, o carro de minha propriedade já a nos esperar. Ele, contudo, permaneceu no Largo do Teatro, disposto a descobrir o provocador, dar-lhe uma lição e recomendei:
            -- Aja com energia, mas não exceda.
            Contou-me, quando cheguei em casa, haver empurrado o nanica à deserta Ladeira da Montanha, aplicando-lhe boa dúzia de “vá cagar” e alguns merecidos bofetes, com prazo para deixar a cidade. O descarado sumiu mesmo e o negro amigo jamais o reencontrei, mas – é estranho, como a vida é cheia de mistérios – sentia sua presença protetora por onde andasse. Vejo, agora, senhores, em amarelecido recorte de jornal, que Abelardo fez mais. Sim, reconheço. No matutino em que trabalhava, imparcial mas simpático à oposição comedida, em reportagem detalhada, explicou que eu, reagindo contra malfeitor aliciado por comunistas deletérios, não trepidará em dar ao sujeito, “com palavras veementíssimas e exitoso esforço físico, o troco devido”. Você me irritou muito, Abelardo, mas me salvou de poucas e boas. O meu testamento dirá o que hoje penso a seu respeito.
            Esta é a versão do senador. E, na ocasião, como ele, assim também muitos pensaram. Eu poderia queimar esta “nota adicional”. Talvez só o dr. Nazareth a tenha lido. De resto (outra expressão que o senador utilizava a torto-e-a-direito), usá-la e as demais foi algo que ficou a meu critério. Não bastasse tanto, o próprio dr. Nazareth advertiu-me:
            -- Não faça livro grosso que ninguém lê livro grosso.
            E isso me foi dito – Nezinha é testemunha – durante a cerimônia fúnebre. Bem, mas prometi a Marluce, a Cris e a Narda que faria o jogo da verdade, na medida do possível. É uma experiência a mais.
            É certo que redigi a reportagem. O tal aparteante, um tanto atarracado nas sem nada de nanica, era um autonomista apaixonadíssimo (7) e sentiu-se frustrado. Esperam-se “graves denúncias” contra o Governo e a verdade é que o senador Petrucci fez um papelão, só ao final se recompondo. Os chamados “corretivos físicos” foram aplicados, mas não fui eu o autor da lamentável proeza. Durval, um bitelo de negro, espécie de cria de minhas tias (cedo perdi mãe e pai, elas me acolheram, me educaram), é quem fez o “serviço”. O aqui referido e outros. Mais faria, às escondidas e por gosto, se aceitasse convite para me acompanhar Brasil onde eu fosse. Não quis abandonar as “dindinhas”, como chamava Tia Cândida e Tia Inácia. Jamais embolsou um centavo de gratificação. Amava os perigos, participando de conflitos com os quais nada tinha a ver. Estará morto, talvez e, no fundo, um homem bom no seu primarismo: a gratidão, nele, assumia força religiosa.
            Quanto a mim, no burburinho, fui repórter e só. Toda violência, seja qual for, é estúpida. Todo o violento é carente de inteligência. Isso me aproximou do senador. É ainda esse entendimento que me prende a Narda: Marluce era sexualmente violenta, agressiva, na cama era como um animal sedento. Coitada!
            Talvez esteja me alongando, e fazer-me maçante. E há, ainda, explicações a dar.
            Se aceitei simular a condição de guarda-costa do senador do senador Petrucci, fi-lo porque contava com Durval e, confesso, já naqueles anos, bem jovem, minha aspiração era a de sair da Bahia, era a de ganhar o mundo, o Rio em primeiro lugar. A Bahia era e é uma terra de velharias, de pessoas abelhudas, gentes pobres e feias, sem movimento, sem atrativos. Agora que conheço quase todos os países civilizados, afirmo: o Rio é uma maravilha. Ipanema, Copacabana, Leblon, ah! eu amo o Rio.
            Este livro não é o planejado pelo senador. Pertence-me mais do que a ele. Diabo, a sombra desse homem maldito me persegue. É um inferno.
            Peço atenção para as notas a seguir:
            (1)-- Ele gostava de palavras em desuso. Farricoco, aqui, significa “gatos pingados”. Ou seja, pouca gente. Ao comício compareceram, no máximo, umas cento e setenta ou cento e oitenta pessoas. (2) – Tinha e tenho corpo atlético e continuo a cuidar de minha aparência. O senador por sua vez, não era destituído de atrativos, apesar de magro. Sexualmente foi muito capaz. (3) – “Capitão que governava”, o hoje Excelentíssimo Senador General Juracy Montenegro Magalhães. (4) – “Holandeses”, era como os autonomistas designavam, pejorativamente, os partidários do General Juracy Magalhães, pelo simples fato desse eminente brasileiro ter nascido no Ceará e, como Interventor, assumido o governo baiano com a vitória da Revolução de 1930. O senador nunca se empolgou por esse tipo de confronto político considerando-o “uma burrice de ambos os lados”, acentuando: “E então vamos cavar votos à direita, à esquerda, no centro, em cima, em baixo, entendeu? E coco prá eles, ou não deu certo? E venha a nós os votos, os queridos votinhos”. Em momentos assim, de euforia, falava de modo engraçado, inobstante carregasse nos palavrões, jamais ditos em público. Nós os influenciamos, preservadas intimidades que guardei de devassas, em consequência de aparentes discordâncias. É disso que quero me libertar. Também disso. (5) – Nezinha. Este o apelido da jovem enfermeira prática que contratei para assistir ao senador: administração de medicamentos, dietas, conversações, leituras, etc. Afeiçoaram-se e o relacionamento não era somente profissional, nem o de amantes, nem de “pai” para filha. Segundo o dr. Nazareth, Augusto Nazareth (por sinal ele é o inomeado “professor de francês” mencionado em um dos capítulos a seguir) havia tudo isso “e mais o que não sabemos”. Ela o descobriu morto, nu, como que sentado na escrivaninha, a cabeça sobre luxuoso exemplar da “Divina Comédia”, texto em italiano. Não nos apelou. Sozinha, arrastou-o para a cama, lavando-o com toalha felpuda, vestindo-o dos sapatos à gravata, as ossudas e longas mãos cruzadas sobre o peito. Então desceu a escada de acesso ao primeiro andar:
            -- O senador está morto. Agora eu vou para minha casa.
            Certo, além do bom ordenado, Nezinha recebeu, presentes dados à nossa vista, valiosas joias. Poderia não ter ido ao enterro, mas foi. Quando partiu, dr. Nazareth me disse:
            -- Tomara eu esteja errado, ela morrerá cedo. Ama muito e não ri e não chora. Você tem o endereço dela?
            O senador impressionava as mulheres com bastante facilidade. Captava-lhes o afeto. Só fez, ao que eu saiba, um amigo, o dr. Nazareth. E, talvez, o colega Arimar. Ele lutou por minha amizade. Neguei-a. Impossível dominá-lo, eu me tornaria seu capacho. Tentei, uma vez, defini-lo e Narda me interrompeu:
            -- Querido, você não é capaz. Eu sou. Quanto a você, livre-se dele, o quanto antes. Desvencilhe-se que ele é uma sombra pesada demais. (6) – Não sei quem é esse Cavalcante. Talvez um personagem. Sobretudo no Rio, se tenso, nervoso, dirigia-se à sua ampla biblioteca e dizia-me: “out, Abelardo, out, quero ficar sozinho”. E, como narra, conversava com personagens, autores. (7) – Autonomismo. Os autonomistas eram também conhecidos como “mangabeiristas”, partidários de Otávio Mangabeira, político baiano muito sagaz, educado e bondoso. Uma das poucas ordens do senador Petrucci que desobedeci foi a de tentar escrever a biografia desse notável baiano, portentoso como orador. “O Mangaba – disse-me o senador – é gostoso como a fruta que lhe dá o nome. Capaz de falar horas sem dizer quase nada, ele se compromete somente com algumas ideias cardeais – e fica a salvo de interpretações malévolas. Eu o invejo com todas as minhas forças, mas é uma inveja calma: nós nos tratamos muito bem, embora sinta que ele não me aprecia muito”. A biografia teria como contraposto o seu não menos respeitável irmão: para este, nada, e tudo de bom para Otávio... É que o dr. João Mangabeira, de tendência rubras, “aprontou”, para usar moderna gíria, poucas e boas para o senador. Não escrevi biografia nenhuma, embora tenha preparado uns apontamentos, discutindo-os com o único patrão que tive em minha vida. E, agora, meus talentos e meu tempo voltam-se para outras curiosidades. Em todo caso, saibam os jovens leitores, mereçamos eu e o senador a honra de tê-los, que Otávio Mangabeira foi o líder autonomista, nos anos trinta, adversário dos holandeses ou “invasores” da Bahia. O antigetulismo os uniu e então, triunfando o bom senso, “invadidos” e “invasores” deram-se as mãos e, certamente, hoje são felizes, Graças a Deus.
            Agora, enfim, a palavra ao senador e aos que, eu entre muitos, vivemos, a contragosto ou não, o seu tempo, o seu mundo. Mundo e tempo que acredito contido em versos de um poeta (Antonio Machado?) que o senador amava:
            “E este hoje que olha o ontem; e este amanhã
            que nascerá tão velho”.
            Guanabara, 3 de janeiro de 1970

            Abelardo D’Antunes 





PRIMEIRA PARTE






Admiror Nec rerum solum sed verborum
elegantiam. Ou seja: “Admiro-me não só
das coisas e sim também da elegância das
palavras”. É pertinente brocado latino.




1.


            Morávamos na Pituba, o mar na porta, uma casa de remediados, a única de telha-vã naquelas redondezas. As outras, disseminadas ao longo da praia, cobertas com palhas de coqueiros, eram habitadas por pescadores. Tio Leonardo, íntimo de Deus, dos peixes, dos homens, quem sabe amigo até dos fantásticos cavalos-marinhos, de fervoroso amante das inquietas estrelas, tio Leonardo morava conosco: iluminava o quartinho dos fundos.
            Meu pai bebia. Cantava e bebia, italiano, filho da Calábria, exímio artesão do couro. Brasileira era minha mãe, fêmea bem dotada de ancas e peitos, lábios carnudos, amorenada. Nunca a vi sorrindo enquanto meu pai viveu. E de seus olhos, juro, nenhuma lágrima, o menor sinal de pesar, quando tio Leonardo resolveu morrer. Eu me recordo, ela disse que era idiotice aquilo que alguns pescadores estavam a fazer, arriscando-se na escuridão para encontrar a jangada na qual tio Leonardo saíra em busca do oceano Norte.
            -- Morreu, morreu, acabou-se, pronto – ela disse, gestos de pessoa enfadada diante de tanto rebuliço. E embora soubesse meu pai triste, caminhando na praia, não o foi ver.
            Mulher miserável. O suco dos tomates e dos sangrentos nacos de carne, suas unhas afiadas, duras, neles penetrando, esmagando-os, escorria entre os dedos crispados. E caía – aquele caldo temperado com ódio – caía, aos filetes ou aos pingos, sobre o macarrão, de fios grossos, serpenteando no grande tacho de cobre. O jantar. Semanas e semanas após a morte de tio Leonardo, o mesmo macarrão, o mesmo molho. Uma noite, exasperado, ele gritou:
            -- Inhoque, burra, amanhã quero inhoque!
           
           
            De novo papai cantava. O vinho era denso, amargo, de barril, vinho cor de sangue pisado. Eu gostava de bebê-lo, apenas um dedo, ou dois, na caneca de alumínio. A bebida amornava o metal frio. Minha mãe meneava a cabeça, a dizer-me não, Tonho, não beba, e com os dedos da mão direita, cuidando que meu pai não lhe visse o gesto, configurava ameaça de beliscão. Eu bebia sem medo, papai gostando, a cara gorda, vermelha, dentes grandes, as mãos cabeludas, de muitos calos, ásperas, mãos curtidas, marcas de cicatrizes. Ele gostava de pô-las em meu rosto, comprimindo-me as faces, esforço de afago, a murmurar frases que eu não entendia.
            Localizava-se no Taboão, bem distante da Pituba, a sua oficina. Acanhada, fria, escura, encravava-se em um dos sobradões de três a quatro andares, quase à borda do despenhadeiro, lá em baixo, perto, a rua do Papel. Dali, como que um privilegiado mirante, podíamos ver a colina do Bonfim, no alto a Igreja solitária, e então ele fazia o sinal da cruz, olhando-me como se eu devesse repetir aqueles movimentos. Obedecia, imitava-o, mas preferia espiar à esquerda e reparar no porto improvisado, na ilha de Itaparica, adivinhando as rochas da Barra, e, além, no mar que se estendia, imenso, mar que tio Leonardo conhecera pedaço a pedaço, mar que para mim era o grande ventre do mundo. Uma intuição que conhecimentos posteriores mostraram ser verdadeira: a Bahia é uma cidade do mundo. Excluída a paisagem, basicamente ela nos chegou de fora, coisas e gentes se amalgamando, portugueses, negros da África, árabes, turcos. Papai tinha uma espécie de nojo dos ingleses.
            Todos os dias, cedinho, ao sair para o trabalho, caminhava muitos quilômetros. Alcançando a encosta de Brotas, galgava-a e punha-se a esperar o bonde, puxado a burros, que o deixaria na Baixa dos Sapateiros, onde o Taboão começa. Nos feriados, de volta, ao meio-dia, fazia a pé toda a jornada, bebendo tragos de cachaça em quantas bodegas fosse encontrando. E cantava, sempre. Juntos fizemos, inúmeras vezes, aquele percurso, para outros demasiadamente longo e cansativo, para nós, o rei e seu filho, uma festa de inesquecíveis repetições. Cantava “Oh! Mari/ Oh! Mari” e olhava-me e perguntava:
            -- Bela você, no?
            Eu sorria, batendo a cabeça, a concordar, sim, pai, sim, bela voz, belíssima voz, e ele, bem mais feliz, voltava a cantar, avançando pelos descampados. (Repare no retrato dele, Abelardo, repare: quase um gigante. Destrua este retrato. Destrua-o e esta é uma ordem. O de tio Leonardo, há anos queimei-o, lá em Brasília, não no apartamento e sim na chácara, numa das minhas noites de insônia, dúvidas e devaneios) . Nos caminhos que fazíamos, não poucos o saudavam e ele acenava para todos, a alguns dizendo coisas, em geral a barba por fazer. Marchava rápido, intrépido, os borzeguins a rangir. Para acompanhá-lo era necessário que, de quando em quando, eu corresse.
            -- Aqui! Aqui! – gritava e eu, quase sem fôlego, a ele me reunia, tomando-lhe a mão lixenta, manopla de herói. Ah! Figlio... – e me carregava. Concedia tempo suficiente para que minha respiração voltasse ao normal e prosseguíamos e sentíamos como nossos os prados e os enladeiramentos que se sucediam, terras e areais da cidade que muito lentamente se iam expandindo na direção da orla atlântica. Falava, sempre falava. Debicava de mim, a dizer-me um molengas, historiando que eu sua terra calabresa, garoto e adolescente, ele e tio Leonardo divertiam-se a vasculhar cavernas de montanhas, mesmo as mais recônditas, assim estabelecendo intimidade com uma natureza que eu imaginava árida e violenta. Era com relevo que lhe ouvia as descrições, garantindo-me – ou melhor, jurando – que quando crescesse seria tão forte quanto ele, livre, valoroso, alegre, em condições de repeti-lo em tudo. Dizia-me, cada momento com maior obstinação, que só não o imitaria na escolha da mulher, que a minha, ainda sem rosto, seria alta, branca, capaz de beber e de cantar, de sorrir e correr pelas praias, e distante iríamos, muito, muitíssimo distante, vencendo as ondas e os vagalhões. Iríamos até onde mar e céu se encontram, precisamente no local que tio Leonardo chamava “o grande útero oceânico, fonte do sol e de Deus, oficina para a invenção do arco-iris”.
            Mulher diferente não me serviria. Muito menos se minimamente parecida com minha mãe.


            Na loja, a trabalhar, habituara-se a murmurar frases ininteligíveis, acredito que ora imprecações, ora lamentos energéticos, sobretudo nas semanas imediatamente seguintes ao desaparecimento de tio Leonardo. Talvez ao irmão se referisse, talvez nele pensasse quando, a mirar a Igreja do Senhor do Bonfim, se persignava. Intrigante é que, não raro, ele sorria: não tinha medo. (Morrer, Abelardo, morrer! É uma certeza terrível, esta, a de que estamos condenados a morrer. Todos nós, sem exceção. Vou beber o conhaque húngaro que Ivo comprou. Por que diabo você descobriu tão tarde um homem da compostura, da civilidade e do bom gosto como esse Ivo? Ele também vai morrer. E você. Vou dormir que o sol está chegando. Goste de mim, Abelardo, porra, deixe-se de cerimônia). (Sabe como eu gostaria de morrer? Assim, o sol chegando, um arco-íris, me transportando, levemente, para o grande útero oceânico\).
            Era na loja, ao lado do nicho pobre de imagens, que meu pai guardava o retrato de tio Leonardo, preservando-o com férvido amor. A fotografia mostrava um rapaz de olhos claros, feições entre severas e alegres, parecendo rir e, no riso, um quê de espanto e outro de interrogação. Intrigante suas feições, Criança, despreocupavam-me enredo deste jaez, mas um dia algo me fez perguntar porque tio Leonardo fora temerário a ponto de arriscar-se sozinho, a desejar tão longa distância, na direção da oficina dos arco-íris, papai não me deixou concluir a frase, -- merda, Tônio, merda! --, deixando de lado a pelica em que trabalhava, saindo de banda. Um dos ajudantes, chamava-se Lobo, impediu-me de segui-lo em direção ao despenhadeiro.
            -- Ele vai rezar, é só isso.
            Então contei que tio Leonardo pedira emprestada a jangada velha do homem de dona Jerusa e, nela, sozinho, gritando ciao, Vincenzo, ciao, Tônio!, largara-se na direção do oceano Norte, e levava um garrafão de vinho tinto, pedaços de salame, broas, por que, seu Lobo, por quê?
            -- Só seu pai sabe, mas não pergunte. Nunca pergunte.
            Em outra ocasião, meses e meses, depois da missa de ano pelo morto, rezada na Igreja do Rio Vermelho, missa paga pelos pescadores, era noitinha, ouvi da porta de casa, meu pai gritando com mamãe, e espiei:
            -- Leonardo foi parido, burra!
            Ela se escondia, junto da janela que dava para o quintal.
            -- Foi parido com sangue, fezes, urina, foi parido com amor. Você, cretina, você foi cagada. Você saiu pelo buraco de trás! Você foi expelida como um coco qualquer.
            E cuspiu-lhe na cara. Chorei e para que ele não desconfiasse do medo que sua violência me causara, fui à praia e molhei o rosto com água salgada e fria; se me perguntasse porque aquilo, um procedimento inusitado, eu mentiria: um afogamento no rosto, estava brincando de chicotinho-queimado. Nenhuma atenção para minha presença, saiu de casa, andando à toa, de um lado para outro. Dormiria em seguida, era sempre assim, no pequeno quarto que fora de tio Leonardo. Ali ela não entrava. E, se o quisesse de volta, teria que caminhar até o Taboão, humilhando-se. Ignoro como ele reagia. Mas sempre retornava.
            Em certas tardes, quando lhe dava na veneta, fechava a oficina mais cedo e, de cambulhada com mascates, meganhas, gentes outras que eu não identificava, descíamos a ladeira íngreme, quase sempre barrenta, que terminava em pequena praça, a poucos passos da rua Guindaste dos Padres, e então andávamos em direção ao mar da baía de Todos os Santos e perto do porto permanecíamos a olhar os navios estrangeiros que chegavam para descarregar caixotes, além de volumes mais pesados, trilhos, sempre muitos trilhos (ah!, Abelardo, os brutos assassinaram nossas ferrovias – e eram tantas!), em troca recebendo sacas e sacas de açúcar, fardos de fumo, toros e toros do precioso jacarandá hoje tão vasqueiro em nossa terra. Cacau? Não se falava ainda, que eu me lembre.
            Se divisávamos algum navio de bandeira italiana, meu pai se excitava. E, todo contentamento, apressava-se em fretar uma catraia e partíamos para abordá-lo e ele gritava para os marinheiros e em muitas oportunidades  subíamos nos conveses, cativando-os, e aos oficiais, com ofertas de quinquilharias compradas a dez-réis às mulheres que, na Pituba e em Itapuã, trabalhavam  no aproveitamento artesanal das cascas de coco seco. Conversavam, o máximo possível, ele e os tripulantes, enquanto eu, maravilhado, reparava nas armações de ferro, -- para mim construções de indispensável brutalidade --, nas águas sujas de óleo e queimados pedaços de madeiras, nos cascos negros dos grandes barcos. Principalmente, eu reparava aqueles homens, em geral fortes, troncudos, que vinham de terras estranhas, heroicos amigos, generosos quando nos ofereciam garrafas de vinho, pedaços de queijos, salames. De volta à catraia – não havia ainda porto, os navios ficavam no largo --, quase sempre meu pai se mostrava triste. Numa ocasião dessas, vi, chorou mansamente e imaginei que um dos bravos marinheiros mencionara tio Leonardo. Percebi-lhe as poucas lágrimas. Ele tentou disfarçar, escondê-las mas eu as vi, não o temesse beijaria seus olhos úmidos, e o amei mais do que nunca. Era rei e era homem, força e ternura combinadas.


            Visitavam-no, quase todos os domingos, seus ajudantes mais aptos aos serviços e à amizade. E alguns patrícios italianos, igualmente artesãos do couro. Com exceção do sr. Giuseppe, indivíduo caladão, os convivas eram comunicativos, algazarreiros. Os da terra pitubana, inclusive dois ou três pescadores, reuniam-se na sala da frente: bebiam cachaça e jogavam dama. Ou contavam histórias. Os italianos, meu pai os agremiava no quintal, acomodando-os em tamboretes, área onde muitos coqueiros propiciavam sombras. Bebiam vinho e cantavam, e como bebiam e como cantavam!
            Na cozinha, debruçada sobre o fogão à lenha, mamãe preparava a comida, panelaço de macarrão e frigideiras. Arisco que era, a querer gozar de tudo, eu me dividia entre a sala e o quintal, olhando minha mãe trabalhar, entendendo como parte das normas que regiam a festa lhe escorrer lágrimas pela cara abaixo, simples consequência da fumaça a ofender os olhos. Culpa dela, e só. Mulher incompetente não sabia escolher entre a boa e a má lenha.
            Alto e solitário, o sr. Giuseppe abancava-se na frente da casa, sob o sol, protegido, no entanto, por chapelão de palha enfeitada com fitinhas verdes. Cruzavas as pernas finas, distraía-se a folhear revistas antigas, italianas e francesas, clichês em sépia, e quase todas traziam fotografias da Exposição de 1889, em Paris, a Torre Eiffel como atrativo principal. Por motivos que escapam, ainda hoje, à minha capacidade de inteligir as coisas, os demais, até papai, lhe tinham respeito. E minha mãe exagerava, em seguidas ofertas de água de coco. Era o primeiro a chegar, como se precisasse de pouso, era o último a sair. Não me lembro de, na Pituba, dele ter ouvido mais que o essencial. Em particular se as questões tratadas não se referiam a negócios. Neste tópico, aconselhava se lhe pediam, e sumiticava palavras, gestos. Um inglês. Depois, com jeito a significar aborrecido “se me permite”, voltava à posição antiga, esfingélico. A mim, assevero, o filho-da-puta nunca enganou.
            Concedendo-lhe privilégio, minha mãe levava-o à borda da praia, aos anúncios do cair da tarde, ausente todos os demais convidados, enquanto meu pai, à sombra do nosso coqueiral privativo, dormia e suava sobre a esteira sem forro. Uma vez na praia, caminhando, sempre inteiriçado, careca à mostra, um tanto de longe dava de testa e acenava tímidos adeuses. Ela respondia, desenvolta, satanicamente bela, e quedava-se a vê-lo desaparecer entre as então alvas dunas. O sr. Giuseppe não gostava das trilhas que conduziam a Brotas, possível medo diante do perigo das cobras escondidas nos densos matagais. Em verdade, falava-se de jiboias que esmigalhavam os ossos de bois e vacas, antes de devorá-los. Ele preferia o seguro: caminhar, mesmo que muito caminhasse, até a povoação do Rio Vermelho, ali pegando o bonde até a cidade.
            Papai, quando despertava, por volta das cinco da tarde, ou pouco mais adiante, ia à praia dos “onze coqueiros”, árvores anãs que, em noites sem lua, pareciam eriçados espantalhos. Se me atrevesse a acompanhá-lo, ordenava que o deixasse em paz, via, via via! Queria-se solitário para recordar tio Leonardo ou quem sabe a imaginar-se de novo adolescente em sua terra calabresa. Ou a planejar novos deveres profissionais. Era todo o seu mundo: a memória, a oficina, a casa, os amigos, aqueles repetidos caminhos nunca tediosos, as apetitosas lavadeiras de Itapuã, eventuais encontros com os marinheiros. Em tarde domingueira, uns dois anos após a morte de tio Leonardo, porque não o vi caminhar em direção à praia de usual refúgio para meditações, perguntei:
            -- E papai, cadê ele?
            -- Vá beber seu café, Tonho, senão esfria. Ele está com gostinho de chocolate...
            -- Cadê ele?
            -- Foi vomitar lá pelos matos. Foi vomitar a nojeira.
            Mentia, maldosamente. Ele estaria escondido em meio às dunas ou caminhando entre coqueirais, a pensar e rezar, dela e de mim encobrindo sua tristeza. Contentamento no seu modo de dizer a inverdade estúpida, o meu desejo foi o de chamá-la bruxa cagada, mentira porque um rei não vomita, e nada disse, temeroso, e alegrei-me, uma vez mais ao ver suas unhas sujas de pó de carvão, lágrimas secas no rosto. Meu pai não a tratava a pão-de-lo.



2

            Um dia santificado, dia que odeio, não por acaso faltei à solenidade de minha formatura como laureado bacharel em Direito, no maldito dia, (8 de dezembro, consagrada à adoção de Nossa Senhora da Conceição da Praia), ele morreu depois do almoço, unicamente minha mãe e a vizinha Jurema a lhe assistirem a agonia. Eu estava longe, corria picula com filhos de pescadores.
            Urrou como um porco. Como um porco a ser sangrado – minha mãe, fingindo-se de luto, contou assim ao sr. Giuseppe, de noite, no velório. Puseram-no na sala, caixão grosseiro, lenço encardido atado do queixo à cabeça, para que não abrisse a boca, desse modo permanecesse escondida língua, enodoada de vinho. Eram poucos os vizinhos presentes àquela cruel cerimônia, a mesa no centro da sala, o caixão sobre a mesa, cadeiras e tamboretes dispostos em semicírculo, todos os candeeiros de mechas acesas.
            Até mais de onze horas, quiçá além de meia-noite, permaneci na porta, sentado no “banco-de-três”, e então, sim, eu pensava na morte como a pior das desgraças. Antes a danada não existia para mim, porque no meu entendimento tio Leonardo encontrava-se apenas desaparecido, algo inexplicável, além do que conseguia inferir ou intuir, muito menos compreender. Ou uma incerteza. Meu pai, não. Meu pai estava morto. Vento naquela noite, quase nenhum, tempo pesado e a maresia forte. Eu tentava apreender o significado da informação transmitida por minha mãe ao sr. Giuseppe. Desconhecia o verbo urrar e nada sabia sobre o morrer de um porco. E esse não saber transformou o medo em pavor. Doidas fantasias defenderam-me de maiores danos. (Anos depois, Abelardo, não muitos anos, eu já rapazote, e fui ao matadouro do retiro e quis assistir um porco a morrer, ouvi-lo guinchar, a urrar, e me disseram que só de raro em raro sangravam-se porcos sob fiscalização municipal. Distinto funcionário explicou que os criadores de porcos, de resto uns poucos, tinham seus próprios matadouros, improvisados nos fundos de roças ou mesmo quintais. Sob a influência do Zito, na primeira viagem à Europa nem pensei no tema. Mas em Paris, 1945, lembre-se, a doce paz poucos meses antes alcançada, fui o único a não ir ver Dunquerque. Preferi o matadouro parisiense e lá os que me atenderam disseram-me que os porcos e demais bichos destinados aos repastos humanos morriam de modo civilizado: eram anestesiados, ou algo assim, antes do golpe fatal. Urros? Não, não, não. Nem gritos).
            Na sala, a madrugada chegando, restavam minha mãe e o sr. Giuseppe, de costas para o caixão. Ela mandou que eu entrasse e maquinalmente obedeci, loca esperança envolvendo-me, e quando o sr. Giuseppe pôs-se a fechar a porta, ouvi o não! da mulher, rouca a voz, ele não aldravasse a porta, por favor, que em noites de velório todas as portas e janelas deviam ser mantidas abertas e acesas todas as luzes da sala do morto. O sr. Giuseppe concordou, no íntimo deve ter considerado infantil a superstição, e desejei, em crise de desvario, que chegasse logo a comissão de marinheiros italianos a exigir-lhe a entrega do corpo do rei, não lhes pertencia e sim à Congregação dos Sábios Alegres e Bons, presidida por tio Leonardo, majestade numa ilha sem nome, no Grande Oceano Norte, um paraíso nós sabemos, sr. e sra. Giuseppe, nós estivemos lá, temos ordem de levar conosco o obediente menino Tônio, e ouvi – juro! – o chamado de tio Leonardo, viene, Tônho, viene com noi! e corri para praia e ela me perseguiu e alcançou e empurrou-me em direção à casa. Entre de uma vez! – gritou, chorosa, soluçante, e esperei dele uma bofetada e não houve a bofetada. Eu o aturdira. Ela determinou caminhasse para o outro lado da sala, o lado do quintal. Evitei olhar o caixão, uns segundos, e quando olhei já não era o mesmo homem de horas atrás. Estava mais morto, o rubor da face desaparecera, a pele amarelecendo, e quando, de inópino, ganhando coragem, lhe quis abrir os olhos para ver se ao menos em um deles havia sinais de vida, o sr. Giuseppe empurrou-me para o canto, quase um safanão, se acostume, Tonho, não irrite sua mãe! e eu fiquei naquele canto, de pé, agora muito maior o medo, porque além da morte em meu pai, agora uma dor que certezas encorpavam, também eles agiam brutalmente contra mim.
            Eu crescera, até aquele 8.12.1911, sem curiosidades e quanto me trouxesse tormentos, com eles não queria compaginar minha e existência feliz. E ali estava e em dia santificado e naquela sala, em tudo, mesmo no silêncio, a presença do pior dos malefícios e a me impor, como real, concreto, o que para mim sempre fora uma impossibilidade permanente: o rei estava morto, ventre intumescido pelos gases do vinho fermentado e das carnes a se deteriorarem, os grossos lábios artificialmente colados, pálpebras descidas, cadáver. Besteira eu ter corrido para praia, desesperação haver imaginado os marinheiros italianos, a voz de tio Leonardo, e sensatamente me disse: estes dois aqui, sim, estão vivos, Tônho, e podem matar outra vez, e vi minha mãe apatetada e vi o sr. Giuseppe caminhar para o quarto e logo mais ouvi ruídos, os do seu corpo a mover-se na cama de ferro: ele invadia o mais íntimo dos domínios de papai.
            E fui para o outro canto da sala, aquele onde existia acesso ao quarto em que dormia. Dali, eu mirava e remirava minha mãe a alternar três movimentos básicos: sentava-se num dos tamboretes, olhos no chão, pensando; levantava-se, ia até a porta, respirando fundo; e finalmente espiava o sr. Giuseppe, decerto admirando aquele homem grande e magro, de queixada larga, muitos cabelos nos ouvidos e nas narinas, e, como depois eu viria a conferir, de ressonar compassado. Enquanto, na sala, estive desperto, nem uma vez ela olhou o corpo de meu pai. E porque comigo também não se preocupava, em mim o medo enfraqueceu, e, momentaneamente supondo-me em segurança, chorei sem soluço ou qualquer barulho. Eu chorava a maior de todas as ausências e querendo minha, somente minha, aquela dor fui para o quarto.
            Dormi sem me dar contas. De manhã, quando acordei, minha mãe surgiu com determinação peremptória: eu devia escovar os dentes – areá-los, como dizia --, beber o mingau de café e sair logo para a praia, brincar, regressasse justo na hora do almoço, nem antes, nem depois, e se acostume com os desígnios de Deus, Tonho, ou Ele castigará você; só Deus sabe o que nos convém, e reprimi as perguntas que em mim cresciam – a você, bruxa cagada, convém o sr. Giuseppe; e eu? O que me convém? – e para que ela não descobrisse meu atordoamento, eis que doía engolir indagações essenciais, marchei para o quintal. Na tina fiz as abluções e quando quis retornar à sala, o sr. Giuseppe impediu-me e minha mãe, secundando-o, as mãos a me comprimir as espáduas, apontou a praia. Vi, então, no varal, pendurada ao sol exposta, a roupa preta que meu pai odiava. A única má herança trazida da Calábria, jamais a usara, sequer na missa-de-ano de tio Leonardo. E iam, agora que estava morto, indefeso, iam vesti-lo com os panos pretos, atassalhando-o, perversa vingança.
            Na praia, decidi caminhar e caminhei, a imaginação robustecendo um medo sempre mais opressivo. Perto de trecho já conhecido como “Chega Nêgo”, alguns meninos divertiam-se a chuçar um xaréu que o mar ali depositara, peixe morto por doença, quiçá abatido pelas “cabeçadas” dos golfinhos, e chamaram-me e continuei andando e vi homens em jangadas, mulheres nos seus afazeres de terra, e chorei de novo, como o da véspera um choro sem testemunhas. (Eu nunca permiti, Abelardo, que alguém me visse em lágrimas, salvo em circunstância muito especiais. Meu pai me ensinou, em dia de catraia, que um homem de verdade deve trabalhar e cantar, domar as fêmeas, emprenhá-las, amar os filhos e educá-los para que ganhem seu próprio pão, e dormir abraçando esperanças em amanhãs mais alegres, temendo a Deus, Nosso Criador, assim um homem deve viver, guardando as lágrimas para adoçar as emoções dos bons reencontros. Eu quis ser assim, Abelardo, você sabe, mas não me deixaram. “E tudo – ele falou olhando minha alma, nela imprimindo suas palavras – e tudo feito com muito amor: o trabalho, o canto, o riso, o próprio amor. Nada se faça na fraqueza”)

            De volta, notei, havia uma carroça na porta: o enterro e era pouco mais de meio-dia. Pelas conversas depreendi que antes do cemitério, Quinta do Lázaros, um médico deveria vistoriar o corpo, capacitando-se para expedir o atestado de óbito, e o sr. Giuseppe informou que isso já estava acertado com um doutor do Rio Vermelho, ele nada cobrara de seus eleitores e não era careiro como os demais. Concordando, o carroceiro sugeriu que era hora de partir, o sol estava endurecendo, um pescador disse “sol dos diabos nas costas da gente, mas bom para os peixes”, o sr. Giuseppe anuiu, “é isso mesmo”, e observou que como os bondes-bagageiros não aceitavam cadáveres, coisa assim, tinham todos de ir andando até o cemitério, bem longe, e se você está pronta Sophia, eu vou pegar meu chapéu.
            -- Estou.
            Usava o seu único “vestido de sair”, espécie de bata creme que ia do pescoço ao chão, toda abotoada, escondido os braços roliços, bem torneados que papai, quando calmo, gostava de alisar. Ela avisou que meu prato de macarrão fora posto na mesa, eu comesse, faça tudo direitinho, Tonho, que dona Jerusa vai ficar cuidando de você. O carroceiro, um sujeito de maus-bofes, ora a apalpar o chapéu de couro cru, ora pondo-o na cabeça, olhava sem emoção o esquife de meu pai, atadas as cordas grossas, espinhentas, sujas de gorduras e poeira: elas prendiam o caixão ao reboque. Dele tinham medo, mesmo morto. Ou não exagerariam naquelas preocupações quanto a prendê-lo. O retorno do sr. Giuseppe fez com que o carroceiro gritasse eia, burro! e chicoteou o animal, a seguir puxado na direção da trilha do gado, pouca gente no cortejo atrás da carroça. E se foram, que tinham pressa, e andei, na mão esquerda o prato trazido por dona Jerusa, andei em direção oposta, desinteressado por comida, e se sucederam as praias úmidas, o mar puro, azul, alvas espumas nas suas bordas, mais de uma hora caminhei, tempo não me faltava. Itapuã, então, o sol ainda a pino, era cedo para as lavadeiras dos córregos nas imediações do Farol, certo viriam mais tarde, logo amainasse a quentura, fossem mais propícias as sombras de coqueiros, de mangabeiras, de fruta-pão e outras frondosas: eram muitas as amendoeiras com seus frutos. O prato de comida deixado entre os coqueiros anãos e estéreis, a morder, para enganar a fome, amêndoas que me arroxeavam língua, lábios, partes do queixo, atribuí-me a obrigação de esperar as lavadeiras, nalgumas ele montara, e anunciar-lhes que o rei travara sua última batalha, aquela que mínguem vence. Nunca mais, por isso, beberiam do seu vinho, nunca mais o escutariam a cantar, nunca mais o teriam as fogosas. E deitei na grama, o vento que vinha do mar a acariciar-me as pernas, o peito, o rosto, e dormir. O sono adiava a definição do ódio.


            Próxima a noite, regressei e eles não me agrediram, apesar de dona Jerusa haver xeretado sobre a comida abandonada, sobre a longa ausência. De tanto não entender – ela completou – o pobre amagriçou muito de ontem para hoje, dona Sophia, e  mamãe disse coitadinho, os dois eram muito pegados, levando-me ao fundo do quintal, onde, após banho de cuia, água morna, recebi o macacão limpo, passado a ferro-de-engomar. Desempenhava para o principal espectador, sr. Giuseppe, o papel de boa mãe, acariciante as mãos, os dedos agora livres do pó de carvão ou fiapos de carne-de-boi, um xale novo, marrom escuro, decerto comprado pelo intruso, caindo da cabeça até os ombros: juro que ela estava não direi feliz e sim descontraída, nos olhos, no rosto, sumida a tensão habitual.
            Mastiguei pedaços de inhame e fui para fora, em busca do amado “banco-de-três”, ali onde, com frequência, papai e tio Leonardo me esperavam, antes, para agrados e histórias. A noite, e uma noite muito bonita, veio logo depois, de certo modo festiva. Em certa oportunidade meu pai gritou ao ver estrela riscando o céu:
            -- Veja, Tônio, ela está caindo!
            Quando perguntei onde a estrela havia caído, em que mar, respondeu que ninguém sabia. E olhou-me – fui, então, mais do que seu filho—e disse que com certeza em um mar. Estrepolias do bom Deus – disse tio Leonardo, explicando que Deus é alegre e tanto que joga petecas usando estrelas. Mas, advertiu, às vezes erra, que o supremo de tudo e de todos também erra, e aí as estrelas Lhes escapolem e caem. Elas se afogam, elas morrem? – e os dois riram de minha indagação. Supondo-a desnecessária, não me deram resposta. Eu de mim, construí uma certeza, efêmera, sei, mas de valor alegórico: as estrelas, porque são brinquedos de Deus, não se quebram, não se afogam, sempre permanecem. Mudam de lugar no céu, mas não morrem.
            No dia do enterro, noite e o céu pejado de flores recortadas em pedaços de luz, indicando o caminho principal, ao surpreender mamãe e o sr. Giuseppe em confidência, defini o ódio como um sentimento permanente, a serviço da purificadora vingança, e esforcei-me para que de uma mentira se imbuíssem, a de que eu me encontrava desarmado de intenções a eles prejudiciais, a de que seria obediente também a dona Jerusa, a de que nunca mais iria ver as lavadeiras de Itapuã, a de que... a de que... enorme peta com muitos braços. Olharam, porém, apenas de modo aprovativo, sem qualquer entusiasmo, e minha mãe indicou-me a mesa, hora da janta. Falou para o sr. Giuseppe:
            -- Jerusa disse que estão contando que a jibóia matou um velho que dormia na rede, em Itapuã.
            -- Também soube.
            -- Eu tenho medo de ficar sozinha com Tonho.
            -- Nem deve. Se sente, Tonho.
            Onde, na véspera, fora colocado o caixão, encontravam-se, devidamente arrumados, os canecos, a travessa com bolachas-de-macaco, uma espécie de terrina as rodelas de inhame e de fruta-pão.
            -- Você devia trazer a pistola que você tem. Por causa da jibóia.
            -- Amanhã. E vou mandar afiar mais o meu facão.
            -- É bom, Giuseppe, é bom. Jerusa disse que a jibóia matou o velho e depois comeu o velho inteirinho.
            -- Também soube que foi assim.
            Bebi um caneco de mingau, mastiguei umas quatro ou cinco bolachas, gostava, e ela perguntou só vai comer isso, menino? e repeti a dose. Esquecendo a jiboia com ela não me impressionava, o sr. Giuseppe, adotando outra tática, considerou natural a minha inapetência, atribuindo-a ao tão inesperadamente acontecido, e comi mais bolacha, mais fruta-pão, e perguntei:
            -- Posso levar mais bolacha prá comer lá fora, posso?
            -- Pode, mas não demore.
            Enterrei as bolachas na areia e, estômago pesado debalde tentei provocar o vomito, apressado para que não me vissem. Chamado, com insistência chamado, voltei à casa e o sr. Giuseppe, explicando que ela ia dormir em meu quarto, sua mãe não prega olhos desde a noite passada, guiou-me até o canto para o qual, no velório, me empurrara. Ali fora armada minha cama provisória.
            -- Deixe eu dormir no quarto que foi de tio Leonardo.
            O sr. Giuseppe pareceu concordar, mas minha mãe interveio:
            -- Não. Lá, não. Por causa da jiboia. 



          Eu sabia ser mentirosa a presença da grande cobra de Itapuã. Verdade fosse, dela as lavadeiras me teriam falado; Emília, uma escurinha, a preferida de papai, haveria de me fazer mil recomendações.
            A cama limitava-se a um colchão de palha sobre estrado obtido de caixões justapostos; um biombo de chita, predominância verde, que ele trouxera na viagem de vinda da carroça, garantia-me razoável privacidade. E, apressado, me encerrei no cárcere colorido agudizando minha potência auditiva, ouvindo os murmúrios que vinham das imediações da porta principal, mamãe e ele em rápidos cochilos e demorados silêncios, agora esquecida a canalhice da jiboia, como se conchavassem os pormenores da noitada. O vento amigo, incorruptível, penetrava pelas frestas do telhado e das janelas, um zunido comum, do ontem e dos meus iniciais anos de preparação, criou apaziguadora ambiência, induzindo-me ao sono. E dormi e sonhei e sonhando ouvi a voz do rei, cheia, poderosa, alegre, na canção sobre os marinheiros capazes de conhecer todas as cidades do mundo, sem desamor àquelas de suas origens, sempre retornando. Se não me engano, “Ritornello”, este o nome da canção, e minha mãe, no entanto, chamava-se Sophia, assim, com ph e ignorava que as estrelas são brinquedos de Deus, petecas, com elas Deus se diverte e encanta o mundo, espalhando beleza e alegria; e como as coisas de Deus não morrem, as estrelas fingem o sumiço mas realmente não caem e sim mudam de lugar no céu.

INTERRUPÇÃO – I


            Dr. Abelardo, bom dia. Perdoando eu interromper e educado como o senhor é sei que perdoará este bilhete, interrompendo o trabalho, é aliás está um trabalho muito ruim, cheio de erros, é a primeira vez que uso máquina elétrica. Interrompo para dizer que se soubesse que se tratava de um trabalho tão triste, um troço que me põe na fossa, eu digo francamente que não aceitava. Pobre criança! Tem muita mãe assim mesmo, só pensando nela. Tem mãe pelaí que tranca os meninos no apartamento e se manda para jogar biriba ou buraco com as amigas, quando é mesmo jogo assim, inocente. Quando não é biriba, o senhor já viu, não é?
            Garanto que amanhã mesmo trago uma colega para me substituir e quando eu disser como se almoça aqui no duro que ela vai aceitar. Respeitosamente, assino e dato esta.
            Salvador, 2 de janeiro de 1969
            P.S. – Tá na cara que só cobro cinquenta por cento do trabalho feito. A mesma Marluce.



ESCLARECIMENTO II


            Minha cara srta. Marluce.
            Antes de tudo, e em nome do meu Mordomo, o sr. Ivo, agradeço o elogio quanto à qualidade do almoço que lhe foi servido. Posso garantir: o sr. Ivo é capaz de dias bem mais brilhantes.
            Embora não exista, entre nós, quanto a trabalho, um contrato em bases comerciais, há, digamos assim, um compromisso moral e estou esperançoso de que a senhorita não o descumprirá se a causa for a alegada. Por obséquio, não seja apressada. Erros? A rigor não os encontrei. Ou melhor, um: o nome do pai do senador é Vincenzo e não Vicenzo. Ademais, uns senões. A senhorita é uma profissional muito competente e mais será na medida em que se familiarize com esta máquina. E, de resto, teremos de datilografar uma outra vez, por força de emendas que penso introduzir no texto. É por este motivo que deste modo respondo.
            Não me visse forçada a viajar, ainda esta noite, para Brasília, questão urgente, e teria o prazer de prestar esclarecimentos sobre o finado senador Petrucci. Logo regresse,
eu o farei. Assim, senhorita Marluce, prossiga. Muito cordialmente,

            Salvador, 2 de janeiro de 1969
            Abelardo D’Antunes.


3.

Adulrerium est ad alterum thorum vel
utenum acessio. Ou seja: “Adultério é
a acessão ao leito ou útero de outrem”.
Ainda outro pertinentíssimo brocado
Latino: Sine dolo adulterium non
Committitur, Ou seja: “Não se comete
Adultério sem dolo”. 




            O sr. Giusepp escanhoava-se com a navalha de meu pai. Usava , igualemente, o pente de osso e, ainda, a escova para cabelos. De meu pai, também, o par de chinelos, a calça de pijama, a toalha em volta do pescoço. Uma inominável usurpação! Para mim tudo fora posto pelo avesso. Não me surpreenderia se a mulher há vinte e quatro horas viúva, perdendo de vez o siso e endoidecida pela repentina liberdade conquistada, se pusesse a bailar e mesmo saracotear dentro de casa, quiçá até na praia, esganiçando cantorias: ela não ficava fascinada quando tio Leonardo cantava e dançava terantelas? Não era percebível, nela, a vontade de acompanhá-lo?
            Não dançou, não cantou. Ou talvez o tenha feito, de noite, a cuidar, os dois parceiros imundos, que não os visse em esbórnias. Ela temia minha vigilância, a ponto de abandonar o hábito de beber dois ou três dedos de cachaça antes do almoço. Continuava a cozinhar e a lavar, a coser, arrumando e varrendo a casa persistindo na farsa sobre a jiboia. E dormia, ou fingia tal, em meu quarto, o sr. Giuseppe ocupando o “do casal”, a pistola no tamborete a servir como mesinha de cabeceira. (A famosíssima jibóia, Abelardo, satisfaço-lhe a curiosidade, acabou sendo morta, bem lá longe, perto de Arembepe. Jamais esteve mas imediações da Pituba, mas reconheço que o medo era generalisado.)
            E reconheço, senhores, que mamãe apenas deixava os afazeres domésticos para conversar com dona Jerusa (ensinava tricô, aprendia a fazer colares de conchas) e quando acompanhava o sr. Giuseppe à saída de casa, esperando que, de longe, na trilha de barro batido, ele acenasse. Hábito antigo, a trilha era nova. Ao entardecer, parecia pressenti-lo, esperando-o sem açodamentos, sentada no banco-de-três. Uma tarde, porém, e se não estou em erro aconteceu numa quarta-feira – exatamente um mês depois do espetacular enterro da serpente (1ª) – ,o sr. Giuseppe surpreendera pelo inesperado de sua aparição: o sol ainda estava forte . Além do mais, viera pelo caminho de Brotas, remunerando, generosamente, o cavalariano que, de sabre desembainhado, o escoltara, dando-lhe proteção contra invisíveis perigos, aos quais meu pai nunca se referira. O calhorda temia a própria sombra.
            Despedido o cavalariano, sentaram-se nas cadeiras da sala, cotovelos sobre a me

  (1ª) -- \Numa das notas adicionais conta o finado a impressão causada ao menino Petrucci pelo fato de a jibóia ter sido enterrada em meio a uma mistura de missa pagã e carnaval. Pode ser verdade. Entre as bugigangas que deixou há uma pele de serpente, mais de três metros  de comprimento, uns doze centímetros de diâmetro.

sa, e ele mostrou papéis com muitos selos e carimbos, nela numa alegria que percebi de modo fácil, uma alegria que, meu pai vivo, eu julgava convizinha do impossível. Ao darem comigo a notá-lo, tornaram-se sérios, frios, impenetráveis. Aquele alegrão, pelo visto era indivisível por três e entendi recomendável sair, adentrar-me na praia, não mais vê-los, sumir.
            E havia na praia um grauçá e eu o segui, silencioso como uma serpente. Sabia como agarrá-lo, arrancar-lhe as patas, atirando-o, depois, ao mar, fosse para alimentar peixes, fosse para apodrecer entre as algas: era uma das mais antigas diversões da meninada. \consegui prendê-lo, puxei só uma das patas, lançando-o sobre a areia; que se salvasse, não merecia meu ódio, ele e os demais que covardemente se escondiam. Eu era mais forte, poderia dar-lhe combate, vencê-los, ainda que contra mim se reunissem a milhares vindos de outras praias em hordas, traiçoeiros nos ataques. Usaria fogo para dizimá-lo. Chefiaria os outros meninos e nós os queimaríamos com fachos incandescidos, matando-os aos montes. Àquele grauçá, uma vez dominada a animus necandi (2ª) que me intranquilizava, eu disse brandamente:
            -- Esconda-se na areia, bichinho, aproveite minha bondade.
            E fui didático:
            -- Aprenda a fugir, a fingir que é alga, a fingir que é rocha, a fingir que é parte da espuma, aprenda a nadar e vá homiziar-se numa ilha desabitada que tenha frutos e cocos de boa água.
            -- Tonho, venha para casa menino!
            Era a voz dela, de pé, na soleira acimentada, gestos imperativos, e atendi. Seguiu-se o habitual: banho-de-cuia, macacão, chinelos, o jantar, e olhar as estrelas, agora despreocupado sobre a importância daqueles papéis assinados, selados, carimbados que lhe motivara a vespertina alegria. Era noite, outra vez. Ela falou;
            -- Agora que mataram a jiboia você pode, se quiser, dormir no quarto que foi do seu tio. Você quer? 
            -- Não, senhora.
            -- Então, durma no seu quarto que dormirei lá.
            -- Sim, senhora.

(2ª) – Animus necandi. Expressão latina a significar “intenção de dar morte a...” Doravante, por decisão que tomo, os leitores ficarão livres da latinice do senador, salvo quando citações latinas forem, a meu juízo, absolutamente indispensáveis. Delas o finado abusava, a ponto de cochilos como considerar – veja-se a epígrafe do primeiro capítulo – Admiror nec rerum solum sed verborum como “pertinente brocado jurídico”.
  
            -- Amanhã vou fazer chocolate para você. Você gosta?
            -- Muito.
            -- Chocolate engorda, Giuseppe trouxe o pó e dois ovos.
            -- Eu gosto muito.
            Na sala, desfeita a cela que me fora armada, luzia o candeeiro maior. Mamãe o deixava aceso, até de manhã. Pelo menos algo específico das supertições de meu pai e tio Leonardo havia sobrevivido: a luz amarela do candeeiro maior. Para indicar a presença de terra e vida, deveria existir, sempre, um foco luminoso, pequeno que fosse, de qualquer modo luz em todas as vivendas e que tal luz pudesse ser distinguida à distância, Ela avisou:
            -- Não é preciso acordar cedo por causa do chocolate. Eu chamo você, na hora.
            -- Sim, senhora.
            -- Vá andar pela praia que você comeu muito inhame.
            Obedeci, evitando outro “sim senhora”, e monologuei criancices, garantindo aos grauçás que lhes traria uma colherzinha do chocolate, manjar exclusivo dos muitos ricos naqueles anos: o pó era importado e só poucos se davam ao luxo de usar ovos na alimentação. Quando podia, papai comprava para a dieta de tio Leonardo. Cabiam-se, as vezes, duas ou três colheres, e gritava: “xô, comilão, xô”, ele sempre feliz, sempre engraçado, eu sem poder rir porque não engolir de vez a deliciosa infusão. A deglutição era feita gota a gota, ou quase isso. Depois, com a língua procurava restos no saco gengival, nos interstícios dentários. De retorno, eles e aquele papelório, não os interrompi e quando deitei, corpo e espírito pisados pelo cansaço, a boa expectativa de desjejum milionário, dormi alegre, com tempo de ver manchas de claridades nas faces das telhas enegrecidas: o meu quarto somente a parede, que ia até o teto, o separava da cozinha.
            Manhã ainda não era, à noite, porém, a se acabar começos de iluminação de Deus, tímidos amarelos e vermelhos uniam-se ao foco mais intenso produzido pelo candeeiro maior\; ruídos na cozinha acordaram-se. Ruídos que não eram os dela, facilmente identificáveis. Imaginando presença de nova jiboia (na verdade tratava-se de um gato faminto), saí do quarto à sala, querendo avisar o sr. Giuseppe do perigo – e vi os dois na mesma cama, a “cama do casal” !, ela toda coberta, um lençol de cores em conflito, retalhos cerzidos uns nos outros, compondo gigante aberração. E vi o dorso seco do sr. Giuseppe e vi sua mão direita entre as coxas de minha mãe, como a proteger-lhe o sexo; não bastasse o lençol, a mão imunda sobre o grauçá negro. Eu o conhecia, sabia-o dissimulada sob os cabelos amarronzados, já o vira aberto, escancarado, a vermelhidão do seu interior, ela nua ao lado do meu pai também nu, aquela coisa que o fazia retornar sempre, aquele poço, aquele túnel, aquele corredor entre pernas belíssimas, aquele caminho, e agora era aquela mão pestilenta – insuficiente à colcha! – que o defendia de meus olhos e dos clarões que, mais e mais testemunhadores, penetravam nas gretas do telhado, da janela, da porta principal.
            Aquela mão contaminada me esganaria se eu acendesse um facho e tentasse queimar o grauçá negro; o fogo vingador e purificante, ao crepitar, o despertaria e eu decidi que seria útil afastar-me silenciosamente, mastigando a perfídia, a traição, proibindo-me rompantes, sem provocar a ira da mão assassina. Assassina por cumplicidade. Porque – disso estou convencido – meu pai foi assassinado!
            De novo no quarto, gritei:
            -- A jiboia! Me acudam!
            O sr. Giuseppe apareceu com a pistola na mão, cobrindo-se com a escandalosa colcha de retalhos:
            -- Já mataram a jiboia, menino. Vá dormir.
            -- Então é um porco. Mate ele.
            Ouvi perfeitamente, a chave na fechadura da porta da frente, depreendi mamãe escapulindo, nua talvez, pelo lado de fora, chegar até o quarto de tio Leonardo. Pedi ao sr. Giuseppe:
            -- Abra depressa a porta do quintal.
            -- Espere. Eu vou me vestir. Não saia daí.
            Minutos depois, mamãe ao seu lado ele voltou, um gato seguro nas mãos. “Foi isto”, disse, soltando o gato. Perguntei:
            -- A senhora pode preparar logo o chocolate?
            -- Não. Hoje, não. Outro dia.
            O adiamento era decisão punitiva pelo alvoroço causado e saí pela porta do quintal. Na praia, não desfeito o rancor, em todo o caso disposto a aquietá-lo, rememorei que, antes da tragédia, o rei vivo, dono da casa, dono de tudo, ali, na cama de ferro, algumas vezes eu o vira deitado, poderoso, em começos de manhãs. Mas, somente em quatro ou cinco oportunidades foi-me possível entrever-lhe todo o rosto. Papai dormia sobre o lado esquerdo, a face voltada para a parede. (O sr. Giuseppe, Abelardo, ficava de barriga para cima, o pênis fino – reconheço de bom tamanho – sobre o saco, como uma víbora traiçoeira, cobra coral!, entre os ovos). Embora não abandonasse a posição preferida, meu pai mexia-se sempre, ora os pés, as mãos principalmente. Em certos momentos, levava a destra à cabeça, como se quisesse tapar o ouvido. (O pau de papai, Abelardo, era grande como o do sr. Giuseppe, e era grosso, uma taca, modéstia à parte). A mãozorra sobre o ouvido. Dir-se-ia que as ondas do mar, investindo contra as pedras, pareciam dispostas a acordá-lo, pesarosas pela demora de serem atendidas, ele lutava para não interromper o sono; daí porque a mão de gigante bondoso, colocando-a no ouvido desprotegido. A repetição deste gesto – e eu fugia para o quintal mal ele o esboçava – era o primeiro aviso do seu despertar. E, em seguida, de pé, ao me ver no quintal ou no meu quarto, ordenava:
            -- Viene, Tônio.
            Chamava-me Tônio, jamais Tonho, como minha mãe e outros cretinos, idiotas, estúpidos, imbecis!, nem Antônio, como o sr. Giuseppe e outros ignorantes. Tônio, voz cheia, afirmativa, e determinada, Tio Leonardo vivo, que fosse acordar o irmão, mesmo em sendo necessário sacudi-lo se houvesse sol. E juntos, na praia, correndo como crianças travessas, cantando quase sempre “Vicino ai maré / Amore, amoré”, como que davam graças aos céus pela beleza do dia. Tio Leonardo, Loquaz, com frequência repetia:
            -- Deus está feliz nesta manhã.
            Isto dito em italiano, e com a voz límpida, tinha divino sabor. (Abelardo: ele falava com uma segurança, uma certeza de intimidade e de respeito inservil, que neste momento me sinto tentado a compará-lo, no amar a Deus e as coisas de Deus, a São Francisco de Assis, o Irmão do Sol, de quem, agora, tenho necessidade de transcrever uma das suas mais belas orações: “Rogo-te, Senhor, que a força dulcíssima e ardente do teu amor se aposse de tal modo do meu espírito que, distanciando-me de tudo quanto haja neste mundo, me torne merecente de morrer de amor por Teu amor, uma vez que Tu, por amor do meu amor, Te consentiste morrer”.  
        Note que o emprego da segunda pessoa do singular certifica o que falei sobre intimidade respeitosa. E mais, Abelardo: “Louvado sejas Tu por todas as criaturas, especialmente o Irmão Sol, que faz o dia e nos dá luz”. Extraordinário, magnífico! Gentes como São Francisco de Assis, papai a admirá-los, gentes capazes de amor por um Deus assim, sem imposições, sem medo, apropria vida como preço de tal amor, um amor que afaga a memória, clareia a vista, fortalece os nervos, não onera o cérebro, ativa a inteligência, preserva os segredos, et multa ali facit (3ª) – e eu, intimamente, me sinto proibido de considerar como minha a mais ingênua das fervorosas crenças de tio Leonardo, porque eu ofenderia a Deus se o fizesse e temo que Ele me despreze ainda mais, como fez com o sr. Giuseppe, imponha aqueles sofrimentos todos, puta merda! E, comigo, pior, Ele apagaria, uma a uma, todas as minhas memórias, obrigando-me a não saber de nada. Com o materialismo dele, Max escreveu que a morte é “a terrível vitória da espécie sobre determinado indivíduo”. No cu que é tão simples, no cu! Sem memória, seja no céu, seja no inferno, seja no purgatório, eu seria o vazio no vazio, você entende, Abelardo?)
            Aqueles quartos de hora, na praia, sob o irmão Sol, nunca apresentavam variações, excluídas as incidentais. O comum era meu pai obrigar tio Leonardo  a andar de um coqueiral a outro, exigindo que respirasse fundo, enchesse os pulmões com o ar salitroso, era bom, afirmava, muito bom. E selecionávamos algas e, tio Leonardo deitado ao calor e à luz solares, meu pai lhe cobria o tórax com maiores e as mais úmidas, de sorte que fossem secando. Bom, muito bom para os pulmões, Leonardo. E de repente gritava o nome de minha mãe, al lavoro, moglie, al lavoro; minutos, já na soleira da casa, uma pequena varanda atijolada, batendo os pés para livrar-se os grãos de areia, nem se preocupava em olhar para o quarto. Sabia que, na cozinha, obedecendo ordens previamente estabelecidas, ela estava a nos preparar o mingau de milho, a esquentar broas compradas de véspera, preparando, ainda, o mastruço pilado e misturado com vinho quente que eu levaria para tio Leonardo beber na praia.
O sr. Giuseppe não gostava de broas. Preferia fruta-pão, aipim, inhame.

(3ª) – Et multa ali facit traduz-se como “E faz muitas outras coisas”. Reafirmo o compromisso da nota anterior.





SEGUNDA PARTE






ESCLARECIMENTO – III




            Boa dia, senhorita Marluce:
            Aceite, uma vez mais, os meus agradecimentos pela decisão de trabalharmos juntos. Saiba, aliás, que a senhorita tem uma bela voz. Por obséquio, inicie esta segunda parte desconsiderando os capítulos um e dois. Eles estão aborrecidos, redundantes, um amontoado de literatices. Bem pesado, nada acrescentam, prejudicando os reais objetivos do senador, meus também.
            Renovo aplausos pela sua competência profissional e solicito que faça – escrevendo-as aqui mesmo – outras observações críticas que lhes ocorram.
            Disse-me o Ivo que a senhorita é muito bonita. Estou ansioso para conhecê-la.

            Salvador, 8 de janeiro de 1969
            Abelardo D’Antunes

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3.

            Uma ou duas semanas depois do Carnaval (naquela época chamavam-se, tais festejos, de entrudo), o sr. Giuseppe, mamãe e eu fomos residir em Santo Antonio Além-do-Carmo. Um sobrado de socavão, térreo e dois andares, alugado a um árabe. Ali fora organizada a nova oficina, aproveitadas algumas das máquinas manuais de papai. Habitávamos o primeiro andar. No segundo havia estoques de couros, peles, etc., e o sr. Giuseppe diligenciava boa ventilação, mantendo abertas as janelas durante os dias de sol. No térreo e no socavão, as luzes sempre acesas – candeeiros de grossas mechas --, funcionava as oficinas.
            O sr. Giuseppe decidira-se pela produção em quantidades sempre crescentes de calçados populares, inclusive tamancos, chinelos e alpargatas grosseiras. O artesão, munido de ambições novas, convertia-se num arremedo de empresário industrial, participando de todas as etapas do processo produtivo. Lembro-me que o fornecedor de couros e peles disse à minha mãe, após uma xícara de chá:
            -- O sr. Giuseppe trabalha por três: vai ficar rico.
            Sem se dar a esquivanças, capatazeava os operários. Ele os tinha por vadios, praguentos, perturbadores, má gente, Sophia, gente sem ambição. Investia, em especial, contra um certo Artemísio, considerando-o sujeito intrigante, desses que respiram arrogância, mas, reconhecia, de muita habilidade no cortar o couro, um homem de calos, Sophia, elogio raro.
            De noite, as trancas passadas, ferrolho conferidos, bebia a sopa de verduras, depois café com leite e pão francês, fechando-se no gabinete. Ali ele se entregava a anotar o acontecimento em cada dia, utilizando-se, para isso, de um livro de páginas pautadas. Era um livro grosso, a capa preta, encerada. Nas folhas, numeradas, ele descrevia, minuciosamente, os gastos com matérias-primas, custos da mão de obra, etc., a produção obtida, as vendas realizadas, o que iria receber, o que iria pagar, e o mais. Somava, dividia, multiplicava, diminuía. Bifronte o seu Deus: Dever e Haver. Entrementes, sala de jantar (a de visita era, realmente, para visitantes muito raros), minha mãe forçava-me a segurar os rolos de lã com que, manipulando agulhas, tricotava sapatinhos de várias cores para recém-nascidos. Ela vendia a dona Cici, uma mulatona gorda, de intrigantes olhos esverdeados, que gostava de pegar nas minhas bimbinhas. Mulher descarada, mas eu gostava da ousadia daquela burra. Dona de armarinho no início da ladeira do Alvo, suponho que era amante do árabe, sr. Harmel ou Carmel, dono da casa, aquele sobrado-prisão que eu não consegui esquecer.
            Tanto quanto a mim, o térreo e o socavão eram proibidos à mamãe. Ela aceitava sem queixas, eu me roia de curiosidade para ver ali se passava. Especialmente, queria conhecer o sr. Artemísio. Imaginava-o alto e forte como meu pai, alegre, heroico trabalhador que enfrentava o sr. Giuseppe: era uma esperança em formação. Só para vê-lo, atrevi-me, um dia, a descer as escadas. E já nos últimos degraus a descente, fui surpreendido pelo principal dos paus mandados de meu pai, o sr. Ambrósio:
            -- Por favor, menino Antônio, volte. Aqui é proibido.
            E eu voltei e não vi o sr. Artemísio.
            (Outro interregno para que você melhor entenda o que estou tentando dizer: honestamente, eu me sentia naquela casa como o mais abandonado dos órfãos. Uma orfandade que escolhi porque ela me alimentava o ódio. Escolhi, sim, escolhi. Nos primeiros meses do acasalamento, ainda na Pituba, e acho que já escrevi sobre isto, o sr. Giuseppe nem sempre regressava para jantar e dormir: estava organizando a fábrica do sobrado. Noite feita, não identificava a luz do lampião que de ordinário ele usava para alumiar o caminho de volta, com insistência indagava se o crápula iria à casa, se não iria. Far-lhe-ia bem se eu palpitasse um talvez ou um vamos esperar, mas, de propósito, a saborear sua angústia, me esquivava de falar. Convencida que seria tolice continuar aguardando, dizia-se querendo justifica-lo: “Coitado do Giuseppe, trabalha muito. Trabalha para juntar dinheiro, ampliar os negócios, e é graças a ele, Tonho, que um dia você irá para a escola, será doutor. Ele é bom, Tonho, e gosta de você, felizmente”. Uma noite, porque o sr. \Giuseppe faltasse e atemorizada não me lembro mais por quais motivos, ela me levou para a cama de ferro, beijou meu rosto e pediu que a beijasse e friamente beijei-a, na testa, e senti seu corpo aviltado e milímetro a milímetro fui-me afastando. O fedor do grauçá negro, apodrecido, enauseava-me. E tanto o fedor impregnou-se em mim que hoje, mais de sessenta anos depois, persiste e ainda me causa asco).


            Referi-me, acima, ao sr. Ambrósio.
            Ele era o principal dos “oficiais” mais experimentados da oficina, o mais fiel aos interesses do sr. Giuseppe, e detinha autorização para subir ao primeiro andar. De segunda a sábado, por volta de meio-dia, sentava-se em banquinho que fora posto no corredor, só para ele. Se, às onze da manhã, mamãe não apanhasse o banquinho na cozinha para colocá-lo ali, no corredor, as hipóteses eram as seguintes: hoje é feriado nacional ou hoje o sr. Ambrósio está doente.
            No banquinho, esperava que almoçássemos. Em seguida à sobremesa, o sr. Giuseppe aparecia-lhe e na simples presença havia autorização para que fosse à cozinha. Recebia o prato preparado e sentava-se na copa, mastigando quase às pressas, evitando trocar palavras com Anália e Rosenda, duas domésticas, recentemente admitidas. Se provocado (nessa época, Rosenda era dada a flertes), respondia com monossílabos. Ele sabia da lei, não escrita, de acordo com a qual, empregada doméstica do patrão, se ao patrão ou a quem ele quisesse, não pertencesse também para usos de cama, para outro empregado era coisa do muito distante. Temerário, assim, enfiar a mão na cumbuca e da tentação o sr. Ambrósio se guardava, não obstante, fosse Rosenda fêmea desde as pontas dos pés, uma negra muito apetitosa e ciente desse favor. (Rosenda, para você fazer uma ideia, Abelardo, casou-se com o sr. Lauzimier, engenheiro, um francês notável.)
            Os créditos do sr. Ambrósio aumentaram consideravelmente no dia em que surpreendeu um operário na prática de furto: o desgraçado enlaçara barriga e peito com fio de barbante encerado, querendo surrupiar rolo e meio, tudo escondendo sob a camisa. Um fredegundes incompetentes. Por acaso, ao término da jornada, o sr. Ambrósio dera-lhe um tapinha nas costas, a mostrar-se capaz de amizade, e assim... Subiu e comunicou o fato ao sr. Giuseppe, sem referencia a nomes, assegurando que prendera o meliante no socavão. A imprudência me arrebatando ao regaço de cautela, perguntei:
            -- Il signore Artemísio, egli? (O senhor Artemísio, ele?) – fiz a pergunta em italiano, que já aprendia.)
            O sr. Ambrósio ficou sem saber o que responder e o sr. Giuseppe olhou-me com espanto, contendo-se, todavia, para não emitir a indagação desenhada em sua fisionomia: por que aquela minha preocupação com o sr. Artemísio? E gesticulou, quase imperceptivelmente, para minha mãe e ela devolveu-lhe a interrogação. Compreendi que se haviam posto de acordo. Ou seja, eu andava, naquela casa com mil antenas ligadas, um perigo para eles e sem entender o que entre nós se passava – de resto, surpreendera-se com meu italiano... – o sr. Ambrósio detalhou a informação que já dera, concluindo-a com dois destaques de tipo urgência-urgentíssima: o ladrão fora ajoujado a uma das pilastras do socavão e a Polícia, chamada, deveria estar a caminho.
            -- Acho que fiz o certo, senhor.
            -- Fez.
            Quando os meganhas chegaram o sr. Giuseppe deu-lhe algumas moedas e ordenou que o culpado começasse a ser exemplado lá embaixo mesmo, à vista de todos, e entregou palmatória e cinto grosso a um dos meganhas e esse meganha, sem pressa, desapertou o dolman amarelo e era um sujeito que sabia cumprir ordens, sem a alegria do sádico e sem a tristeza do generoso. Minha mãe, imaginando o que iria acontecer, levou-me rua afora, afirmando que coisas feias deviam ser escondidas de senhoras e crianças, e deixamos o sobrado das torturas e atingimos o agradável Largo de Santo Antônio e de repente ela disse:
            -- Ali, olhe bem aquela casa, a pintada de verde claro.
            Olhei, com interesse, e era escola onde eu iria estudar logo se iniciasse o período letivo, faltavam poucas semanas. Aliás, em casa, já se encontravam prontos dois uniformes, estilo marinheiro, um branco, outro azul-marinho. Ela explicou que as duas irmãs professores eram muito respeitadas e viviam sob a proteção espiritual do Padre Mata (aliás, Matta, um indivíduo cujo rosto parecia talhado em pedra-sabão), festejado orador sacro e, sabidamente, um dos preferidos do Arcebispo.
            -- Tem famílias da rua Chile, Tonho, que mandam seus filhos estudar nesta escola – ela disse, passando a mão na parede da casa esverdeada, e fiz cara de “é mesmo?” e como o assunto não me interessasse e como, igualmente, pouco naquela altura me preocupava com o que estivesse sucedendo ao operário ladrão – afinal, convenci-me de que não se tratava do sr. Artemísio --, olhei o mar da baia, ao longe o belo fim de um pôr de sol, as águas escurecendo, poucos os navios e numerosos os barcos a vela, saveiro e não jangadas, e entendi esquisito o comportamento de certas pessoas especiais. O do sr. Artemísio, em particular. Por que um grande homem como ele, ao invés de enfurnar-se no socovão escuro, hesitava em comprar, custasse quanto custasse, um saveiro? E comprando-o, por que não se largar mar a dentro, oceano em diante, buscando uma vida livre e alegre, por que não?
            E por inexplicável associação de ideias, perguntei a mamãe pelo “seu” Lobo e reagiu como se tivesse recebido estocada e ordenou a volta. Quase quinze ou vinte minutos depois, chegamos ao sobrado, socavão e térreo aferrolhados, aberta a porta que dava à escada para o primeiro andar. Notei vermelhos, acredito até que inchados, os olhos de Rosenda, a copeira, e Anália, na cozinha, não cantava baixinho suas modinhas sertanejas. Ao sr. Giuseppe, de cólera abrandada, minha mãe informou que do almoço sobrara bastante do escaldado de bacalhau e eu quis. A certa altura, pedi:
            -- Io voglio più pane. (Eu quero mais pão.)
            Não fale italiano que eu não entendo. Proíbo que você fale.
            O sr. Giuseppe riu, benevolente, e comentou que me ia notando menos magro, e usou palavras e entonações simpáticas. Mamãe se mostrou satisfeita. Eu estava feliz: imitara, quase com perfeição o modo de falar de meu pai. (Aquele antigo ajudante de papai, o saudoso “seu” Lobo, morreu na Penitenciária, a antiga, na Calçada, e não sei como nem porque. Mamãe não deixou que eu ouvisse a história que dona Jerusa lhe fora contar. Pensei em apurar tudo quando crescesse, mas, crescido, esqueci -- e isto agora me entristece um pouco. Gostava dele.)


4.

            Na escola da professora Ercília eu podia me considerar como um dos meninos que usavam melhores roupas, sapato sempre limpos, livros e caderno bem cuidados: mamãe sabia que essas coisas lhe rendiam juros. E também fui um dos melhores alunos, o que devo, também, a tio Leonardo. Interessado em ler romances portugueses e brasileiros, ele estudava nosso idioma com afinco e me ensinou muito mais que o bê-a-ba e a caligrafia. Foram mais de dois anos de uma aplicação quase diária, o aprendizado do italiano igualmente a ocupar o nosso tempo. É um erro, penso, ensinar-se a uma criança dois idiomas ao mesmo tempo, tanto mais se de raízes diferentes. Certo é permanecer em um, o outro em seguida. Porque  aquele “um” abre caminho. Foi o que aconteceu comigo: o italiano me abriu mundo que alcançaram também a Germânia e, com mais facilidade, a Grande Roma e seu notável Latim.
            Perdoem a digressão. (1)
            Quando tio Leonardo partiu para o oceano, deixei de lado meus cadernos de português, esquecendo, ainda, dois ou três livros e um deles era “Os Escravos”, de Castro Alves. Dediquei-me, por inteiro, e isso era uma forma de amor, ao estudo do italiano, cascando principalmente nos verbos. E enriquecia o vocabulário. Um dos meus tesouros é o velho dicionário de Fatacci, belamente ilustrado.
            As aulas da professora Ercília, e ela tinha um talento didático notável, despertaram, aos poucos, o aprendido em relação ao nosso idioma. Conquistei novas fronteiras aprendendo História do Mundo (como ela dizia), História do Brasil, Geografia e Matemática. Nas peculiaridades de minhas circunstâncias – o menino com o seu amor, esse menino com seu ódio – eu progredia quase tanto quando o sr. Giuseppe e mamãe prosperavam: iam enriquecendo com rapidez e segurança. Lembro-me que um vereador foi visitá-lo. Na ceia de sábado quase sempre o Padre Matta era presença para o chá e de biscoitos franceses, estrangeiros os charutos que o sr. Giuseppe ofertava a um

(1)   “Perdoem a digressão”. Usando esse recurso, inábil para uma autobiografia romanceada, o senador Antônio Petrucci escreveu à mão e à máquina centenas de páginas dispensáveis. Cortei-as.

dos religiosos mais descarados que já conheci. No segundo e no quarto domingo de cada mês, após a missa das onze, na igreja da Piedade, almoçávamos numa pensão de italianos, rua de baixo (hoje a Carlos Gomes), perto do Cassino Bahiano. Os jantares realizavam-se no Hotel Sul-Americano, e em mesa de varanda, o que era luxo adicional. O sr. Giuseppe bebia refresco de frutas e minha mãe adorava sorvetes coloridos, vendidos com o nome de “gelados”, para ela uma novidade. Preferência?
            Pitanga, “gelado de pitanga.
            -- Também quero.
            -- Não. “Gelado” não é bom para garganta de menino.
            Entre os almoços e jantares, percorríamos diferentes pontos da cidade, de acordo com as sugestões de minha mãe. Sabendo que iria agradá-lo, preferia o Campo Grande – e para lá íamos andando, fazendo a digestão. No jardim havia bancos de ferro, recostos abaulados, bonitos, sem dúvida, mas incômodos, e era preciso chegar cedo para encontrar um lugar vazio. E nos sentávamos e eu reparava, guloso de alegria próxima, alcançável, nos meninos que se divertiam nas gangorras e escorregadeiras e ela me impedia e assim para que eu não me sujasse, aquilo de gangorras ou escorregadeiras era passatempo de idiotas. Um domingo o sr. Giuseppe concordou também com palavras, asseverando que passatempo útil, instrutivo, era presenciar os outros entregues a passatempos idiotas, devemos olhar isto aqui como tem gente que vê as idiotices dos artistas de circo; a diferença é que no circo se paga entrada! – e riu. Pouquinho de  nada, mas riu. Ademais – minha mãe disse – são todos uns moleques. E uma Mulher-Toda-de-Preto, saída não sei de que escarradeira do inferno de fezes de que fala o Grande Dante, de pé a ouvi-los, dispensou-se de pedir licença para o aparte:
            -- Sim, molecotes, basta você olhar, menino. Mesmo os que são filhos desses que ficam ricos de uma hora para outra são molecotes de alma. Porque criados em maus berços são mais do que molecotes. São aprendizes de capadócios, futuros ladrões. Boa tarde senhora e senhor.
            E andou, emperiquitada, colocando-se atrás de outro banco, e em movimento, aturdido com aquela aparição, e mamãe me interpretou mal:
            -- Não, Tonho, você não vai se meter no meio deles e não chore, pestinha. Se você não mudar esta cara de choro lhe dou um beliscão e hoje você ficará com fome no jantar, entendeu? Com fome!
            (Necessito de repetir, Abelardo, compreenda: “monstros da natureza, repositórios de mentiras, armários de embustes, inventores de maldades...” E não me creia desatinado esta noite. Se insisto nas objurgatórias faço-o porque, criança ainda, na memória o amor de meu pai, a ternura e o sabor de tio Leonardo, eu me considerava uma pessoa dotada de privilégios especiais. O ser criança, e criança de medos espancados, ao menos queria o privilégio de ser reconhecido assim, e me negavam tão pouco e negavam com brutalidade.) 



 INTERRUPÇÃO --  II


            Sr. Abelardo, francamente, não dá para entender porque eu devo escrever estes bilhetinhos metendo os cujos, assim como este, dentro dessas coisas do senador. Não dá pé. Enfim... Como mamãe diz, “quem paga é servido”. Outra coisa que quero chamar a atenção do senhor é que o senhor cortou a epígrafe deste capítulo e ele repete aí em cima (“monstros da natureza”...), Tô sendo clara? Ora, assim, sem a epígrafe, fica parecendo que isso de “monstros da natureza, armários de embustes”, etc., é coisa dele e não é, o senhor sabe, está na epígrafe que é de Cervantes, aliás ei vi no filme russo a história de D. Quixote e Sancho Pança e achei um barato. Tá um enguiço e pergunto: deixo ou tiro?
            E outra coisa: sabe que o senhor é um coroa muito legal?
            Levo fé. Respeitosamente, continuando meu trabalho,
            Salvador, 11 de janeiro de 1969.

            Marluce Santiago.




         Eram rígidos os horários nos domingos destinados aos passeios: missa às onze, almoço ao meio-dia e meia, jantar às dezoito horas. No Campo Grande, às cinco da tarde, encoletado e suando, o sr. Giuseppe mandava que abandonássemos o banco de ferro e empreendíamos, a pé, o caminho até o Hotel Sul-Americano, esquina da Ladeira de São Bento com a atual avenida Carlos Gomes. Assim, pois, atravessávamos trechos como os do Palácio da Aclamação, Mercês, Largo da Piedade e, antes da ladeira de São Bento, o meu querido São Pedro: ali, em uma portinha, havia um velho que vendia por patacas o delicioso algodão de açúcar.
            No percurso, eu entre os dois, minha mãe prendia atenção nas casas e nas gentes, sentindo-se percebida por algumas senhoras debruçadas nas janelas, cotovelos sobre almofadas de veludo de diversificadas cores e matizes. Orgulhava-se de seus vestidos novos e o sr. Giuseppe, posto que nisso não folgasse muito, fazia-lhes os sapatos de salto alto, sóbrios também nas formas e, segundo ela, macios, bem ajustados. Não fosse assim, fossem desses calçados que impõem calos e torturam artelhos, ela não reclamaria: aceitava tudo, em troca de abrigo, da cama e da mesa, mulher sem personalidade.
            Perto de um sobrado de três andares, vizinhança do Colégio das Mercês, o sr. Giuseppe erguia os olhos para verificar se ali, apreciando o footing, e tal como de hábito, achava-se acomodado à janela um casal que lhe merecia especial consideração. Se o deparava, descobria a cabeça, saudava:
            -- Buona será, Comedadore. Buona será, Signora.
            O Comendador respondia “boa tarde” e a senhora limitava-se a sorrir, complacentemente. Certa vez o ilustre perguntou:
            -- Dove andate voi altri com tanta premura?
            Ao invés de responder que andávamos com aquela pressa para não perdermos o horário da janta (meu pai perguntaria em troca: o que é que o senhor tem com isso?), o sr. Giuseppe mentiu:
            -- Siamo abituati a camminare in fretta. (Estamos acostumados a caminhar depressa.)
            Na tarde em que minha mãe ousou indagação sobre o casal, o sr. Giuseppe foi loquaz. Explicou que aquele personagem, de imponente suíças, era importantíssimo na cidade, médico conceituadíssimo, professor da famosíssima Faculdade de Medicina, mais e mais respeitadíssimo após ter travado uma polêmica sabe com quem? (Não, com quem, Giuseppe?) Com o professor Ernesto Carneiro Ribeiro! E recebeu o apoio sabe de quem? (Não, de quem, Giuseppe). Do dr. Ruy Barbosa, e mamãe exclamou o seu contumaz e cretiníssimo “Madre Santa” – na Pituba a burra dizia Santa Mãe de Deus... – o sr. Giuseppe disse que ao Comendador nada recusaria de vez que, não fora estimadíssimo amigo e cliente, sobre ele se confidenciava que poderia tornar-se Intendente de uma hora para outra, desde que professava a política do dr. J.J. Seabra e o dr. J.J. Seabra, além de popularíssimo em todo o Estado da Bahia era prestigiadíssimo nos altos círculos federais. Agrilhoados tantos e outros “íssimos”, mamãe e eu não demos um pio. (No particular, Abelardo, eu e mamãe, se colocarmos em circunstâncias semelhantes, nos entendíamos muito bem, a poupar o sr. Giuseppe de esclarecimentos minudentes, em especial aqueles que pudessem colocá-lo em situações embaraçosas. Ela não queria arranhar o ritmo, que lhe era apetecível, daquela vida, e eu, de mim, o que desejava era crescer e apressar-lhes a morte o mais rapidamente. E, com efeito, fique sabendo, foi o que fiz, e agi como adiante você verá e espero que você enriqueça e potencialize o meu rol de razões. Esta é uma ordem, Abelardo)                 


            Antes de eleger os pratos, no Hotel Sul-Americano, com pavonices de recente grão-senhor, ele ordenava um cálice de vinho-do-porto. Bebia gota a gota, até a metade, guardado o resto para depois da sobremesa, ao café. Na tarde em que a Senhora-Toda-de-Preto me instalara pavor, provocando aquele movimento incontrolável, eles proibiram meu refresco de pistache, alegando que havia comido muito algodão-doce. Mais fizeram: ao invés do tradicional prato de canja de galinha, nela o pescocinho do animal, deram-me, ali, na varanda do hotel, um ovo cozido sobre vagens e compreendi que jantar assim era a primeira das punições. Contra-atacando, eu simulei, ao comer, que aquilo me sabia um manjar e mamãe irritou-se, quase desprezando o resto do “gelado”, e o sr. Giuseppe bebeu a sobra do vinho-do-Porto antes de chegar o café, e mal paga a conta determinou vamos embora, Sophia e, impulsivo, eu disse andiamo, ele falou pegue na mão dele, Sophia; a quem este menino saiu?
            -- É um capeta, mas é em menino que se torce o pepino.
            E em casa retiraram a lamparina do meu quarto, trancando-o após meu ingresso, e então vi-me no escuro, um escuro especial, do seu interior podendo emergir a Senhora-Toda-de-Preto. Mentalmente flagelei-me para não chorar e os afiados chicotes que me feriam as farpas das minhas memórias de dor. Todo o tempo daquela noite foi tempo de tortura, mas as claridades divinas da manhã, envolvendo a criança insone e espancada, mostraram-se tão belas e tão mágicos os unguentos por elas trazidos que as feridas cicatrizaram-se. As marcas probantes do que conto?
            Tenho-as eu e desde logo pressuponho que já não são somente minhas. Senhores leitores do Brasil e do mundo: estas marcas vos pertencem também! A olho vulgar invisíveis, elas me fazem lembrar o que em “Fausto” o Grande Goethe escreveu: “Apenas merece liberdade / Tanto quanto a vida / Quem as ganha todos os dias”.  Aí está: meu primeiro dia de luta subterrânea contra os dois tiranos iniciou-se com o hino cantado pelas claridades. As daquela gloriosa manhã. (Abelardo: dê um enchimento a este trecho. Cave umas coisas no Dicionário de Citações, mas nada de Ruy e do Castro Alves.)  


ESCLARECIMENTO – IV


            Tem você toda a razão, srta. Marluce, quando à epígrafe que cortei, mas deixe tudo como está. Na segunda datilografia veremos como isto vai ficar. E razão a senhorita tem, de igual modo, quando me considera um coroa legal. Sobre os bilhetes: penso em utilizá-los, se me convierem, pedindo, antes, sua aquiescência. Aliás, Srta. Marluce, peço que não fale a ninguém sobre este nosso trabalho e ponha-se à vontade nesta minha residência. Esta casa rejuvenesceu a partir do dia em que a senhorita passou a frequentá-la. Sua alegria e sua simpatia, não bastasse sua seriedade profissional, daqui expulsaram o que havia de resíduos do luto. Aceitaria jantar aqui, amanhã, às 21 horas?
            Ivo iria buscá-la em seu apartamento, levando-a de volta. Para mim seria uma honra. Por favor, telefone-me. Com renovada admiração,
            Salvador, noite de 11 de janeiro de 1969
            Abelardo.


INTERRUPÇÃO – III


            Sr. Abelardo, bom dia. Está na cara que não vou dar dicas a ninguém sobre este trabalho. Me aborrece o senhor imaginar que eu dessas que são de blá-blá-blá em assuntos profissionais. Bom, mas deixa prá lá que o senhor não me conhece bem e assim sabe pouco de minha cuca e também sem falsas modéstias garanto que ela é uma cuca legal. Não dá pé jantar hoje porque eu já tinha arrumado uma chopada no “Birita Bar”. Se eu fosse de falsidades, convidaria o senhor, mas aquilo não é lugar para coroas mesmo em sendo o senhor um coroa legal. Como diz minha mãe, a mais adorável pessoa do mundo, “mais depressa se pega um coxo do que um mentiroso” e aliás eu escrevi errado, é o contrário. Mais depressa se pega um mentiroso. Acho que me enganei no “ditado” porque estou folheando as outras partes querendo saber como é que o diabo do menino matou a mãe e o padastro, cujos foram perversos, até aqui, mas nunca é o caso de alguém matar. Bom, deixa prá lá. Que é que há mais? Ah, batuquei no “macaco” prá falar com o senhor e foi taca. É fogo a gente querer falar para linha dois e aí nos casos de telefonemas, legal o senhor ligar prá cá. Sim, estou a fim de jantar quando o senhor quiser, menos hoje (já expliquei), e posso jurar que eu também admiro muito o senhor e como o senhor assinou Abelardo eu assino
            Marluce.
N.B. – Hoje, logo cheguei, o sr. Ivo me levou para ver toda esta mansão do senhor, estas mangueira todas, as acácias dando flor, os flaboiãs também, aquelas roseiras, a grama verdinha, a piscina, ih! Eu tive vontade de ficar nuinha e me jogar na água azulzinha, seria bacana!
            Posso pedir que o sr. Ivo me dê uísque ao contrário de vinho do Porto? E chá de cidreira ao contrário de café.
            Aproveito para datar, que me esqueci de fazer acima, Salvador, 12 de janeiro de 1969. A mesma e agradecida Marluce. 



            Nos dias comuns, sem zangas, depois do jantar, mamãe me entregava lamparina. Concluídos, na sala, meu deveres escolares, já no meu quarto eu acendia o pavio com fósforo de cera. Divertia-me a soprar a cortiça, nela o pavio com fósforo de cera. Divertia-me a soprar a cortiça, nela o pavio, que boiava na superfície de óleo espesso; no copo, o óleo mantinha-se acima do nível da água. A luz amarelecida mal alcançava um terço do meu aposento espaçoso. As janelas laterais davam para um sobrado contíguo, em cujos telhados havia sempre muitos morcegos. As duas janelas do fundo me permitiam ver o quintal, nele os quartos de Rosenda e Anália. No meu, perto da cama, mamãe colocara a mala bojuda, amarronzada, que chamava de baú, enquanto o sr. Giuseppe preferia nomeá-la arca, “minha arca”, pesada de objetos bolorentos, ferramentas em desuso, fazendas que apodreciam, livros (poucos) e revistas velhas, tudo em italiano. Em seus raros momentos de loquacidade, o sr. Giuseppe repetia que a arca continha quase tudo quanto trouxera de Milão. Não dizia Itália, dizia Milão, e Milão isto, e Milão aquilo, as coisas que havia em Milão, indústrias sobretudo, muitas e muitas. Mamãe, cínica mulher, elaborava frases aprovativas e fazia indagações que compunham uma só e provocativa pergunta: decerto todas as cidades da Calábria, reunidas, não chegavam à mínima unha de Milão, não era verdade?
            Ele não entendia o apelo. Importantíssima era a arca; indispensável ao seu orgulho o reiterar, monotonamente, que além do preservado na arca, trouxera férrea vontade de triunfar no País estranho – e estava triunfando e não era um daqueles “ricos-de-uma-hora-para-outra” aos quais se referira, desdenhando-os, a Senhora-toda-de-Preto. De tal convencido, sorria, contente de si mesmo, e naqueles raros e rápidos entrementes era possível – faço justiça, não sou fanático – nele distinguir um tanto de humanidade. Mas, tenho em certeza tal juízo, não era somente isso que interessava à mamãe. Ela o espicaçava  para que falasse contra a Calábria. Assim, especialmente aos domingos, insistia nas perguntas ardilosas e não me lembro de haver conseguido o pretendido: um certo pudor nacional italiano, mínimo embora, impedia o sr. Giuseppe de estabelecer estúpidas comparações entre Milão e a Calábria.
            Ela o acicatava mais no lombo da vaidade e, preso nas teias da lisonja, sr. Giuseppe narrava seus primeiros dias no Brasil, os anos vividos em São Paulo, a viagem para Bahia, sempre a trabalhar e a economizar, uma ambição de riqueza a lhe ferver nas entranhas. À medida em que se proclamava um homem de valor, a temeridade jamais figurando entre os componentes de seus cálculos e decisões, mamãe me olhava e reolhava, a dizer que ele, sim, o sr. Giuseppe, eu devia alçá-lo à condição de exemplo e modelo, esquecesse para sempre tio Leonardo, fraco para o trabalho, de hábitos amalucados (“cadê tio Leonardo, mãe?, e ela respondia, na Pituba: “tá lá, no quarto dele, com a maluquice dos livros e das cantigas”), um reincidente em blasfêmias, a considerar Deus nosso Senhor um comparsa para jogos alegres e não um promontório invisível, a inspirar temor, devoção, cega obediência. Principalmente, esquecesse meu pai para sempre, pródigo irresponsável, mulherengo até com negra! (Hoje a aleivosia não pega tanto, mas, naquele tempo...) E numa noite de sábado, presente o Padre Matta, melhor treinado na arte da dissimulação, usando a linguagem dos olhos disse-lhe que ela não perderia por esperar, confiasse em mim, eu seguiria, sem alterar um til, os caminhos do êxito que o sr. Giuseppe, magnanimamente, me indicava. Julgando que deles me aproximava, ela disse:
            -- Bem faz quem bem ouve e aprende, Tonho. Agora, tome a bênção e vá dormir.
            Concedeu-se uma pausa e vibrei de alegria quando ela acrescentou se quiser leve para o seu quarto a lamparina da cozinha. Aceita a oferta, em meu quarto, luz maior o daquele pavio aceso, sabendo-me livre algumas horas, abri a arca com extremo cuidado, temendo que as dobradiças oxidadas me denunciassem com seus rangidos e cuspi sobre todas aquelas porcarias milanesas, ruídos dos morcegos a significar aplausos, uma maluquice minha, mas pensei assim e com tal convicção que fiz dos morcegos misteriosos expectadores da minha ousadia. E cansado de cuspir, a boca seca, amarga, lábios e língua pesando, desejei mijar abundantemente sobre o passado deles e não fui além da intenção. O fedor da urina, com o passar do tempo, seria uma prova inapelável e me puniriam e o fariam com requinte de perversidade: o ladrão não apanhara até na cara, conforme a narrativa de Rosenda à empregada do vizinho? O meganha!, eles o chamariam para que me espancasse. Pior ainda: na sala reunidos, rindo e festejando, sob a batuta da Senhora-Toda-de-Preto, picando-os com agulhas e alfinetes assassinariam o ovalado retrato de meu pai e também o do tio Leonardo; e não mijei, apesar dos estímulos de morcegos mais ousados, bichos que nunca me fizeram mal: até que Anália e Rosenda me escutassem, muitas vezes com eles conversei, monologando.
            Vencida a tentação do mijo e já deitado decidi jogar baratas no interior da arca e na manhã seguinte, antes de ir para a escola empreguei boa parte do tempo a caçá-las com ajuda das claridades e fui feliz em quatro ou cinco tentativas. Joguei-as dentro da arca: uma vingança frustrada e isto porque, ao fim de alguns dias, talvez devido aos miasmas na arca armazenados, as baratas morreram.


NOTA ADICIONAL N.1


            A uma jovem formulada, é de Clemenceau a seguinte proposta: “Eu a ajudarei a viver e você me ajudará a morrer”. A jovem aceitou e, sei, foram felizes. Não se afaste tanto de mim, Abelardo. Lembre-se, ainda não assinei o testamento. Não exijo que você opine sobre estas minhas memórias, mas exijo que você deixe Nezinha em paz. Dou à boa menina as joias que eu quiser dar, você não tem nada com isso, seu puto! Sem filhos, sem parentes, sem ninguém, se eu morrer ab intestato(2) isto não fará bem à sua saúde. Você me roubará abjetos valiosos – e só. Não terá as propriedades, meus dinheiros, minhas ações. Tudo irá para o Estado ou para Lourdes. Assim, deixe a Nezinha em paz! Tônio Petrucci.


ESCLARECIMENTO – V


            Marluce: óbvio que o “Birita Bar”, bastante falado e, às vezes, mal falado, não é um lugar que eu deva frequentar, nem por curiosidade. No entanto gostaria de conhecer os jovens que são do seu círculo de relações. Admiro muito os moços que têm sede de viver intensamente e aproveitam todas as oportunidades, sem os preconceitos urdidos em escusos pretéritos. Assim, Marluce, organize uma noitada trazendo três ou cinco de suas amigas e amigos, aqui em casa. Quanto aos detalhes sobre o menu, as bebidas, a decoração, entenda-se com Ivo.
            Cortei os capítulos cinco e seis e quando a este, o sete, que datilografo à sua espera, você notará que anulo todo o introito sobre o jardim de Santo Antônio, hoje uma praça desenxabida, apesar de ser, espacialmente, a mais bela de Salvador. Deixo, também, a agressiva nota adicional que numero, número 1. Deixo-a para punir-me publicamente por ter sido injusto com Nezinha, a jovem enfermeira que atendia o senador e que, usando a linguagem de vocês, jovens, dava umas “esquentadas” no finado, uma pessoa que, antecipo, morreu sem amigos, salvo o dr. Augusto Nazareth e, suponho, a sra Lourdes, senhora estranhíssima que foi amante dele no Rio. Peço que você não se envolva emocionalmente com esta narrativa. Por que, hoje, você demora? É uma pena que não possa esperá-la mais que uns minutos: gostaria de entregar-lhe pessoalmente a pequena lembrança, você não chegando a tempo, da qual Ivo será fiel portador. Interprete este meu gesto como aplauso à sua adorável franqueza. Até que o carro de amigos chegue, continuando a esperá-la, copiarei o senador:


7.


(...) Foi, portanto, pelas mãos da professora Ercília – alta, magricela, sarará, voz estrídula – que ingressei num mundo habitado por heróis, onde o Bem, sempre despendendo esforço físico, sempre vencia o mal. Em casa, provisoriamente desarticulados  meus  fortins e  minhas  seteiras  de  ódio, repetia para minha mãe e o sr. 

(1)   Ad Intestato traduz-se como “sem testamento”.

Giuseppe as histórias ouvidas e memorizadas. No episódio de Caramuru e seus grandes feitos, acrescentei um rabinho fantástico: o bravo Filho do Fogo e Sobrinho do Trovão levara sua esposa, a índia Catarina, para a Europa e em Lisboa, depois de animado “Bumba-Meu-Boi”, dançaram gracioso minueto diante do Rei e da Rainha. O sr. Giuseppe que, ouvindo-me sem interrupção, fizera surpreendente mercê, disse va bene, Tonho, va bene, sem entusiasmo, e foi encontrar-se com seu amado livro preto e mamãe disse antes de dormir vou deixar você me contar outra história, mas, agora, não; agora vou preparar um cachimbo para Giuseppe: ele tem planos maravilhosos para nós. Contei uma outra história qualquer e ao dormir tive um sonho magnífico: meu pai, tio Leonardo, Caramuru, “seu” Lobo e o sr. Artemísio (corpo de meu pai, a cara era de um pescador meu amigo) desbaratando as hordas inimigas, índios e pretos malvados, e havia um branco, era judeu, a comandar aqueles hunos, a senhora conhece o sr. Artemísio?
            -- Não, sr. Antônio – a professora respondeu e havia remelas nos olhos de dona Ercília e continuei contando o sonho e disse que o sr. Artemísio era mesmo um grande homem e que ele, meu pai e tio Leonardo, antecipando-se ao próprio Filho do Fogo e Sobrinho do Trovão, haviam dominado o judeu descomunal, atirando-o despenhadeiro abaixo, e Caramuru ergueu o braço de meu pai e gritou poderosissimamente: Campeão dos campeões!
            -- Bonito sonho – ela comentou, ainda intrigada eis que eu tirara da cama, num açodamento danado. O sr. Giuseppe é mesmo um grande homem.
            -- Estou falando de meu pai, não do sr. Giuseppe.
            -- Como, sr. Antônio? 
             -- O sr. Giuseppe nunca foi meu pai, professora. Meu pai se chamava Vincenzo. Vincenzo Petrucci, calabrês de Messina, Itália. O sr. Giuseppe se juntou com minha mãe.
            -- Que é isto de “se juntou”? – e disse que eu devia falar mais, uma professora tem obrigação de saber tudo sobre os seus alunos e suas famílias e eu contei o antes já descrito, os misteriosos gritos de um homem-rei a morrer, e que o sr. Giuseppe fora apenas camarada de papai, e que logo nos mudáramos da Pituba para o sobradão ali perto; exatamente no Dia dos Mortos, quando pedi a mamãe para levar flores e colocá-los sobre o túmulo de papai ela respondeu que não, falou bastante zangada, tolice, maluquice, idiotice, Tonho!, ele estava morto, e morto/acabou-se/ pronto, não me aborreça com bobagens! e arrebatou de minhas mãos as margaridas amarelas que eu havia apanhado no quintal.
                                               EU VOS FALO DOS MORTOS QUE MORRERAM SEM PRIMAVERA
                                   e tomou as angélicas que, atendendo a pedido, o Padre Matta lhe havia oferecido, sem perguntar prá quê,
                                                                MARLUCE EU SÓ TENHO VINTE MINUTOS
                   angélicas de morto já na Igreja de memória celebrada, pelo menos assim eu pensava, todas as flores ela me roubou e usou-as nas jarras lá de casa, suprema afronta. D. Ercília me interrompeu:
            -- Seu verdadeiro pai morreu de que, sr. Antônio?
            -- Uma dor.
            -- Onde?
            -- Da boca do estômago para cima.
            -- Antes ele vomitou?
            Expliquei que estava na praia, mas escutara conversas posteriores, principalmente ouvira minha mãe dizer ao sr. Giuseppe, de noite, no velório, que papai guinchara como um porco a ser sangrado.
            -- E seu tio Leonardo... Também ele sentiu dores ao morrer? – agora dona Ercília estava acompanhada pela irmã, dona Ernestina, esta, coitada, além de sarará um pouco zarolha. E contei sobre tio Leonardo.
            ANCHE GIULIO SOFRE DI MALINCOLIA
            TAMBÉM JÚLIO SOFRE DE MELANCOLIA
            POVERO GIULIO. LA SUA FACCIA MI FÀ PENA
            em italiano “sigaro” é charuto. “Sigaretta” é cigarro.
            TU SEMPRE HAI SIGARE E DEI BUONI.
            VOCÊ FUMA MUITO, MARLUCE IVO ME DISSE.
            eu não consigo aprender italiano. má vontade.        
            (Um fato, Abelardo, agora a me exigir reflexão é que a atitude de tio Leonardo, suicidando-se no Oceano, não suscitou qualquer reação contrária de meu pai, ele geralmente era rebelde, inconformado, apto à luta até o fim, Suicídio, sem dúvida, mas por que? Deve-se considerar que se meu pai a estranhos não demonstrava suas profundas convicções de católico, apostólico, romano, tinha-as com seriedade e, por consequência, recusaria anuência. Grave a doença de tio Leonardo – por interferência pode-se pensar em tuberculose – ele apenas o isolaria sob cuidados médicos. Não, não foi só a doença: houve algo mais grave. Ou o suicida não teria obtido consentimento. Sei que nesta altura de minha vida é inconsequente nutrir tantas dúvidas. Ao expressá-las, aqui as consignando, pretendo prestar mais um sérico: quem sabe alguém não se interessará pelo mistério, decidindo-se a investigá-lo?)


INTERRUPÇÃO – IV


            Sr. Abelardo: mal o senhor saiu, eu cheguei. Me atrasei no supermercado. Esta é para dizer que o senhor me parece que anda meio biruta. Primeiro escreveu essas coisas aí em cima, me gozando porque me interesso pelo italiano: saiba que este livrinho que o senhor andou mexendo é muito bonzinho. Segundo, o senhor mal me conhece e já me oferece anel de brilhantes verdadeiros. Corta esta, doutor! As flores eu levo, que minha velha adora flores, é mesmo vidrada, ainda mais que rosas. Sobre o jantar eu já falei com o sr. Ivo e só vou trazer um amigo, Cristovão, Cris de apelido. Ele é muito bom de papo, de voz e de violão. Sobre o trabalho: carece de o senhor recomendar que eu não me preocupe com a autobiografia do senador. Sou muito emotiva, sr. Abelardo. Quero acabar com isto mas eu não consigo. Quando quero ser gelo aí é que viro fogueira. Como o senhor me deu liberdade aqui pedi ao sr. Ivo para almoçar mais cedo que quero chegar em casa antes das cinco horas. É negócio de uma doutora, dra. Narda, o nome é a eterna noiva do mágico Mandrake. Ela quer me contratar para um trabalho em três línguas e paga em dólares. Me disse mamãe que ela é uma pessoa assim, em dólares. Não-sei-o-que, em dólares. Bom, modéstia à parte, se na Bahia existem cinco grandes datilógrafas eu não sou a primeira, a primeira é Judite Brito e disparada na frente de todo mundo, mas também não sou a última. Sou limpa no serviço e como Cris afirma eu tenho senso estético. Assim, a doutora “em dólares” indo me procurar eu quero estar lá para dizer na cara dela (mamãe diz que ela é lindíssima) que só recebo em cruzeiros, que de noite só trabalho um máximo de quatro laudas e o mais: ela que vá catar em Nova Iorque que isto aqui é Brasil. Tenho horror a cartações, horror!
            Não se zangue com a coisa do anel, é que acho que ainda não mereço. Quando achar eu mesma digo, não se preocupe. Não se aborreça, eu sou assim mesmo e as pessoas  que gostam de mim nunca que vão ser enganadas por mim. Dr. Azevedo é o meu analista e ele tem razão, ou seja, eu abro meu jogo, quero viver às claras, mas os outros não abrem o jogo deles e isso acontece até com meu amigo Cris, um cara que eu adoro, ou seja, ninguém é perfeito. Às vezes Cris “apronta” cada uma!, mas no fundo ele é bom, o senhor vai ver. Perdão estar tomando tanto seu precioso tempo, é que no fundo a ideia do anel, mas só a ideia me botou vaidosa. Vai daí, o senhor não se zangue, me entenda. Salvador, 15 de janeiro de 1969, Marcule. NB – a ideia de eu aprender italiano é de Cris, bárbaro em matéria de línguas.
            A mesma.   


            Três ou quatro semanas depois de minha conversa com as professoras Ercília e Ernestina, o Padre Matta esteve em casa, dizendo-se “de passagem, é só uma visitinha”. Durante mais de uma hora conferenciou com mamãe e o sr. Giuseppe, os três trancados na sala de visitas, eu no corredor querendo ouvir algo e tudo o que pude escutar foram soluços de mulher. Em dada altura o sr. Giuseppe, apressado, saiu da sala. Surpreendeu-me no corredor, e havia ódio nos seus olhos. Indo ao gabinete, de lá voltou com alguns papéis. Reencontrou-me, nele vi o mesmo ódio, frio, determinado, perverso, e decidi, um ânimo interior estremecendo-me, que reagiria se ele tentasse me bater ou somente cascudar, e fui para o meu quarto, e na arca peguei o martelo milanês, dou com o martelo na cara dele, que morra!, e ouvi passos nas imediações do corredor e debaixo do travesseiro escondo o martelo, sentindo-lhe a ferrugem, ótimo aquilo da ferrugem porque se meu golpe não fosse suficiente forte o pó agiria como veneno, mas os passos eram de Anália e a obedeci, deixando que entrasse, e ela disse que mamãe estava chamando e fui.
            -- Sente-se, menino Antônio.
            Ordem do Padre também obedeci. Ele seria mesmo, como me dissera Anália, capaz de ler na alma da gente?
            O sr. Giuseppe já não se encontrava na sala, possivelmente estaria em meu quarto, sorrateiro, me aguardando para a surra e pedi a Deus, fervorosamente, que ele não encontrasse o martelo escondido, e também pedi a Deus que o sr. Artemísio não saísse do socavão, ele me socorreria, e para limpar a alma imaginei uma revoada de anjos dourados no céu azul, anjos gordinhos, sorridentes, felicíssimos, bailando nas alturas, sobre brancos roseirais, e, acima, miríades de estrelas piculando e cantando, tudo e todos muito meus amigos de bondade, paz, concórdia, obediência, especiali derogant generalia, eu especial devoto da Virgem Mãe de Deus, pois, pois, eu especial sofredor, Tônio um bom menino, pois não, eticétera, e o Padre Matta disse que eu estava indo muito bem na escola e respondi Graças ao Todo Poderoso, a professora Ercília é uma santa, dona Ernestina também, todos os desta casa, Reverendíssimo Padre.
            Percebendo peçonha nos elogios – diabos!, eu nunca fui de acertar nas três benditas gotas, sempre coloco duas ou quatro, é um inferno --, minha mãe ordenou que saísse da sala e de novo pensando nos anjinhos gordinhos e bonitinhos beijei a mão do Padre (o veadão dissera finas minhas feições, sedosos meus cabelos), e beijei a testa da bruaca, a desejá-la como aliada, neutra pelo menos, no combate que iria travar com o sr. Giuseppe. Saí e perto do meu quarto esperei segundos, na expectativa de ruídos, aguardando o inimigo mortal a se mover. E nada, aquele silêncio, e ainda nada, e pela primeira vez experimentei o singularíssimo sentimento nascido do conúbio da audácia e do medo, produzindo um estado de espírito cujos múltiplos componentes, num fuzuê danado, põem endoidecidos os pratos da balança. Um sentimento que me tem acompanhado toda vida, ora a coragem como vexilário, ora a prudência comandando as ações. Não o tivesse e certamente morreriam comigo as confissões, estas, e as outras que, Deus há de permitir, mais adiante farei, didaticamente evitando julgar-me para não influir no vosso julgamento soberano, amado leitores. Tais confissões – e a premissa é a de que se fossem muitos os heróis seriam caros e chatos – eu as teria lavrado bastante antes de agora se os bons acasos da vida fizessem com que mais cedo eu reencontrasse o meu caríssimo Augusto Nazareth, amigo, médico, argonauta manso apesar de jornais ou em dedicatórias de livros. Em meio a tantos chinfrins, eis uma personalidade impressionante:
            -- Eu matei o assassino, Augusto. Tal como acabo de dizer.
            -- Não force as coisas, Antônio – ele disse. Você apenas apressou um desenlace natural.
            Já beirando os oitentas anos, hígido ainda se encontra e há de me sobreviver aquele que conheci, e logo aprendi a respeitar, me ensinando francês. Mas, perdoando a digressão, não antecipemos sucessos que ocorreram posteriormente. Há vez e há hora para tudo, de acordo com que os fatos determinam.
            Voltemos, pois, ao sobrado da tortura.
            Naquele entardecer, ora a audácia a preponderar, ora o medo, a cautela atuando como agente do bom senso, entrei no quarto como que escarreirado e aos poucos acalmaram-se as batidas do meu coração: o assassino não estava de tocaia. Minha arma, o martelo, ferrugem esfarinhada, retirei-a se sob o travesseiro. O pó impregnara-se em diferentes partes no branco da fronha de linho e vi, impressas, inusitadas figuras a lembrar carapaças de besouros, retorcidas patas de grauçás, morcegos em disponibilidades. Suor e ferrugem combinaram-se e ganharam a consistência de algo quase pastoso, o inimigo sem aparecer. Eu disse, então, a uma barata:
            Ele não vem. Ele está com medo.
            Anália perguntou:
            -- Está falando sozinho?
            -- Eu estava brincando com o martelo. Anália, o pó sujou a fronha. Lave a fronha, Anália e não diga nada a eles sobre o martelo, por favor.
            Olhou-me como se fora uma mãe pezarosa que assistia, impotente para interferir, o sofrimento do seu filho mais querido. Mostrando os morcegos, que temia, fechou a janela. Minutos depois a fronha manchada já substituída, o martelo robusto na arca – mamãe invadiu o quarto, violência também indagação: Que fuxicos você fez com a vaca da Ercília?
            -- Ela mentiu, juro!
            -- Como é que podia adivinhar? Ela chegou até a falar em envenenamento e o Padre Matta, este Maria-vai-com-as-outras...
            -- Que coisa é envenenamento, mãezinha?
            -- Cínico, nesta idade e já cínico, descarado, pestezinha do inferno! – gritou. E castigou-me: Hoje você não janta, hoje você ficará trancado, sozinho, sem lamparina, no escuro, e agradeça ao Giuseppe eu não lhe dar uma dúzia de bolos, não meter um ovo fervendo em sua boca suja.


            Alvoroçados mês e meio se passaram lá em casa e, afinal, espetáculo de dia e ano esquecidos, em fim de madrugada mamãe apareceu na sala de jantar vestida de noiva. Bela mulher, não há dúvida, mas ridícula ao querer-se virginal ao lado do sr.Giuseppe todo enfatiotado. Um terço do sol no horizonte, saíram à rua, em busca da Igreja do Passo, o sr. Ambrósio e suas quatro filhas imediatamente atrás, na frente de todos um beato fantasiado de padre-auxiliar movendo um inebriante incensador: era agradável a defumação. Fechando o cortejo, eu, dona Jerusa (Esta mulher, Abelardo, sabia de algo importante relacionado com a morte de tio Leonardo), e, extraoficialmente, a negra Rosenda em acesso de abelhudice.
            O sr. Giuseppe numa roupa de azul empretecido, eu cria como um despropósito afrontoso à miséria dos outros o que, presumo, no entendimento limitado de dois verdureiros e de um masseiro passantes, habituados a testemunhar fins-de-festas dos ricos, seria somente um desperdício.
            Na igreja, além das beatas, identifiquei com maior atenção as filhas do sr. Ambrósio e cuidei de olhar as professoras Ercília e Ernestina, empoadas com exagero, e alguns operários da oficina esquálidos, frágeis, serviçais, nenhum deles seria o sr. Artemísio, herói ausente, no entanto uma ausência cheia de calor. Quem mais? Quatro ou cinco italianos, suas mulheres gordas, mormaçadas. Por que perder tempo a notar gentes de miolo mole?
            Belos, sim, a ocupar minha atenção, eram os efeitos da luz do sol atravessando os vitrais, coloridas pontes luminosas que, em lentos movimentos ascendentes no espaço úmido, me convidavam à fantasias servidas por imaginação desgarrada: foi uma espécie de fuga, óbvia atividade dos mecanismos de defesa da higidez psíquica. Algumas das pontes interrompiam-se em mamãe, como se ela as atraísse e então os laços de interesses maiores me reconduziram ao interior do tempo conspurcado – sob esse aspecto as igrejas eram, sem dúvida, espécie de meretrício – e testemunhei imbecil recordação do Padre Matta: (...) e tenham muitos filhos, para a glória maior do Senhor! Era como se pedisse cabelos a nascer em bola de bilhar e naquele instante força incontida repetiu-me frase que ouvi de meu pai para “seu” Lobo, na missa de ano à memória de tio Leonardo. Após as encomendas, em fim de sermão, o padreco dissera que, não obstante suicida e, assim, pecador, Deus haveria de ser condescendente na punição “de que tanto errou”. A frase? Foi mais ou menos esta: Deus não precisa de cretino do tipo deste cagone para falar por Ele entre os homens.
            Houve, depois da cerimônia na igreja, uns rapapés no sobrado (“o pecado foi expulso deste lar”, garantiu o padre Matta) e em pouco tudo voltou ao ramerrão habitual, até que mamãe me chamou ao quarto do casal. Ainda aquele vestido de noiva ela disse que, feita as contas, a intrujice de dona Ercília tinha produzido um resultado muito favorável. Eu não entendi e ela explicou: Agora, mesmo que Deus me chame primeiro, você herdará tudo! (E misteriosamente) Eu não terei filhos de Giuseppe. (E mais misteriosamente) Me beije, Tonho, por favor. Segundo Anália eu devia agradecer aos céus o que acontecera e deveria, assim, chamar de “pai”, “papai”, o padrasto agora oficial, uma sugestão que não aceitei: o sr. Giuseppe continuou o sr. Giuseppe.
  


8.


            Num sábado a professora Ercília foi procurá-los, dizendo-lhes que eu já tinha condições de ingressar no curso ginasial, devendo submeter-me ao que se chamava “exame de admissão”. Ela aconselhou a contratação de professor habilitado em português, em matemática e em francês, idioma em que eram editados os livros essenciais para estudos superiores. Conselho aceito, isto coincidiu com a mudança de residência, uma vez que, promovido do capital necessário, o sr. Giuseppe havia decidido ampliar as oficinas e para isso o primeiro andar deveria também ser ocupado: nele seriam instaladas máquinas compradas em São Paulo, de fornecedores ingleses e italianos. Com efeito, algumas semanas decorridas e o sr. Giuseppe alugou imóvel de dois nadares, na avenida Sete de Setembro, trecho Mercês.
            -- Mercês? Que maravilha, Giuseppe!
            Ele deu ênfase à boa qualidade da vizinhança, à esquerda um alto funcionário da Alfândega, à direita, e apesar de francês, um homem educado, o engenheiro Émile Lauzimier Deschamps, técnico da Chémins de Fer, solteirão mas incapaz de incomodar vivalma. Ademais, a casa situava-se a menos de cem metros do palacete do Comendadore. Minha mãe, os olhos brilhando, pediu a Deus bênçãos encachoeiradas para o marido e, cuidando do seu, providenciou cortinas, sanefas, móveis, tapetes, o habitual para residências, tudo de acordo com as vigentes leis do gosto médio, alguns pontos baixos. Com algumas semanas de nova morad, sr. Giuseppe observou que na sala de visitas faltava um piano, ao contrário do acontecido na casa do Comendadore,  do dr. Venâncio, do desembargador Eutrópio, presidente do Clube de Gamão, e de fulanos e sicranos. E surgiu o nosso piano, preto como o livro de anotações, preto como a vestimenta daquela Senhora repentinamente aparecida no Campo Grande, mais preto do que os morcegos de Santo Antônio Além do Carmo. Reagi com um não não tenho jeito, quando o sr. Giuseppe insinuou que eu deveria aprender as técnicas de uso daquele instrumento, mas não se amuou na negativa. De qualquer modo, o piano era o piano. Valia-se.
            A antiga oficina ganhou novo nome, fábrica; o sr. Ambrósio, nova designação, gerente, e assim por diante, o sr. Giuseppe dono de tudo. Minha mãe, de sua parte, espartilhava-se todas as manhãs, ginasticando para matar um começo de corcova, sempre a me pedir que contasse histórias: era assim, a par de algumas leituras, que ia enriquecendo seu vocabulário. Maior era, porém, a preocupação com físico: mesmo em casa usava diferentes tipos de pó e batons e reconheço que sabia se fazer atraente. Ao sair quando saía, enfeitava-se ademais com uma sombrinha de fabricação francesa, presenteada pelo sr. Lauzimier. Este vizinho, cujo filho recebeu-me recentemente em Paris com provas de grande amizade, ao nos fazer a tradicional visita de cortesia surpreendeu a todos ao recorrer ao italiano nortista em certos momentos da conversão, sempre que a tanto provocado pelo sr. Giuseppe: ele também fumava cachimbo e os tinha em grande quantidade. Ainda forçasse o menos possível, terminou sendo o principal astro da tertúlia e, a certa altura, mamãe me olhou de sorte a ordenar que de modo algum indagasse do sr. Giuseppe se sabia francês, matando tentativa que fiz nessa direção. A noitada, para mim agradável (o sr. Lauzimier era uma conquista para meu pequeno mundo), terminou com muito chá, bolinhos de arroz, umas partidas de gamão nas quais o sr. Giuseppe se impôs. Na saída, ele me deu um tapa de luva: falou em francês, oferecendo ao engenheiro a casa e os préstimos. Recebeu agradecimentos em italiano, eu a pescar algo, mamãe sem entender absolutamente nada. Estava, porém felicíssima – e uma pulga começou a crescer atrás de minha orelha...


            VOCÊ É LINDA, MARLUCE!
            E O SENHOR É MESMO MALUCO! MAMÃE ADOROU AS ORQUÍDEAS. 


Encarregados, a bons soldos, de me preparar para o ingresso no Ginásio, os professores de português, de francês e de matemática vinha-me à casa, todos os dias. Produzindo comentários louvaminheiros (neles se dizia que eu era tratado à vela de libra), era de bom tom o dispendioso investimento e poupava-me as canseiras de procurar cada um deles em suas casas, como em geral sucedia. Acontece que, na época, eu era especial: mamãe e o sr. Giuseppe viam-me como espécie de apólice a ser diuturnamente preenchida.
            Dos professores o sr. Giuseppe exigiu o máximo e falou-lhes sem reticências: imediatamente após o Ginásio eu iria estudar superiores na Suíça, seria médico e desses (raros na época) altamente especializados. À mamãe, de queixo caído ante a novidade, ele explicou, durante noturno “conselho de família”, que os estudos na Suíça não seriam um luxo e sim judiciosa aplicação de capital. Segundo lhe ensinara o desembargador Eutrópio, em termos de restituição pecuniária um bom título estrangeiro valia a ciência de cem livros. Exemplificou:
            -- O dr. Venâncio é competente, Sophia, mas a competência dele ficaria no fundo da arca se não tivesse sido médico operador em Bueno Aires. Se, também, o Comendadore não fosse padrinho dele.
            -- A fama vem dele ser professor da Faculdade de Medicina.
            -- Não. Ele é professor por causa da fama.
            O “prêmio” a mim destinado, porém, condicionava-se a certas encomendas do Governo baiano, no âmbito de uma campanha contra a verminose, iniciava dita humanitária planejada em São Paulo por um contra-parente, o sr. Tomazzo, proprietário de próspero laboratório farmacêutico. O bom negócio consistia em que, simultaneamente, o verminótico beberia o xarope do sr. Tomazzo e usaria sapatos ou simples alpercatas do sr. Giuseppe; os calçados impediram que os descendentes dos bichinhos mortos pelo santo remédio retornassem ao organismo através dos pés desprotegidos, um negócio maravilhoso, Sophia, eu vi em São Paulo; e Tomazzo virá para iniciar o negócio e Tonho irá para Suiça.
            Percebi que a decisão do sr. Giuseppe, proferida em termos irrecorríveis, não a alegrou, embora ela fingisse o inverso. De alguma maneira gostava de me ver, ter-me perto, ao alcance.
            Afeiçoei-me ao professor de francês, o hoje meu extraordinário amigo dr. Augusto Nazareth. Indicado pelo sr. Lauzimier, era um jovem de vinte a vinte e um anos, senão menos, dezenove ou dezoito, terceiranista de medicina, de estranho comportamento. Nutria-se de grandes silêncios, neles haurindo seiva para exaltadas indagações de sentido político-filosófico:
            -- De que herói brasileiro, sr. Antônio, Corneille poderia dizer, como disse referindo-se ao Cid, o que lhe digo agora: “... Et ton ilustre audace / Fait bien revivre en toi les héros de marace: / C’est deux que tu descends...” hein, sr. Antônio diga-me lá, quem?
            -- Não sei.
            -- De Tiradentes, heroico, admito, mártir mais exatamente, e no entanto ingênuo como conspirador revolucionário? Do ridículo Corneteiro Lopes, herói apenas porque se indisciplinou ou se equivocou ao soprar sua trombeta?
            Acalmando-se (eu não estava à altura para a polêmica desejada), insistia para que eu lesse histórias das grandes batalhas travadas na França, biografias de Carlos Magno, de Napoleão, os romances de Zola, a vida de Pasteur, toda literatura sobre Joana D’Arc, a fidelidade de Blanqui aos seus ideais, o heroísmo dos comunardos, ah! e Valmy, ler tudo sobre Valmy. Certa vez, todavia muito rapidamente, referiu-se ao Marquês de Sade:
            -- Que temos, então, sr. Antônio? Sempre imensas virtudes, de um lado, sempre grandes criminosos, do outro lado. Na História da França tudo se situa nas faixas das diferentes grandezas: Sade e Joana D’Arc, por exemplo. Bem, bem, voltemos à nossa obrigação específica. Você é muito promissor. Traduza-me o que vou dizer e o faça sem medo de errar: “L’honneur est un devoir. Ou melhor, traduza o verso completo: l’amour n’est qu’un plaisir, l’honneur est devoir.
            Traduzi (“o amor é apenas um prazer, a honra é um dever”) e constatei, orgulhoso, que minha mãe quase chorou de alegria e não sei porque a lembrei confidenciando-me que eu seria o único herdeiro, ela não teria filhos do sr. Giuseppe.


            -- Não, sr. Antônio, não é desse modo que ensina o Mestre. Era sempre com frase que o professor de português me definia em erro. O Mestre!, assim cognominava o eminente gramático Ernesto Carneiro Ribeiro. Uma das minhas tarefas diárias era a de ler longos trechos dos incontáveis capítulos de “Serões Grammaticaes”, por vezes comparando-os com os quase novecentos da “Tréplica”, e textos de Castilho, Herculano, Garret, Camões, Lucas de Santa Catharina, ufa! Frei Luiz de Souza, e Adiante, sr. Antônio, adiante – forçava o velhote, Prof. Hilário Farias de Baltazar Corrêa, ranzinza como quê, doutor em Direito. Repita Vieira, tal como ontem fizemos. Mas, sr. Antônio, repita-o com voz altaneira, que tanto assim merece e exige o texto. Vá, repita e de pé. Ponha-o de pé!  
            -- “Arde o ódio, morde-se a inveja, escuma a ira, raiva a desesperação, grita furiosa a dor e desafoga-se sem nunca desafogar-se a vingança em injúrias, em opróbrios...”
            -- Basta, sr. Antônio. Falta-lhe calor. Basta, então. Que é que temos?
            -- Figuras pelas quais determinadas palavras assumem sentido que antes não tinham. Foi o que ontem o senhor disse. Eu estudei...
            -- Não basta estudar. É preciso amar. Exatamente. Amar. Amar apaixonadamente. Arde o ódio... morde-se a inveja... Uma pessoa vulgar nunca imaginaria o ódio a arder, a dor a gritar.
            Pelo entusiasmo dominado, vez houve que levou hora e tanto a explicar, com abundância de exemplos, porque os particípios passados, embora essencialmente passivos, podiam, em formas variáveis, apresentar sentido ativo. Rara a aula em que não se sapecava estrofes de Castilho, seu amado Castilho: “Apenas do universo alguns nomes de amor / Ouvires ressoar nas preces, que ao Senhor / Em desmaiando a tarde, o coro entretecia”. Não eram apenas versos, ele dizia, são joias do melhor louvor, sr. Antônio, joias que os vulgares como seu professor de matemática não descobrem; que outros, descobrindo-as, querem tê-las engasgadas e frias, aprisionando-as, e não conseguem, jamais conseguirão tal heresia.
            E de repente parou, em busca de palavras, e mandou que eu refletisse sobre o que iria dizer. Disse:
            -- São imagens belíssimas, ternas e ao mesmo tempo afirmativas. A figuração poética da tarde a desmaiar sugere-me uma manifestação de pudor e ao mesmo tempo de uma audaciosa ansiedade, juntos, sem dúvida, esses sentimentos ou na busca de uma união calma, paulatina, porque em seguida à tarde, é a noite que vem, femininos ambos os tempos. Que beleza! A tarde... A noite... A magnífica Safo não sugeriria com tanta delicadeza, se fosse o caso, mas sei divago, pois que o sr. Antônio não está na idade de almoçar esse tema, tão difícil na literatura. Os que em geral o abordam são grosseiros, de chã materialismo, de sensualidade rastaquera. Está me entendendo?
            -- Isto não, professor.
            -- É natural. A sua idade... Esqueça.
            (Graças ao meu amigo Arimar, não muitos anos depois eu compreenderia a insinuação de sentido lésbico. A tarde desmaiando face à aproximação da noite... Uma insinuação do professor, eis que inexiste em Castilho tal intenção. Aliás, a primeira tradução de capítulos do “Kama Sutra” que li, com base numa edição inglesa do século passado era atribuída ao Prof. Hilário, no entanto um chefe de família – onze filhos!—exemplar)
            Esqueça, sr. Antônio. Dê tempo ao tempo. Ouça Garret: “E debulhada em prantos assim parece / Alvo lírio de prado, em cujo cálix / Chorou a aurora ao despontar do dia” e não apreenda apenas a imagem, sr. Antônio, mas faço-o com emoção. Eu me arrepio, veja, eu me arrepio!
            (Abelardo: intercale também a informação, onde você achar adequado, que de Safo traduzi – eu era, então, deputado estadual – vários textos e, entre eles, a mais perfeita de suas criações poéticas, “Ode a Afrodite”, cuja parte final reproduzo para seu conhecimento: “Quem te faz sofrer, Safo? Tranquiliza-te. Se ela foge de ti, não tarda a perseguir-te; se recusa seus dons, logo deporá outros a teus pés. E se não te ama, mesmo a contragosto acabará te adorando. Vem, vem agora, liberta meu coração triste, satisfaz minha paixão, ajuda-me tu mesma!” Talvez seja o caso de você reunir toda a minha produção como tradutor e oferecer a algum editor inteligente. Deixo isto aos seus cuidados e espero que você não faça idiotices).        


INTERRUPÇÃO – V




            Sr. Abelardo, perdoando esta outra interrupção, um pedido: o senhor poderia procurar entre os papéis do senhor todos os poemas de Safo?  Já conhecia ela de nome, mas não sabia que era tão boa assim e eu sou muito chegada a poesia. Ao contrário da insinuação do senhor, não vou pegar o trabalho da doutora Narda por ser fominha. Não sou fominha. Ela paga bem, não há dúvida que paga, mas principalmente é o assunto, conforme eu costumo fazer, coisa que eu não posso explicar pelo telefone.
            Não termino hoje esta parte porque Cris também telefonou pedindo pra que eu dê um “Alô” num amigo nosso que está numa pior. Tenho mais a dizer que já marquei sábado como dia do jantar, tá bem?
            Repito: não sou fominha por dinheiro. Sou fominha por amor, camaradagem, alegria, essas coisas.
            Tchau!
            Salvador, 15 de janeiro de 1969.
            Marluce.


            O professor de matemática, sr. Rafael, eu iria reencontrá-lo, seguidamente, nos anos após àquele em que me apareceu na casa das Mercês, com recomendação das professoras Ercília e Ernestina. Um tipo enxerido, calculista, hábil no ensinar a disciplina em que se especializara, e um glutão sem modos: ao comer, babava-se com facilidade, a cara gorda beiços de mulato. Ao descobrir que, todas as manhãs, eu merendava às dez horas, antecipou o horário das aulas, de sorte a também beber os mingaus (de carimã, tapioca, de milho, nunca mais bebi mingau de café com farinha) e os deliciosos bolinhos de arroz preparado por Anália eram mastigados com voracidade. Nos dias de mungunzá, exagerava ainda mais: dois copos, às vezes três. Sem forçar o riso de porco satisfeito, alegria pantagruélica, falava exclamativamente “um manjar, minha tia, um manjar!”, e Anália gostava dos elogios, dava-lhes asas, e eu sério, avesso às intimidades que ele perseguia.
            Posso dizer que o professor Rafael era somente tolerado. À minha mãe perguntou se gostava de jogar víspora e ela respondeu que não, de modo nenhum, Giuseppe, meu marido, é contra jogos, a não ser gamão, uma que outra vez, e gamão por causa do desembargador Eutrópio; nem bilhar ele joga, embora saiba as regras; e acrescentou que jogo era pura perda de tempo e o sr. Rafael fez um discurso sobre o muito falado saber jurídico do desembargador Eutrópio, esperando, um dia, conhecê-lo pessoalmente, quem sabe até ele concordaria em ser seu padrinho de crisma, que uma pessoa jovem, querendo triunfar no magistério, precisa de apoios, a senhora não pensa assim?
            -- Não digo que não pense...

            E deixei os dois néscios naquela justa de mediocridade: eu tinha de bem traduzir o “Porte, porte plus haut le fruit de ta victoire”, de Corneille, e versos seguintes. É ridículo, eu sei, hoje eu sei, mas naquela época, encasulado nas Mercês em todo o caso com voo possível à Suíça, eu me sentia justiceiro, um Cid juvenil, ocupando-me de preparar a ocasião mais propícia para a vingança. Uma vingança que alcancei. E, se Deus, tendo-a presenciado, é Onisciente, comigo não será, no fatal ajuste de contas, um Javert (3) implacável. Onipotente, Ele faz as leis superiores às nossas e as regulamenta e as interpreta, Supremo legislador, Supremo juiz, sabendo que somos joguetes das inesperadas circunstâncias. Não perdoei o sr. Giuseppe porque não me cabia perdoar.

(3) Personagem de Vitor  Hugor em “Os Miseráveis”, Javert  tipifica o policial que obedece fanaticamente à letra da lei e não o seu espírito.


ESCLARECIMENTO – VI

            Como você está vendo, Marluce, eu mesmo datilografei o fim deste capítulo. Tentei dormir, debalde tentei. É bom que eu trabalhe nesta máquina. Quero apaziguar meu espírito. Quero que os olhos ardam. Você me entendeu mal: quando perguntei pelos dólares da Doutora Nárdia ou Narda longe de mim esteve qualquer insinuação malévola. Foi simples curiosidade e mantenho minha oferta sincera, sem segundas intenções: você querendo eu também pago em dólares.
            Compreendo, mas não justifico e muito menos perdoo a recusa do pequeno anel, afirmando que merecedora você é. Certo, jantar no sábado e você faz bem deixando tudo a cargo de Ivo. Curioso, estou perturbado. Esta será, para mim, uma noite triste.
            Abelardo
  
                
10.


            Quase um ano mais tarde, aprovado com média excelente, senti-me quase em estado de pecado: aceitaria jantar festivo em minha homenagem, sonhara-me na Suíça, esquiando para alcançar Paris, havendo esquecido Messina e, com ela, toda Calábria. A sede de aprender muito tornava-se obsessiva e aumentava à medida em que melhor ia conhecendo o sr. Giuseppe, não fora convidado para o jantar. Seria um acontecimento de gala, com flores e roupas escuras, algo que merecesse ser presidido pelo desembargador   Eutrópio  e  isto  porque, Sofia,  ele  já  aprovou  a campanha contra a verminose e vai falar com o governador; serão lucros de milhares de contos, Sophia, não sei quantos milhares de contos
-- Não convidar o francês é a sua
-- É. O desembargador desconfia de algumas ideias dele. Mande cozinhar galinha.
E antes de partir para o gabinete disse que o sr. Tomazzo ia aparecer lá em casa e quando chegasse mamãe o atendesse pessoalmente, nada de alimentar diálogos, um homem de grandes ideias o sr. Tomazzo mas gostava de perder tempo em conversas de passarinhos. Não vi o italiano apaulistado chegar, subira antes para o meu quarto, no segundo andar. Ouvi, porém, alguns ruídos e sons de pessoas apressadas: a campainha, minha mãe abrindo e fechando a porta da rua, o sr. Giuseppe abrindo e fechando a porta do gabinete, mamãe subindo a escada. Debruçado na janela que dava para rua, esperei algum tempo, mas inutilmente, a saída do sócio do sr. Giuseppe na empreitada antivermes: pelo menos para saber se conferia seu real tipo físico com o por mim imaginado. Já bastante sonolento, ia fechar a janela, recolher-me ao leito, quando vi Rosenda sair, pelo jardim, e ir encontrar com a velha América, empregada (única) do sr. Lauzimier.
            E amigos leitores, afinal, sábado. Um sábado decisivo na minha vida.
            O desembargador Eutrópio e os demais candidatos chegaram à inglesa, 18:30, 18:40. Aperitivos na sala de visitas, gim com pedras de gelo e água gasosa. Logo após se sentarem à mesa e, antes mesmo da sopa de verduras, debulharam-se em elogios para cevar de presunção o jovenzinho que, em exames duros, realizados no mais rigoroso dos ginásios, quase alcançara média cem, em francês um ponto a menos porque grafara abattue com um t só, erro de somenos, disse o desembargador; exagerada pureza ortográfica!, exclamou o sr. Rafael, dois exemplos da irritante enxurrada de elogios, e desejei gritar-lhe que apenas pensassem os encômios, não os expressassem cara a cara, havia perigo de eu ceder à vaidade, ao orgulho, fazendo-me ainda mais alegre, e minha alegria não devia ser compartilhada com eles, e dominei a vontade de levantar-se, sair dali. Dominei-a porque não queria conflitar com o sr. Giuseppe, interessavam-se os resultados da campanha contra a verminose, eu na Suíça, livre de minha mãe, livre de toda aquela gente, aprendendo inglês, alemão, italiano, francês, latim, sobretudo italiano, extensas e duradouras viagens pelas cidades e vilarejos da Calábria. Milão? Nunca! Milão?, admiti, mas só se fosse para mijar, o máximo possível, nas suas avenidas e ruas, nas praças e nos jardins, só se fosse para defecar nas estátuas de seus heróis, amolecadamente cavalgando-as e, querendo invioladas minhas ânsias e minhas aspirações, escolhendo palavras eu disse ao desembargador:
            -- Não sei se mereço tantos gabos vindos de um homem como o senhor, de notório saber jurídico e de ilibada reputação, como ouvi certa feita o professor Rafael dizer à minha mãe.
            -- Merece, menino Antônio, merece – disse e estava felicíssimo; o sr. Rafael, porque fora explicitamente citado, de igual modo comportou-se, e o sr. Giuseppe e o professor Hilário, um contentamento agressivo; os olhos do professor Augusto, todavia, nos quais busquei paternal reprimenda, apenas me concederam, no momento, um riso malicioso, mas logo foram conselheirais, você tem suas manhas, Antônio, mas não as torne seu Norte, sua luz, não se esvazie nelas;mantenha-se íntegro, Antônio, e voltaram-se, aqueles olhos, para o sr. Giuseppe, em busca de uma explicação qualquer, algo que o ajudasse a entender minha atitude estranhável (a verdade é que sempre busquei elogios...) e era imprescutável a fisionomia do sr. Giuseppe, nela ninguém descobriria nada, e desejei que ele, o professor de francês, a mim se dirigindo mas referindo-se ao sr. Giuseppe, recordasse os versos de Corneille, um dos seus autores preferidos, que meses e meses juntos estudáramos, versos inesquecíveis, belos apropriados aos seus desígnios: (...) Ton ennemi! (Teu inimigo!) l’objet de ta colere (o alvo da tua cólera) / l’auteur de tes malheurs (o autor de tuas desgraças), l’assasin de ton père! (o assassino do teu pai!).
            -- e me exprobei por pretender tanto do professor Augusto Nazareth e, transtornado, eu disse: Perdão, mestre.
            -- Perdão, Antônio, por que? Ainda por causa do abattue com um t só? Não se exija demais, até porque a ortografia francesa, como a nossa, é complicadíssima. Há mesmo quem considere incongruência que se grafe chariot com apenas um r e se determinem dois para charrete, charrue, etc.
            O professor de português disse inexistir incongruência. Havia, sim, respeito à raízes que deveriam permanecer intocadas. Enveredaram, então no cipoal de discussão aborrecidíssima e o sr. Giuseppe me perguntou sobre o que falavam e respondi gramática histórica, senhor e ele não entendeu picas, permanecendo no capim ralo. Assim, considerei que vinha a calhar a iniciativa de minha mãe, ordenando a Rosenda que servisse outro prato de sopa a quem desejasse, e o sr. Rafael disse ah! ótimo, por sobre a ciência um poder superior mais alto se alevanta..., e todos riram, menos eu e Rosenda, ela estava triste e sua tristeza fez-me repará-la melhor, uma negra sem os chamados “traços brancos”, negra bela porque negra, robusta mas extremamente feminina.
            Depois de repetir a sopa, dir-se-ia que sem forças para arrotar e sob intensa necessidade de fazê-lo, o desembargador pediu licença para levantar-se, de repente as faces avermelharam-se-lhes, tremores, respiração ofegante, dor na caixa do peito, um incômodo – disse – há de ser coisa do estômago, gostaria de descansar na sala, e o levaram e reabriram as janelas, e o professor de francês ordenou que livrassem o desembargador do paletó, do colete, da camisa, desapertassem-no. Passou, em seguida, a auscultar-lhe o coração, demoradamente, mas ambas partes da caixa torácica, ora usando um ouvido, ora outro. Isto é grave? Não é bom chamar o dr. Venâncio?\o sr. Giuseppe perguntou, muito nervoso.
            -- Sim, é grave. Penso, porém, que o pior está passando, mas sou apenar estudante. É, no mínimo, uma síncope cardíaca e o dr. Venâncio deve vir com urgência, apesar do desembargador agora ter passado a pior fase.
            Querendo voltar à mesa, às comidas e aos vinhos portugueses anunciados, o sr. Rafael sugeriu: Acho que devemos deixar o desembargador descansar em silêncio, uma vez que ele respira melhor. De fato, estendido no sofá, o idoso homem, embora babasse, parecia cochilar, um tanto ofegante. Tendo despachado Rosenda para chamar o dr. Venâncio, o sr. Giuseppe indagou ao professor Augusto se ele garantia a recuperação do desembargador, recebendo uma resposta dura:
            -- Não, sr. Giuseppe, eu não garanto nada. Já disse que sou apenas um estudante.
            Silenciosamente contra minha possível viagem à Suíça, mamãe disse: Acho que ele respira cada vez mais aliviado, está cochilando e o sono é o melhor dos remédios, melhor do que as gotas de valeriana. Podemos ir ao jantar. E de retorno à mesa, quando o sr. Rafael perguntou pelo sr. Giuseppe, assaltou-me vontade de informar (Está à espera do dr. Venâncio – mamãe disse) que ele se quedara na sala de visitas onde, usando um dos leques de minha mãe, abanava prometida ponte conducente ao maior negócio de sua vida; não disse, foi bom que eu não dissesse, afinal a Suíça seria um refúgio, um autoexílio disputado, e o sr. Rafael, fatalista, cuidava de outro tema, pois é, mal se vive, mal se morre, o importante é aproveitar enquanto Deus permite, que a morte é sempre um mandado de Deus; interesseira, mamãe disse é sempre assim, o professor Hilário disse não há como fugir deste fato; e aí, arriscando-me e utilizando formulações intuitivas que me surpreenderam, afinal eu tinha pouco mais de treze anos, disse olhando o professor de matemática:
            -- Deus não decreta a morte de ninguém por “um me dá aquela palha”. Então é preciso lutar contra ela, que a morte é uma doença, lutar mesmo gritando desesperadamente, mesmo que o grito pareça o urro de um porco a ser sangrado.
            Mamãe quase gritou: Você não entende dessas coisas!  
            -- O que você pretende seria um excesso, sr. Antônio, um imperdoável excesso – disse o professor Hilário, e o sr. Rafael, quase segredando à minha mãe, acentuou que, por temperamento, repelia os excessos, só os admitindo ali onde as paixões afetivas prevalecessem nas lutas contra as rebeldias dos instintos; sim, é certo – voltou à carga o professor de português --, pois que Deus suporta o mal, concede-lhe tempo, mas não para sempre, ou jovem professor Augusto discorda?
            -- Não se trata de concordar ou discordar, mestre. O que me impressiona é a facilidade com que os senhores atribuem a Deus isso e aquilo. Eu evito fazê-lo e evito por confessada covardia. Aprecio muito a coragem dos senhores, se é que é coragem.
            Tenho a impressão, hoje, que o professor Hilário ripostaria de modo grosseiro, não fora o aparecimento do sr. Giuseppe, a reassumir seu lugar na mesa, tranquilo, assegurando que o desembargador dormira; quer dizer que está salvo, felizmente, opinou o sr. Rafael, mamãe nada disse, olhando a porta da cozinha, e ouvi o professor Hilário citar o gramático Augé, pedindo ao Augusto que bem estudasse como, provavelmente, estudava o Tratado de Anatomia de Testut, e o sr. Rafael, entusiasmado ao ver que Anália trazia fumegante a terrina maior, interrompeu o douto debate:
            -- Senhores, Augé e Testu morreram ou morrerão, não sei onde se encontram; o que de sério sei é que há, ante nossos olhos, estas maravilhosas galinhas ao molho pardo. Com o perdão da ciência do rationalisme com um nê só ou rationnel com dois nês, digo eu que Augé e Testut se babariam de inveja se nos vissem como estamos: diante da alegria dos dedicados pais do nosso Antônio, deste arroz solto, destas galinhas; ah! Deus é bom. Sim, eles nos invejariam. Posso servir-me, senhora dona Sophia? – e desengonçado, passou da pergunta à ação. Molho marrom espesso, molho a base de sangue de galinha, o sr. Rafael exagerou nas colheradas. Querendo empapar o arroz, repetiu-as com pressa. Em consequência, duas ou três gotas do refogado mancharam o colete branco do professor Hilário, nem pediu desculpas. E um imbecil desses não morre! Por que não se explode em carnes, vísceras, tutanos, ossos? – há de ter pensado o vetusto mestre e desviei a atenção de todos perguntando à minha mãe se não seria aconselhável apagar a luz do corredor para que o desembargador Eutrópio dormisse mais à vontade e ela disse que sim e levantou-se e saí-lhe empós.
             -- Toda caluda é pouca – disse o sr. Giuseppe, recomendando-me silêncio. 
           No corredor, quando lhe falei sobre a razão real de minha atitude, o sr. Rafael me causa asco, mãe, ela não deu importância ao que se passava na sala e comentou que se o desembargador morresse, e temia que assim tudo acabasse, alto seria o prejuízo do sr. Giuseppe, mas não se importaria muito porque chorava ao me imaginar na Suíça, sofreria intensamente com a longa separação, muito me amava, etc., coaxava quem se queria melodiosa, e deixei-a sozinha e voltei à sala. Na boca um ressaibo de porra, mãe, não finja, porra!, pensado e não dito, o sr. Giuseppe me perguntou como ia o desembargador, eu respondi coisa como “tudo bem” e estendeu-me taça com dois dedinhos de vinho, e senti náuseas: aquilo da campanha antiverminótica me dava engulhos; como seriam corpo e cara do sr. Tomazzo? Como a do sr. Giuseppe o rosto dele desenhava falta de escrúpulo, avidez argentária? (4) e o sr. Giuseppe, agora enérgico, de novo indagou:
            -- Você quer ou não quer o vinho, menino?
            -- Queira, Tonho, um pouquinho só – mamãe pediu, súplice, e me encarou de tal maneira que lhe compreendi o apelo: era a primeira vez que o sr. Giuseppe me oferecia vinho; algo muito importante na tradição italiana, a oferta constituía-se num tácito reconhecimento de que eu me fazia maior, aceitasse, pelo amor de Deus!
            -- Sim, quero, mas encha a taça – e ele, cioso de sua autoridade, manteve a garrafa suspensa e aquilo significava  que eu lhe devia um “senhor” ou/e um “por favor”
 (4)“O rosto dele desenhava falta de escrúpulos, avidez argentária.” Imitando Balzac, o senador, para ser original, fingia dar crédito ao que foi “ciência” no século passado e hoje é chamado de “arte”. “Arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços fisionômicos”. A propósito: usasse bigodes e o senador seria quase um sósia do ator David Niven.

e paguei o preço, queria o vinho, e ele encheu a taça com visível prazer, mastigando um pedaço de pão: impusera-se, sob testemunhas, àquele que fazia praça do silêncio, das esquivanças, da falta de afeição, e bebi com gosto, como fazia na Pituba.
            Compreendi, também, que, correlatamente à demonstração de autoridade, ele queria lembrar que estávamos a pique de nos associarmos em um empreendimento rendosíssimo. Mais galinha, Tonho? mamãe perguntou e eu disse não, não quero e me repeti não à galinha, não à Suíça, não a campanha antiverminótica, e assim porque o sabor e o odor do vinho haviam-me reatado ao passado, aos meus sagrados propósitos de vingança, e desse modo para mim, de novo, o sr. Giuseppe era o principal objeto de minha cólera, o assassino do meu pai, o causador de minhas desgraças, cabendo-me matá-lo. O rosto duro, lutando para que nele a emoção devida à lealdade reconquistada nada imprimisse, bebi gole a gole toda a taça, homenageando a memória de meu pai, rei e herói, o macho das lavadeiras de Itapuã, e sozinho caminhei lonjuras de mato e areias, Brotas, as trilhas de um ontem, horas antes quase esmaecido e reencontrei mar e jangadas e dentro da noite, inclusive no seu fundo, eu vi fachos acesos, e ouvi canções familiares, e uma imensa pedra, batida e rebatida pelas ondas, pedra com olhos feitos de limo e espuma, de irrepetíveis rostos, era a itaigara, e ela chorou lágrimas de encorajamento,
            -- isto, Tônio, assim, combata, reaja! – e eram as vozes de papai e tio Leonardo --, mande todos pras-putas-que-os-pariu!
            -- Ele não! – exclamei, possuído pelo delírio da imaginação inflamada, e referia-me ao professor de francês, meu querido Augusto. Ele é um homem bom. Ele tem coragem.
            -- Ele quem? – perguntou o sr. Rafael.
            -- O desembargador Eutrópio – disse o sr. Giuseppe.
            Enquanto minha mãe explicava ao professor de português que eu era assim mesmo, de repente soltava frases anteriormente apenas pensada (Às vezes meu sobrinho faz a mesma coisa, senhora Sophia, é da idade), Rosenda comunicava ao sr. Giuseppe que o dr. Venâncio não havia chegado em casa, deixara recado. O sr. Giuseppe disse não faz mal, o desembargador está melhor traga o lombo e abra outra garrafa de vinho, e o sr. Rafael não bateu palmas diante da resolução tão alvissareira porque não a ouvira: entretinha, com o professor Hilário, um início de discussão sobre episódio recente, a anistia concedida aos marujos que, sob o comando de João Cândido, se rebelaram contra o Governo. Ouvi dr. Augusto dizer ao professor Hilário:
            -- Isto de João Cândido ser preto ou não ser preto é questão de somenos. Do senhor mesmo, professor, ouvi louvores à poesia do sr. Cruz e Souza, que é preto. Creio que é justo o argumento do professor Rafael: sem a anistia, felizmente decretada, o ódio persistiria.
            Atarantado, olhando-me, o sr. Giuseppe perguntou: que ódio?
            -- O justo ódio dos marinheiros contra os castigos corporais – esclareceu o sr. Rafael, indagando em seguida: existem tais castigos na Itália, a iluminada pátria do Renascimento?
            Que elogiassem ou não a Itália, os italianos que se fodessem, o sr. Giuseppe proferiu aquele que, talvez, terá sido o primeiro e último discurso de sua vida, uma vida que encurtei e encurtei metodicamente. Não, assunto de tal jaez não lhe dizia respeito. E se si tratasse d’um altro tema, va bene. Mas, Política? E continuo intercalando expressões italianas. Existem castigos corporais na China, na França, na Inglaterra, no Brasil e mesmo na Itália, nada tinha a ver com isso. Eu, Giuseppe Camposanto, filho do falecido Américo, não tenho complicações na história. E em complicações não me meto. Contudo, não o julgasse despreocupado com a infelicidade dos outros, não, não, não! assolutamente non, e sim ao contrário, e tanto lhe aprazia a felicidade dos outros que poderia ter ficado em Milão, lá trabalhando, a ganhar bastante para seus alfinetes e o mais, no entanto preferiria o Brasil, um País pobre, e no Brasil onde armara sua tenda de trabalho? Não em São Paulo, terra em que já existiam indústrias, mas aqui, na Bahia paupérrima; e que fazia? Por acaso julgavam que era homem de comprar hoje uma bugiganga por dez mil rés para amanhã vendê-la por trinta, e vendê-la ali adiante como fazem os árabes e os judeus? Eu, não, eu, Giuseppe Camposanto fu de Américo, nunca fiz isto. Uma indústria, eis o que construí com o suor do meu rosto, com os calos de minha mão, uma indústria! E queriam outra prova de sua dedicação à Bahia, à sua gente? Bem, ouvissem-no direito, todos: decidira me mandar à Suíça e trar-me-ia de volta, grande médico, para tratar de doentes onde? na riquíssima Argentina, no riquíssimo Uruguai, na próspera cidade de São Paulo? não, não, não! aqui, eu trabalharia aqui, nesta paupérrima Bahia, tutta la giornata, anche la domenica (todos os dias e também aos domingos). Estes os seus intentos, não isto de saber sobre revoltas, castigos, políticas, demais o que era milanês, italiano, estrangeiro, e desde assim a troco de que era milanês, italiano, estrangeiro, e desde assim a troco de que iria imiscuir-se em brigas brasileiras? E se era industrial por que se envolveria em coisa de marinheiros?
            -- Meu pai dizia: o bom industrial no seu escritório, o tecelão no seu tear e pensam todos que meu pai foi o quê? O industrial? Não, nasceu e morreu tecelão, com muita honra, (surpreendente e curioso, Abelardo: o canalha sabia escolher as palavras, era convincente aos outros), e tudo o que dele herdei foi o amor pelo trabalho e uma antiga arca, uma arca quase vazia de instrumentos, mas eu poderia ter ficado lá, em Milão, trabalhando com meu irmão, vendeiro que enriqueceu, mas a ninguém quis dever favores.
            E afirmou que aprendera seu ofício duramente, de dia o tear, de noite sangrava os dedos trabalhando o couro. O couro! o couro! Os outros nos bailes, nos namoros, nas bebedeiras, e ele na salinha escura, noite e madrugada a dentro, e couro, mais couro, sempre couro. Os olhos doíam? Couro e couro.
            -- E estão lá, na arca, os restos dos meus instrumentos de trabalho. Os primeiros; minto Sophia? Responda, minto?
            -- Não, Giuseppe, você nunca mentiu. E agora se acalme.
            O vinho bebido, a doença do desembargador, a presença do sr. Tomazzo na cidade, tudo a excitá-lo, não entendeu o apelo:
            -- Muito falaram, Sophia, todos falaram, muito ouvi, e falaram de coisas daquilo que eu nada entendo: políticas, gramáticas, marinheiros... Que diabo tenho eu a ver com marinheiros rebeldes? E isto em minha casa, por quê? Por que ninguém me perguntou nada sobre os aquilos que eu sei, por quê? As novas máquinas inglesas que eu importei, tão modernas como as que vi em São Paulo, por que ninguém perguntou quanto eu paguei por elas?
            E olhou para nós e levantou-se e disse: vou ver o desembargador. Ninguém foi gentil com ele, para aconselhar-lhe “vá” ou “não, fique conosco”, era um sozinho que deixava a sala, e minha mãe, notando que eu suava muito, aconselhou que usasse o lenço e não bebesse mais, e desatendi e enchi de novo minha taça e fui sardônico ao propor brinde à minha mãe, a quem eu tudo devia – disse, mentindo --, devia tudo, absolutamente tudo, e quando com a dela eu ia tilintar a minha taça, o sr. Giuseppe, muito nervoso, reapareceu, pálido, pedindo a Augusto que o seguisse, presto, dottore, prestíssimo!
            O desembargador Eutrópio, mola principal da negociata verminótica, estava morto. Uma morte que me aliviou.
            Dr. Venâncio referiu-se a uma “parada cardíaca” e mandou buscar papel adequado para o atestado de óbito. Tudo muito prático e conveniente, até mesmo o choro, sem salamaleques, de minha mãe. Ela sugeriu que a filha única do desembargador e o marido, chamados pelo sr. Rafael, levassem o corpo à Igreja das Mercês para velório solene: o morto continuava no sofá. De todas as peças do mobiliário da casa era a melhor trabalhada, jacarandá e palhinha. As duas na sala, mamãe disse à Rosenda: fique lá, vigiando. Aí, quando colocarem o corpo no caixão chame Anália e vocês duas tragam meu sofá. Não quero gente estranha sentado nele. Em velórios aparecem muitos perversos e um deles pode furar a palhinha. O sr. Rafael ofereceu-se, também, para avisar o Governador, o Presidente do Tribunal de Justiça, o Intendente, os jornais, eficientíssima colaboração e oportunidade para aparecer: o descarado gostava de ser visto. Debruçado na janela mais larga, a do centro, o sr. Giuseppe murmurava não-sei-o-quê e, de inópino, disse para mamãe: Vou ver o Tomazzo no Hotel, não demoro.
            -- Aproveite e avise ao sr. Lauzimier. E que o velório será na Igreja.
            -- Mande alguém avisar. Estou com pressa. 
NOTA ADICIONAL N 2

           
            Sobre o que aconteceu no jantar quero reconhecer um fato e prestar um depoimento. Aprendi naquela noite, ouvindo o discurso irritado do sr. Giuseppe, que um político deve saber sintonizar com a mediocridade. Ou seja, falar os temas e a linguagem dos medíocres, que fazem as maiorias eleitorais e outras. Homem culto como sempre fui, isso não me foi nada fácil, desde que eu tinha de descer até os rastaqueras, entendê-los e fazer-me entendido. Em boa parte consegui. Os insucessos das esquerdas no Brasil têm nisso uma das suas causas: elas não sabem “traduzir” os problemas que dominam. O que não deixa de ser tranquilizador. Já os populistas, que são a versão brasileira dos sociais-democratas europeus, sabem fazê-lo. Não menos o sabem desvairados como o intragável sr. Jânio Quadros, nojento além de paulista.
            Tenho dito a Abelardo que me exijo, em estas memórias, como Tibério, citado por Suetônio, se desejou: que me odeiem contanto que me avaliem. O depoimento é o seguinte: eu era deputado estadual, antes de 1930 chegado ao Governo, e o professor (...) mostrou-se uma lista de todos os médicos funcionários do Estado, com a recomendação de escrever a alguns propondo vantagens em troca de trabalho eleitoral. O nome de Augusto, que servia em juazeiro, hoje uma cidade bonitinha, naquela época um inferno de calor e poeira, cresceu ante meus olhos. Escrevi-lhe de sorte a trazê-lo para Salvador, quem sabe para cargo de chefia, e ele nem me respondeu. Quis prostituí-lo e não aceitou. Minha carta ficou sem resposta. Há dois anos, havia sofrido um enfarte, Augusto surgiu-me no quarto do hospital, colaborando na minha recuperação. Repito: ele me aconselhou a contar tudo, absolutamente tudo, em meu benefício – escrevendo eu redescobri grande interesse pela vida – e, quiçá, daqueles leitores que define como “anônimos decisivos”:
            -- Escreva – ele disse ao ler alguns dos meus apontamentos – e o faça como se vomitasse, sonhasse, cagasse, renascesse.
            Este homem extraordinário, que, agora, luta desesperadamente para salvar um jovem escritor canceroso, morre um pouco com cada morte que não consegue impedir. E, como a Fênix lendário, revive para um apostolado: ele nos ama. É por causa dele que o operário Artemísio está neste livro.
            -- Attendre, attendre encore / Sans plus savoir ce qu’on attend (“Espera, espera ainda / Sem saber o que esperas”), foram versos que me disse quando, na noite do jantar, se despediu de mim, afastando-se do meu convívio, que materialmente poderia ser-lhe útil, durante décadas. E fez bem: porque eu me putifiquei.




                                                              TERCEIRA PARTE 




ESCLARECIMENTO – VII





            Marluce, minha querida e jovem amiga:
            durante o jantar senti a existência de um delicioso “estou ausente” em cada um dos seus silêncios enquanto Cristovão falava. Diga se estou em erro, mas acredito que você, em cada um daqueles silêncios, estava simultaneamente aqui em casa, para mim, e lá longe. Para quem e onde, querida, onde? Entre ninfas? Entre musas? Naquele mar bravio que deseja só para você?
            Adorei tudo quanto aconteceu no jantar. Cris é, de fato, um rapaz viril, de boas maneiras, sensível e parece dedicar-lhe amizade afetuosa, algumas vezes um tanto ardente, o que é natural: você é, realmente, muito bonita, sem nada de comum com os padrões que cinemas, televisões, revistas, tentam impor ao nosso gosto.
            Espero-os de novo, quinta-feira. Ou antes, se vocês quiserem. O anel, insisto, ficará exatamente onde o deixei e você escolherá o momento em que deverá usá-lo.
            Nesta parte do nosso trabalho, inicie tudo a partir do capítulo sete ou, se você concordar, em face do que conversamos, desde a última lauda do seis. No momento preciso direi aos leitores porque procedo assim. Você mesma, querida amiga, poderá verificar as referências desairosas feitas a pessoas altamente respeitáveis. Mortas algumas, seus numerosos filhos e filhas, além de parentes, estão vivos, são atuantes e não poucos detêm posições poderosas. Se, para atingirmos os nossos objetivos, o senador e agora eu, isso fosse necessário, então muito bem. Não é. Então, melhor esquecê-lo.
            Querida, você não acha o Cris, digamos assim, um tanto exaltado?
            Abelardo.


INTRODUÇÃO – VI


            Já que é para escrever o que eu penso, vou dizendo logo que você não está datando os seus bilhetes, ao contrário do que você mesmo combinou. Meus silêncios, você lembrou... É, meus silêncios. Sobre isto a gente conversa, mas que Cris não saiba, principalmente a coisa de que eu estava longe daqui enquanto ela falava contra eu ter pegado o trabalho da doutora Narda. Outro babado em relação a Cris é o seguinte: o negócio da biografia de Safo que você me prometeu é coisa que fica entre nós e não me peça explicações. Que mais? Certo o jantar na quinta-feira, uma vez que a doutora Narda não tem muita pressa. Sobre o anel: está bem, deixe onde está. Ah!, sim a doutora Narda fala italiano que é uma beleza e mamãe fica como uma boba, apreciando ela e Cris. Mamãe é joia, um dia você vai ver. Abelado, acho babaquice copiar a última lauda do capítulo seis e vou direta no sete, a menos que você decida o contrário. Salvador, 23 de janeiro de 1969. Marluce. NB: repita na quinta-feira a sopa de espinafre. M


7.


            Em dia de primeira semana do período de férias escolares, ao lado de minha mãe, percorrendo as oficinas sem o perigo da vigilância do sr. Giuseppe (ele fora a São Paulo), tentei identificar, entre os trabalhadores, o sr. Artemísio. Não o conseguindo, solicitei do sr. Ambrósio a presença desejada. “Um pedido impossível”, ele disse, eis que o sr. Artemísio havia sido despedido. Destratara o sr. Giuseppe.
            -- Xingou ele?
            Minha mãe, chegando-se, indagou: O que é que ele quer, Tonho? Menti e disse que havia pedido ao sr. Ambrósio uns pedaços de couro para entalhá-los, um passatempo; replicou que devia esquecer couros, peles, para mim importantes eram os livros, o próprio sr. Lauzimier espantara-se com meus progressos no ginásio. Quando o sr. Ambrósio repetiu, duas ou três vezes, o seu habitual perfeitamente, senhora dona Sophia? Saí de banda e reparei que sua escrivaninha era bem menor que a do sr. Giuseppe e vi o livro preto, tradicional, metido entre outros de diferentes cores e complicados títulos. Abrindo o preto, presumivelmente seguindo à risca as instruções do sr. Giuseppe, mamãe endereçou ao gerente perguntas que cria altamente embaraçosas. Como o sr. Ambrósio a tudo respondesse com segurança, ela passou a dimensionar outro tipo de suspeita, manifestando-as mediante observações que desejou acidamente sagazes: colarinho novo, igualmente novos os punhos da camisa, ótimo tecido aquele, de primeira qualidade, o senhor até parece que vai a uma festa, sr. Ambrósio...
            -- Festa, senhora dona Sophia, festa?
            -- Me parece. O colarinho novo, punhos novos, tudo tão chic... – e dando à voz agressiva inflexão pediu o livro preto, queria levá-lo. No final da visita de inspeção o sr. Ambrósio cuidou de explicar-se sobre punhos e colarinhos. Prelibando, sem jactâncias, as doçuras de um triunfo fácil, disse os ter graças a uma de suas filhas, Mariana, talvez dela mamãe se recordasse, estivera presente ao casamento, crescera com boa saúde, recato exemplar e muitas prendas, particularmente costura e cozinha. Aliás, senhora dona Sophia, quanto a cozinha é de fazer parelha com dona Anália. Não bastassem tais méritos, o sr. Ambrósio agregou que Mariana era dada a leituras apropriadas, livros escolhidos pelo Padre Matta, mamãe teria prazer em conhecê-la? Acho que sim – respondeu. Oferecimento tão inesperado quão desconcertante, mamãe confundiu-se um pouco, mas se refez, arteira como uma raposa, e retomou o tema que lhe anunciava a desconfiança, traduzida por um perguntar nada elegante:
            -- E quando a punhos? E quanto a colarinhos, sr. Ambrósio?
            -- Mariana coserá quantos a senhora queira.
            -- E quanto aos panos?
            -- Os meus foram sobras de camisas que Mariana costurou. Encomendadas por clientes ricos. O sr. Giuseppe sabe quem são.

            -- Vamos, Tonho – ela determinou e quando começamos a andar, já na rua, o sr. Ambrósio pediu que enviasse o livro preto de volta antes das quatro horas da tarde e assim porque nele terei de fazer os assentamentos da jornada e ela considerou uma ousadia aquilo de alguém subordinado lhe marcar tempo e reagiu: você manda buscar às cinco horas, nem um minuto menos.   
            Fraco para manter-se digno, concordou com o asserto dela.

            Manhã de dia da semana seguinte, a moça Mariana apareceu lá em casa, olhos amendoados, seios fartos, nádegas condizentes com o perfil. Como se verá, poderia ter sido, se quisesse, minha mulher, mas nunca seria minha amante. E não quero, com isso, desdoirá-la, muito menos tisná-la.
            Instruída pelo pai, levou pedaços da fazenda com que lhe fizera os punhos e o colarinho, retalhos, senhora dona Sophia, sobraram de seis camisas que costurei para o sr. Fuad, freguês rico; quem sabe a senhora não conhece o sr. Fuad? É muito amigo do sr, Giuseppe e é o dono do bazar “Cedros do Líbano”, no pelourinho, início da Ladeira, direita de quem sobe, e mamãe evitou responder e fingiu surpresa e à guisa de que – perguntou – dera tal informação se nada sugerira ao sr. Fuad ou outra pessoa assim?
            Bobagem, queria era que Mariana preparasse uns punhos e uns colarinhos de pano tão bonito quanto aquele para dá-los ao sr. Giuseppe, logo que retornasse de São Paulo, já estava demorando quase dois meses. E de supetão, perguntou: Onde você comprou o pano para o sr. Fuad?
            -- Ele é que levou o pano. Deve ter comprado em “A Tzarina”, que vende fazendas caras assim.
            -- Vá ver que foi – mamãe, afinal, admitiu – Eu vou lá um dia desse. E quanto a você, Mariana, bons serviços, bons vinténs.
            Pouco e pouco desenovelando-se dos temores que trouxera, Mariana aceitou almoçar na copa, com Rosenda e Anália. De tarde ela nos acompanhou às oficinas. Reuniram-se, as duas, com o sr. Ambrósio e aproveitei a ensancha para andar de um lado para o outro, fazendo indagações aos operários que se atreviam a encarar-me (sobretudo a uma mulata, da secção de empacotamento) e, afinal, juntando fios, descobri porque o sr. Artemísio fora sumariamente demitido: o corajoso homem escrevera um petitório solicitando que aos sábados, no turno da tarde, a jornada se reduzisse de uma hora, de sorte que os trabalhadores tivessem mais tempo para compras nas feiras. Conquanto considerasse a reivindicação como uma rebeldia, o sr. Giuseppe, ponderando sobre a competência do sr. Artemísio e considerando que fora ele o primeiro signatário do documento, instou-o a retratar-se, desse o dito por não dito. Proposta recusa, demissão e ameaça de polícia para prendê-lo.
            -- E ele foi espancado?
            -- Não se espanca um homem como ele, mas ninguém sabe o que aconteceu.
            -- Pode ter morrido?
            -- E se ele morresse?
            -- Eu ia ficar danado!
-- Me deixe, menino, me deixe! – e a mulata, nervosa, trancou-se em copas, vindicando silêncio protetor. Imaginei o sr. Artemísio a enfrentar aqueles meganhas espancadores, vencê-los, fugindo em seguida, qual um novo Zumbi dos Palmares. E ali, nas oficinas, olhando caras e caras, depreendi que não havia outro capaz de substituí-lo. No socavão, no térreo, no primeiro e no segundo andares, os homens e os adolescentes a trabalhar mostravam-se golpeados pelo desânimo, compondo, todos, o que Ruy chamou, depreciativamente, de “enguia humana”, “de compleição resvaladiça e fugidia”. Ou, para usar gíria hodierna, eles não eram de nada, uns frouxos, fadados à eterna obediência, o que é bom quando há bons líderes – e este não era o caso do sr. Giuseppe. Gentes de olhos mormaçados, indivíduos verminóticos, com certeza, amolengados, apequenados. Exceção? Apenas a mulata de olhos verdes e vivos, mas era mulher. O sr. Ambrósio, a quem olhei com raiva, descobriu-me no primeiro andar e disse que eu me devia dar toda pressa, mamãe já estava de saída. Ela tinha uma novidade: Mariana ia passar uns dias conosco, até o regresso do sr. Giuseppe. Ótimo! Seria aprazível, alguém de ouvido fino com quem conversar, tê-la bem próxima, pressenti-la perturbada com meus olhares.


8.


            O primeiro telegrama que vi em minha vida foi o do sr. Tomazzo a comunicar o repentino internamento do sr. Giuseppe num hospital de São de Paulo. Doença então de nome estranho, “insulto cérebro vascular”, e ela me mandou, toda urgência, buscar o dr. Venâncio e fui e voltei andando bem mais depressa que o idoso clínico e senti, logo aberto o portão, cheiro de incenso queimado, e vi as duas mulheres diante do nicho, elas rezavam. Mais atrás de Mariana e mamãe, Anália também rezava. Desinteressada, Rosenda, usando óleo de linhaça e pano felpudo, lustrava a escrivaninha do hospitalizado e entrei no antes indevassável gabinete do sr. Giuseppe e gozei ao notar quase vazias as estantes e alisei cada uma daquelas prateleiras. Maior ainda meu contentamento quando ouvi o dr. Venâncio dizer: se acertado o diagnóstico, é muito grave o estado dele, dona Sophia. É gravíssimo. A senhora viajará?
            -- Não. Sozinha, em São Paulo, eu não saberia dar um passo. E ele tem parentes lá.
            “Quando ele morrer – eu me disse – vou encher estas estantes com meus livros”. Já tinha, em quarto, uns trinta volumes, alguns oferecidos pelo sr. Lauzimier. Dois ou três, não mais, comprados pelo próprio sr. Giuseppe.


            Naturalmente por ter ciência que o sr. Giuseppe ainda se encontrava em São Paulo, hospitalizado, o sr. Rafael, uma noite de junho, esgotava-se o período de férias de meio de ano, foi visitar minha mãe, oferecer seus préstimos, como alegou. Ouvi-os ao retornar do Largo da Piedade, onde estivera a passear com Mariana, andando sem pressa, a ver os foguetes e os balões das festas que chegaram ao fim, restos de fogueiras juninas pelos chãos. O sr. Rafael contava episódios de sua existência pobre, esforçando-se por causar boa impressão à muito possível futura viúva, supondo que os quase mortos instintos maternais de minha mãe, mulher de um filho só e filho que a evitava, poderiam ser despertados a seu favor. O idiota ensinava Padre-Nosso a vigário e assim porque minha mãe poderia, se lhe desse na telha, matraquear horas seguidas sobre o amargo da solidão, quão ferventes são as lágrimas das crianças que dormem sob o acicate do cansaço físico e não embaladas pelas canções de ninar, e etc., e etc.
            -- Também eu não nasci em berço de ouro, sr. Rafael.
            E nada falou sobre o tema do seu agrado. Cerimoniosamente, entretinha o sr. Rafael, seu hipócrita pundonor realçado pelo uniforme de viúva em véspera da condição. Com efeito, desde o dia em que fora informada sobre a gravidade da moléstia, dera-se a trajar preto, dos pés à cabeça. Com exceção da pele não morena e também não cabo-verde, indefinível matiz, e excetuando, ainda, o medalhão de ouro, tudo nela era preto, negro, azeviche, melhor dizendo piche. O sr. Rafael, apostemado Tartufo tupiniquim, mostrava-se de modo ridículo: o costume amarfanhado conflitava com a flor de formas perfeitas, um cravo vermelho-sangue, que trazia na lapela esquerda. A gravata grená, via-se bem, estava descuidadamente furada pelo alfinete azinhavrado, no cimo qual inexistia pérola ou diamante. Havia, sim, a fosca e arranhada e comum uma pedra que, antes, simulara a beleza da ametista.
            Mariana quis avançar, sala a dentro, perfilar-se ante minha mãe, exibir-se àquele estranho, mas impedi que o fizesse, levando-a, pelo jardim lateral, até a porta trazeira, sempre a pedir-lhe total silêncio. Da cozinha alcançamos a copa, a sala de jantar e, depois, o gabinete do sr Giuseppe, contíguo à sala de visitas. Então, afinal, foi-nos possível continuar ouvindo a conversa. O sopeiro reoferecia-se para ir a São Paulo, “ver como as coisas estão”, Mamãe disse:
            -- Pelas cartas do sr. Tomazzo isso não é preciso. Ele vai embarcar Giuseppe de volta. Conhece um comandante de navio. É só o navio chegar, o que não vai demorar muito, apesar da Guerra.
            -- Estou sempre às ordens. A senhora lê sobre a Guerra? (1)
            Encostei-me em Mariana e senti-lhe o calor, por trás. Ela não me repeliu. Eu tinha uns dezesseis anos, ela dezessete ou dezoito, e éramos quase da mesma altura e sedosos seus cabelos de fêmea nova, limpa, embriagador o cheiro dos seu cangote. Enlacei-a com o braço esquerdo e usando a mão direita, delicadamente, tapei-lhe a boca, sentindo seus lábios umedecidos e pedi que não se movesse, mantivéssemo-nos ali, calados, e em pouco eu já não escutava o que se diziam minha mãe e o sr. Rafael. Mariana era tudo, suas nádegas, seus seios, o morno respirar, não se movesse e não falasse e continuasse a permitir aquele maravilhoso aconchego, e mais me colei nela, esfregando-me, e minha língua salivando seu ouvido, ela tensa, deixando, e o gozo, a ejaculação incontrolável, e as vozes na sala, de novo pude ouvi-las, minha mãe a dizer que tinha fé na recuperação do sr. Gouseppe, na Bahia há calor, Deus é Grande, sr. Rafael, Deus é grande.
            -- Será que calor faz eleito em paralisia total?
            -- O dr. Venâncio acha possível e Deus sabe o que faz.

            Acredito que Mariana se cansou da pressão que sobre ela eu ainda fazia e, com brusco movimento, apartou-se mas não seguiu para a sala: pôs-se ao meu lado. Dei-me tento das novas investidas do sr. Rafael e que minha mãe as aparava com o emprego de frases curtas, a elas acrescentando “senhor professor”, expressão fria, cortante. Pensei: ela recusa o sr. Rafael por causa do sr. Lauzimier; quem sabe se, de madrugada, todos a dormir, ela não lhe abra a porta? Que o faça, continue fazendo, o sr. Lauzimier gosta mesmo de mim, enquanto que este sopeiro... – e não concluí o pensamento eis que Mariana, agora por detrás, me puxava o paletó, quase fechando os olhos na súplica, pelo amor de Deus, Tonho, saia daí e concordei e ela, ao ver-me, a calça molhada de esperma,visguenta, exclamou oh! Pai do céu! e eu disse amo você, Mariana, amo muito, e ela suava (medo) e consegui beijá-la na boca. O gesto ousado a surpreendeu e sem retribuir a carícia, implorou: suba e mude esta calça, Tonho, mude e desça logo, por favor.
            -- Tônio, diga Tônio – exigi. Você jurou que somente na vista dela e dos outros me chamaria de Tonho. Tônio, Tônio, ela repetiu, reinterando que eu devia mudar de calça e descer, se demorássemos muito minha mamãe suspeitaria, e os degraus da escada, pulando-os de dois em dois, e corredor, meu quarto. Troquei a calça sem saber a cor daquela que estivera usando e nem a da nova, tamanha minha confusão, a suja jogada debaixo da cama, e desci e Mariana me esperava pedindo fizéssemos de contas que havíamos chegado naquele instante e eu disse sim, mas não tenha medo: o sr. Giuseppe está morrendo, vou ser o homem desta casa e amo você.
            -- Tônio, por favor, fale baixo... e juntos, retomando o jardim, pela entrada da frente penetramos na sala de visitas. Levantando-se ao nos ver, o sr. Rafael disse ah, até que enfim aparece o nosso tonho, eu disse esta é Mariana, os dois se disseram muito prazer e minha mãe observou, com algum azedume, que tínhamos demorado além da conta, coisa incomum, e Mariana hesitou e eu menti com eficácia: Fomos até o Campo Grande; na Piedade havia foguetes perigosos, espadas, mãe. Mariana confirmou, ótimo! Ela assumia a condição de aliada, algo a mais nos unia, e o sr. Rafael passou a olhá-la com alegria e surpresa. Mamãe apresentou-a como “moça de companhia” e, talvez arrependida pela simpatia demonstrada, abruptamente ordenou a Mariana que nos preparasse um chá, e não demorasse, Lipton, Mariana, você sabe o que é chá Lipton? e traga bolinhos de arroz, e inqueri-me: por ela não pede a Mariana que transmita a ordem à Anália ou à Rosenda? Não é assim que ela faz quando o sr. Lauzimier vem aqui? por que, agora, rebaixa Mariana à condição de doméstica? E irritei-me e disse: é tarde para mim, mãe, a bênção e boa noite, sr. Rafael, e ela insistiu para o chá e menti com descaro tal que consegui convencê-la:
            -- Não posso ficar, mãe. Para que o calor da Bahia bote o sr. Giuseppe bom eu prometi rezar um terço ao Senhor do Bonfim e eu não gosto que ninguém me veja rezando, já expliquei isso ao Padre Matta.
               
(1)   A guerra. Trata-se da I Guerra Mundial, travada na Europa, de 1914 a 1918


E saí da sala e ao invés de dirigir-me ao meu quarto, apijamar-me, aquietar as  emoções novas, sentei-me nos degraus da escada e lá em baixo, na sala, aquelas vozes, o sr. Rafael todo se melando em falsidades: Há muitos anos, senhora, não me agasalho em família tão educada, tão fina, tão cristã. O que o nosso Tonho está fazendo agora comove-me muito. Nesta casa são incontáveis os quilates em termos de bondade e pureza, e imaginei Mariana a despir-se, a saia primeiro, a anágua em seguida, o sutiã, a calçola, nua ali estava Mariana nua, estátua, negros como os de minha mãe, os pelos que lhe cobriam o sexo, igualmente carnudos os seios, como os de minha mãe, vermelhos os bicos, um vermelho puxando para rosa, como os de minha mãe, e me acariciei e porque gostei da carícia nela prossegui e de repente temi que minha mãe, saturada com as momices do sr. Rafael, lhe desse um basta e subisse silenciosamente, surpreendendo-me. Importante, para mim, era nova descoberta: amava Mariana, suas carnes, e esse amor tornava-me partícipe de um mundo maior. Uma pena que seus olhos não fossem verdes como os da mulata da oficina, que seus lábios não fossem mais sensuais, como os de melhor esconder a calça do gozo com Mariana.
Reencontrei-a calma, de manhã, na copa, servindo café com leite e roliços de tapioca. Estávamos sozinhos e alisei-lhe a mão quando recebi o paliteiro e não reclamou. Levantando-me, sem nenhum receio de que Anália e Rosenda pudesse ouvir, disse: Eu lhe amo, Mariana.
-- Cale esta boca, Tônio – e sorriu e com um movimento de rosto indicou o relógio antigo, na parede, aquele pêndulo grande, pesado, a mover-se, ele é que eu via, não via os ponteiros, via aquele pêndulo, e esfreguei a mão em meu pau, enrijecendo-o ainda mais, e ela viu e ruborizou-se e disse: Tônio, são quase oito horas, seu horário. Eu me atribuira horários rígidos para estudar e os cumpria, agora já utilizava o gabinete, uma conquista contra a qual mamãe não disse palavra. Fui aos poucos transferindo meus livros, meus cadernos, com desculpa na ponta da língua se ela reclamasse, mas parecia de acordo.
-- Vá estudar – Mariana pediu, prometendo que, logo mamãe saísse (iria, como foi, aconselhar-se com o dr. Venâncio), falaria comigo, a sós, coisa muito importante, Tônio. Por volta das nove horas, minha mãe desceu para o café. Antes de sentar-se na copa foi ao gabinete com uma exigência: de outra vez não procedesse como na noite anterior, eis que a largada sozinha com o sr. Rafael, um presepeiro, não havia dúvidas, mas útil, dispondo-se a ajudá-la nas providências em favor do sr. Giuseppe, quando ele chegasse. Chamando-se de prestativo, disse também que o sr. Rafael desaconselhara meu ingresso na Faculdade de Direito. Se eu tinha uma inclinação para a matemática, por que não seria Engenharia? Considerei idiota o conselho, como idiota havia sido a ideia do sr. Giuseppe, uns três anos atrás, para que seguisse Medicina. Sei o que quero – eu disse. Se não quiser ser coisa alguma eu serei exatamente coisa alguma: a vida é minha. E ela saiu, amuada.
Eu traduzia o brocado latino “Eum enim qui armis venit, possumus armis repelere” – Podemos repelir com as armas, aquele que vem com armas – quando Mariana apareceu, sisuda, e pediu que eu não falasse, ouvisse, e tudo bem escutado então seria dela a vez de ponderar o que me ocorresse dizer. Tentou ser didática:
-- Eu gosto de você. Não amo, mas gosto. Às vezes você é uma criança, às vezes você age como um homem feito. Eu gostei de ontem à noite. Mas, se você implorasse à dona Sophia para casar comigo, ou mesmo só namorar, dona Sophia diria que não, o sr. Giuseppe também...
-- Ele não vale nada. Ele é um molambo.
-- Meu pai também, todos, porque seria um casamento contra a ordem natural das coisas. É como o Padre Matta diz: um cavalo é um cavalo, um gato é um gato, não se misturam nunca.
-- Mariana, começa que o Padre Matta é um veado e fique sabendo que mamãe pegou ele querendo me beijar e botou o descarado pra fora de casa (2). É um chuparino!
-- Me respeite, Tonho.
-- Uma ova! Eu amo você, você me disse que gosta de mim, nós somos gente e você me vem com os bichos do veado desse Padre!
-- Fale baixo.
-- Já cansei de falar baixo nesta casa, que é também minha. O sr. Giuseppe está doente, vai morrer, isto eu garanto, e quem vai mandar aqui sou eu. Eu sou o herdeiro! Um tempo mais, Mariana, e eu boto no dedo o anel de doutor e isso de casamento é pra depois, não muito, mas depois, eu, dr. Antônio Petrucci e você...
-- Nada vai mudar! – disse e estava exasperada e definiu-me como um jovem senhor, o patrão do seu pai, o patrão dela mesma, errando espalmadamente que nunca fui patrão de ninguém. Disse mais que eu era um touro e ela um animalzinho, nossas vidas estavam marcadas para diferentes direções , eu não seria louco de abandonar tudo e segui-la e sofrê-la; ainda que pudéssemos durante algum tempo viver juntos, um dia, tão longe, tudo se desfaria, nunca iguais acordaríamos, como nunca se encontram, iguais, o touro e a rã.
-- Touros, gatos, cavalos, o veado do Padre Matta e você... rã. Ora, tudo é uma bicharia de cretinos. Por que você se mete nisto?
-- É a ordem natural das coisas.
-- Ordem natural é você ficar nua para mim. E que os outros se fodam!
 Impetuosa, ela me considerou um bruto, chorando, dizendo bobagens grupadas, apinhoadas, e me aporrinhei comigo mesmo, a ponto de não querer abrir um telegrama que Rosenda me mostrava, ao tempo que pedia calma. Não mais que uma hora depois, mamãe, atarantada, informando que o navio a trazer o sr. Giuseppe, chegaria dentro de uns dez dias, preocupou-se com pedido que fiz: queria almoçar no gabinete, exigindo que ninguém me interrompesse.
-- Nunca ninguém fez isso, Tonho. Gabinete não é refeitório.
-- Eu quero e eu faço.                                                                                                                                                                                                                
(2)A cena em que o finado tentou e conseguiu manifestações homossexuais do Padre Matta encontra-se em um dos capítulos, o numerado cinco, que resolvi cortar. No meu entendimento o senador deu uma jogada muito suja, pata ver-se livre do religioso, de sorte a introduzir em sua casa o Padre Hermógenes. Esta explicação é suficiente.

À espera do dr. Venâncio, de noite, o sr. Lauzimier e o sr. Rafael na sala de visitas, Mariana colocou-se atrás da cadeira de minha mãe, fazendo-se animalzinho de estimação. Emurcheceu-se ainda mais quando o pai, sr. Ambrósio, surgiu: ele fora chamado. O sr. Lauzimier, notando minha inquietação, eu tinha sede de Mariana, um desejo desmesurado, sugeriu que fôssemos ao gabinete. Inteligentíssimo e afiado em análises de almas humanas, ele conseguiu distrair-me e tanto que esqueci as baboseiras do sr. Venâncio: acreditava, o bobão, que o clima de Salvador poderia devolver alguns movimentos ao sr. Giuseppe. De onde tirou essa  teoria maluca eu não sei. Mamãe disse, a certa altura:
-- A fé remove montanhas.
Não removeu picas nenhumas!


9. 


Os marinheiros agiram com perícia quando descarregavam o corpo do sr. Giuseppe para o cais, ele duro, enrolado em lençol de hospital, na maca, como que enrolado, um bagulho, todo um mapa de anatomia patológica (ah, Abelardo, quero morrer de enfarte, ainda que a dor seja terrível), e se não foi imaginação minha, vi a Senhora-Toda-de-Preto esgueirando-se e sumindo entre os doqueiros aparvalhados. Talvez por economia (custara bastante a hospitalização em São Paulo), mamãe havia alugado uma carroça que o sr. Rafael afanosa e toscamente alcochoara. Um préstito bizarro e em todo o percurso, das docas às Mercês, não foram poucas as pessoas que, cada qual a seu modo, se divertiram com o inusitado espetáculo. Gozariam mais se tivessem, como eu tive, o privilégio de ver e ouvi mamãe “comentando” os comentários das gentes, multiplicando assacadilhas e imprecações, ela mesma sabendo que naquilo tudo havia muito dela própria: esquecera, a burra, que comparara meu pai a um porco. Mais gozariam, como eu, se a vissem a repetir mimos e palavras de esperança para o trapo de pessoa que era o sr. Giuseppe. Já em casa, no quarto “do casal”, o sr. Giuseppe, olhos abertos, pesados de espanto e tatuados pela angústia, não conseguiu mover um músculo da cara quando o dr. Venâncio lhe furou o braço magérrimo com seringa de grossa agulha. Mamãe disse:
            -- Coitadinho.
            Fosse qual fosse, a droga agiu com evidente rapidez. Em verdade, aos poucos os olhos embaçaram-se e quando, por ordem do médico, todos descemos para a sala de visitas já as pálpebras estavam descidas.
            Entardecia quando o dr. Venâncio saiu do gabinete, nas mãos a carta que lhe enviara um dos médicos que, em São Paulo, acompanharam o caso do sr. Giuseppe. Ele disse que, desgraçadamente, os danos haviam sido muito extensos e, em consequência, impossível deixar de concordar com as previsões contidas na missiva: era de se rezar por um milagre (e já esquecido o clima da Bahia) pois só ele salvaria o nosso desditoso amigo, esposo exemplar e pai extremado. Se um milagre a Deus não aprouvesse, agravar-se-ia o processo de abandono de si mesmo. Nada mais acrescentou e fez-se um silêncio de quase um minuto e mamãe não disse o seu Deus é grande e sim conseguiu lágrimas. Imputando-me a condição de analista, mais abri olhos e ouvidos: aquilo me deliciava. E não queria, capitulando ao gozo, toldada e ensombrecida minha capacidade de julgar; o bom espectador é que ri e sabe porque o faz, evitando contágios, ou será, apenas, um algarismo a mais na aritmética das emoções das paixões. Importante agora é rezar – disse o sr. Rafael e saiu de banda, Mariana atrás, informando que iriam às preces na Igreja das Mercês, e apercebi-me que os dois haviam celebrado uma aliança para fruição do que haja de gozos no cardápio sexual dos medíocres. Assim julguei o julgo porque o safardanas não sairia para rezar uma hora daquelas, o jantar próximo, cada vez mais convidativo o odor do caruru que Anália preparava, chiando, nas brasas, as lasquinhas de bacalhau. Encostada à autoridade do dr. Venâncio, mamãe explicava ao Padre Hermógenes que o sr. Giuseppe era um necessitado de rezas e não só as dos da casa. O homem miudinho, com sua batina preta e surrada, disse, então, algo que me pareceu um desses gracejos dessalgados:
            -- Aquele que cai do alto ao ínfimo, pode voltar do ínfimo ao alto.
            O substituto do Padre Matta, capaz de inesperada assuadas, era o contrário do que se poderia esperar de um religioso daqueles tempos: ao que parece acreditava mais em Vieira do que nos dogmas do Papado. Em todo caso, poucos sabiam disso: para comer e dormir, para ter acesso a livros, fingia ser papista. Foi o primeiro antiburguês que conheci, a ponto de querer que mamãe vendesse o piano, objeto de ostentação, não de uso, para converter a pecúnia em esmolas para os miseráveis, aos quais dava sopa, pão e cópias dos sermões de Vieira. Certa vez, inventando ter ouvido a teoria de um amigo, o sr. Lauzimier se disse inclinado a acreditar que o mundo fora criado pelo Diabo e que Deus estava lutando para humanizá-lo. Supus que causaria o sr. Lauzimier, no mínimo, de, como gostava de dizer, “um encapsulado” por blasfêmias, mas disse:
            -- Não é o que está nas Escrituras, mas é interessante. Não chega a ser uma hipótese, mas é a favor de Deus.
            O sr. Lauzimier e o alumiado (não sei se por Deus, ou se pelo Diabo) conversávamos quando, meia hora depois, Mariana e o sr. Rafael regressaram da rua, com ares de beatos surpreendidos em safadezas. Simulei não lhe dar importância, atendo à conversa sobre o primeiro ano da Guerra Mundial. Lembro-me que o Padre, olhando-me e ao seu amigo francês, a este perguntou:
            -- Até quando, Émile-Gérard, Deus consentirá tanto ao Diabo? E, mais, responda-me: algum dia os poderosos do mundo, sponte sua esquecerão o imundo bezerro de ouro? Ou teremos, antes, jogá-los no inferno?
            E não esperou resposta e saiu à inglesa, sem despedidas à ninguém. O sr. Lauzimier, que antes falara bastante com o sr. Ambrósio, afastou-se com o dr. Venâncio e comigo, então, o mísero alcaguete do sr. Artemísio quis construir obcenas frases de consolação e eu as recusei (me deixe em paz, porra!) e fui para a janela principal e convenci-me que, em chança mordaz, o Todo Poderoso me retirara parte das armas da vingança, usando-as, Ele mesmo, contra o sr. Giuseppe, também idólatra do Bezerro de Ouro. Havia, porém, ainda, para mim, oportunidade de despica e notei que o sr. Ambrósio, Mariana e o sr. Rafael conversavam sob a desconfiada atenção de minha mãe: e foram todos à mesa quando Anália e Rosenda anunciaram, na sala apropriada, a janta. Sem exagero, quase um banquete: caruru, bacalhau, cabidela; a regra era a de que se havia visitas, não interessavam os motivos, farta devia ser a mesa. Concluído o repasto, já de pança cheia, o médico enchapelou-se para sair e minha mãe e o sr. Lauzimier foram levá-lo à porta, descendo ao jardim. Os demais retornaram à sala de visitas.
            Eu, de mim, fui à copa e chupei duas ou três mangas carlotas, às vistas de Rosenda e Anália. E reparei em Rosenda, adivinhando seu corpo sob vestido e anágua, negra cada vez mais bonita. Meses antes, passara-lhe a mão nas coxas e não se ressentira, t’esconjuro, diabinho mulherengo!, dissera a sorrir, gaiatando com Anália, as duas pondo-me fora da cozinha, já e já para o quintal, garanhão!, e ali, agora, chupando as mangas, eu gostei de haver rememorado a cena, momento bom, saudável, o jeito de haver rememorado a cena, momento bom, saudável, o jeito delas não me fizera mossa, e considerei acertado ter deixado de assediar Rosenda, tinha seu homem, eu não sabia quem era, mas tinha; devagarinho, quase todas as noites, abria o portão, ia encontrar-se com o tal homem na rua escura, talvez um macho como o sr. Artemísio. Ou um mequetrefe qualquer, que fêmea, hoje nem tanto, aceita a submissão mais aviltante em troca de um contrato de casamento, à pseudo-segurança sacrificando sua liberdade, até mesmo a liberdade suprema, a de amar. Ou, senão, à frente do amor põe o prestígio de títulos.
            Quando voltei à sala de visitas, ainda lambendo os beiços, a catar restinho do gosto das mangas, vi minha mãe e o sr. Lauzimier subirem a escada para o andar de cima e folguei com o naquele instante imaginado: a bruxa cagada e o sr. Lauzimier trepando diante do sr. Giuseppe, este incapaz de qualquer movimento com as pernas e muito penosamente com os braços; incapaz de qualquer palavra ou frase, mas habilitado a ver, a presenciar, a testemunhar o ato cruel. Bom, assunto deles...


10.


Meses, mais de um ano a correr, o sr. Giuseppe idiotizou-se. Urinava e dejetava na cadeira de rodas que nunca conseguiu mover, mas sobretudo o fazia na cama. De tempos em tempos, períodos a se reproduzirem, porcarias mutiplicadas, era forçoso mudar o colchão, e dezenas foram queimados: ele nos custava caro. Um bicho enjaulado por correntes invisíveis e um dia naqueles olhos surpreendi agradecimentos, desse a que se habituam os esmoleres, e isto porque Tonho (agora, enfim, Tonho) se transformara numa espécie de satânico samaritano, eis que eu lhe jogava, goela a dentro, quanta bebida alcoólica encontrasse. Sim, senhores leitores, Deus não usara, na justa punição, todas as Suas armas: uma, a do golpe final, fora-me ensejada, e generosamente, até porque me sentia como espécie de salvador; adormecendo-o com álcool, eu o punha à corner, expulsava-o do campo. Esse arranjo era coletivamente consentido e estimulado por todos, na coletividade incluído o sr. Rafael, a quem Mariana tudo contava: ele jantava em casa quase todos os dias.  
Mamãe mitridizara-se, como os demais, à força de propósito consciente: “os desígnios divinos são infalíveis, Deus escreve certo por linhas tortas”, dizia Mariana; “Deus chama quando, e do modo certo, aqueles que Lhe apetecem”, contraponteava o sr. Rafael, e a puta da mamãe batia a cabeça, aprovativamente, enquanto Rosenda e Anália, era o que lhes convinha, viviam um faz-de-conta-que-tem-que-ser-assim-mesmo. O dr. Venâncio?
Impossível que um médico experiente, embora pisquila em conhecimento teóricos, não constatasse os gritantes sintomas de uma intoxicação alcoólica diariamente agravada. O sr. Giuseppe era um inchaço dos pés à cabeça. Certa madrugada senti, contra meu braço direito, a arranhá-lo, suas unhas sujas. O bico de gás estava aceso (saiba, Abelardo, que Salvador já teve um ótimo serviço de gás encanado, empreendimento francês que foi à garra não recordo os motivos), não precisei de acordar de todo para compreender o apelo contra a agonia de uma insônia que lhe devorava os nervos. Pobre homem... Suava no esforço de ergue-se, os dedos da mão direita crispados nas bordas do meu colchão de palha – e eu o atendi. Episódios mais ou menos iguais se foram sucedendo e para obter eleitos mais rápidos, úteis a todos, ao invés de mel e álcool passei a usar álcool e menta. Garrafas de menta começaram a aparecer em casa. Todas de procedência francesa. Quando surgiu, misteriosamente, a primeira garrafa, lembrei-me que o sr. Lauzimier era quem gostava daquela bebida, saborosa e traiçoeira. Estaria meu amigo envolvido na trama
Transcorridos uns poucos meses, em manhã que nunca vou me esquecer, mamãe encontrou o sr. Giuseppe a estrebuchar no corredor, alcançado com o uso dos braços. Gritando, a querer-se atriz em frenesi, ela nos alertou e quando, sem pressa, apareci no seu aposento, simulou uma vertigem, Mariana a ampará-la: o sr. Giuseppe continuava no chão, respirando com enorme dificuldade, roxas as faces. Rosenda, chegando, olhou o desgraçado como se fosse um bagulho e perguntou se deveria chamar o dr. Venâncio e respondi: Chame, não chame, sei é que estou atrasado para aula. Me ajude a botar este sujeito na cama. Gesto caridoso. Depois, tomei meu banho, enfatiotei-me e desci. No portão encontrei o sr. Lauzimier e veio-me à memória o bem trabalhado frasco inicial de menta e não pude conter a pergunta:
-- É Rosenda ou é Anália quem abre este portão, de madrugada, para o senhor encontrar-se com minha mãe?
O inopinado e a brutalidade da indagação não o agastaram. Ele mediu as pausas para responder: Não tenho encontros de madrugada como dona Sophia. E esteja seguro de que se os tivesse Rosenda jamais se prestaria ao papel de alcoviteira. Entrou e eu saí, aborrecido comigo mesmo, imerecida a agressão ao Francês, e caminhei e talvez o ter visto o cuidado com que um comerciante arrumava sua vitrina fez-me estacar. Cada coisa em seu lugar. Sapatos, meias dentro. Pretos. Calça listada, suspensórios, camisa, gravata. Só a camisa era branca. Paletó preto. E preto o chapéu. Bengala preta. O manequim sorria, eram brancas, brilhantes como o cachecol, as luvas. Não devia ter sido fácil vestir aquele manequim, aos pés do qual o homem colocava cortes de bons e belos tecidos ingleses. No fundo havia uma espécie e xaxim com orquídea arroxeada. Perguntei-me: não estaria cometendo um erro, afastando-me de um ninho apodrecido, mas, em todo o caso, um ninho? Se houvesse, em verdade, um conluio de mamãe fosse com o sr. Rafael, fosse com o sr. Lauzimier, fosse com o próprio dr. Venâncio, não me seria prejudicial o afastamento naquela hora? Não poderiam, por exemplo, forjar um testamento que me fosse adverso?
E voltei e ordenei a Anália café em meu gabinete – sim, já era meu, por direito de uso, aquele gabinete – e nele permaneci, fingindo ler apontamentos, livros, revistas. Lia um dos sermões de Vieira quando dr. Venâncio, viúvo de ano e pouco de corridos, pôs a mão no meu ombro e disse Desta seu pai não escapará e repliquei que o sr. Giuseppe não era meu pai e ele redarguiu:
-- Desde que dona Sophia casou-se em segunda núpcias...
Veio-me vontade de um “Foda-se, dr. Venâncio!” e ainda bem que me contive e ele sentou-se junto de mim, silencioso e a certo passo perguntei: Até quando o senhor também matou, ou está matando, o sr. Giuseppe? Fazendo-se desentendido sobre o ponto que eu queria ferir – repito: todos sabiam que eu estava matando o sr. Giuseppe --, ele disse que os insondáveis mistérios da mente e do corpo fazem da ciência um brinquedo nas mãos de Deus. E, agitado, eu concordei e disse: A ciência é uma peteca, doutor. Peteca é um brinquedo. Quando criança muitas vezes eu vi Deus jogando peteca com as estrelas. Só que as estrelas não morrem. Será que a ciência morre de todo? O que um homem deve fazer para não morrer de todo?
-- É uma ambição descabida, Antônio. Nós somos pó.
Não lhe dei atenção: O sr. Giuseppe morre de todo porque nem chega a ser uma peteca vagabunda. Nele não há nada de estrela. Um mínimo de luz nele não há. Nem chega a ser um manequim. Não é nada. Será que só alguns, os raros, são alguma coisa e que todos os outros não somos nada? A ideia da morte do sr. Giuseppe me lançara num vazio. Algo era retirado de minhas mãos. De certo modo, furtavam-me um brinquedo maldito, mas um brinquedo. Encontrava-me ameaçado de ver minha existência menor na sua importância. E então eu chorei e chorei doidamente, sem escândalo, que nunca tolerei escândalo e ele acendeu um cigarro. As mãos trêmulas, estendeu-me o venenoso canudinho de fumo e papel.
-- Vou ver dona Sophia. Você vai continuar aqui?
-- Vou. Por favor, deixe outro cigarro comigo.
Permaneci no gabinete e nele almocei rodela de lombo com farinha atoucinhada e arroz branco e no seu ir-e-vir Anália percebeu lágrimas secas no meu rosto. Não entende, pensei. Presumira que não sou um rapaz feito de fel, dirá isto à Rosenda, à Mariana, ao sr. Lauzimer. Dissesse, eu não perderia nada, quem sabe talvez ganhasse simpatias tipo “olhem ali o coitado, outra vez órfão de pai. E é desses que se escondem para chorar, embora esteja estudando para ser doutor”.
Útil que imaginassem assim: a batalha da vingança ainda não ganha. Mamãe ainda estava no meu caminho.
 INTERRUPÇÃO – VII


            Coisa e tal, Abelardo, me desculpe ter faltado tantos dias. Eu tive que me virar por causa de uma bruta de uma gripe de mamãe, a bicha pegou ela de jeito, mas já está melhor, e tem que, eu não minto, o Trabalho de Narda não é moleza, coisa aí de 1.200 laudas, em espaço dois, tá percebendo? Espaço 2 e ela é chegada a acrescentar coisas com sua letrinha, aliás são letras bacanas. Me desculpa o atraso?
            Acho que você deve desculpar, até porque enquanto você e o Cris se esbaldavam no Carnaval eu aguentei mamãe com febre até de quarenta e se Narda não fosse o amor de gente que é, todos os dias lá em casa, não sei o que ia acontecer com minha velhinha, cuja eu amo paca. Uma novidade sem-sa-ci-o-nal é que deixei o dr. Azevedo de banda e estou me analisando com Narda, cobrona no assunto. Ante ontem eu falei, falei e ontem Narda me deu um trecho do que eu disse para sobre isso falar ainda mais. O que eu disse e foi gravado por Narda, o tal do trecho que mais chamou atenção dela, foi o seguinte: “Sou muito solta. Preciso de alguma coisa que eu possa segurar, mas as coisas são muito escorregadias e as pessoas também. Como fossem à praia passassem nos corpos óleo de bronzear e não tomassem banho para tirar o óleo. E eu não sei bastante sobre essas coisas, essas pessoas. Tenho medo de dizer que devem tomar banho, que devem se livrar do óleo.” Outra coisa que eu disse foi que quando vejo móveis cobertos de pano, contra o pó, a poeira, a minha vontade é a de tirar os panos. Foi o que me aconteceu quando pela primeira vez estive aqui e vi os móveis cobertos. Me deu uma revolta e me deu uma tristeza. Nem as coisas feias devem ser escondidas, então por que esconder as coisas bonitas?
            Me desculpa pelo atraso, meu?
            1.3.1969. Marluce


            De noite, umas sete horas, barbeado, indumentária de meio-luto (ou, como se dizia, luto aliviado...) desci para o velório. O corpo fora colocado na sala de visitas e reparei, um a um, nos participantes do espetáculo: alguns vizinhos, o sr. Lauzimier, destacadamente, o sr. Rafael, cinco ou seis italianos, um sujeitinho de óculos representando a viúva do Comendadore, alguns sócios do Clube de Gamão, o genro do desembargador Eutrópio, o Padre Hermógenes (ele me ensinava latim), o sr. Ambrósio e Mariana, dois ou três desconhecidos, um deles com interessante tique: ele metia os ombros até o pescoço e sacudia a cara como chupando limão bem azedo. De todos recebi pêsames e beijei a mão do Padre Hermógenes – uma dessas pessoas que vivem hipóteses de verdade pedindo que ele me acompanhasse ao gabinete. Prometeu e foi sozinho, disposto a esperá-lo. Uma vez lá, i sr. Lauzimier apareceu e aproveitei o estarmos a sós para pedir-lhe desculpas pelo incidente no portão. Ele viu a garrafa de menta – aquela, em cristal trabalhado, que trouxera, anos antes, para uma noitada de gamão – e sugeriu um terceiro cálice. Ouvi – disse – você convidar o Padre Hermógenes. Como eu e, aparentemente, como você, ele aprecia esta espirituosa. Eu mesmo, então, fui à copa buscar o terceiro cálice. Perguntei:
            -- Foi do senhor a ideia da menta?
            -- Não. Mas, mel ou menta, o efeito seria o mesmo.
            -- Mas, por que eu, somente eu, lhe deveria dar álcool, matá-lo com álcool?

            -- Porque ele só aceitava de você.
            -- Por que?
            -- Não sei. Há de ter havido algo entre você e ele. Ele quis morrer por suas mãos, Antônio. E esqueça isto.
            Ele bebeu com gosto e, em seguida, acendeu o cachimbo. Disse:
            -- Não era necessário você me pedir desculpas, Antônio. Compreendi sua exaltação, continuo a compreendê-la, mas estou um pouco magoado. Não é sempre insuficiente para uma melhor convivência o que sabemos um do outro? E uns dos outros? Nós nos ignoramos e fazemos isto porque nós nos tememos. Ou nós nos ignoramos. E esse temor e essa ignorância de onde vêm? Dizem que se trata de uma herança social maldita que nos foi transmitida e que transmitiremos. Talvez seja verdade, não sei. De qualquer sorte, onde, quando e por que se gerou esta terrível força malsã? No Bezerro de Ouro, você ouviu o Padre Hermógenes falar disso, com alusão à Guerra na Europa. Será que basta?
            Um parêntese: não se vivia a Guerra. Aludia-se à ela. Ninguém contava os mortos e algo mudou: contamos 40 milhões nesta que continua sob novas formas. E sempre o Bezerro de Ouro.
            -- Não será este símbolo bíblico, símbolo de ganância primária, somente um aspecto, talvez o mais importante, mas um aspecto? O monstro que os homens ainda não aprenderam a identificar na sua totalidade não terá outras fontes de sustentação? Antes que o ouro fosse conhecido e divinizado não se entredevoravam as comunidades? Não, Antônio, as malditas heranças são muito demais para terem uma só origem e assim nossas guerras contra as guerras devem abarcar todos os horizontes das desgraças humanas: os preconceitos de cor e de raça, as intolerâncias...
            Ele me incutia dúvidas quando eu necessitava de um grupo de certezas às quais me ater, certezas simples e não complicações do tipo “guerra contra guerras”; o sr. Lauzimier estava citando Jean Jaurés e eu então não sabia, embora não me escapasse o fato de que era, basicamente, um pacifista a acreditar na Humanidade como um todo mais ou menos homogêneo. Mas, no fundo, nele havia tinturas de um patriotismo que tentava minimizar.
            Outras dúvidas certamente seriam formuladas se, providencialmente, o Padre Hermógenes não surgisse, mais interessado na conversa do sr. Lauzimier do que em outra coisa qualquer que eu lhe propusesse. O sacerdote perguntou:
            -- Será que tudo não nasceu no ventre sujo do Bezerro?
            -- Então, como explicar a simbologia Abel e Caim? Eles são a inveja pura, ela sozinha, sem condicionantes materiais...
            -- Estariam descondicionados os que a imaginaram?
            Não era uma discussão que me interessasse e escusei-me (hoje, Abelardo, eu daria um milhão para questionamento desse tipo...) e  caminhei à sala, buscando sr. Ambrósio: ele se tornara ainda mais importante, era o único que entendia dos negócios. De resto, nele, sim, havia pesar e preocupação. Sufocando de vez os temas de reflexão instilados pelo sr. Lauzimier e tencionados por um religioso ousado o bastante para entender a Bíblia como discutível em muitas de suas partes, embora disso não fizesse praça, e agora frente a frente com o sr. Ambrósio, elaborei uma certeza e atribui-me um objetivo: “este indivíduo é típico seguidor do modice et modeste melius est vitam vivere (melhor é viver vida meã e modesta), chega a ser serviçal, tanto quanto é uma vaca casamenteira a sua filha, mas há nele algo de útil, há canina lealdade nele; não vislumbro, nele, qualquer assanho de ambição; foi leal ao sr. Giuseppe e precisa de me ser leal e eu preciso que seja. Ou iremos comer o pão que o Diabo amassou, já que não interessa a vela sem o pavio: ele será a única luz e o único fogo na oficina”. E a ele, com alguma sinceridade, eu disse:
            -- Agradeço sua presença. O senhor é um homem honrado, sem nada de comum aos adoradores do Bezerro de Ouro.
            Quase chorou, emocionado. Dei-lhe as costas, retornando ao gabinete. A meu pedido, eu queria acabar aquela discussão sobre temas bíblicos, sobre uma guerra que não me interessava ainda, o Padre Hermógenes acedeu em ajudar-me numa tradução, o que interessou, também, ao sr. Lauzimier: “o que eu possuo em nome alheio, posso possuir em meu nome” para Quod meo nomine possideo, possum alieno nomine possidere.
            -- Curioso o brocado que você escolheu, Antônio.
            Sem insistir na observação, o sr. Lauzimier, talvez enjoado com a possibilidade de novos brocados jurídicos, afastou-se e levou consigo o Padre Hermógenes. Ali, fechando a porta, vi que o terceiro cálice, o destinado ao sacerdote, continha gotas da bebida verde. Bebi dois ou três cálices seguidos, pensando nas perguntas e nas observações que ouvira. A quem, quando, onde e em que circunstância eu transmitiria minha posses, minhas arcas de ódio, minha insegurança, os meus medos? Qual seria, afinal, o teor da vida para alguém que não encontrava respostas nas pessoas, alguém que ainda não descobrira os grandes amigos e extraordinárias companheiras que viviam nos livros?
            Entendia medíocres vidas tão rudemente atordoadas como as mamães, Mariana, sr. Rafael, Anália, sr. Ambrósio: Rosenda, a todos se avantajando em alegrias para mim inexplicável, era uma exceção; e o era, minha intuição dizia-me, por ser mulher, nela brotando, a cada dia, uma santidade natural. Viver a serviço de reles empáfia e de risíveis presunções untuosas como as de muitos professores que eu ia conhecendo no primeiro ano da Faculdade de Direito? Viver para perguntar à Dúvida sobre suas origens, como o sr. Lauzimier, se aquela dúvida sempre paria outras?
            -- Tonho, abra a porta! – mamãe pediu.
            -- Não seja mal-educado. Todos perguntam por você.
            -- Vá embora. Me deixe em paz.
            E gritei: Que se fodam, mãe! E bebi, bebi muito, querendo um sono que não demorou a chegar, um sono agitado que me fez sentar no divã em várias ocasiões: apesar de apelado nem meu pai apareceu em sonho que me tranquilizasse. Acordei, espancado, minutos antes do féretro sair e não teria sido desperto na hipótese de Rosenda e Anália desistirem dos muitos avisos que me deram sobre a destinação do cadáver.
            O orador oficial do Clube de Gamão fez discurso no cemitério.


ESCLARECIMENTO – VIII


            Querida, não é verdade que eu e Cris nós tenhamos esbaldados no Carnaval, como você afirma. Devo dizer que Cris se excedeu nas bebidas e me vi envolvido em situações desagradáveis, algumas perigosas à minha integridade física. Situações deploráveis porque Cris, surpreendentemente é capaz de ser violento, agressivo, provocador. Acredito que ele está enciumado pelo fato de você ter jantado a sós, duas vezes (consecutivamente, segundo ele disse) com a dra. Narda, sem que haja sido convidado. Ele se sentiu out.
            O Ivo me disse que você experimentou o anel. E, mais, ele disse que você sorriu. Pois, agora, eu beijo o anel, e, nele, beijo também o seu sorriso assustadoramente provocante. Querida, você não deve falar nada a Cris sobre o que acontece no Carnaval. Quero que o assunto morra. Tê-la conhecido e a Cris é acontecimento que festejo todos os dias.
            Venha hoje, à noite, imploro.
            Abelardo

11.


            -- Fale, Tonho, diga alguma coisa – ela pediu na primeira noite de sua efetiva viuvez e repliquei: Tônio, mãe, Tônio. Tônio Petrucci, fu Vicenzo! Vou falar uma coisa importantíssima, vou dizer e digo que o retrato de papai, aquele da Itália, ele sozinho, está comigo. Tirei do álbum e ele é só meu. Os outros, os com a senhora, não me interessam.
            -- Você me odeia?
            Tive medo de responder a verdade. Eu tive medo que ela se casasse com o sr. Lauzimier – tê-la ou não tê-la não seria sua dúvida principal? --, ou com o sr. Rafael, ou com o sr. Ambrósio, com masseiro, com o moleque-dos-temperos, com o assanhado condutor-de-bonde, com o coveiro-chefe do cemitério, com quem quer que fosse, e me deserdasse, e disse:
            -- Não, não odeio a senhora, mas não a amo. É meu direito.
            -- Você não acredita que me sacrifiquei por sua causa?       
            -- Não.
            Ela estremeceu e sua beleza invulgar ganhou esporas, avivou-se: se eu jurar pela Santa Cruz que só tive prazer com seu pai antes de você nascer, você acredita no juramento? Repeti o não e levantou-se e disse que tínhamos coisas comuns a preservar, principalmente a fábrica, a casa, o terreno na Pituba, o nosso modo de vida. E eu concordei e aduzi: E as aparências, mãe as aparências. Eu não gosto de escândalos.   
            Bebeu trinta gotas de “valeriana” em meio copo d’água e antes de subir para o seu quarto, olhando-me fixamente, pediu: não durma tarde, por favor. E deu-me as costas, toda de preto, julgando que o passado fosse fácil de ser esquecido. Não me demorei no gabinete. Fazia calor, era outubro, e de cuecas fiquei na janela do meu quarto, olhando a rua deserta.  




                                                                        QUARTA PARTE


1.


            Prevalecendo meu interesse quanto à narrativa em si, despido, assim, de preocupações formais, em termos literários esta será uma parte prejudicada. Explico: ando fatigado e por isso tentarei abreviar, em cenas resumidas, algumas passagens marcantes que precederam e talvez tenham também condicionado – isto os senhores leitores julgarão – o meu bem sucedido ingresso na central putárica do Professor (...) Passagens, ainda, reletivas à morte de minha mãe, à eleição para a Câmara Federal, etc. Deste modo, com certeza, chegamos mais rapidamente a episódio fundamentais. Vejamos, pois, as mencionadas passagens:


            Cena A

            O mundo de minha mãe continuou a esboroar-se quando Mariana e o sr. Rafael, acasalados, desapareceram de casa, deram às vilas Diogo. Ao saber da fuga, mamãe imaginou que tudo havia sido tramado pelo sr. Ambrósio. O aviso dado por Anália e uma vez sentada na sala de jantar e de visitas do pobre homem, ele aturdido com o inesperado daquele tudo tão gordo, mamãe não trepidou em lançar a pergunta:
            -- Onde está Mariana? É verdade que ela fugiu com o valdevinos do sr. Rafael? Quero saber o que haja sobre esta descaração e não admito mentiras!
            O horror, se tanto posso dizer, dilatou as veias, já de si salientes, do pescoço e do rosto daquele indivíduo vilipendiado no recesso do seu lar. Durante quase um minuto, não se moveu e ao olhar para as três filhas restantes pediu-lhe que informassem alguma coisa, ele não sabia da fuga, ele não sabia de nada. A mais magra das raparigas socorreu o idoso pai:
            -- Mariana gosta do sr. Rafael, mas, senhora dona Sophia, este é um assunto de nossa família.
            -- Mariana estava em minha casa, a descaração se passou em minha casa e quero saber de tudo.
            A rapariga me olhou cheia de apelos e eu me levantei e disse à mamãe. Vou embora; a senhora, se quiser, que me acompanhe e falei Boa Noite a todos, com licença, e fui saindo, sem pressa, convicto de que ela me seguiria. Mamãe tinha medo do breu e a noite já se fizera: seguiu-me como uma cadela resmungona. Receberia, naquela noite, outra paulada. “Deus escreve certo por linhas tortas”, como se diz.


            Cena B

            Em casa, quando reclamou de Anália que o janta estava atrasado, ouviu uma resposta dura:




            -- Estou sozinha, dona Sophia, e só tenho dois pés e duas mãos.
            -- E em que diacho(1) de buraco se meteu Rosenda?
            -- Ela fez a trouxa, se despediu e foi embora.
            -- Como?
            -- Foi embora, dona Sophia, foi embora.
            -- Por que a negrinha ingrata fez isto? Por que, Anália?
            -- Não sei, nunca pergunto. Mariana pediu que avisasse a senhora, mas Rosenda não pediu nada. Nem sequer a paga do mês. A senhora vai querer sopa?
            -- Eu não quero mais jantar – disse, e, trêmula as mãos, pálida, subiu para o seu quarto. Bem mais do que uns quinze minutos decorridos, Anália levou-me ao gabinete um prato de quiabada, de sertão à carninha, e copo de refresco, umbu. Perguntei:
            -- Por que também Rosenda foi embora?
            -- Está grávida do sr. Lauzimier, um homem muito bom, não queria mais nada às escondidas. Vai casar com ela, ponho minha mão no fogo que vai. Quer saber mais de Mariana?
            -- Diga.
            -- Foi pra Itaparica, os pais do professor Rafael moram lá.
            -- Você bota a mão no fogo pelo sr. Rafael?
            Ela riu, dizendo que não, sem usar palavras e também sem a elas recorrer deixou claro que a mim prestaria todas as informações. E, de repente, surpreendendo-me, a pergunta: Se dona Sophia der uma das raivas dela, você me arranja outro emprego, aqui pertinho?
            -- Agora, Anália, -- tranquilizei-a – eu é quem mando aqui. E cuido de você agora e enquanto você viver.
            Depois de alisar meus cabelos, o que sempre desejou e nunca, antes, se atrevera, levou copo e prato, além da toalhinha rendada, colher, garfo e faca. Que todos  fodam bem e botem meninos no mundo, eu disse, com alguma alegria e sentia gostosa saudade de Rosenda. E me entreguei a pensar nas aulas, nos colegas de Faculdade, especialmente Arimar, franzino como eu, mais ou menos de minha altura. Ele me havia dito que eu poderia dispor dos seus livros, latim, inglês, francês, grego. Grego? Sim, respondera, grego clássico, por que não? Por que eu temia o mais belo dos idiomas?
            Ele estudava, Arimar, com o sacrifício de prazeres, inclusive mulheres, com o sacrifício de noites e dias de folga, a descobrir, nos livros que amava mais do que eu, sábios e poetas, deuses e homens a disputar cada fração de segundo da vida, histórias reais e mitos entrelaçados. Cadmo e Ésquilo, Perseu e Calístrato, Heracles e Cleon.
            Falo-vos, senhores, de Péricles Arimar Caruso (E você deve escrever a biografia dele, Abelardo.), meu único amigo na juventude. Dele falarei, adiante, com mais vagar.

 Diacho. Também assim, há décadas, se designava o Diabo. (2) Trata-se de “A Divina Comédia” Um dos livros de cabeceira do senador Petrucci. Aliás, um dos seus cadernos de apontamentos se intitula-se “O Melhor de Dante”.





           Nenhum dos livros que tinha estava virgem dos seus dedos. Pouco antes de morrer, apesar de pertencer a família apenas remediada, ofereceu-se luxuosa edição da obra máxima(2), com ilustrações de Doré. Mas,  senhores,  cabe-me  conter  a  emoção.  Com
bons sentimentos, já anotava Gide, só se consegue má literatura, embora eu advirta que somente Sade (que eu conheça) terá feito, se fez, literatura usando somente maus sentimentos.


            Cena C

            É preciso, assim, voltar à mamãe...
            Ouvi-lhe a voz do alto da escada: Antônio, por favor, chame Anália. Ela queria, no quarto, xícara de chá e algumas torradas. Eram umas 10 horas da noite e eu mesmo, apenas amornando as torradas sobradas de manhã, preparei o solicitado, assim poupando o sono da velha e fiel empregada. Mamãe agradeceu o préstimo e seus olhos ardiam de perturbadora curiosidade: quais as razões de Mariana? quais os motivos de Rosenda? onde elas se encontravam? E eu nada sugeri que a encorajasse a fazer-me perguntas. Melhor que o ódio provocado pela fuga das suas mais a enfurecesse, melhor que a solidão continuasse a secar cada pedaço do seu corpo, cada átimo de sua alma, uma e outro apequenados pelo desamor.
            (Foi naquela noite, Abelardo, que Mariana desapareceu de minha vida, ganhando lugar em minhas memórias. Se aquele professor falso, de maus modos, tem alguns créditos comigo – bem pensado, ele ativou minhas tendências à desconfiar dos outros --, à Mariana, sua rude franqueza, eu devo muitíssimo. Devo-lhe, sobretudo, não ter cedido aos meus rogos, e, saiba você, saibamos eminentíssimos leitores, que tais rogos não foram apenas os descritos. Esqueci, por exemplo, o que chamo de “A noite da Grande Bronha”, ela no quarto, trancada por dentro, eu a assediando por fora, ah!, eu na operação manual, ela espiando pelo buraco da fechadura, quem sabe se masturbando também. Enfim, coisas da vida. Tenha eu forças, escreverei “As Mulheres de Minha Vida”. Ou talvez, como está em moda, “As mulheres e Eu”, algo assim, putarias. Se Mariana me tivesse aberto as pernas, fogosos como éramos, seriam muitos os filhos, o que me desviaria de uma carreira política, a qual, se não foi das mais brilhantes, apenas os inimigos gratuitos poderão considerá-la medíocre.
            No entanto, e Deus Nosso Senhor é privilegiada testemunha, Ele que encontrou o mundo construído pelo Diabo e luta por humanizá-lo, que falta me faz um filho! O Machado de Assis bendisse não sei se dele ou de Carolina a infertilidade, por não desejar filhos. Eu maldigo a minha!
            Bem não sei como descrever, como narrar, o que esta noite me acontece: olho em torno deste quarto, tão povoado de objetos, obras d’arte, livros, meus queridos livros, olho em torno e inexiste um corpo humano, sequer um braço que eu possa tocar e sentir o calor. Dedos, sem sequer há dedos!

            Palavras de fogo, estas, um gélido frio enruga minh’alma tão maltratada, tão dorida. Em horas assim a memória de Lisa, ela, Lisa, meu grande amor, me esquece. Se não tivesse morrido, se a tuberculose não a houvesse levado, eu creio, sinceramente, que não me teria prostituído de todo, mas só entre os dezenove e os vinte e três anos, porque até os dezenove eu fui um emissário da Vingança, justa e necessária, e, depois dos vinte e um, contaminado por tudo quanto a central putárica do Professor (...) produziu, aceitei que me impusessem as vestes de um espantalho de palhas apodrecidas, suja indumentária que atirei à purificação pelo fogo ao reagi, a meu modo, contra a torpeza que foi o Golpe de Estado de 1037: sei que não fui heroico nos Grandes Dias do Medo. Covarde também não fui e isto me redime. Julgou-me meu povo com seus votos, a história julgar-me-á quando for oportuno. Tenho certeza, não sofrerei o castigo do silêncio.)

Cena D
            Sem o auditório que Mariana e o sr. Rafael lhe proporcionavam, infeliz ao ver a felicidade de Rosenda de braços dados com o sr. Lauzimier, os dois em footing na rua, Anália a obedecê-la friamente, o universo de minha mãe passou a ser o andar superior, e seu sonho era um quarto no Asilo de Velhos da Ordem Terceira do Carmo, uma instituição benemérita: lá estava, tranquila e em paz, segundo as informações trazidas por Anália, a viúva do comendadore. Em resumo, um lugar de morrer.
            Desleixou-se da casa. As únicas exceções eram os sítios que mais a miúdo eu utilizava. Imbuíra-se da obrigação de aprontar-me as camisas e as peças de dentro, entregando-as dia após dia, sempre a repisar minha dupla condição: estudante da Faculdade de Direito e, principalmente, a de dono de uma fábrica. Fábrica! Fábrica! – o vocábulo grandiloquente enchia-lhe a boca, eis que não se apercebera de alterações essenciais: desde a morte do sr. Giuseppe, o comércio interno do País em ritmo ascendente (para isso contribuía a escassez de produtos antes da Guerra facilmente importados), aumentava o número de lojas que vendiam sapatos e assemelhados produzidos em São Paulo e mesmo no Rio Grande do Sul, a preços concorrentes (melhor a qualidade), senão inferiores, aos dos produtos localmente manufaturados. Vivia-se a involução industrial baiana. É a época, eu creio, que se iniciava a concentração industrial no Centro-Sul, daninha aos interesses nacionais, obra dos comunistas interessados em criar o que chamam de “exército operários”. É isso que os imbecis dos paulistas não se dão conta: aferrados ao “venha-a-nós” eles tecem a foice e o martelo na bandeira da Internacional. Por mim, que se fodam! Tomara que o comunismo venha e sangre esses putos que não sabem mais dizer São e dizem San. San Paulo uma porra!


            Cena E
            Quando a chamada “Gripe Espanhola” assolou a cidade, matando e matando(3), adicionei pânico aos exasperantes cuidados de minha mãe e durante umas cinco semanas não saí de casa, nem mesmo para avisar o sr. Lauzimier ou o Padre Hermógenes. Atendia o sr. Ambrósio e quando a colega da Faculdade só abria a porta para o inesquecível Arimar e o fazia alegremente, obrigando-o a, para início de tudo, beber colheradas de canja bem quente. Presumia-se que o caldo de galinha matava os bichinhos da moléstia pavorosa. Depois, sempre jovial, Arimar punha no piano partituras de Beethoven, de Bach, de Brahms, interpretava-as romanticamente, e simulava despreocupação:
            -- Eis-nos no reino da Beleza, Tônio, esqueça os outros, esqueça o resto. Deus um dia, entediado de tantos séculos de punição contra seus filhos, matará as guerras, as epidemias, os desapreços, os preconceitos, a ignorância, a piedade, a fome, tudo que não presta. E preservará, soberana, a beleza.
            -- A troco de que?
            -- Ora, Tônio, porque Ela é Ele!
            Foi na tarde que Arimar falou assim, desacreditando da teoria segundo a qual o Diabo fez o mundo para Deus, lutando diuturnamente, conseguir humanizá-lo, que o levei até meu quarto. E ali vimos, do alto, o horroroso trânsito dos mortos, alguns conduzidos em coches de luxo, outros, os muitos, metidos em caixões de madeira crua, esbranquiçadas. Entrementes, no quintal e em toda parte baixa da casa, mamãe espalhava cal-virgem, comprando-a de vendedores que puxam burros com panacuns escuros. Na rua, lembro-me, só o francês subestimava o valor da cal: a melhor defesa eram os banhos de álcool, bebidas quentes e, de modo especial, as canjas de galinha chamadas de “caldo”. Quanto mais quente melhor. Em minha casa, como consequência da calagem desordenada, endoidecida, jaziam mortas, no jardim, todas as plantas. No quintal, mortos os pés de romãs, hígidos, unicamente, as duas mangueiras, o sapotizeiro branco: estes continuavam a dar seus frutos. Eles apodreciam no chão. Arimar e eu, nós os temíamos, embora os víssemos tentadores. E mamãe influía para que mais e mais os temêssemos e não pensava em Arimar. Queria-me vivo e, por meu intermédio, queria-se no Asilo, na esperança de um quarto onde pudesse se agasalhar longe do algoz que a ferroava, longe de tudo e usualmente e ela mais próximo, e, em certa medida, longe dela mesma enquanto ligada a um passado não muito distante. Queria fugir-se. Sobretudo, penso, o que mais a feria era o grande espelho do seu quarto, eis que a imagem agora refletida era a de uma mulher de uns quarenta e cinco anos, pouco menos talvez, a acorcundar-se, os seios sumidos – e tinham sido tão excitantes! --, pronunciado encarquilhamento das pernas. Os dentes, antes tão certinhos, de um branco alegremente inigualável, pocavam em série. E também os sinais de precoce degenerescência que lhe vincavam o rosto atestavam que de igual modo por dentro se emegerava.

2.

            A necessidade  de pô-la no  Asilo da  Ordem Terceira, de  minha  parte visando a
   
(3). Gripe Espanhola. Segundo me dizem, aconteceu no fim da Primeira Guerra Mundial, 1914 – 1918. Teria sido levada dos EUA para a França. “Espanhola” porque uma das suas vítimas foi um Rei ou um Príncipe de Espanha.


que não mais me apoquentasse, deu-me têmpera para formular a alguém de prestígio o meu pedido de emprego no serviço público: a oficina indo à breca, não me restava outro caminho. Fiz o pedido a um catedrático, o Professor (...) indivíduo descuidado em camuflar sua presunção, que eu sabia de sólida influência no partido situacionista. Sim, leitores, o Professor (...)!(4) Antes, evidente, procurei ganhar-lhe a simpatia, pesquisando suas preferências, estudando os autores que mais admirava, notadamente, em literatura, o Anatole France e, para o curso que ministrava, Bastiat e Le Play. Exigiu-me meses de exaustiva preparação essa manobra titulável “simpatia/identificação cultural”, nada fácil eis que o Professor (...) vivia mais nas antecâmaras do Palácio do que na Faculdade.
            Em geral ríspido, notei-o de humor favorável no decurso de enxundiosa prelação. Era o dia, era a chance e enderecei-lhe pergunta sobre possíveis desdobramentos teóricos e práticos de teses defendidas por Bastiat e Le Play naquele momento, tão dramático, em que, como se dizia, “a Humanidade pensava” as gravíssimas feridas da I Grande Guerra Mundial. A Humanidade, é claro, ela mesma, não pensava porra nenhuma, cada zebedeu procurava o seu e a maioria dos zebedeus não sabia procurar picas, mas isto não vem ao caso: é assunto para os chamados “cientistas sociais”, cujos eu considero uns chatos, encangadores de grilos, cujos, devo dizer, hodiernamente estão multiplicados por 200 ou 300 mil, parindo calhamaços e enganando os bestas. Queime-se noventa e nove por cento dessas porcarias e não se terá perdido senão porcarias. Algumas refinadas, outras grosseiras.
            Mas, como eu contava, fiz a pergunta ao Professor (...). Ele pegou a deixa e discursou e, ao término, fingi que ia levantar-me para aplaudi-lo e fingi de novo que me sentava por falta de apoio dos colegas e ele olhou severamente para toda a classe e Arimar, encerrada a aula, me disse:
            -- Você fez papelão, Tônio. Foi deplorável, palavra de honra.
            -- Me emocionei. Entenda: ele me livrou de dúvidas. Você me conhece e você sabe que tenho emoção à flor da pele. Se nasci assim, emotivo, que posso fazer, Arimar? Matar-me?
            -- Uma coisa tão tola...
            -- Para você, que tem conhecimentos.
            Não foi difícil levar meu amigo na coversa e dentro em pouco concordávamos em que Sully Proudhomme foi uma besta quadrada, quem desconhece Allan Poe no original não sabe da missa a metade, etc. Ao deixá-lo perto do Campo de Pólvora, ao vê-lo a caminhar para a Fonte Nova, a mim me disse: “a honra se afasta, e permanece e se afirma o que é dúbio, interesseiro, falso, egoísta”. Reconheci e reconheço: o Anjo Vingador, envolvido pela trama da própria vingança, putificava-se e o ter consciência desse   processo,  certo  que  ainda  em   seus   primórdios, não  me levou  a  um  exame  

(4). Por razões óbvias, evitamos o nome do Professor e de seus familiares. Eliminamos , também, a descrição de sua residência em aprazível bairro de Salvador. Adotei uma política de nomes próprios que impede identificações ou insinuações malévolas.

autocrítico. Nem me quero, agora, lamuriento, a incidir nas idiotices de tipo mea culpa, mea máxima culpa. O que fiz, fiz e, no meu caso, não há o abismo entre promessas bonitas e a tragédia da prática. Empurraram-me, e fui forçado a aceitar, para um caminho previamente traçado, descobri os percalços morais desse caminho, ou pedaços de tais percalços, e resolvi segui-lo. Mediante eficientíssimo “Ô, abre alas? Que eu quero passar”, encurtou-me o Professor (...).
            Nas aulas, ele me olhava com rabo do olho, a insinuar novas perguntas, e pedi-las, e eu “na minha”, como se diz na gíria de hoje. Com isso dava-lhe a impressão de que gostaria de atendê-lo, mas temia ser chacoalhado pelos colegas, muitos dos quais influenciados, anarquista. Mais tarde, haja tempo, voltarei a falar sobre esse homem, de riquíssima  biblioteca. Agora, prendo-me ao Professor (...). Em encontro que fiz por parecer casual abordei-o justo ele ia saindo da Livraria Catilina, e pedi que, logo se oferecesse oportunidade, nos explicasse, em aula, as vantagens e desvantagens do Tratado de Versalhes, saudado, na época, como o começo do fim do militarismo alemão. Esboçando um sorriso enigmático, ele me convidou:
            -- Passe em minha casa, esta noite. Conversaremos sobre Versalhes e de imediato saiba que gostei de sua interpelação em a semana retrasada. Comedida e oportuna. Ofereço-lhe um chocolate. Não antes das sete e nem depois das nove horas.
            Tentei dizer que adorava chocolate, desde a infância, não me deixou falar: eu sabia francês o suficiente para traduzir Villon? Ótimo, meu filho. Balzac? não me fale nele, é um selvagem. Proust é que é. E o Lautreamont, ham? Horror aos portugueses, mas admita o Fialho e do Eça só um pouco, e bem pouco, molho demais dá pirose. Não dizia azia, dizia pirose. Um falastrão, já se vê. Antero de Quental era um carbonário, pois não. Camões? Ora – ele me disse – o Luiz é português porque a mãe, coitada, não sabia que iria parir um gênio. Chamava, vejam só, Luiz é um ibérico, meu filho e quando digo ibérico digo europeu digo universal. Vá lá em casa no horário indicado.
            Fui e ele explicou que a mulher, dona Carmen, e as duas filhas passavam dias em Itapagipe, em férias. Elas se divertem. E como é mesmo seu primeiro nome, meu filho?
            -- Antônio, mestre. Tônio de apelido.
            -- Tônio, Tônio... bonito.
            -- E sobre Versalhes, mestre? É um tratado que garantirá...
            -- Esqueça Versalhes, uma droga. É uma camisa de força para os alemães, mas desde quando alemão aceita camisa de força?
            É uma bobagem do Wilson, esse paspalhão. Aliás, os americanos são uns paspalhões, uns anarquistas, uns carbonários: vão virar comunistas, pelo que tenho lido. Vão se afundar no inferno. Imitam os russos, bolem com fogo. Mas, eles lá, nós aqui. Esqueçamo-los. Conte-me sua vida, o que fez, o que faz, o que aspira. São belos esses seus cabelos negros, aloirados nas bordas. Fale e fique à vontade, estamos sozinhos. E tire este paletó e afrouxe esta gravata. Ponha-se todo à vontade. Sim. Assim, assim, é como gosto. Dizia Parret que uma certa nudez abre o espírito. E agora, vamos, fale.
            Sem desfitá-lo um segundo, decidi jogar com audácia e falei e falei e exagerei nas cores. Falei sobre a situação em que me encontrava, querendo a formatura e ainda sem emprego em perspectiva, a oficina a cair aos pedaços, a casa necessitando de cuidados urgentes, ah! não é fácil ser pobre tendo antes experimentado alguma riqueza, problemas tantos que iria vender o piano de minha mãe, e é nele, mestre, somente nele, que ela rememora seus felizes anos da Pituba.
            -- Pituba?
            -- Pituba. Nasci lá.
            -- Mas, meu filho, aquilo é o fim do mundo. Ali só existem uns dez eleitores, se tantos. São Salvador é uma em forma de U. A penha e a Ribeira, estendendo-se pelo Porto dos Tainheiros fazem a principal extremidade: muitos milhares de eleitores. Rio Vermelho e, já escasseando, Amaralina, formam a outra extremidade do U. Um eleitorado rarefeito. Lamento que você tenha nascido na Pituba, meu filho. Quem foi ser pai, o que fazia?
            -- Vincenzo Petrucci, artesão do couro. Um artista. Quis-se industrial, chegou a importar máquinas inglesas mas morreu no esforço. Felizmente meu padrasto...
            -- Esqueça.
            E insisti no meu rosário de desgraças e mal insinuei que ou conseguiria uma colocação conveniente no Serviço Público ou iria para as ruínas da casa pitubana, abandonando a Faculdade, abandonando tudo, ele interveio:
            -- Não engulo isso de um homem, mesmo sendo seu pai, trabalhar no Taboão e morar na Pituba.
            -- Juro, mestre.
            -- Meu filho, você não sabe mentir. Desde a manhã de hoje, na livraria, percebi que você terminaria por me pedir um emprego. Você o terá, um dia desses, tranquilize-se. O que? quando? quanto você ganhará? Não sei ainda, mas você terá a colocação e ela será compatível com seu nível de conhecimentos. Que tal, agora, o chocolate?
            Ele mesmo pôs a mesa – estou sozinho, repitia – e não esqueceu de vestir um pijama de seda, alegando calor. E de repente, disse:
            -- Em troca do prometido, Tônio, quero sua imediata adesão ao nosso partido, adesão de corpo e alma. Isto e eu lhe arrumarei a vida, Tônio. Agora, um pedido meu, pessoal: concentre-se na leitura dos romances de Anatole. Umas semanas mais e me provoque, em classe, para que eu possa falar sobre ele que é a maior figura literária deste século.
            -- Concordo com o senhor.
            -- Ouça um segredo e de logo aprenda que um segredo é um segredo, nada pode transpirar, com ninguém deve ser partilhado. É que, Tônio, se o Anatole me pedisse o de detrás, eu consentiria a ele, se é que você me entende...
            -- Entendo, mestre.
            -- Tanta é minha admiração por ele. Não sei negar nada a quem tenha talento, desenvoltura...
            -- Entendo, mestre.
            -- Justiça?
            -- Justifico.
            Ele então... 
 ESCLARECIMENTO – IX


            Querida, nada de Cris hoje à noite. Pelo amor de Deus, vamos esquecer que ele existe.
            Não se perfume para hoje. Quero fazê-lo pessoalmente, se você permitir. Seu corpo jovem e lindo, querida, exige discretos odores e combiná-los, sem que se repilam mas se harmonizem é ciência e é uma arte. Nelas me tenho especializado, há décadas, e o mais fascinante é que tudo sempre se renova. Um renovar que tem origem no fato de que o nosso próprio perfume, o do nosso corpo, jamais se repete. Venha antes das vinte horas e saiba que nem o Ivo estará aqui: orientei-o para encontrar o Cris, pagar-lhe umas bebidas, prendê-lo para que não nos interrompa. Espero-a com ansiedade. Abelardo.


            Ela estava acordada quando eu cheguei e fui para o gabinete e disse “não” quando indagou se eu queria jantar. O chocolate do Professor, aqueles biscoitos açucarados, o acontecido, tudo me embrulha o estômago e apelei para a garrafa de conhaque que o sr. Lauzimier me oferecera.
            Não desconheço minhas dívidas para com o Professor (...) mas o tê-lo descoberto como um veado seboso causou-me repugnância. Mil vezes já disse que admito as lésbicas, eis que, coitadas, as mulheres, em matéria de sexo, sofrem o que o Diabo  determinou e nisso Deus ainda não venceu. Veados, porém, não! Certamente esta minha idiossincrasia contra os veados tem origem a partir daquele dia em que mamãe me surpreendeu com o odiente Padre Matta, na circunstância que já descrevi. Entretanto, a noite não foi de toda má. Para a felicidade do meu futuro, um delicioso romance de Anatole France prendeu-me atenção. Refiro-me ao tão pouco conhecido “O Sr. Bergeret em Paris”. Li-o de uma sentada e refleti muito sobre o trecho seguinte:
            “Mas, uma cidade inteira, uma Nação inteira se resume em algumas pessoas que pensam com mais força e justeza do que os outros. O resto não importa (...) Os espíritos raros é que são suficientemente livres para desvendar os terrores vulgares e descobrir por isso mesmo a verdade velada”.
            Eu fui um desses espíritos raros. E, ao legar-lhe o que agora escrevo, tenho convicção de continuar sendo, apesar da idade e do cansaço físico que ela me impõe.


            Eu não sabia de nada.

INTERRUPÇÃO – VIII

           
            Você é simplesmente bárbaro, querido! Depois desses dias maravilhosos, divinos, só posso mesma gritar pro mundo todo que você é bárbaro, você é o quentíssimo da paróquia, vá saber contentar uma mulher assim no inferno. Comparado com você, querido, Cris é galinho. E não digo isto para jogar confete, digo porque você realmente sabe contentar, é disso aí. E quero voltar a Brasília e quero que tudo seja repetido, tudinho que os seus requintes, acho que nem na Índia tem nada igual. Vou ao “Birita”, hoje de noite, só prá contar pru Cris uns babados e dizer que nossa viagem à Brasília foi coisa do serviço secreto que nós estamos fazendo, estas memórias, deste que foi um dos homens para tristes que já conheci. Me confirme se o Cris aparecer perguntando, me confirme dizendo que a gente partiu às pressas, um chamado de tal dona Lourdes, coisa urgentíssima, e você ficou no sexto andar e eu fiquei no décimo primeiro.
            Diga também que só fui à buate do Hotel Nacional uma vez e que assim mesmo tive enxaqueca, ele sabe que sofro de enxaqueca. E se perguntar porque não chamamos ele, você explique que eu disse que ele tem medo de avião, e tem mesmo. Beijão, querido, beijão. Salvador, 13 de março de 1969. Marluce. Eu vou dar à Narda a mesma desculpa. Eu me sinto mal quando minto para ela, mas dou um jeito. A mesma.
           

            Eu não sabia de nada quando, por volta das nove horas da manhã de um dia benfazejo, cheguei à Faculdade e Arimar, quase a correr, aproximou-se de mim dizendo saiu a sua nomeação! mostrando-me exemplar do “Diário Oficial”. Lá estava o decreto tão esperado. Ser-me-ia entregue, segundo o estatuído pelo Governador, e para regência plena, a cadeira de “Noções de Moral e Cívica”, da Escola Normal.
            Disse que, em verdade, havia pedido um emprego ao Professor (...) mas não sabia... e Arimar me interrompeu e me informou que os maledicentes estavam a assoalhar que eu só havia conquistado a nomeação porque me agachara diante dos poderosos, tornando-me um pulha. Consegui, no rosto, traços definidores de um homem injustiçado e disse que não houvesse a obrigação de velar por minha adorada mãe, ampará-la, faria tudo para sumir da Bahia, do Brasil, e findar meus dias em Andorra, uma merdinha de cidade, Arimar, com um mérito, porém: eu estaria a salvo desses pulgas incompetentes, invejosos, farolados pelo despeito, apenas capazes de fiar corrosivas perfídias (eu sempre fui bom em discursos, Abelardo), tentando que nelas nós, os de espíritos raros, Arimar, nós nos enredemos. Não quero vê-los, pelo menos hoje. Diga por aí que eu estou muito gripado. Gripadíssimo.
            Arimar exibiu-me, então, uma expressão fisionômica que, embora amigável, tendia para o espanto: não mentir era algo inerente ao seu caráter e dizer-me, às escâncaras, de sua impossibilidade em atender ao meu pedido significava, igualmente, um golpe contra amizade que prosperava. Ele não me elegeu por acaso e sim porque eram muitas nossas afinidades. Enquanto os outros colegas consideravam-no um tipo esmaltado por vaidades, eu não lhe tinha inveja e sim o estimulava. Defendia-o se, por exemplo, numa pensão de mulheres, sacrificava trepadas com qualquer das madalenas para ouvir histórias tristes, umas reais, outras imaginadas, emocionando-se ao lado do espanhol anarquista, Pablo Alejandro, que tinha um filho do mesmo nome, menino travesso que gostava de brincar com uma espécie de florete, ameaçando nos picar. Arimar recusou-se a mentir e propôs:
            -- Sairemos juntos, Tônio, andando pela cidade. Conversaremos. Você concorda? 
-- Não.
            -- Pablo recebeu livros novos...
            -- Não. Vá às aulas. Diga a verdade aos maldosos. Diga-lhe que os boatos tanto me feriram, tanto me irritaram que resolvi buscar o amparo da solidão. Os que hoje me vituperam, Arimar, estarão amanhã agarrados às minhas calças, curvados diante de mim. (Pau, casca, Abelardo e você mesmo testemunhou o Theodoro a me beijar os pés, querendo ser desembargador por méritos, cujos, aliás, ele não os tem) E não se exceda ao defender-me: eles também têm inveja de você. É compreensível: já os chineses ensinam que os sapos do lodaçal são incapazes de compreender o que lhes dizem os grandes peixes dos oceanos. E saiba de uma coisa: além de bom aluno, o Professor (...) me admira porque prefiro a ironia de Anatole aos destemperos do velho Balsac.
            Abismou-se: Mas, Tônio, você até há poucos dias adorava Balzac!
            -- Adoro-o ainda, mas o Anatole tem mais amor ao homem. Confessadamente é progressista, vive mais a nossa época, pressente um futuro sem querras, sem fome, sem injustiças. Se antes não lhe falei disso...
            -- Mas, você critica tanto o Pablo!
            -- É que não me interessa construir prestígio às custas de ações que considero uma obrigação social e não um favor. A primeira e única briga que tive com meu padrasto, tive-a por defender um proletário, o sr. Artemísio, até hoje meu amigo. Sabe de uma coisa? Talvez eu não aceite a nomeação...
            Arimar me olhou, desconfiado, e afastou-se em direção à Faculdade, deixando comigo o exemplar do “Diário Oficial”. E de noite, na residência do Professor (...), introduzindo nas frases uns adjetivos gordurosos, agradeci a mercê e falei com franqueza: eu não era forte nem em Moral e nem em Cívica, matérias estudadas por exigência apenas curricular. Não lhes atribuí, mestre, maior importância.
            -- E não têm, Tônio, reconheço que não têm importância maior. Nem por isso se vexe, querido filho. Melhor: querido amigo. Há por aí, em francês, uma caterva de compêndios sobre Moral. Compre dois ou três, faça os resumos, escola por escola, concentre-se nos gregos bem educados -- e, claro, o notável Platão à frente --, suba até os ingleses e franceses dos séculos XVIII e XIX e dê setenta por cento de atenção a Kant. O resto, os modernos, despreze-os. Todas as ideias, todas, mesmo as de Kant, devem ser paramentadas com a essência do cristianismo papal, cujas raízes encontram-se no Decálogo. A Bíblia, como um todo, é perigosa: Cristo expulsando os comerciantes do Templo é algo subversivo. O Decálogo é puro e esse entendimento é fundamental. Pois não é, Tônio, que até no Brasil, e mesmo um pouco em nossa pacata São Salvador, deletérios braças já exigem coisas, já ululam e já fazem greves, brancos e pretos se misturando? Pois já não há muitos Esse-Menino que se dão ares de eficientes caixeiros? Contra eles, querido, a chibata e o Decálogo, santos remédios. Assim, pois, de três em três aulas sobre concepções mais gerais, retorne sempre ao Decálogo: não roubar, não matar, não cobiçar, etc., e etc., a besteirada sempre conveniente para os pobres de espírito. O contentamento a cegá-los, meia-volta à sabedoria de Kant, vale dizer, meia-volta à luz. Entendido?
            -- Sim. E quanto a civismo, mestre?

            -- Bem, civismo... Beba mais chocolate. Civismo, civismo... Ora bem. Fale da pária, o dever de defendê-la na Paz e na Guerra, a religiosa necessidade de reverenciá-la pela manhã, bandeira a subir, pela noite, bandeira a descer, oh! estou me repetindo... Seus olhos me inquietam, Tônio.
            -- Eu o admiro muito, professor. Seu saber... Algo mais sobre a bandeira?
            -- Claro que há. Recomendo, com o tato necessário, agradáveis digressões sobre cores e sobre o dístico: Ordem e Progresso. Ordem em primeiro lugar. É o que está estabelecido, é o que deve ser cimentado. Ponto final quanto a isto. Porque é perigoso pensar publicamente o que não deve ser pensado. Ou você se expõe às objurgatórias daqueles que resistem às transformações, invocando o primado da Ordem. Mesmo quando são simples miudezas. O dedo mindinho para salvar a mão, mas eles não querem e se os que mandam não querem, então quem somos nós para querer? A vida é curta e frágil, é preciso aproveitar. Aproveitar em tudo, na carne e no espírito. Você gosta de paté com pão e vinho?  Tenho um patê...
            Eu adoro, mas mamãe se zangaria se hoje eu não jantasse com ela. Tenho que ir. Mas, antes, mestre, devo dizer que o senhor me abriu não picadas em densas florestas e sim sombreadas veredas em verdes campos – disse e levantei-me e ele tomou minhas mãos entre as suas, gorduchas, suarentas, fez com que outra vez me sentasse, o discurso ia prosseguir e terminou assim: Nunca esqueça, Tônio, seja quanto a Moral, seja quanto a Civismo, as contingências políticas. Ou você levará um tombo e eu não quero que isto aconteça. Prezo sua amizade, quero-a sempre mais ardente, mais íntima. Você precisa mesmo ir?
            -- Preciso.
            -- Bem, são quase oito horas e o Governador virá às nove. Vá. Seja-nos fiel, Tônio. Amanhã Carmen e minhas duas meninas estarão de volta. Vocês as conhecerá. Vá, até amanhã. 
            “Carmen” e “duas meninas”?
            Ah, os senhores leitores verão que não foi tão fácil assim...

3.

            Mamãe exultou com a notícia da nomeação. Ao pressentir que me ia beijar a mão esquerda, afastei-me em direção à porta que dava para o jardim. Esperou, minutos depois, que eu entrasse no gabinete, entrei, ela quis entrar, não deixei e bati-lhe a porta na cara. Inexcedível a sua sabujice, esperou-me à saída:
            -- Vou rezar sempre muito por você, meu filho.
            Quatro ou cinco semanas após minha primeira aula na Escola Normal, ao descer para o café da manhã, por força de muita insistência ela me conseguiu na sala de visitas e rindo, um riso de bruxa, apontou a parede maior. Lá estava, substituindo o retrato colorido do sr. Giuseppe, especialmente feito em São Paulo, a amarelada fotografia de meu pai, o rei sozinho, jovem, robusto, ao fundo a paisagem de uma cidadezinha calabresa, a foto que, arrancada do álbum, eu guardara na minha gaveta.
            A manivérsia irritou-me. Pisando no estofado de uma das poltronas, alcancei a altura suficiente e retirei o retrato emoldurado em oval. E exigi: Não bula mais em minha gaveta ou não haverá Asilo nem merda nenhuma! Tentou dizer que unicamente pretendera me agradar e antes que terminasse a fala, um pout-pourri de sandices, sílabas e letras fedorentas, dei-lhe as costas, encerrei-me no gabinete, sem mesmo quebrar o jejum matinal. Um chá que Anália me trouxe e a necessidade de cumprir obrigação contraída com o Professor (...) aos poucos foram permitindo uma mansidão e nela achei acolhimento para ajuizar sobre as tarefas do dia. Sobretudo, eu devia escrever suelto, algo ferino, em relação ao Intendente (hoje se diz Prefeito) que, embora correligionário do Governador, estava a pôr as manguinhas de fora, dando-se uns ares de independência, comportamento não previsto no repertório de direitos elaborado por S. Excia.
            --  S. Excia. – explicara-lhe, na véspera, o Professor (...) – é extraordinariamente hábil, Tônio. S. Excia. estimula pequenas divergências internas com o intuito de averiguar tudo sobre os que, sendo rolinhas, ambicionam ser águias soberbas ou vorazes falcões. Vai dando linha aos bichinhos, adverte-os maneirosamente e se eles não... Entendido?
            -- Percebi, mestre.
            Eu deveria preparar o texto do suelto de tal modo que repontassem duas ou três citações de autores franceses da inquestionável preferência do Professor (...) O Intendente, assim, identificaria o autor da verrina e racionalista sem dificuldades: “ora, se o Professor (...) foi a tanto é claro que o Governador lhe fez a ponte; logo...”. E assim advertido – acrecentou – o nosso hoje rebelde carneirinho voltará ao redil, fanadas suas ambições desmedidas, ou tirará a máscara, nesta última hipótese, Tônio, chegará a hora das bastonadas no sujeitinho e este prazer o Governador não nos dará: S. Excia. adora bastonar, e bate rijo, Tônio, sabe bater, e dona Carmem riu com descaro ao ouvir aquilo e o Professor (...), agastado com a gaitada da mulher, fez-se sisudo, e imaginei: “O Governador fode esta mulher, o Professor (...) sabe e deixa; como negar algo a S. Ecia.?
            E ali, no meu gabinete, um tanto a perigosa pureza de Kant, um tanto algumas das perversões do Marquês de Sade, diverti-me a inventariar hipóteses escandalosíssimas. Havia, porém, o que fazer e eu não me podia permitir o luxo de convescote mentais daquele tipo. E arregacei as mangas para o trabalho. Por volta da hora do almoço eu já tinha o texto pronto, lido e relido. Citei Anatole France e Vigny. Os versos de Vigny – “fais ... ta noble et rude tache / dans la voice ou la sorte voulu t’apeller – caíram tão bem que o Professor os repetiu duas vezes, a comentar: Tônio, você conseguiu uma reprodução magistral do meu estilo. Farei umas emendas e vai ser uma bomba!
            -- A seu conselho, mestre, bebi nas melhores fontes.
            -- O Vigny no revestimento, o Anatole mais sumarento do que nunca, magnífico, Tônio, magnífico. Só um néscio não perceberá minha orientação, meu dedo. Bem, S. Excia. virá abraçar-me depois de amanhã. Farei cinquenta anos, querido. Venha também, depois das oito.
            -- Com o máximo prazer, mestre.

            -- E o nosso estouvado Intendente? Será que lendo o sualto ... De qualquer modo vou convidá-lo, enviarei um cartão. E se aparecer e se perder a tramontona, genioso e irritadiço que é, e se investir contra mim eu lhe rasgarei a fantasia. Há, porém, outra possibilidade. Para acalmá-lo pois que o sogro do peralvilho além de riquíssimo é escolado em falsídias, o Governador, para poupar-me, aqui tendo em conta os interesses partidários, poderá informar ter sido você o autor desta pequena obra prima, acrescentando que de nada eu tinha conhecimento. (Dona Carmen, vi, concordou). Sim, isto é possível. Nesse caso, sempre tendo em conta os interesses de S. Excia. e os do partido, e, ainda, os seus interesses. Tônio, -- saiba que pretendo Elegê-lo deputado – você deve agir com astúcia e sangue frio.
            -- Como se estivesse num palco – ela disse, quase debochando.
            -- Desse modo, Tônio, se o peralta do Intendente atirar-lhe pedras e estrume à cara, reaja, sim, reaja, mas com altanaria, sem a violência dos iracundos. Faça-lhe, à vista de todos, um discurso viril e irônico. Quer treinar? (Dona Carmen, vi, concordou. Com vivo empenho) Sim, por que não?
            Considerei a ideia meio aveadada, mas o exercício de destreza mental era útil aos meus propósitos, ele avançara o compromisso de deputar-me e submeti-me: Aceito se o mestre e amigo considera indispensável. Ele disse: Considero, meu querido, considero e  dona Carmen adentrou-se na casa, em busca das filhas, Lucinha e Creusa, para engordar o auditório. A tal Lucinha pareceu-me freteira e apetitosa, mas Creusa saira ao pai, era um bofe, um composto de tronchos. O Professor (...), animadíssimo, explicou a cena e, cada ator no seu canto, dedo em riste contra meu rosto, ele engrossou a voz:
            -- Pasquineiro! Canalha!
            E então (que jeito?) aplumei-me:
            -- Tais xingamentos, senhor Intendente, porque assim requer a conveniência partidária, eu os considero medalhas, louros, buquês de flores, ou, se desejais, simples pingos de lama que não podem enodoar a frescura virginal dos meus linhos. (E fiz pausa). Linhos, senhor Intendente, com que teci a armadura que defende o estandarte do nosso partido. O meu, seguramente; o vosso, ainda, senhor?
            -- Como ousa? Como ousa?
            -- Recordo, senhor Intendente, meu queridíssimo poeta Cruz e Souza, recordo-o e digo que vossas invectivas eu as recebo como sidéreas rosas, preces de luar e lírios, brancas sonoridades de cascatas. E me retiro, senhor Intendente, não antes do apelo que aqui e agora faço: no futuro, senhor, flete contra nossos inimigos comuns a ira que vos põe fora da razão, nunca contra um jovem do vosso próprio partido.
            Aplausos e depois chocolate quente; o Professor mandou Creusa abrir uma lata de biscoitos franceses e me recordo ter dito que não, infelizmente eu não sabia tocar piano, minha mãe sim, ela sabia, em passado próximo, fora mesmo quase exímia na arte do teclado; livros de Cruz e Souza? trarei, senhorita Lúcia; e ela falou: mais chocolate?
E recusei, minha mãe me espera, ela é paralítica, e o Professor (...) estranhou que mamãe, sendo paralítica, tocasse piano, e não me engasguei para doirar a pílula: a paralisia, felizmente, não alcançou os membros superiores, mas já não interpreta como antes. Menos chueteira, dona Carmen convidou:
            -- Venha almoçar amanhã.
            -- Com o maior prazer.
            Em casa, avaliando tudo quanto acontecia, antevi, sob férreas alfombras, alguns dos riscos da empreitada: o Professor me exigiria como amante? Outros existiram, imprevisíveis, e ouvi em coro meu pai, tio Leonardo, o sr. Artemísio, Arimar, escutei-os, tudo isto é muito podre, é muito sujo, Tônio; ainda há frestas na pocilga, filho, fuja, limpe-se na luz do sol, limpe-se nas águas da Pituba, limpe-se! E eu disse aos livros do gabinete:
            -- É um jogo, amigos, e já comprei as fichas.


            O Intendente não compareceu à recepção oferecida pelo Professor cincoentão. O Governador, de sua parte, apresentou-se às nove horas daquela noite abafada, saudou os convidados, não deu trela a nenhum, apertou a mão de dona Carmen, beijou a testa de Lucinha, querendo-se paternal, e quanto a Creusa, notei, fez que não viu, e depois arrastou o Professor (...) até o gabinete. Trancaram-se e esperei que me chamassem – o suelto obtivera repercussão aquém da por mim esperada – e não me chamaram. De volta à sala, após ter levado o Governador até a porta de saída, pelo jardim, o Professor estava exuberante: Tudo otimamente bem, Tônio, objetivos alcançados, querido. Inclusive, o Governador quer conhecê-lo pessoalmente. Agora, Tônio, regozijemo-nos, a diversão é o que vale. Eu me entristeceria se você passasse a segundo plano o que hoje mais me alegra: os meus cinquenta anos. Meio século, querido Tônio, meio século!
            -- S. Excia. soube que vim disposto a enfrentar à bala o Intendente?
            -- Bala, Tônio? Querido, você veio armado?
            -- Não se preocupe, já me desfiz da arma: entreguei-a a um fiel servidor que tenho, o sr. Artemísio. Ele está na rua.
            Temi que ele convidasse um inexistente sr. Artemísio, mas o Professor, expelindo gratidão por todos os buracos da cara, após dizer que também tinha seus “capoeiras”, reafirmou que o Governador me convocaria o mais cedo possível e que eu não me afastasse da sala ou da varanda, queria ter-me a vista. Lá pelas dez horas dona Carmen improvisou um “sarau artístico”. E uma mulher botou o filho para tocar piano. Uns malucos deram-lhe atenção, eu espiava Lucinha, fazia-lhe sinais, ela fingia que não me olhava e de repente seu leque caiu e ela curvou-se mais que o necessário para apanhá-lo e com isso o que queria era me mostrar os peitos, duas lindezas, nessa altura eu já coçava meu pau, para que ela o imaginasse, e ouvi a maldita voz de dona Carmen, Que declame o jovem Antônio Petrucci, e hesitei, negando meus méritos em coisas tais, mas ela, a própria Lucinha, o Professor, quintos, vozes muitas, com aplausos exigiram e marchei para o meio do salão, pau pururuca. E alto, magro, resoluto, duros os olhos a exigir silêncio, anunciei, atrevidamente olhando Lucinha, o soneto “Argila” de Raul de Leoni, que é, senhoras e senhores, um dos mais injustiçados poetas de nossa língua pátria, vate cuja grandeza um dia outros povos hão de reconhecer e proclamar.
            Declamei com gosto, sabor, aroma, sangue, cores, e enfatizei os tercetos: “É tanta a Glória que nos encaminha / Em nosso amor de seleção, profundo,  / Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis) / Se um dia fosse teu e fosse minha / O nosso amor concederia um mundo / E do teu ventre nasceriam deuses!” E sem esperar palmas – nos olhos dos muitos basbaques eu lia reprovação – emendei outros sonetos e poemas, inofensivos à pudicícia, assim ganhando alguns aplausos, nada mais. E agradeci as atenções e afastei-me e apareceu um cidadão a murmurar Bravos, jovem, os meus parabéns e o Professor (...) não consentiu que conversássemos e no jardim falou: Esse soneto, o “Argila”, bonito, sem dúvida, mas você não o considera, digamos, um tanto imoral?
            -- Não, não é imoral. A beleza não é imoral. No entanto se o senhor entende que arranhei seu lar no que tem de mais sagrado (Nesta altura, Abelardo, cocei os culhões, minha única arma naquele entrementes), peço permissão para me retirar.
            -- Em absoluto, querido Tônio! (E de raspão ele pegou no meu pau). Importante, para mim, é que nenhum dos meus pouquíssimos protegidos – e você, já é o principal – preserve publicamente em conduta que seja prejudicial, hoje, amanhã e no futuro. Privadamente, querido, viva, viva muito, corpo e espírito para todos os prazeres, fogos crepitantes! Vamos ao meu gabinete que tenho novidade.
            E fomos e dona Carmen estava sentada numa das poltronas e ela nos disse que ficássemos nus, um calor danado, e aconteceram coisas que agora me revolvem o estômago. Diabo engenhoso, que suruba suja, e a certa altura, quando ele se vestiu para ir ver os convidados, consegui despedi-los, eu pedi: Mande Lucinha, quero ela. Iradamente, sua voz enrouquecida lembrava a de minha mãe, dona Carmen me chamou de idiota, Lucinha tem dono, idiota! O Governador – ele era o dono – apareceu perto da meia-noite e Lucinha já estava no quarto, esperando-o.

ESCLARECIMENTO X


            Luce,
            se a dra. Narda não for à sua casa (telefone-me), irei vê-la hoje, a noite, e falaremos a sós. Gostaria que desde logo você pensasse nas vantagens ou desvantagens deste nossos bilhetes constarem deste trabalho. Interessante, querida: de repente veio-me o desejo de ver meu nome impresso ao lado do seu e do Cris. Isso, é claro, se você não se opõe.
            Repare que se transcrevermos o final deste capítulo agravaremos a memória de uma senhora que merece, respeitosamente, ser esquecida. Anule também, integralmente, os capítulos numerados quatro e cinco, seis, sete e oito. Suponho que são pastichos de obras do Marquês de Sade e não trazem nenhuma novidade. Por experiência própria ou leitura ou ouvir dizer, etc., o leitor inteligente imaginará o que se passou na residência do Professor (...). Do capítulo oito, porém, mantenha o trecho, marcado a lápis, no qual o finado se dirige a quantos lhe concederam mandatos, aplaudiram-no em comícios, direta ou indiretamente o ajudaram, etc. É uma ingratidão sem tamanho e não há porque escondê-la do público.
            E, sim, Brasília... Sabe que eu fiquei vaidoso com suas palavras?
            Beijos, muitos beijos.
            18.3.69 Abelardo.


            Que me putifiquei?
            Já o disse antes, longe de mim negá-lo. Afirmo e reafirmo que eu, Tônio Petrucci, senador Antônio Petrucci, conseguiu iludi-lo dezenas e dezenas de anos, mas vocês, que negavam e negam aplausos a um soneto como “Argila”, vocês vivos e vocês mortos, vocês é que me quiseram assim, vocês todos e não apenas minha mãe, o sr. Giuseppe, o sr. Ambrósio, o Professor (...), o Governador, dona Carmen (ela teve uma morte horrível), as figurinhas que gravitaram em torno de mim, e sim eles e sim também vocês, todos podres de espíritos, de curiosidades, de dúvidas averiguadoras, de dúvidas poderosamente interrogativas. Sim, vocês todos!
            Meu mérito – porque há mérito em ter sido um canalha bem sucedido – consistiu em ter compreendido vocês e agir de acordo  com tal compreensão: nas ondas de que são feitos os movimentos eu soube nadar, sem me permitir afogado. Esta é a nossa diferença essencial. Como antes já disse, sempre soube em que circunstância me prostituí, cada momento do processo. Era a ambição que me aprestava os culhões quando eu ia para as surubas na central putárica. Tinha consciência de que meu pai e tio Leonardo choravam de dor por me assistirem degradado, física e moralmente, e lhes prometia mudanças quando conquistasse as posições pretendidas. Era um jogo – e um jogo sujo, mas estou contando tudo e vou contar muito mais. Vocês, ao invés, gostam-se engaiolados pela nudez.
            Putos! Perturbados putos que, agora, se vivos estão, coram e enclausuram-se naquilo que alguém definiu como “silêncio de gelo”. Eu, não. Eu grito e confesso, eu digo sem meias palavras que subi na vida mediante processos impuros, processos que, no entanto, são brinquedos de criança se comparados com os postos em prática pelos que subiram além do que eu alcancei, e poucas as exceções, as ressalvas. A Pátria, juro, nunca a mercadejei, e mil réis mal ganhos, embolsei-os, muitos, mas sem depositá-los em bancos estrangeiros. Não meto o povo nisto, o povo é bobo, meto vocês, putos, perturbáveis putos. Fodam-se!


INTERRUPÇÃO – IX


            Meu, atendo sua ordem. A quem interessar possa digo que estou de acordo com seus bilhetinhos nesta pamonha. Assinado, Marluce. Pensando bem, Abelardo, é uma boa isso de a gente ficar trocando bilhetinhos. É como se você nunca estivesse tão longe. E de vez em quando vou dar mais palpites sobre estas memórias e fique sabendo que gosto de umas tiradas do velho, principalmente quando ele bagunça de uns caras aí que andam posando de santos e que não são santos porra nenhuma.
            Meu, me machucou aquilo ontem a noite de você “estranhar” que Narda toda hora vá lá em casa, coisa e tal. Eu já “estranhei” você toda hora falando de Cris isso, Cris aquilo? Cris é porreta, eu sei que é, mas se é ótimo numa coisa é péssimo em outra, fique de aviso.
            Você diz que me adora, eu acredito ou não usaria o anel. Eu digo e escrevo que adoro você numas coisas e outras pessoas têm coisas que eu adoro. Por exemplo: o jeito de Cris gozar os chatos, as delicadezas de Narda. Entendeu? Me espere hoje à noite, eu estou à-fim de você. Tchau, belo. Salvador 19.3.69. Marluce. Você reparou a que mamãe só me chama de Lu? A mesma.


9.


            Uma freira levou-me a notícia. Eram nove horas da manhã e eu tinha pressa, eis que o Governador me marcara audiência para às onze. A freira, antes de entrar no assunto, espichou um circunlóquio insosso, cretino mesmo, sobre a vida e a morte, a morte não é um fim em si mesmo, é un départ para caminhos maravilhosos (no cu, veja-se “A Divina Comédia”), e interrompi a algaravia e perguntei: Mamãe morreu de que, afinal?
            -- Morreu dormindo – respondeu e disse que o médico chegaria às onze horas para o atestado de óbito, depois seguir-se-ia o velório, prolongando-se pela tarde e à noite, enterro na manhã seguinte, eu cuidasse urgentemente do caixão, das flores, da cova. Exigi: Quero o enterro hoje, de tarde. Amanhã embarco para o Rio, em missão oficial do Governo. Questão inadiável. Ela me olhou com espanto e acrescentei:
            -- Quero tudo acabado até quatro horas, quatro e meia o mais tardar. De minha parte, Irmã, despeço-me da senhora, devo mudar de roupa. Não se incomode quanto a despesas. Tenha um bom dia.
            Levei-a até a porta e, de volta, passando pela copa, avisei a Anália sobre o acontecido e ela perguntou sobre a causa da morte, respondi Morreu de preguiça. Anália riu (elas se detestavam), e mandei que avisasse a Arimar, fosse buscar o sr. Ambrósio, me esperasse às doze horas, Informe Rosenda e o sr. Lauzimier, dê a noticia também ao Padre Hermógenes, a ninguém mais, seja expedita que o tempo voa, enterro às quatro da tarde.
            Antes do Palácio, passei na casa do Professor (...) para comunicar a nova e encaminhar uma nota de condolências aos jornais fiés. Uma nota hábil, escondido o nome do meu pai. “Doloroso golpe feriu, ontem, o jovem advogado e jornalista dr. Antônio Petrucci, com o falecimento de sua genitora, a sra. Sophia da Anunciação Petrucci, viúva, em seguidas núpcias, do industrial Giuseppe Camposanto. O féretro saiu do Asilo da Ordem Terceira do Carmo, sob lágrimas do filho amantíssimo e a tristeza de numerosos amigos, ocorrendo a cerimônia final no cemitério Campo Santo. Unimos o nosso pesar ao pesar de toda a Bahia, solidários que estamos com brilhante advogado e jornalista, a quem S. Excia., o Sr. Governador do Estado, manifestou sinceros pêsames, de igual modo procedendo muitos e ilustre líderes políticos. O dr. Antônio Petrucci segue, hoje, para o Rio a bordo do “Netuno”, com a missão de defender, perante os Juízes da Suprema Magistratura, várias causas de sua selecionada clientela e, também, de números desvalidos da sorte”.
            O Professor sugeriu: Acrescente que você é candidato.
            -- Não, não acrescente uma vírgula. Recuso usar meu luto como arma de campanha política. Peço que ninguém vá ao enterro. Eu me emocionaria ainda mais e é melhor que tudo passe com a velocidade de um pesadelo – e saí daquela cena e na rua me dei contas que precisava acelerar os passos: eram quase onze horas. Diante do Governador, após receber as instruções (recados sigilosos, umas cartas, orientação para sondagens, etc.), nada disse sobre a morte de minha mãe. Com a mesma facilidade idiota, com que hoje, jovens falam em acabar com a burguesia, falava-se, na ocasião, sobre movimentos revolucionários. Isso gerava um clima de apreensão e ouvi S. Excia. recomendar: Obtenha o máximo de informações sobre as áreas militares e não dê nenhuma sobre o que temos na Policia Militar e na Guarda Civil. Quando eu já ia saindo, ele disse: Agora, dr. Antônio, uma questão pessoal. Se me exasperei, naquela noite, quando vi Lucinha de mãos dadas...
            Excelência, por favor! No dia em que eu for incapaz de compreender a tensão nervosa em que o senhor se encontra eu me afastarei. Tudo está definitivamente esclarecido, Excelência, e quero agradecer o senhor ter consentido meu retorno à casa do Professor (...).
            Assim me expressei e na cara, na minha cara meses antes agredida por cusparada daquela nojenta boca de beiço moles, e o mais antes narrado(5), qualquer um descobriria variegadas emoções calmas: compreensão, tolerância, obediência ao Chefe, uma certa tristeza, vontade de cumprir as ordens, e ele, satisfeito, metendo em meu bolso 500 mil réis, algo além do anteriormente fornecido, uma pequena fortuna, despediu seu palafreneiro sempre à disposição.
            No cemitério, quando me abraçaram, o sr. Lauzimier e Rosenda pouparam-me de palavras vãs. Rosenda de novo grávida, o francês disse que quando eu voltasse do Rio não os encontraria mais. Ele herdara, do avô paterno, uma fazenda em Madagascar, lá iriam viver, viajando na semana entrante. Permite? – e beijei Rosenda na testa e ela me retribuiu com um olhar bom, sadio, amigo. O sr. Lauzimier disse: De volta, Tônio, você encontrará um presente nosso. E imaginei mais livros e apertei-lhe a mão. Em casa, o sr. Ambrósio perguntou: Missa de sétimo dia? E respondi que não, nem de trigésimo, nada. Ordenei “me ajude aqui” e sob sua enorme surpresa, e também a de Arimar, armei uma foqueira e dei-me a queimar, no quintal, os antigos pertences do sr. Giuseppe e os de minha mãe, exceto o piano, impositivamente ofertado a Arimar, o piano cujas teclas ele não terá tocado salvo algumas vezes, e certamente poucas vezes: morreria, quase na véspera do meu embarque de volta a Salvador.
(5) No último capítulo desta parte, o senador recorda o suficiente sobre seu envolvimento com Lucinha e com o Governador. O capítulo específico, cheio de pormenores, é desaconselhável.


           
Muito falei de Arimar em capítulos anteriores e talvez tenha provado que também com bons sentimentos se faz literatura: ela tanto exige demônios quanto deuses. Há a acrescentar, aqui, que a morte de Arimar, tão sentida, ocorreu de modo absurdo, estúpido: na fazenda de um tio, na cálida e posso dizer que amorável cidade de São Gonçalo dos Campos, armara rede para um cochilo após o almoço e aos poucos, sem que pressentisse, foi-se partindo a viga-mestra, e de repente madeiras podres, grossos pedaços, arrastando tijolos, caliças, bichos mortos, caíram-lhe sobre o peito, o rosto, a cabeça, assassinando-o. De regresso do Rio, quando soube do acontecido, outra vitória do Diabo, promovi o translado dos seus restos e os coloquei, com agradecida anuência da família, num modesto mas digno túmulo, Cemitério da Quinta dos Lázaros, ao lado do corpo de meu pai. Dois homens e todos os anos tenho festejado. Flores, muitas flores, para duas honras silenciadas. Um silêncio de hinos, eis que, para mim, são mortos que vivem na memória. Quero ficar ao lado deles, quietamente.

10.

            O Rio. Os pontos de luz uns de outros se separavam à medida em que o navio ia vencendo a distância. Em mil pedaços partia-se o bosque de luzes. Eu, de mim, ansiava que o navio perdesse sua liberdade e me devolvesse a minha. Assim, desejei que logo fosse amarrado no cais deserto, e foi e de supetão vi-me em hotel da rua Mem de Sá, imediação dos Arcos, quarto no terceiro pavimento, vozes incomuns, exageros de cortesia profissional agravando uma espécie de estupefação frequente às pessoas imaginativas repentinamente deslocadas de seus espaços, seus chãos. Senti-me temeroso. E meu pai e tio Leonardo nada inspiravam que fosse favorável, tudo o que sugeriram limitava a coisa como eis afinal você desamarrado, Tônio, eis você afinal diante de caminhos muitos e nós não sabemos o melhor a ser trilhado, não, não sabemos, eu um simples pescador, seu pai um simples artesão do couro, grande homem, sim, grande homem, mas naquele pequeno mundo da Pituba, Itapuã, Brotas, Taboão; também eu, Tônio, grande homem mas só em pedaços de mar,
            -- as malas, senhor.
            Despedi o rapaz com uma gorjeta e voltei à janela, madrugada, supondo-me na condição de um condenado aos riscos e à solidão. Repeti as invocações que tio Leonardo me fazia ouvir, de noite, na praia da Pituba, olhos no céu: Haja sempre mar, Senhor, por Vossa Misericórdia; neles haja sempre peixes, Senhor, por Vossa Misericórdia; e mar e peixes saibam, Senhor, que é em consequência de uma lei Vossa que os sujamos, ferimos e matamos, e tanto conhecendo se apiedem de nossa almas. De manhã, diante do espelho, eu me disse: “não erre ou erre o menos possível. Não se apresse, em nada. Veja da janela: todos são estranhos. Como descobrir que um estranho não é inimigo? Eis porque, Tônio, mais do que lá, na Bahia, toda cautela é pouca”.
            E saí e andei, e nas ruas, mais do que a solidão, senti a dor do anonimato. Gentes e gentes, aos montes, e para todos e para cada um eu não era nada, ninguém, e quase a jurar eu me disse “um dia, o mais breve, esta cidade não me negará suas carícias e estas mulheres me olharão com curiosidade, respeito e me farão reverências; agora, porém, ninguém me concederá cinco ou dez segundos e todos irão rir se lhe falar de minhas aspirações e todos, mesmo o mais fuleiro, insistirão em gargalhadas se eu contar que troquei o tão gostoso chibiu de Lucinha pelos hipotéticos votos de ainda não sei quantos coronéis mandatários de currais eleitorais, porque assim quis S. Excia., um velho devasso, perverso, por que você bateu na mocinha, tarado, e na minha vista, provocando-me para um confronto impossível que numa hora dessas não sou maluco para brigar com o dono dos votos? Por que você sempre a espanca? por que você não se contenta com o chibiu dela, tão quentinho?
            Porca vida esta, Lucinha, terrível isto de eu ainda não poder cuspir na cara do velho cruel, sádico. Por mim, creia, por mim, juro, escarrava na cara dele, mais do que escarrou na minha, mas Lucinha, compreenda, compreenda que tudo foi disposto de tal modo que me vejo de mãos atadas, é a tal ordem natural das coisas, você sabe disso que você é inteligente, seu pai sabe disso, todos dependemos desse Déspota, esta é a verdade; homens à deriva seríamos, eu e seu pai, se ousássemos enfrentar o tarado no território dele, e hoje, querida, as lágrimas que você chora seriam soluços terríveis, amanhã, eis que tudo está arrumado pelo Diabo para ser como é, e Deus está atrasado na luta contra os belzebus. Não há, pois, na vida, apenas os limpos caminhos dos pássaros, assim eu disse a seu pai e ele quase foi além daquele choro; coitado, faça-lhe justiça, querida, pois se ele não tivesse presença de espírito para inventar a desculpa que inventou hoje o que há seria pior, seria nossa desgraça. Chego a me arrepiar quando imagino as consequências se, graças a seu pai, as coisas não tivessem sido contornadas. No mínimo eu seria espancado numa rua deserta, como é comum, seria demitido do emprego, e por que, Lucinha, por que? Por causa de sua imprudência, dessa sua mania de agarramento! Quem mandou você pegar em minha mão, quem mandou? E a burra de sua mãe? Por que ela não correu para avisar que S. Excia. vinha chegando pelo jardim? Como é que eu ia adivinhar que o puto tinha a chave do portão do jardim?”
            -- Vossa Excelência está se sentindo mal?
            E olhei para o homem atarracado, português, sem dúvida, e não respondi, continuei caminhando pela Rua do Passeio, e me perguntei: “que diabo eu ganho com estes pensamentos , estas rememorações?” E lamentei não ter dado uma resposta gentil ao oportuno português. Poderia ter-lhe explicado, para tranquilizá-lo, que é dos meus hábitos falar sozinho quando me exalto, e estava exaltado, e ri, sozinho, ali, na Rua do Passeio, e compreendi a insensatez de minha primeira reação contra a cidade e as pessoas da cidade e me disse: “esta é uma cidade que cresce rapidamente e tem segredos; não devo temê-los e sim é bom que os encare de modo realista; se, por exemplo há um assassino na próxima esquina, há também aquele português que se preocupou comigo e me chamou de Excelência, Vossa Excelência está se sentindo mal?”, e caminhei à toa, vagabundando. E quando me senti mais seguro, mais calmo, mentalmente recapitulei minhas obrigações, disposto a cumpri-las com sucesso.
            Senhoras e senhores leitores: pesa-me dizer-lhe que se de minha primeira viagem ao Rio trouxe êxitos, acompanhou-me de volta uma desgraça de desdobramento miseráveis. Refiro-me a uma doença venérea, blenorragia como hoje se diz (dizia-se, na época, gonorreia), cujo tratamento, feito aqui, na Bahia, me esterilizou – e isso me impôs o malefício que é a ausência de um filho, significando uma terrível punição. Não que eu houvesse, um dia, pretendido constituir família, como normalmente se entende o que seja uma família: marido, mulher, a filharada, a parentela, etc., essa espécie de seguro contra velhice tão ao gosto do pequeno-burguês.
            O que sempre me apeteceu foi um filho meu, gerado em não importava que útero. Desde que o menino saísse branco, sem defeitos físicos ou insuficiência mentais, pagaria regiamente à parideira – e ela que não me aparecesse mais. E criaria o menino segundo o estilo de meu pai, a sorri, a cantar, a aprender na vida e nos livros, o garoto, assim, a crescer sem ódios e sem medos, eu a gozar cada instante de sua alegria. Isso não me foi consentido e agora meus olhos ardem mas não choram. É outra punição, é um grande sofrer, acreditem, porque se as lágrimas saíssem, molhariam mais do que meu rosto, molhariam minha dor, amenizando-a.


INTERRUPÇÃO – X


            Uma bobagem você trazer o Cris para jantar, porra! Só vim aqui, esta manhã, para deixar isto escrito. Estes sapotis foi mamãe quem mandou, não tenho nada com isso. Eu vou me mandar. Vocês pareciam dois veados, risinhos prá cá, risinho prá lá, um negócio ridículo. Você e Cris estão sujando minha cuca: eu não sou de surubas! Marluce Santiago. Negócio que eu quero deixar nas pontas é o seguinte: eu não sou moralista, eu não tenho frescuras, mas tenho meus princípios e um deles é este: quem faz surubas não sabe o que é amor, é exibicionista, como Narda me explicou. O amor, como ela me explicou, se faz a dois, com as bênçãos de Deus. Você não queria que eu explicasse por que me mandei? Pois tá aqui, amizade, escritinho, o motivo. Eu tenho moral, tá bom?! A mesma. Voltei aqui, hoje, para dizer que está bom, te bem, eu entendi mal, Narda também acha. Ela acha que fiquei nervosa porque Cris foi coisa inesperada, eu queria só você – e queria mesmo, estava no fogo. Vou prá casa e levo o anel de volta. Outro dia eu pego na Quinta Parte. Hoje não dá pé. Ainda estou muito sentida. Talvez eu vá com Narda tomar sorvete na Ribeira e não apareça. Narda acha que uma separação de dias só pode fazer bem. Marluce.        

  
QUINTA PARTE




ESCLARECIMENTO – XI



            Esta “Quinta Parte” se inicia no capítulo dezessete, o senador Petrucci já eleito deputado federal, ele e eu no Rio. Pequeno o quarto que eu ocupava numa pensão, o apartamento dele era amplo, em Copacabana, um bairro tranquilo, nada a anunciar o que hoje é.
            Os capítulos que o antecedem pouco ou nada acrescentam. Pretendi manter o numerado onze, uma tentativa de poema em prosa dedicado à jovem Lisa, que o Senador conheceu quando, deixando o pequeno palacete das Mercês, foi residir em casa ampla mas apenas térrea na rua Banco dos Ingleses, também na Bahia. Reconheço que há frases bonitas no capitulo onze; eu me lembrei, porém, que na “Sétima Parte”, quando se entregou delírios desenfreados, a todo instante o nome da mocinha é citado. Eu a conheci, pessoalmente.
            O apartamento, no Rio, era espantoso. Nele, além dos quartos, das salas, havia um gabinete de trabalho, livros em quantos pedaços de parede existissem. Ele estava, então, mais ativo do que nunca.
            Salvador, 5 de abril de 1969.
            Abelardo D’Antunes


            Luce, embora saiba que você não me ama com a disciplina que desejo, você é muito maluquinha, mantenho minha proposta de casamento: gostaria de um filho seu, quando você quiser. Sobretudo, querida, somos necessários um ao outro. É possível uma boa convivência, ainda mais agora em que desaqueceram seus desentendimentos com o Cris, a jura que ele fez de não mais se envolver no seu relacionamento com Narda.
            Pense nas vantagens de uma associação nossa, você e eu, as experiências que juntos faríamos, as viagens fascinantes. Enfim, querida, pense, pense com alma. Abelardo.
            -- Deixe de palavrório! Enfurne-se no Ministério da Fazenda e faça com que me soltem a verba para os papa-hóstias de Feira de Santana. Precisamente, Abelardo, Feira de Santana, precisamente,  uma cidadezinha que cheira a bosta, não discuto isso, mas a gente de lá me interessa. Se os bois e as vacas de lá votassem eu acharia perfumadíssimas as fedorentas bolotas deles. Votos, Abelardo, votos, tudo o que produza votos! Claro que eu gostaria... Bem, não me rale a paciência. Vá logo ao Ministério.
            Abelardo gostava de novidades, parecia uma criança diante dos atrativos que o Rio de Janeiro oferecia e escondia de mim o tipo de vida que levava: esta a razão porque não quis morar comigo. Uma das suas preocupações era a de me transformar em político de prestígio nacional, sustentando que eu devia conciliar o caça-votismo com ampla afirmação de personalidade combativa. Eu tinha o que dizer sobre problemas graves do Mundo e da Nação, sabia como dizê-lo e assim, então, por que eu me encolhia?
            Se o senhor vigário de Xique-Xique, lá no cafundó da Bahia, me pedia uma verbinha para sua escola paroquial, Abelardo, me mostrava, grifado, o trecho da solicitação e indagava: Interessa? e a pergunta lhe saía com má vontade. Mas, era com entusiasmo de jovem afoito que me resumia os principais lances da crise internacional, a ofensiva japonesa na China, o perigo bolchevista na França e na Espanha, o rearmamento alemão, a ação italiana na África... E a simpatia que era o sr. Franklin Delano Roosevelt! Queria eu um exemplo de perfeito cavalheirismo?, pois então o inglês Chamberlain. Stalin? Para ele Stalin era simplesmente um assassino, tipo lombrosiano característico. Uma manhã, recordo bem, Abelardo me surpreendeu com a seguinte observação:
            -- O perigo maior, repare o senhor, consiste em que o desenvolvimento da luta na Abissínia poderá levar a França e a Inglaterra à denúncia do Tratado de Stressa e então à Itália não restará outro recurso senão aproximar-se da Alemanha. É o que se deduz de um editorial do “Le Matin” que recortei e coloquei debaixo da estatuínha dos macaquinhos japoneses. O Senhor leu?
            Despreocupado em arredondar as quinas, respondi:
            -- Não li e não vou ler. Pouco se me dá que haja Stressa ou a mãe de Stressa. Pouco me interessa se Mussoline está matando ou não os negros da Abissínia. Você insiste nessas histórias de Itália aqui, Itália acolá, Mussolini aquilo, porque sabe que eu gosto da Itália, mas a Itália que eu amo se chama Calábria e só. Calábria! E me providencie outro exemplar do “Diário Oficial” de anteontem, o da Bahia e  não o de Roma, por obséquio...
            Noutra oportunidade, Abelardo preparou volumoso dossier sobre a situação do café, a inquietação que lavrara em São Paulo, um mundo de informações a propósito das malandragens no comércio internacional. Desejei estudar aquela papelada. No fundo, no fundo, bem que eu gostaria de chamar a atenção dos círculos econômicos e diplomáticos do Governo e isto com um ou dois discursos judiciosos: deputados e senadores já viajavam para o Exterior pagos pelos cofres públicos. Assim, os dados reunidos por Abelardo, também porque procediam de boas fontes, eram uma tentação, mas em tempo eu me disse easy, Tônio, easy, palavrinha mágica que aprendi com Arimar quando, juntos, traduzíamos poemas gregos. E repeti easy e disse:
            -- Bom trabalho, Abelardo. No entanto, gele isto. É cedo. A notoriedade, agora, não me trará proveitos. Se me destaco em demasia, provocarei invejas gratuitas. Os medíocres ficarão com um pé atrás sempre que eu disser qualquer frase além da conveniência. A mediocridade é tirânica, não esqueça. Mais tarde, quando consolidar meus atuais redutos e instituir outros, farei discursos estudados, profundos. Se diretamente não arrebanham votos, ajudam a fazer nome, prestígio, o que, por sua vez, abre portas para bons negócios. Mas, agora, Abelardo, o que conta é trabalhar em silêncio, uma pontezinha ali, um mata-burro adiante, um pedaço de estrada, empregos! empregos!, as verbas para os papa-hóstias, essas coisas. Miuçalhas, vá lá que sejam, são, mas elas reunidas é que dão votos. Por exemplo: cadê a verba para o açude na fazenda do coronel Zeca Menezes? Para mim a verba do Zeca Menezes vale mais do que toda a capadoçagem que os gringos estão fazendo com os preços do café, do cacau, do açúcar... O café que se estrepe! Cadê a verba?
            -- Tenho ido ao Ministério, tenho procurado...
            -- Sei que a culpa não é apenas sua, filho de Deus, sei disso, mas sei também que se não tivermos o máximo de vigilância, o Chico Moraes fará com que o processo desapareça. Encalha o bicho na gaveta de um dos burocratas que ele controla e acabou-se o que era doce e nós ficaremos sem pirulito, sem “abafa-banca”, sem nada. O Moraes está certo. Ele não vê com bons olhos minha aproximação com o coronel Zeca Menezes. No lugar dele, sejamos sérios, eu faria o mesmo. Guerra é guerra e você perde um tempo enorme com essas bobagens de Abissínias, Stressas, merdessas, de café. Os pretos que se fodam, Mussolini que se campe, a mãe de Mussolini idem, eu quero é a verba para o açude do coronel, eu quero é a nomeação para o marido de Lucinha, bom rapaz, eu quero votos, Abelardo, votos. E pare de me azucrinar com este seu antiintegralismo cretino! E se amanhã este maluco desse Plínio Salgado casar politicamente com o doutor Getúlio, ham? Eles estão sazonando, esses bichos insensatos , e seja por tática ou não, isto não me interessa, o fato é que o próprio doutor Getúlio é quem lhes esterca a terra e os “verdinhos” estão crescendo. Toda hora eu ouço um “anauê”. E por favor, agora saia, vá a um cinema, divirta-se. Você não entende picas de política brasileira. Vá, saia, eu espero uma senhora .
            E não era uma senhora, era Epifânia, o corpo igual/igual ao de Lucinha, o rosto, porém, desfavorecido com nariz de papagaio. Ela chegou no horário e depois de tudo, um muito tudo, perguntou ao ver o retrato de papai: E você não tem um retratinho de sua mãe?
            -- Não, Epifânia. Ela morreu logo que eu nasci. E se vista e saia, está anoitecendo.
            Ela gostava de permanecer na minha cama, nua, olhando o que havia no quarto, a me fazer indagações cretinas, e naquele fim de tarde, a noite vindo, sem dar muita importância aos objetos outros, reparou no retrato de papai, aquele feito na sua gloriosa aldeia calabresa, ele desacompanhado, o casario atrás, magnífico pano-de-fundo, perguntou: Como era o nome dele?
            -- Bucéfalo, Epifânia. Se vista, ande.
            -- E sua mãe, como se chamava?
            -- Bonifácia! Merda, pare de fazer perguntas idiotas.
            E alterando a forma de tratamento, passando do você para “o senhor” assegurou que não tivera intento de judiação. Gostava de retratos e sempre usando “o senhor” falou do retrato que fizera do seu cachorro, a morte dele, morte por atropelo, uma morte horrível, senhor, horrível! Tejo se chamava o cachorro, Tejo, e paguei mais do que o usual e sorriu, disse Obrigada, senhor deputado, e sorriu.
            Senhor, senhor, e a palavra me fez lembrar Lisa, estava morta, ela já estava morta, contei isto antes, e sempre me chamava senhor ou senhor Antônio, jamais Tônio. Pobre Lisa, coitadinha, tão prematuramente morta. Desfavorável, muito, o que me poderia acontecer, naquele então, e a tarde estava feia, nuvens carregadas, ameaça de chuva grossa. Algo ruim a caminho ou eu não lembraria Lisa. Lucinha, sim, o corpo de Epifânia lembrava o dela, mas Lisa, Por que Lisa?
            Um mau presságio e não saí e bebi muito e dormitei no divâ do gabinete e no sonho confuso era Epifânia, não o cachorro Tejo, que monstruoso veículo atropelava. Um caminhão da Limpeza Pública, creio. Eu caminhei pela praia com Tejo, ele escarreirou a Senhora-Toda-de-Preto, que foi devorada pelos morcegos, e todos os amigos ficamos a jogar conchas no mar: Tejo ia buscar as conchas e as trazia de volta. Era um animal grande, bonito e valente.


18.

            Não sei se em julho, mas, com certeza, em 1936, proferi na Câmara aquele que considero como o meu primeiro grande discurso político de repercussão nacional. Semanas antes, eu havia firmado com Chico Moraes e Lomanto Teixeira – este um moleque de marca maior, um capadócio --, deputados que comigo disputam influência na área do rio São Francisco, uma combinação vantajosa. Apenas fiz uma concessão importante: escrevi carta ao coronel Zeca Menezes informando que o açude de sua fazenda sairia “menos por força do meu prestígio do que pela extraordinária combatividade do nosso comum amigo, o deputado Chico Moraes, portador desta, cuja presença no Parlamento honra a Bahia e o Brasil”. As demais concessões foram tolas. Lembro-me de duas ou três demissões (exigidas pelo Teixeira) de funcionários federais lotados em cidadezinhas abaixo de Juazeiro, uns merdóides que se empanturravam com surubim, bebiam cachaça como se fosse refresco e pouco me ajudavam. Além disso, uns quebrados, inclusive desistência de propositura mediante a qual eu destinava uma verbazinha para reconstrução de Igreja localizada nas imediações de Barra do Tarrachil (ou xil, sei lá, nunca fui lá), também uma exigência do Teixeira. Em troca, Moraes se afastava do meu caminho em Glória e vizinhanças enquanto o Teixeira desistia de obstruções em dois municípios do que chamo de “sertão próximos”, aquele que tem Feira de Santana como capital de fato. Ignorava, o bestalhão metido a ladino, que naquela área florescia uma cultura nova, o caroá, e que outra se anunciava, promissora, a do sinal: a da piaçava era intensa e extensa. Aquela zona ia ficar parrudinha de eleitores. E, repito, não distante estava Feira de Santana.

INTERRUPÇÃO – XI


            Abelardo,
            Reparando que este capítulo é longo e encucada para lhe dar uma resposta logo, aqui, por escrito, digo a você, de cara, que topo: casamento, o que você chama de associação, eu e você, legal, estou nesta, aceito, mas negócio do Cris bancar o maestro, não! Ponha a cuca fria e pense: eu caso com você, comunhão de bens, você faz questão de um filho dentro de três anos, eu tenho ki Koisa a perder?
            Nada. Só tenho a ganhar que no caso de não dar certo, havendo desquite, você terá de rachar comigo o que você tem. Como diria o Senador, eu não tenho picas! Estou sendo bruta? Estou, mas se eu não escrevesse aqui isto como é que eu ia ficar? Ia ficar grilada com a sacanagem de não ter avisado a você, ainda mais com criança no meio. Então, a gente tem que acertar na base do pão/pão, queijo/queijo. Outra coisa é que quando chamo atenção de você mais Cris não é para fazer inferno. Se vocês se gostam, ora, se gostem! Agora, não me metam na história – e isso, meu, não é moralismo, é não misturar alhos com bugalhos, bugalhões com o nascimento da criança, se nossa associação tiver sucesso.
            Eu gosto de Cris. Quando eu estava num fumacê incrível não foi nenhum jesuscristinho quem me deu a mão. Foi ele, mas não sou boboca, não vou ficar a vida toda pagando juros porque já dei a mão a ele mais de mil vezes. Meu, peço que você releve minha franqueza, mas foi bobagem aquilo de você ontem dizer que Cris não vai mais me encher o saco por causa de Narda. Vai, sim, a menos que você grite com ele, ameace cortar a mesada, corte!
            Meu, era o que eu tinha a dizer. Com carinho, 18.4.69, a sua Marluce. É linda a tiara, linda! M.


            O sertão virando votos, o que antes eu já tinha, mais alguns “pingos”, mais Salvador, etc., senti-me consolidado, eleitoralmente. E parti para o grande discurso, aquele que atrairia as atenções da imprensa e de círculos governamentais. Elegi cuidadosamente, um tema insólido, perigoso até. Querendo-me persuasivo, fiz a defesa dos militares que, por equívoco, vítimas da deificação de Luis Carlos Prestes (só o chamei de Carlos Prestes, eliminando o Luis...) “aderiram, por omissão, lamentavam omissão, às badernas promovidas pela chamada Aliança Nacional Libertadora, organização estipendiada pelo ouro de Moscou”.
            Antes de me permitir a ousadia de tal discurso, eu havia ajustado minhas opiniões às opiniões de líderes militares com os quais estabeleci relação, não digo íntimas, certo, mas cortezes, respeitosas, o bastante para eu pescar as tendências  dominantes em termos de opinião e eram aquelas: alguns – notem bem, alguns, poucos – oficiais  envolvidos nos acontecimentos de novembro de 1093, malfadada “Intentona Comunista”, haviam sido iludidos pelo prestígio pessoal de Luis Carlos Prestes, moços de boa família, com apreciáveis folhas de serviço. E eu disse da tribuna: “Julgavam heróis, esses rapazes, moços que não justifico mas procuro compreender, julgavam herói, dizia eu, um indivíduo que, seduzido pelo Bezerro de Ouro, o nefando ouro de Moscou, consentiu-se vencido pela ambição amaldiçoada e assim dobrado transformou-se no que é: em régulo”. Tenho medo de Prestes . Ele é um sujeito baixinho e, pior, sabe matemática. Não pode ser normal quem, tendo a mulher torturada pelo Getúlio e, depois, entregue aos nazistas para ser assassinada, não trepidou em apoiar jogada do próprio Getúlio. Bem, estávamos no discurso. Mais adiante eu disse: “Os jovens e desinformados oficiais aos quais tenho aludido, precisamente porque desinformado e jovens, pecaram contra a Nação. Mas, senhores, pergunto eu, quanto de nós, em nossa trajetória, também não cometemos erros graves? Quanto não cavalgamos os burricos da impudência cívica julgado-nos a bridar os brancos corcéis do melhor idealismo e da mais calorosa brasilidade?” E fui adiante e concluí dizendo: “Arrisco-me, Senhor Presidente, meus nobres pares, arrisco-me às vaias dos inconformados e dos faltos de bom senso, mas insisto em expressar a certeza, a convicção, de que as clarividentes autoridades  da República – não mais aquela República abastarda sob a presidência de Washington Luiz – saberão examinar, um a um, com todas as cautelas, cada caso de oficial detido e processado por erro de omissão. Caso e caso, insisto, não para conceder anistia, que sabidamente, é implícito reconhecimento de culpa do Poder, mas o perdão, que é dádiva cristã somente possível ao Magnânimo e ao Forte. E se já houve, neste País, um Governo Forte e Magnânimo, não terá sido sequer assemelhado a este que a Pátria tem, hoje, a ventura de contar, sob a chefia impoluta, incontestável e incontratável, do nosso Presidente, o Excelentíssimo Senhor Doutor Getúlio Vargas, a quem rendo, em esta oportunidade, as minhas homenagens e as homenagens do meu Estado, a Bahia”.
            Alguns aplausos assinalaram o instante em que deixei a tribuna e me seguiram poucos passos. A sede do Poder Público federal era no Rio. Não havia essa maluquice que é Brasília. Eu tinha apego ao edifício da Câmara, no alto de uma bela escadaria. Ali Abelardo estava a me esperar. Disse: Foi um discurso de alto nível. Redargui: Graças, também, à sua colaboração. Lembre-se que “incontestável e incontratável” é adendo seu. E o “magnânimo”. Nunca me ocorreria dizer “magnânimo”em relação ao doutor Getúlio. E caiu bem. Quando quer, você é competente, Abelardo. Basta querer.
            -- O que não entendi...
            -- A porrada no Washington Luiz?
            -- Não estava no texto quando eu datilografei.
            -- Saiu de improviso e explicarei no momento oportuno. Providencie mandar para nossos amigos da Bahia um bom resumo, sábado agora, no hidro-avião. Hoje, pelo telégrafo, mande uns trechos para os jornais, e a íntegra, faço questão disso, mande para o Professor (...) e use papel especial, de linho. E termine com aspas, sinceras condolências, em nome de deputado Petrucci, pelo passamento da Excelentíssima Senhora Dona Carmen fechaspas. Morte feia a de Dona Carmen, erisipela, horrível. Não chega a ser lepra, mas parece: a carne vai ficando podre. Fodi muito ela, uma mulher horrorosa e malvada. Ela teria vendido a Lucinha ao Stálin só para pegar a rebarba do Stálin. Lucinha achava que não, mas desconfio que ela é quem avisou com antecedência ao Governador. Resultado: morreu podre. Sim, fodi muito a burra. Ou não teria Lucinha. Ou não teria a primeira eleição. Eu comeria com gosto um guisado das carnes dela. Isto para ser Ministro, é claro. Noto que você não gosta de ouvir minhas confissões, Abelardo.
            -- É meu temperamento, senhor. O passado não me atrai.
            -- No entanto você roído de curiosidade para saber o que reputo um segredo de Estado, o motivo das pauladas no Washington Luis, pobre velho. Você é um utilitário, Abelardo, permita a franqueza. Você fincou sua curiosidade unicamente nas batonadas que dei no Washington Luis. Está bem. Depois eu conto. E não me apareça em casa entre as cinco e sete que a Epifânia vai lá. E outra coisa: me compre cento e cinquenta libras esterlinas que sábado eu viajo para Londres. Quero as libras amanhã, cedo.
           
            (Lembro-me da estupefação que você, Abelardo, apanhado de surpresa, não soube controlar. Doeu-me um pouco informar que seguiria sem você, mas recorde-se que acrescentei: “Surgirão novas oportunidades. Já se acabaram os tempos das vacas magras”.)  


            Foi na manhã do dia do primeiro grande discurso, cujas linhas gerais, habilidosamente, o Abelardo conseguira emprenhar nos noticiários políticos, que o Secretário de Assuntos Exteriores telefonou lá para casa avisando que um envido seu me procuraria para “ampla exposição” sobre alegadas atividades subversivas do ex-presidente Washington Luis, na época exilado nos Estados Unidos. Ouvi a maviosa voz do Secretário:
            -- O honrado deputado compreenderá nosso propósito. Conceda-lhe a devida importância no discurso de hoje, como se fora uma iniciativa tua.
            -- Sempre estive à disposição do Governo, Excelência. Não vejo diferença entre o Carlos Prestes e o Washington Luis.
            -- Não exagere.
            -- Digo no discurso o que Vossa Excelência quiser.
            -- Sabemos que és um dos nossos. Aliás, teu gesto enviando charutos da Bahia ao Excelentíssimo Senhor Presidente há de ter sensibilizado bastante ao Nosso Chefe. De minha parte, muito grato pelo doce que tivesse a bondade de me enviar.
            -- Cocada, Excelência, cocada-puxa, Excelência. E feita de coco e rapadura.
            Depois de um austero Bom e quase a pôr-me tartamudo, as mãos tremeram, o Secretário formulou o convite para a viagem: Londres. “Por que isto?” – eu me perguntei enquanto o homem falava. Em resumo: uma delegação mista do Itamaraty e do Ministério da Fazenda iria discuti com autoridades inglesas o descongelamento de créditos brasileiros e representantes do Poder Legislativo acompanhariam as dèmarches. E disse:
            -- Lembrei teu nome e quantos consultei a respeito acolheram minha ideia com agrado. Aguardarei até amanhã, não além das doze horas, a tua confirmação e sobre Washington Luis desejo teu aval, de olhos fechados, ao que te dirá o funcionário por mim encarregado de explicar os motivos. È competente e é meu sobrinho.
            -- Decerto, Excelência. Quanto ao convite, aceito desde agora. É uma honra. Quanto à cocada, providenciarei mais. E que tal frutas, Excelências? A Bahia é o paraíso das frutas tropicais. Mandarei para Vossa Excelência dulcíssimas laranjas-de-umbigo, mangas, sapotis, romãs, tangerinas...
            E ele me interrompeu: Eu agradeceria. Bom. Este segundo Bom significava, pela inflexão da voz, que deveria encerrar o assunto e encerrei: Até breve, Excelência. Até sábado, no navio. E ouvi o adeus excelencial e preparei-me para receber o funcionário/sobrinho. Conhaque, imaginei, talvez essa sub-excelência que vem aí aprecie conhaque. E ri para as paredes: que beleza, Londres! Eu me disse: “Tonio Petrucci, vá ser sortudo assim no inferno”. Foi o espírito dadivoso de papai que me estimulou a presentear o Secretário com cocada-puxa, foi o espírito prático, de operário, do “seu” Lobo que me fez escolher o Secretário e não o Ministro para agrado mediante regalos. Calculei, me lembro, que o Ministro deveria estar empanturrado de presentes, tantos que não daria importância a uma cristaleira com tufos de cocada-puxa, mas já o Secretário... Dito e certo.
            Presentes, Tônio --  o Professor (...) me ensinou --, dê presentes aos que decidem hoje ou podem decidir amanhã. Tenho pena dele, coitadinho, o que fez e o que faz só para ter umas lascazinhas do Poder. Viver à sombra dos fortes, ele gostava da frase, e sempre protegido. A espera da sub-excelência, igualmente imaginei: a verdade é que devo muito a ele, muito, e vou arranjar um rendoso emprego para o marido de Lucinha, bom rapaz, sabia que ela era usada e não se importou; agora, com o Governador morto, com dona Carmen enterrada e a debiloide da Creusa no convento, Lucinha será menos infeliz; sei que ela nunca me esquecerá, basta um sinalzinho meu, chamando-a, e a pichaninha viria, como uma cadela de um canil fantástica onde se combinam e se alternam o medo, a alegria, a tristeza, a exaltação, os delírios romântico, os empenhos de segurança.
            Tenho presente, agora, um ensinamento de Arimar:
            -- Os muitos fortes, os realmente poderosos, são incapazes para o amor simples, duradouro, que alimenta o espírito para as intimidades com a beleza; e os muito fracos, Tônio, não têm sequer força para ver além de nuvens no céu e temem as diferentes formas que apresentam, modeladas pelos ventos.
            E eu interrompi e disse: Muito literário, Arimar, muito literário. Ele sorriu, e sorriu com algum mistério, coisa que não entendo até hoje. Mas, senhores leitores, tudo que busco, nesta altura, é tentar recompor meu estado de espírito naqueles quarto-de-hora em que esperava o sobrinho/funcionário. Tratava-se de um rapaz sisudo, de boas maneiras, e não quis beber nada. Deu-me as informações sobre o que o Governo queria, a porradinha no Washington Luis, uma bobagem, ignoro a razão, e levantou-se para sair. Perguntei: O senhor também irá a Londres?
            -- Sim. Passe bem, senhor deputado.
            Um emproado, pensei. Não era. Era Zito, uma figura excepcional.
 Viajamos num transatlântico inglês, o que deplorei. Queria um paquete italiano, com pessoas italianas. Ao invés, naquele navio, gentes estranhas, ingleses muitos, uns rostos hipocritamente seráficos, outros com intuídos de mangação, e não me eram simpáticos os funcionários integrantes da delegação. E o Secretário, cinco dias de mar, não me aparecia ao menos para um Alô, tudo bem? Mantinha-se trancado no camarote, aquele sacristã. Em todo caso, considerei gentil o me ter enviado o sobrinho/assessor para explicações: a Excelência, confinado no camarote, ultimava a redação de documentos básicos para as discussões que se travariam em Londres. Porque, então, se mostrou menos sisudo, menos formal, aceitei o tema que o sobrinho/assessor propôs para uma conversa no bar.
            -- Ah! o bar! Exclamou.
            E disse que, agora sim, livre das obrigações funcionais, podia beber e bebemos conhaque e concordamos logo de saída: mantidos os parâmetros usuais dos negócios europeus, a Itália, na defesa dos seus interesses coloniais na África, voltar-se-ia para a Alemanha, a Hitler se associando, constrangida embora por se ver compelida a abandonar seus aliados tradicionais, a França e a Inglaterra. Evidentemente – eu disse --, negócios são negócios,
            -- até porque na África, o senhor deputado sabe, encontram-se à mão matérias-primas de ótima qualidade, sobretudo em grandes quantidades e baixos preços. E há, ainda, um mercado interno que bem ou mal se expande, além de uma mão-de-obra numerosa e barata; intuitivo, pois, que a diplomacia alemã, experiente como é, joga a partir de conflitos de interesse, buscando resultados, e os ingleses não cedem nada aos italianos, nada, rien!
            -- É como penso – eu disse e me roia de tédio, conversa chatíssima, mas devia alimentá-la, eis que, afinal, um assessor é sempre um assessor, e principalmente porque, no caso em tela, o assessorado era tio de quem o assessorava. Fundamental isto, porque um assessor sabe das coisas, eventualmente opina, sugere, orienta, esclarece, encaminha, etc., e quando senti que o diálogo perdia gás tentei aquecê-lo com uma indagação: E os russos de Stálin? Ele assegurou que os russos eram uns bobocas. A preocupação de Stálin – disse – é puramente propagandística. Stálin é um primário. De resto, os japoneses cuidarão dos russos, mais dia/menos dia, é fatal. Os belgas? Também não contam.
            Tornar-me-ia bofininho se prosseguisse a multiplicar perguntas de tal jaez (e os checos? E os espanhóis? E os poloneses?) e manobrei habilmente, falando da Itália, e forcei o sobrinho/assessor a ouvir discurso sobre a Calábria. Queijos, vinhos, pães, montanhas, cabras – e uma gente de muito sangue também na alma. E contei tio Leonardo a morrer apaixonado por uma camponesa, ele pescador e, pela família dela repelido, saira sozinho, em seu frágil barco, e largara-se Mediterrâneo afora, naquele mar morrendo, um homem com arraigado sentimento de honra, e ela, a jovem Silvana Tambellini Crespi, ao saber meu tio morto, suicídio por amor, matou-se também, a foice afiada a rasgar-lhe as carnes, do peito ao pescoço, morte lenta, terrível. E ele, o sobrinho, um tanto abestalho: Era pobre, teu tio?
            -- Não, ao contrário. Era filho de um dos maiores fabricantes de calçado da Itália, mas se fez pescador por amor ao mar e aos seres do mar, às suas coisas. Com isso a família da moça não concordava. Se era industrial, fosse industrial. O amor ao mar, porém, foi maior.
            -- Difícil de se repetir um episódio assim.
            -- Dificílimo. Em parte, confesso, herdei de meu pai Leonardo esse amor ao mar. O mar, e não o oceano, compreenda, o mar me seduz. Faço uma distinção, talvez arbitrária (e nisso sigo meu saudoso pai), entre mar e oceano. O mar, para mim, supõe a existência de terra alcançável. O oceano, não. O oceano, se não me infunde medo, me intranquiliza. À vista do mar, renasce-me no coração não sei que sentimentos de retorno às minhas origens primeiras, misteriosas, transcendentais... Perdão se falei tanto, não pretendia ser maçante.
            -- O prezado amigo falou da Itália e do mar com une certaime tendresse... Queira perdoar, decerto o amigo fala francês.
            -- Sim, claro, e inglês, e italiano, e grego, e latim, e um pouco de alemão, e...
            -- Grego?
            -- Sim, grego. Quanto ao amor pela Itália, bem, refiro-me à Calábria. À Calábria de meu pai, de meu tio...
            -- A senhora mãe do prezado amigo é também calabresa?
            -- Não, não, em absoluto. Morreu, já, e era baiana, baiana de São Sebastião de Passé, uma coisinha de cidade, não vale a pena falar nisso ou disso. Na verdade, são poucas as coisas de que valem a pena falar, pensar, recordar, pouquíssimas, entenda-me o amigo, pouquíssimas coisas valem a pena. Não, não, grato, eu não fumo cigarros perfumados, no particular sou como meu antigo motorista, sr Artemísio. Ele gostava de charutos de fumo forte, mas, embora eu goste, não posso fumar. Tusso muito, bastante, demais.
            E o moçoilo (o Zito, vocês vão gostar dele, garanto) cortou a explicação que eu ia dar sobre meus brônquios. E se disse confuso porque eu já me referira ao sr. Antemísio de diferentes modos, agora como motorista. Expliquei que o sr. Artemísio era um só, exercendo diferentes funções:
            -- Um herói – eu disse. Um autêntico herói baiano, morreu lutando pela vitória da Revolução de 30, mas, peço, não me interrogue de supetão. E aceite outro conhaque. Este é um bom conhaque. Ele tem o sabor e o calor da França. Aí está, o conhaque é algo que vale a pena. São poucas as coisas que valem a pena, sim, poucas as coisas que valem a pena, sim, poucas, estou seguro disso. É interessante, meu caro, mas quando eu faço referência a pessoa ou a objeto que vale ou não vale a pena, me vem à memória um personagem de Balzac, Gobseck, o usurário Gobseck. Eis que ele, em certa passagem, assim se definiu diante de um dos seus agentes: “Tu tens toda a classe de crença, ao passo que eu não tenho nenhuma. Para mim só há uma realidade concreta e bastante invariável para que valha a pena ocupar-me dela: o ouro”. Terrível, não? pois quanto a mim às vezes me digo que nem sequer creio no ouro. Já acreditei em algumas possíveis verdades, elas morreram e deixaram memórias. Prendo-me a elas, porque outras verdades não me surgiram.
            Disse assim, disse, e hoje não sei quanto falei, enebriado por álcool e memórias. Sei, entretanto, que em um de repente decidi calar, interrompendo frase no meio, eis que eu estava a me abrir demais, a ser livre demais, e não havia recíprocas visíveis, suspeitáveis, que indicassem a utilidade daquele sobrinho/assessor me descobrir nu, sem defesas. Olhando-nos e encontrei, nele, um pouco de simpatia. Ouvi-o a dizer-me: Aprendi muito com o senhor. E então ele me lembrou Pipo, o filho de dona Jeruza, na Pituba, e falei e falei e falei, mesmo que um menino botando pra fora o resto do menino – e foi bom.
            Em Londres, uma semana após nossa chegada, ao me convidar para obscuras missões em Paris e em Roma, o sobrinho/assessor reiterou que se tratava de encargo diplomático da mais alta valia e salientou: Você, meu caro, não foi escolhido por acaso. Meu tio assombrou-se quando informei que além de falar vários idiomas, você dedica duas horas diárias ao estudo do grego clássico. Como é mesmo aquele trecho sobre a velhice e o amor?
            -- Naquela tarde de conhaques? Eu estava tão excitado...
            -- Começava com uma referência a Afrodite.
            E simulei um esforço de memória, na verdade desnecessário, e disse em grego: Tis de bios, ti de terpnon ater chyses Aphodrodites / tethnaien hotemmoi meketi tauta meloi / Kryptadie philotes kai meilichia dora kai eune... – e antes que ele me pedisse a tradução, dei-lha: Que é a vida, que pode haver de bom sem a loura Afrodite? / Antes morrer, quando não se pode mais gozar esses prazeres / Esses dons saborosos, os amores discretos, o leito... Pausa significativa e o sobrinho/assessor falou assim:
            -- Tendo a concluir que o senhor, oh! perdão, você... tendo a concluir que você, estando comigo, seja aqui, em Londres, seja em Paris, seja em Roma, participaria, digamos assim, de noitadas alegres, de muitas Epifânias cooperativas, dadivosas...
            -- Epi o que? – perguntei, atoleimado. E ele riu e disse que sabia de Epifânia, que sabia de Lourdes, que sabia sobre a extinta central putárica do Professor (...) E ofereceu-se para amizade duradoura e fecunda: Desfaça esta tua cara de bobo. Saber é poder e nós sabemos. E não me chames mais de Gilberto. Zito, ouça bem, Zito, é como quero que me chames, mas não na presença de estranhos.
            Paris me causou inapagável impressão, mas Roma é que, nos inícios, me deliciou, e a tal ponto que não fui ver as cidades e as aldeias da Calábria, comer seu pão agreste, seu queijo, beber seu vinho; no dia em que pensei na Calábria eu me disse uma espécie de “calma no Brasil”, Tônio Petrucci, que é que há? por que essa pressa toda homem? Outra vez volto à Itália, me meto Calábria a dentro, percorro-a sozinho e inteirinha, é uma jura, juro!, mas nada de Calábria agora”, agora não estou sozinho, se eu falar em Calábria o Zito vai querer ir comigo e isto não seria perdoado, Zito é um sujeito putificado demais para pisar a augusta terra calabresa, e pior se eu falar agora, aqui, há testemunhas como corno, e bebidas como corno, e de repente, ali, naquele apartamento romano, gritei Abaixo Milão, porra! E disse que Milão era uma terra de putos como o sr. Giuseppe, e uma sujeita gritou e viva \Milano! e abaixo Torino! E repliquei viva Torino e abaixo Milano!, uma esculhambação, e alguém sugeriu Vamos até Milão?, e Zito ameaçou dar um tiro nas fuças do sujeito ou da sujeita que de novo falasse em Milão e eu não sei mais o que aconteceu porque dormi num sofá e dormindo eu morria afogado entre as mulheres nuas e tristes e espantadas e sem destino que haviam escapulido de um quadro que eu vira em Paris, e no quadro um velho de chapéu coco pedia pelo amor de Deus que lhe ensinassem o caminho de fuga, queria escapar daquele horror petrificado e havia um sujeito com cara de quem se perdia em intricados pensamentos e flores mortalmente plastificadas e estátuas pejadas de assombros, e aquelas mulheres belas e frias, e nas carnes delas eu me morrendo, -- Tônio, porra, Tônio! – e Zito, assim, xingando, me despertou, manhã já, manhã cinzenta – és uma besta, não aguentes um décimo de pileque desonraste descaradamente o Brasil. Eu anunciei que eras bastante potente para quatro ou cinco dessas burras pagas em libras, Tônio, em libras!Vamos, levanta, animal bêbado. Hoje temos trabalho, mas amanhã... E houve o amanhã e de algum modo me reabilitei diante de Zito, mas reconheço que ele foi muito mais eficiente do que eu, eficientíssimo, e alegre, e contava as mulheres romanas, una, due, tre... e em parte compreendo alegria dele: não vira nem sentira o quadro de pintor (Delacroix) que incrustou naquela paisagem todos as esperanças mortas e o fez com extraordinária perícia artesanal.
            E agora, tendo o quadro na memória, também compreendo a aparente insensibilidade dos médicos competentes, a exemplo do meu querido Augusto. Sim, não há mistério: ele sabe o que me acontecerá e o que acontecerá a ele; é como meu pai diante do couro, ele sabia tudo; é como tio Leonardo diante do mar, ele sabia tudo, mas quando eu, criança, vi meu pai morto, eu não sabia nada, por isso tive medo, e também naquele quadro ninguém sabia nada, ninguém sabia o que fazer diante de tentas impossibilidades compactadas naquele jardim cercado de grades.
            Imaginem um mundo povoado, um mundo num jardim a lembrar os romanos antigos, e você, por ânimo paternal, quer ofertar boneca a uma menina e ela se mantém estática, não aceita e igualmente recusa. É um menino, agora: você quer dar-lhe uma bola ele não aceita e igualmente não recusa. Ninguém sabe nada e todos querem fugir de não saber nada, mas não sabem fugir: aquelas grades do jardim devem ser postas abaixo e ninguém ao menos olha; as grades estão em cada pessoa, participam das pessoas.
            É terrível, creiam, um mundo assim; é a não-vida, é o Ato não concluído. Ainda não chega a ser a morte ou seu anúncio porque não chega a ser vida. Ou melhor, da vida há a forma, não há a substância: é essa forma que grita desesperadamente pela substância, pelo movimento, pela energia. Sei do que falo. Eu lutei e fugi dos ângulos, quadriláteros, retângulos, em que me quiseram aprisionado e isto em meio a cores que deveriam me fascinar para a submissão. Não, em mim, Tônio Petrucci, o Ato está a concluir-se, vai morrer. E ainda respiro liberdade e vou matando, um a um, os medos diante do inevitável e esta coragem me vem de experiência pessoais e o saber de experiências de outros.
            Logo depois da Segunda Guerra estive de novo na Inglaterra e ocorreu a um dos membros da delegação parlamentar ver Coventry e o vimos não era uma cidade, eram restos, as paredes dos destruídos edifícios apontando para o céu escuro e triste. E chorei ali, em Coventry; chorei pela cidade assassinada, pelos habitantes mortos, chorei pelos tijolos partidos, vigas carbonizadas, realejos no chão, em frangalhos, e lembrei aquela gente do quadro e me disse, convictamente, que estava a se fazer uma amanhã para Conventry, mas que vidas outras jamais teriam o homem aturdido e as pessoas aprisionadas no jardim, aquelas mulheres presas umas nas outras e na verdade dissociadas quanto a propósitos de liberdade, as estátuas imóveis, o desespero do velho de chapéu coco, a querer fugir e sem coragem, a hesitação nele empedrada.


            E de volta a Londres a Excelência Maior, depois de espiar os documentos recolhidos em Paris e em Roma, avisou-me que deveria retornar logo ao Brasil, no primeiro vapor. Como eu seria, necessariamente, procurado pelos jornais, ordenou que decorasse as declarações que ele próprio redigira. Leu o texto duas vezes, entregou-mo, e, quase um mês depois, ao desembarcar no Rio, choveram as perguntas jornalísticas e respondi com o decorado:

            -- O Excelentíssimo Senhor Secretário das Relações Exteriores regressará dentro de poucas semanas e fornecerá à imprensa informações as mais completas sobre a missão. De minha parte, como representante do Poder Legislativo, posso adiantar que a delegação brasileira transigiu onde e quando devia transigir, em termos de negociações, e se manteve inflexível sempre que estiveram em causa os supremos interesses nacionais do nosso País. Nada mais tenho a informar. Esta a impressão que transmitirei, com as minudências técnicas que se façam oportunas, aos meus colegas do Poder Legislativo. Destaco que o nosso País, na área específica da diplomacia, está excelentemente bem servido.


INTERRUPÇÃO – XII


            Abelardo, você fofocou com o Cris o negócio de eu não querer morar a três, casada ou não! Assim não dá, assim não dá... Narda é quem tem razão quando diz que vocês, homens, são uns porcos. É um inferno de tudo bacana um dia, cinco dias, quatro dias e subitamente lá vem fofocagem. Não tenho saco prá isto. Negócio também que lhe disse ontem e escrevo aqui: tô cheia de você me mandar flores, cheia! Em 30 de abril, 1969. Marluce. P.S. Narda me recomendou folgar uns dias e é bom que ninguém me procure. Você é complicado, adora fofocas, a própria Narda é complicada, o maluco do senador foi complicadíssimo. E Cris nem se fala. Vida filha-da-puta, esta, e me mando daqui, não quero ver ninguém. A mesma.


ESCLARECIMENTO – XII


            Marluce,
            luce, lu, amor, eu não fiz fofoca nenhuma! Nem Cris. Você interpretou mal a frase de Ivo, quando ele disse que sentia-se alegre em servir a nós três, mas isto não significa morar a três! Eu falarei a você, logo que volte, mas sem Narda presente, sobre o casamento. Casamento a dois, é claro que a dois.
            Lu, querida,você tem certeza que Narda lhe está sendo útil?
            Eu adoro você. Abelardo.

19.

            Minha volta ao Rio se deu em fins de agosto e já na segunda quinzena de setembro, de olho numa missão diplomática bem remunerada, discursei na Câmara sobre política internacional. Sacrificando os prazeres ensejados por Epifânia e sobretudo Lourdes, minha inesquecível Lourdes, e sacrificando ainda cinema, teatros, concertos, eventuais namoricos, estudei quase a queimar pestanas um tema bem apropriado às circunstâncias, e tudo no maior sigilo, só Abelardo sabia – e estava feliz, ele gostava de me ver brilhando. Com o sigilo eu queria surpreender meus amigos do Itamaraty e afinal, a 21 de setembro, 1936, assomei à tribuna. Defendi o direito (meu Deus, que heresia) de a Itália, usando privilégio deferido às grandes potências, enviar voluntários com a missão de impedir o esmagamento das “falanges” que se insurgiam contra o governo de Madrid, de orientação que tinha por bolchevista e anarquista. Esta a tese, este o tema, e se hoje me arrependo, eis que o franquismo é um dos mais abjetos abortos da História, repetiria a dose se idênticas as circunstâncias. Aliás, no preâmbulo do discurso, depois de referir-me à Declaração de Independência dos Estados Unidos eu disse:
            -- Assim, senhores, onde quer que uma forma de Governo se converta em destruidora dos propósitos democráticos, o mudá-la constituí-se num direito do povo. Tal, e não outro, o sentido do pensamento de Jefferson e nele se há de ter inspirado Machado de Assis para afirmar, como afirmou, que “a tirania é a véspera da liberdade”.
            Conferi o efeito do adendo machadiano e fui em frente com minha sapiência (em boa parte apudística, confesso), e falei John Locke, de Hume, de Kant, a influência deles “na valorosa ideologia libertária do falangismo”. E disse mais, disse: “E também nesse particular, Senhor Presidente, submeto-me, com toda humanidade, a qualquer contestação ou arguição” e dei uma pausa e olhei o plenário, mas ninguém estava interessado em contestar ou arguir coisíssima nenhuma e me senti ridículo, me arrepiei, eu sempre sinto arrepio quando o ridículo me assalta ou mesmo me ronda, e lá estava ele, o safado, no nariz da endurecida cara do líder da Maioria, no bico de um sapato qualquer que olhei, nas pontas dos dedos das mãos, sim, lá estava o sacana de olho travesso, e a vontade foi a de abandonar a tribuna, mas aguentei firme, o discurso era importante, dele o Secretário das Relações Exteriores tomaria conhecimento, isto é que me interessava, a Espanha que se arrebentasse, o general Franco que fosse para o inferno ou o céu, eu queria era um lugar entre os brasileiros que se sentavam nas confortáveis poltronas da Liga das Nações, em Genebra, Suiça, um bom dinheiro todos os meses e a dois passos de Paris, a cinco passos de Roma, e de Roma eu iria sozinho `Calábria, e refeito por ambições assim animei-me a ler o resto do catatau: “Estabelecido, portanto, em termos teóricos, o direito excepcional de os governados se rebelarem contra os maus governos, salientemos, Senhor Presidente, que na Espanha atual, o conflito não contrapõe legalistas contra sediciosos e sim restauradores do bom governo contra a malta anarcobolchevique”.  
            Foi nesse preciso momento que o estúpido do deputado João Otero, esquerdista feroz, embrutecido pela descortesia e pelo fanatismo ideológico, levantou-se e à Presidência se dirigindo disse:
            -- Peço a palavra pela ordem! – e o chibungo do Presidente atendeu e o Otero falou assim: “Comunico que abandono o plenário, Senhor Presidente, por dois motivos. Primeiro: o deputado que se encontra na tribuna inscreveu-se para discutir projeto que concede recursos para obras de engenharia civil capazes de impedir as constantes enchentes do rio Paraguaçu, em seu Estado, a Bahia, mas, na verdade, está a tecer considerações ignóbeis sobre política internacional, propondo que os fascistas italianos  invadam a terra espanhola. Segundo: é direito de o referido deputado expelir quantas sandices queira, mas é intolerável que, para justificar os crimes de Franco e dos Riveras, insista em ferir a memória e a obra de homens que, como Cervantes y Saavedra, Lope de Vega, Quevedo e tantos outros, pertencem tanto à Espanha quanto pertencem à Humanidade. Retiro-me do plenário, Senhor Presidente, por respeito a memória desses homens e, também, em certa medida, em respeito ao pequenino e honrado rio Paraguaçu”.
            A irônica capadoçagem provocou risos contra mim, uns quinze ou vinte e cinco deputados acompanharam João Otero quando ele abandonou o plenário, e me perturbei mas me controlei e disse: “Senhor Presidente, nobres pares. Não quero a invasão da Espanha, quero a libertação da Espanha: voluntários não são invasores. Reconheço, porém, que ainda não me referi ao projeto do rio Paraguaçu. Mas, a tanto chegarei. Apraza a Deus que a Itália possa contribuir para salvar a Espanha; apraza a Deus que a Itália prossiga iluminando o mundo com os faróis do seu esplendor. No particular do projeto sob exame, para o qual peço aprovação, apelo para que a Itália, tão avançada em engenharia hidráulica, a nós transmita as experiências abundantes em seus tesouros de saber. Estou convencido que este apelo ecoará favoravelmente em Roma, por confiar, como confio, no Exmo. Sr. Dr. Embaixador da Nação amiga. Mas, Senhor Presidente, volto a afirmar que negar apoio ao impoluto general Francisco Franco é coabitar com o que de mais nefando existe num passado apodrecido. De nossa parte, Senhor Presidente, nós não nos prostituiremos, nós não nos transformaremos em recadistas de democracias decadentes, desorganizadas, de regimes socialmente ineficazes, a exemplo da França que se avermelha, dos Estados Unidos da América do Norte hoje negligente diante da avassaladora expansão bolchevique. Tenho dito, Senhor Presidente”.
            Da tribuna da imprensa, onde se aboletava, Abelardo mandou-me um olhar azedo (natural – pensei --, ele é americanista) e os quatro ou cinco deputados que me abraçaram fizeram sórdido cudocismo, e um deles disse: Compreenda, Petrucci, o Otero está de nervos estraçalhados, o único filho dele acaba de ser preso como comunista. Respondi, seco: Eu não tenho filhos e nem poderei tê-los. Quem pariu Mateus que o embalance. Esperarei oportunidade para uma resposta.
            Não tive essa oportunidade: em 1937, João Otero foi preso. Como comunista. É como eu sempre digo a Abelardo, ou seja, se os comunistas não existissem seria preciso inventá-los. Porque a gente joga as porras em cima deles, sejam ou não sejam, e pronto. Eu sou contra torturas. Umas porradas, tal e coisa, e pronto. As torturas me fazem mal. Não quero nem saber.
            De noite, em casa, fui surpreendido com a aparição do adido cultural da Embaixada italiana, visita, ele disse, não só de agradecimento formal pelo meu discurso e sim, ao mesmo tempo, de intensíssima curiosidade intelectual e ainda para informar que Sua Excelência, o Senhor Embaixador, providenciaria, horas antes, uma correspondência urgente, via aérea, dirigida a Roma, pedindo livros sobre engenharia hidráulica e logo chegassem a mim seriam entregues. “Uns néscios, uns cretinos”, pensei e disse Ótimo, caríssimo amigo, ótimo, e o rapazola desbrecou os encômios. Segundo ele disse em todo o mundo poucos parlamentares haviam, como eu, compreendido o real significado do fascismo, efetivamente, como dito em meu discurso, “um denodado esforço para necessário Segundo Renascimento”. E sapecou o terceiro ou quarto recado: O Senhor Embaixador, pelas razões expostas, deseja felicitá-lo pessoalmente e indaga se o senhor aceita jantar em nossa Embaixada.
            -- Será uma honra.
            -- O Senhor Embaixador ficará encantado ao saber desta honrosíssima aquiescência. Magnífico! É irresistível minha alegre vontade e informo que o nobre deputado vai ser convidado, com deferências especiais, a visitar o nosso País, a Itália.
            -- Amo a Itália.
            -- Peço encarecidamente que o nobre deputado mostre-se alegrissimamente surpreendido quando, após o jantar, o Senhor Embaixador formular o convite. Surpresa, por favor, surpresa!
            -- Não entendi.
            -- É que acabo de cometer uma indiscrição, quando falei no convite a ser feito, uma indiscrição que o Senhor Embaixador não me perdoaria. O Senhor Embaixador é rigorosíssimo quanto a procedimentos protocolares e o que fiz agora, antecipando...
            -- Entendo. Nada direi ao Senhor Embaixador.
            -- Recentemente, não me custa informar, um dos nossos melhores funcionários em Washington foi punido por ter cometido indiscrição de menor monta. Transferiram-no para o Haiti. O Haiti! E ainda se encontra lá. Aquilo é um inferno de pretalhadas imundas a falar francês numa algaravia dos pecados.
            Além de veado, um chato, eu me disse, e neste vai-vai, se eu permitir, passará a noite a falar do Haiti, já não tenho nervos para suportar imbecís – e interrompendo-o indaguei: Por favor, revele minha ignorância, mas onde é mesmo que fica o Haiti? Na África? Oh!, que bobagem esta minha. Não, não fale. O Haiti fica na América Central.
            -- Sim, mas...
            -- Espere um pouco e anote minha confissão: eu não sei os nomes de todos os países da América Central. Nem de todos os da América do Sul. Cuba, certo, sei, e isto porque concorre com o Brasil no mercado internacional do açúcar. Nas Américas, além dos Estados Unidos do Brasil, o que existe? Admito a Argentina, por causa da carne e do trigo. O Uruguai, vá lá admito, sua estrutura política é curiosa, e o que mais? (O boiota bobeou e mantive a ofensiva) O Haiti é uma ficção, meu caro. O resto é um conglomerado de terras e gentes que – e me permita citar um verso atribuído a Homero – poll’ epistato erga kakos d’espitatos panta. Quer que eu traduza? Perdão, pergunta tola esta minha, decerto o amigo sabe grego. Para mim é muito estimulante encontrar pessoas que saibam grego. Ou que, como eu, o estudem. Deixe-me contar episódio interessante: não há muito, traduzi epainos tolmes como “elogio da bravura” e um amigo meu, amigo muito querido, sugeriu que eu substituísse “bravura” por “valentia”. Um absurdo, claro! Expliquei a ele... Por acaso estou a entediar o caro amigo?
            -- Não, não, de modo algum!
            -- Mantive bravura, epainos tolmes a significar “elogio da bravura” e consegui convencer meu querido amigo, aliás meu tio, tio Leonardo, um namorador danado, diga-se de passagem. E, ele mesmo, um bravo. Seu único defeito, se é defeito, era gostar de mulher. Epainos tolmes... Um valente não é necessariamente um bravo, um cavalheiro, mas o bravo é necessariamente valente. Até para matar-se. O suicídio de tio Leonardo  prova isto. Bravo, bravura, são vocábulos que sugerem, além de valentia, elevada nobreza, pureza de sentimentos, cavalheirismo, lealdade. Conheço o caso de dois irmãos que se uniram para matar a mãe adúltera e foram absolvidos. “Vocês agiram com bravura para evitar um mal maior”, disse-lhe o Juiz. A palavra empregada pelo Magistrado foi precisamente bravura. Na hipótese de outra palavra grega... Vejamos, por exemplo, paragenou. Tenho defendido...
            Adivinhando que em seguida a paragenou viriam outros chutes nos culhões, o estafermo levantou-se e disse: Perdão, nobre deputado, adoraria permanecer, mas ainda esta noite tenho de saldar outros importantes compromissos. Levantei-me e disse:
            -- Irei ao jantar com imenso prazer e fingirei surpresa ao ser convidado para visitar oficialmente a Itália.
            -- A rivederci – ele despediu-se, o bofininho, e saiu e fui para a janela: Lourdes poderia ter ligado o abat-jour alaranjado e seria o sinal verde, eu poderia descer para o apartamento dela, o marido não viria. Não, nenhum aviso favorável. Com certeza o idiota do marido resolvera ficar em casa, grudado no rádio par ouvir o programa de Chico Alves e aí a sinetinha tocou e imaginei que fosse Abelardo e era Zito. Trazia, afivelada, a mascara de “assessor” e disse dispensar o conhaque que lhe ofereci e me abespinhei: Deixe-se de sacanagem que estou puto com um tal de adido da Embaixada italiana. Durinho, poseur, disse:
            -- Eu não confundo amizade com dever. Tenho declarações formais a fazer e devo fazê-las. Faço-as por decisão do Itamaraty, onde se lamenta teu pronunciamento de hoje. Lamenta-se, deplora-se, critica-se e  determina-se que não te externes mais sobre política internacional sem antes ser aconselhado.
            Desejei responder altivamente (“olhe aqui, Zito, não sou funcionário do Itamaraty e usei , ao discursar, um privilégio inerente à condição de representante do povo, e do povo baiano”) e no entretanto o que fiz foi perguntar: Porra, Zito, o que é que eu fiz demais?
            -- Falou o que não devia.
            -- Falei o que penso.
            -- Não pense! No nosso team só os chefes pensam. Deputado Petrucci, em política internacional o que o Presidente ordena é expectativa sem perplexidade. Tudo está muito fluido. Tanto quanto se sabe, a frase é do próprio Presidente: expectativa sem perplexidade, e isto significa manter o bico fechado. Concordas, nobre deputado? Vejo que já começas a concordar... Agora aceito o conhaque. Por que atacar os franceses e os norte-americanos? Sobre a questão espanhola, bestalhão, dispomos de informações com as quais nem sonhas. Se a França fornecer aviões aos republicanos, então o teu querido general Franco irá para o inferno, com ou sem voluntários italianos. Há negociações nesse sentido, sabias? Um mundo de coisas há que não sabes, nem eu. Encolha-te, portanto. Muito bem, agora concluo o recado oficial: o Senhor Secretário manda te dizer que quanto a mangas multiplique as cestas. Há certa senhora amiga dele, que adora chupá-las. Mais ainda, falastrão: iremos à Argentina em dezembro e estarás conosco, apesar do discurso de hoje. Estará por minha causa, graças à tua performance  em Londres, em Paris e em Roma.
            -- Zito, você sabe que em Roma, naquela primeira noite fui um fiasco, mas em Paris, reconheço...
            -- Roma não deixou de ser divertido, aquela maluquice de Milão, a do quadro.
            E disse isto com afeto e estendeu-se a mão e o riso simpático, talvez até fraterno. Debruçamos-nos na janela e senti necessidade de falar sobre Lourdes: o apartamento dela ficava justo sob o meu. Essa mulher me amou, senhores, e eu não sei porque. Para ter-me ao seu lado, não só para os esportes do leito, corria toda sorte de riscos. É curioso. Ela costurava cuecas e camisas para me ofertar. Também sabia fazer doces, frutas em calda. Brincávamos como se fôssemos dos adolescentes. E, sobretudo, era uma ouvinte perfeita, dando-me razão em tudo.
            (Levei você comigo para Buenos Aires, Abelardo, não esqueça e foram vinte ou vinte e um dias e eu nada aproveitei. Você e Zito saíam e voltavam e eu preso naquela cama de Hospital. Não me sobrevivesse aquela maldita caganeira e aqui, nestas memórias, eu escreverei que o ano de 1936 foi um dos melhores de toda a minha vida. Quanto o 1937, puta-que-pariu!
            Escrevo, agora, 1937, algarismo por algarismo, e é como se estivesse a compor a mais brutal de quantas conjunções numéricas existam. Acreditasse em astrologia e “ciências” afins e diria que em 1937 o sol e os nove planetas dele dependentes, os dois mil planetoides que zanzam entre Marte/Júpiter/Saturno e sei mais lá o que, reuniram-se em assembleia e aprovaram: “e tudo, absolutamente tudo, para arrebentar Tônio Petrucci!”  E arrebentaram, você sabe.)       




SEXTA PARTE



1


            O telegrama  chegou no 19 de janeiro e Abelardo disse Eu invejo o senhor, e ficou com o documento na mão, lendo, relendo. Era assinado pelo próprio Presidente da República, o Excelentíssimo Senhor Getúlio Vargas. Quando ele se matou, 24 de agosto de 1954, eu fui ao Catete, eu, seu adversário desde 1945, fui vê-lo e mesmo sob ameaça de represaria políticas eu entrei naquela imensa fila de enlutados. Eu queria ver um pedaço da tragédia e no Palácio, lá dentro, estava o grande homem morto e ele gritava que não estava morto.
            Senhoras e senhores, Abelardo: segundo penso há mortos que apenas morrem, silenciam, desaparecem. Outros há que, mortos, protestam contra a estupidez, e meu pai é exemplo. Eu vi o Getúlio morto e compreendi que um homem, um grande homem, nem morto deixa de sê-lo. O grande homem é um morto que é, que fala, permanece, intriga, desperta amor e desperta ódio. Talvez por isso tio Leonardo preferiu não se mostra morto, poupando-nos de sobressaltos, minorando minhas dúvidas. Ao grande homem, com certeza, a morte não dá sumiço. A morte respeita-o.


INTERRUPÇÃO – XIII


            Por esta eu não esperava, Abelardo. O velho escreveu um negócio retado, porreta mesmo. Papai, que era fã de Getúlio Vargas, por causa da aposentadoria que ganhou, antes não tinha nada disso, você sabe, gostaria de ler isto. Papai era um homem estranho, Abelardo. Ele acendia velas sob um retrato de Getúlio Vargas. Mesmo antes da morte. Sim, ele gostaria de ler esta parte do senador. Aliás, eu lhe digo, como você deixou Cris ler tudo, também estes nossos bilhetes, o que eu acho uma sacanagem porque acabou com o segredo do nosso trabalho, Narda também vai ler tudo, tô lhe avisando. Por que é que ele é melhor do que ela, em que? Marluce. Não posso de reconhecer aqui que ontem foi muito bom. Quando você quer, o Senador tem razão, você sabe fazer as coisas. Reconheço. M.


            A assinatura no telegrama não era de um assessor qualquer ou do chefe da Casa Civil e sim do próprio Presidente Vargas. Sua Excelência, em certo momento, abandonou seus graves afazeres para me desejar “rápido restabelecimento e pronto retorno às lides parlamentares e diplomáticas”. E eu disse:
            -- Abelardo, você não calcula a significação deste telegrama. Bobagem minha, você calcula. Saiba que, filho de Deus, à medida em que cresço você cresce comigo. Tanto que você já pegou sua achegazinha no Itamaraty. È um começo. Depois, eu lhe garanto, arranja o boa coisa no Ministério da Fazenda, um posto-chave. Lá é que está o dinheiro.
            -- Eu serviria melhor ao senhor.
            -- Sei disso. O que dificulta é você não ter diploma. Sei que vendem diplomas por aí. Investiguei, arranje um, eu pago. Diploma de advogado, obviamente. (Interrupção – XIV. Quer dizer que seu diploma é falso, Abelardo?) Quero dizer ainda, Abelardo, que muito do prestígio que hoje disponho, prestigio considerável ou o Presidente Vargas não me enviaria este telegrama, devo em parte a você. Isto me alegra e sobretudo estou alegre porque me sinto bem melhor. Há dois dias que não vou ao bacio. A goma fresca e o chá de folhas de araçá fazem bem, graças a Deus.
            -- E a erva cidreira.
            -- Cidreira sempre ajuda.
            -- O senhor já começa a ficar corado.
            -- O ânimo está voltando. E vamos ao trabalho. Antes de tudo, redija-me um telegrama para o Presidente Vargas, agradecendo os votos de pronto restabelecimento e, preste atenção, aspas, retorno às lides parlamentares e diplomáticas, fechaspas. Aliás, ponha lides diplomáticas e parlamentares, uma inversãozinha de palavrinhas, ham? Talvez que assim o Presidente saiba melhor que minha ambição é representar o Brasil no Exterior. Que cara é esta, filho de Deus? Entendo, Abelardo, entendo. O Presidente é muito cioso de sua autoridade. Se escreveu “lides parlamentares e diplomáticas”, não devo alterar... Corretíssimo, Abelardo! Conclua do seguinte medo: aspas, o fiel amigo e devotado servidor de Vossa Excelência, de pé pelo Brasil, assinado deputado Antônio Petrucci, fechaspas. Memorizou? Agora, Abelardo, saia, por favor.
            E Abelardo saiu e eu me disse “vou mandar cópias desses telegramas para o Professor (...), coitado, ele já deve estar caducando, tudo a se apagar da memória, bom para ele, muito bom”, e também me disse: é isto, Tônio, que você precisa de aprender, antes de caducar, aprender a riscar da memória o que não presta, o que causa remorsos, o que envergonha, a dar cores vivas, de belas cintilações, ao que encoraja, ao que enobrece, ao que alegra; ou seja, não há que ceder aos bons sentimentos tolos, porque enfraquecem, mas você tem que os ter e fruí-los no sol de sua intimidade mais profunda, que ninguém saiba, que ninguém veja; não esquecer, bobalhão, o que Balzac ensinou através de Blanchon: “Para vergonha da Humanidade, quis estreitar a mão da virtude e a encontrei tiritando de frio em um casebre, morta de fome, perseguida pela calúnia, ganhando ínfimo salário e considerada como louca ou excêntrica ou imbecil”.


            Somente na segunda semana de fevereiro, 1937, é que comecei a me alimentar com carninha passada, vagens e purê. Dia sim, dia não, bebia canja que minha cozinheira, Engrácia, preparava com cautelas especiais, pouca gordura, parcimônia nos temperos, e fui me fortalecendo.
            A semana do Carnaval chegou e não me senti seguro para atender a convites recebidos: os dias de fuzarca maior guardei-os em casa, sozinho, apenas Engrácia a me assistir. Nas ruas do Rio o povo cantava, de preferência, a marchinha “Lig-Lig-Lé” (um dos versos dizia: “chinês come somente uma vez por mês”, noutros rimava-se Shangay com Butterfly) e um samba cuja letra nunca esqueci: “Vestiu uma camisa listrada / E saiu por aí. / Invés de tomar chá com torradas / Ele bebeu Parati / Levava uma canivete no cinto / E um pandeiro não mão / E sorria quando o povo dizia / Sossega leão, sossega leão...” – e eu solitário, vez que outra ligando o rádio, imaginava o que Zito estaria fazendo, em que veadagem Abelardo se envolvera, ou não fossem veadagens físicas, não afirmo nada (você sempre foi misteriosíssimo, Abelardo!), onde Epifânia se encontraria, certamente numa patuscada qualquer, ou talvez não, ela era sonsa o suficiente para aproveitar uma festa como Carnaval e mostrar-se santinha diante de seus familiares, virgem bem comportada que espera, sem afobação, o maridinho sonhado, e era na verdade uma puta, completa, total, não tinha sexo e sim um cofre entre as pernas, a amealhar meus mil-réis, gostosa, não nego, aquela bundinha de tanajura, uma alvura excitante, e os seios eram perfeitos, controlava-os a pô-los rijos e se num ou noutro, suponho, eu colocasse uvas moscatel, ela andaria e as uvas não cairiam, mas, ingrata, mercantilista, não me visitou um dia sequer ao longo daquelas semanas de caganeira, e já Lourdes, casada, arriscara-se quatro ou cinco vezes pondo bilhetes debaixo de minha porta, e eram orações, e Lourdes nunca aceitou um presentinho meu, nunca! Ou seja, a virtude existe. É difícil, mas existe.  
            Lisa?
            Lisa viria correndo, aposto minha vida. Poucas palavras no último bilhete que ela me mandou. Julgava-se atacada de febre tifoide, não poderia ir ao encontro marcado comigo, Jardim de Nazaré, lembro, é muita a febre que deu em mim, e não era tifo, era tuberculose, e rezei por Lisa, pedi um milagre a Deus, fosse eu rico e daria um bom dinheiro ao pai dela, vá com a menina para a Suíça, lá os ares são ótimos, aqui estão 100 contos, mas o que é que eu era?
            Eu era um simples deputado estadual um simples professor de moral e cívica, um advogado que não queria advogar: espirrava toda vez que era obrigado a ir ao Fórum, por causa da poeira que lá havia, poeira e mofos, eu sofro de alegrias esquisitas.
            Tenho virtudes. Poderia esquecer Lisa, só cheguei a roçar meu rosto no rosto dela, a segurar-lhe a mãozinha, que gostoso, a sentir sua coxa junto à minha. E nada mais ousei e orgulho-me disso. Sim, tenho comigo algumas virtudes, mas, Meu Senhor Jesus, e outros, se não posso viver sem eles? Em que o senhor está pensando, assim tão distraído?, ela me perguntou e respondi: Numa ilha. Ela riu, não entendeu. É difícil entender a solidão. Sempre sonho-me entre milhões de livros acariciantes, amigos, papai tocando bandolim, tio Leonardo cantando. Maluquices. Talvez uma espécie de compensação. Meus horizontes estão povoados de gentes sem sombras, todos perdidos, todos sem esperanças, em certa medida (excluo poucos) todos são iguais às gentes daquele quadro, mas (com exceção de Abelardo) não sabem disso. Abelardo sabe, não diz. Ele saiu daquele quadro e não ensinou o caminho a ninguém. É uma porra e é melhor eu mudar de assunto. Estou muito confuso.
            Sim, tenho virtudes. Eu ainda posso entender, por exemplo, o Carnaval. Sei e sinto que o Carnaval é o povo a se agitar em cores e em gestos e em vozes, com ingênua malícia, beleza brutal, beleza que eu aplaudo porque é uma relutância  instintivamente, natural, nunca uma soma de intenções friamente elaboradas. É com respeito que me recordo dos grupos de mulheres, homens, crianças, com suas máscaras africanas, recobertos de palhas secas, e os pés calosos nas pedras-de-fogo, entregues a contorses e grunhidos, tradição de séculos a comandá-los, a dançar, a gritar, todos a se remexerem e tudo na busca de uma grandeza de memória religiosamente preservada transmitida geração após geração, e eu não sei se há negros ou negras no meu passado, não tenho certeza.
            Ela não era negra, minha mãe, mas seu pai há de ter sido amulatado. Imagino que o avô foi um potente negro escravo que favoreceu uma sinhazinha desesperada, o chibiu em fogo, ou então que a avó dela há de ter sido uma fogosa escrava emprenhada pelo dono, ou capataz, ou o Padre, ou o Bispo. É fácil recompor a cena: de noite o homem branco penetrou no quarto da negra, forçou-a. Ou talvez não. É admissível que ela tenha querido, consumida de desejos, ou ainda que ele a comprou com um metro de chita. Ou as duas coisas. O que não devo e não posso esconder é que de tudo isto a mim foi legada uma marca: não esqueço que sonhei com Mariana negra, um absurdo, Mariana era alvíssima não obstante amulatado o finado sr. Ambrósio, um sonho louco, mas sonhei!
            Quantas vezes, quantas e quantas noites, meu Deus, eu era ainda um adolescente, implorei à Rosenda que me deixasse entrar em seu quarto? Não foi nela, em Rosenda, que pensei, ainda menino, lá em Santo Antônio Além do Carmo, quando bati minha primeira bronha? E Engrácia? desde que ela foi trabalhar comigo não andei querendo me esquentar com ela? E entre as duas, Rosenda e Engrácia, não houve Odete?
            Foi ela, Odete, quem me levou o bilhete de Lisa, desmarcando o encontro no Jardim de Nazaré. Foi, recordo bem. Poucas palavras no bilhete, ... “agradeço a gentileza do senhor... acho que estou com febre de tifo... me escreva, por favor, me escreva”... Coitadinha de Lisa: todos, na rua, rua Banco dos Ingleses, sabiam que ela estava de tuberculose; até Anália, cheia de caduquice, sabia da desgraça. Ela morreu, a virtuosa Lisa, assim como uma borboleta vai ali e volta, pobrezinha: e eu não tenho nem um retratinho dela. Quando Odete chegou com aquele último bilhete, eu logo lhe passei a mão na bunda e disse você já é uma mulherona, qual a graça?, ela se sacudiu muito engraçadinha, disse Me chamo Odete, dona Lisa está muito mal, meus dedos entre as bochechas da bundona dela, fazendo cosquinhas, e de novo se sacudiu, entre safada e surpreendida, e de repente afastou-se.
            Li o bilhete, disse Tadinha de Lisa, tadinha, e falei Chegue prá cá, coisinha gostosa, chegue.
            -- Dona Lisa está muito mal.
            Entendi que seria um erro forçar novas cosquinhas e olhei para ela e tanto que compreendeu: enquanto Lisa era uma esperança a morrer, ela, Odete, era desejo novo, vital, negra de boas carnes, e prometi duas pratas e um sabonete francês e espere aí. Ela esperou, de pé, e rabisquei um bilhetinho-resposta para Lisa, assegurando que ia rezar para ela ficar boa, com respeito e admiração e fé em Deus deputado Antônio Petrucci, nome por extenso (para que o pai não imaginasse intimidades), e levei Odete para meu quarto, venha ver umas coisas, bichinha, e ela olhou a cama arrumada, o lençol alvo, de linho, olhou fascinada, decerto dormia em esteira, e perguntei se gostaria de deitar numa cama como aquela e respondeu com um oh! tudo branquinho!
            -- Se deite, bichinha.
            -- Agora não, doutor.
            -- De noite você vem?
            -- Não sei, doutor.
            -- Além das duas pratas que lhe dei, darei mais cinco e outro sabonete.
            E duas ou três noites depois, Lisa já estava morta, levei-a à banheira e lavei-a com água morna e ela foi para a cama, e ria, dentes lindos, saliva de quem mastiga hortelã, e quando perguntei se já era furada disse que sim abrira-se para um tio, em Antas.
            -- Você engravidou, bichinha?
            -- Não, doutor. Tio Crispim só me deve o cabaço.

ESCLRECIMENTO – XIII


            Lu, querida, abandone a descrição do remorso, Lisa e Lisa e Lisa, coisa muito falsa, e recomece quando ele interroga: “Engrácia”, onde marquei com um xis.
            No entanto, esta tal Odete existiu mesmo. Em 1955 ou 56 ela apareceu de repente aqui em casa e disse um sermão enraivecido – “o que semeia corrupção ceifará corrupção”, nessa linha – e o finado se impressionou. Um pequeno escândalo que consegui contornar. A mulher parecia uma louca. Ela não sabia a Bíblia, ela gritava a Bíblia.
            Querida: quando a Narda procurar-me para conversarmos, nada oponho. Estou à disposição, afeito, que sempre fui, ao diálogo. E, saibam todos, meu diploma não foi comprado. Obtive-o, com facilidade, no Estado do Rio. É também de público, se isto for afinal publicado, o que depende de minha vontade, de ninguém mais, que insisto no casamento. Marque a data. Salvador, 30 de maio de 1969. Abelardo


            Engrácia? Sim, também Engrácia. Nela reparei detidamente, quando veio trabalhar comigo. Negra, não, mulata escura, pernas bem torneadas, e uma noite, acesa a luz do quarto dela, espiei e vi a mulherona nua, os peitos soltos, mas Engrácia rezava com emoção idêntica à de minha mãe quando o sr. Giuseppe demorava de chegar em casa, na Pituba. E isso me fez recuar. Rezava pelo homem dela, preso como comunista, e jurava ser isso uma falsidade da Polícia, um amigo dele sim, era, parecia ser, falava muito em sindicatos, um amigo-irmão, e no dia seguinte, sem quê nem praquê, Engrácia voltou a puxar o assunto: eu não poderia fazer nada pelo homem dela? E chorou. Eu me retei com o choro e disse:
            -- No momento certo eu agirei, e por sua causa. Quem mandou seu homem não respeitar as barreiras, se fazer amigo de gente ruim, quem mandou? Cada pessoa deve ficar em seu canto. Mas, vou agir porque você é muito boazinha. E não há necessidade de chorar, minha filha. (Antevéspera do Carnaval, Abelardo, você já tinha ido para Petrópolis, se é que você foi mesmo para Petrópolis...) Que é que acrescenta você ficar chorando aí como um idiota? Isto me irrita, Engrácia. Vá chorar em seu quarto!
            E foi e nunca mais me disse uma palavra sobre o desgraçado do sujeito dela, não duvido nada que engaiolado na ilha de Ternando de Noronha, cercado de tubarões por todos os lados, ilha vigiadíssima. Talvez lá estivesse também o sr. Artemísio, já idoso, lamentei por ele, mas que jeito? Quem vai para a chuva vai para se molhar, quem não se cuida leva um tombo. Em 1930, embora participando da Aliança Liberal e, assim, se expondo, o Professor (...) me disse: Não se meta nesse negócio de Revolução e nem fale contra. Diga a todo o mundo que você está sentindo umas tonturas, uns calafrios, fraqueza nas pernas e vá para bem longe, o importante é defender seu mandato, e fui para São Gonsalo dos Campos, uma lindeza de cidadezinha, hospedando-me com familiares de Arimar, clima maravilhoso: o piano que fora de mamãe estava lá e eu levei meses olhando suas formas, sua cor. Era um Pleyel. Às vezes eu o acariciava, lembrava-me de Arimar, tinha medo de tocá-lo. Até porque não sabia nada sobre teclas, pedais.
            Aquele Carnaval do maldito ano de 1937...
            Amanhã (eu pensei), se me sentir mais forte, vou dar uma volta pelas ruas pra ver o povo pulando de alegria. Quem quiser que não, eu gosto de Carnaval: é uma virtude brasileira. No ano passado, lembro, pretendi me fantasiar de cossaco, um cossaco como Tarass Bulba, o que teria sido ridículo e perigoso, sim, Zito me advertiu bem, bastante perigoso além de ridículo, cossaco lembraria a Rússia bolchevique, e, de resto, como descrito no romance, o sr. Bulba (1) era um tipão, poderoso, alto e forte como meu pai e usava barbas enormes, negras, e assim como eu sou, alto mas magro como eu sou, fraco que não aguento uma caganeira, e aspiração fantasista será algo estapafúrdio, mas darei umas voltas, amanhã, não sairei de Copacabana.
            -- O senhor já pode comer mantinhas?
            -- Uma ou duas, Engrácia, e coentro picado. Será que cebola faz mal?
            -- O povo fala bem de cebola.
            E saí, manhã de terça-feira daquele Carnaval, e sentei num bar de Copacabana, uma ruazinha que dava para Anenida Atlântica, e ali umas mocinhas mascaradas brincavam comigo, a mais gordinha sentou em meu colo uns instantes, fiquei de pau duro, primeiro tesão após a caganeira, ela gostou da pressão, se mexeu, quis segurá-la, ela fugiu com as outras – mulher é um bicho que não presta! --, todas rindo, acenando adeus, não consegui beber o resto do suco de laranja-lima, e ainda excitado voltei para o apartamento. Lourdes para me aquietar? não podia ser: fora com o marido para Niterói. Epifânia, como chamá-la se ela não tinha telefone e Abelardo estava ausente?
            -- Engrácia, minha filha, venha cá. Ouça com atenção que vou lhe fazer uma proposta de enorme importância: se eu ajudar a tirar seu homem da cadeia, você, de agradecimento , se deita comigo?
            -- Doutor, eu não posso.
            -- Hoje só, hoje é Carnaval.
(1) – O romance “Tarass Bulba”, pouco conhecido no Brasil, é do russo Nicolau Gogol. Ele viveu e morreu antes da revolução russa.
            E com os olhos disse que se me abrisse as pernas não seria mais a mesma respeitada, e acrescentou que só entendia relações sexuais quando havia, de parte a parte, um grande amor. Esqueça essa bobagem de amor, que diabo é amor?
            -- É quando a gente sente falta se está longe e fica contente se está perto.
            -- Tá bom, eu boto só nas coxas. Você faz o papel de um manequim e lhe dou trinte mil réis, ham? trinta mil réis, Engrácia, trinta mil réis!
            -- Não posso, doutor. Acredite em mim.
            -- Como é o nome do seu homem?
            -- Honório, doutor.
            -- O tal amigo-irmão dele, o comunista, como é que se chama?
            -- Eu não disse que é comunista, disse que gosta de sindicato. E se chama Afrânio.
            Ordenei que fosse para a cozinha e bebi um conhaque e temi que os intestinos arrebentassem de novo, arrebentem, merda!, e bebi e bebi e dormi e acordei com papai gritando Não, Tonio, não a calça de pijama melada de esperma. Bom, mas como na vida acontece, todo Carnaval tem prazo certo. E aquele acabou. Reaparecer na Câmara em grande estilo, esse meu empenho principal nos primeiros dias de março. Recordo que estudei regulamentação de emendas que nós, da maioria, no ano passado (1936) aprováramos: uma sobre demissão de funcionários do serviço público, demissão sumária, atos subtraídos à apreciação do Poder Judiciário; outra, estabelecendo que militar participante de movimentos subversivos perderia não só a patente, mas, e com ela, todas as regalias. Isto, explico, para que o Tribunal de Segurança Nacional pudesse tratar do “caso Luiz Carlos Prestes e afins” com o rigor necessário, sem prejuízos de bacharelismo e tecnicismos formalistas. Eu inflacionei meus apontamentos com citações de J. E. Burgess, W. H. Malock, Eichorn e outros em moda e mais não consegui do que perder meu tempo. Assim porque um dos vice-líderes do Governo, com menos ciência jurídica do que a minha, no entanto mais próximo do Palácio do que eu, já se mostrara interessado no assunto.
            Procurei-o em casa, buscando um acordo, uma associação, e ele não quis, o fominha, e ouvi atentamente as pífias explicações que me deu. Então, acortinando minha aporrinhação, eu disse: Aprendi esta noite muito mais do que em anos de estudo. Fez-se  modesto, o pilantra: O fato de eu já ter reunido um certo número de ideias a respeito das emendas, não impede que profiras o teu discurso. Diga o que pensas e ensejarás um debate salutar. Acredito que debates de bom nível sempre reforçam o prestígio do Legislativo. Aceitas um cafezinho? – e mandou que a mulher trouxesse café e licor, um licor de ameixas, e na rua, matutando, eu me disse: O sabidório quer é brilhar às minhas custas, eu apresento minhas propostas ele as dele, e na hora da votação eu fico de neném e o sacrista empanturra-se de “sim”, de “aprovo” e etc.
            -- Que ele se estrepe!
            Em casa decidi meter na cesta a papelada e Eichorn e Mallok e Burgess que me compreendam, desta vez não tenho oportunidade, acordei fora da hora, é sempre oportuno saber com exatidão o momento de meter o rabo entre as pernas, e disse a Abelardo: Ademais, há esta boataria toda, conspiração sobre conspirações, é uma zorra, filho meu, ninguém sabe de nada e todo o mundo finge que sabe de tudo, e de novo eu vou me reduzir à insignificância antiga. Vamos jantar na Colombo?
            Encolhi-me, anunciando aos colegas que estava a sofrer de periódicas crises renais violentíssimas, mas crise mesmo, naquela época, primeiro semestre de 1937, só tive uma, e de natureza moral: eu estava num bonde, noite de São João (bela na Bahia, no Rio uma merda), a burra da Epifânia me havia faltado vespertinamente. Então, ofendido nos meus brios, assalto-se o dever de ir ao centro da cidade, uma travessa da Senador Vergueiro, procurar o pai dela, boa noite sr. Pereira Castro, eu me chamo Antônio Petrucci, o deputado federal, claro que o senhor me conhece de nome, Petrucci. Muito bem. A filha do senhor era garçonette num barzinho ali na rua São José e eu botei ela de funcionária da Biblioteca da Câmara, um empregão, mas esqueça isto, não estou alegando nada, estou aqui para defender virtudes essenciais. Dê uns tabefes em Epifânia, meta-a num convento, porque não é a virgenzinha que o imagina; é, senhor, o senhor me releve, é uma puta e uma ingrata!
            Pensei na boa ação, não a cometi. Quem um dia, teve para comigo um gesto assim?
            Eis que, como já disse, até papai e tio Leonardo fizeram mistérios comigo.

2.


            É enervante o Abelardo. Entulhava-me a cabeça com “diz-quês”, a Força Pública de São Paulo isto, fulanos em Minas diziam aquilo, fuzuês em Porto Alegre e no Recife, os comunistas outra vez com as línguas de fora, os integralistas isso e aquilo, bó-bó-bó e bá-bá-bá, grande movimentação na Embaixada Alemã.
            -- Porra, Abelardo, me deixe! Estou a fim de paz de espírito, não me meta nessa joça. E nem se meta!
            Ele sempre cheio de novidades, cotucando aqui e ali, incapaz de sentar a bunda num sofá, filho de Deus você é um mosquitinho elétrico!, e um dia pôs um exemplar de “O Estado de São Paulo” em minha frente, edição de 21 de setembro de 1937 assinalados os trechos que eu devia ler, e li. Li e tomei um susto:
            -- Você devia, aos poucos, me dizer do que me tratava e não jogar esta coisa em minha cara. Este editorial é atrevido, é sério, é um desafio ao Doutor Getúlio. Esta gente idiota, cretina, quer impor o doutor Armando de Salles na Presidência. Ele é paulista e não pode ser. Pra que eleição agora? Por que não uma simples prorrogação dos mandatos, os nossos e os deles? Engrácia, vá para a cozinha! Meu Senhor do Bonfim, mais esta! Êta paulistas malucos... Está confusa a joça? Bom, mandatos prorrogados e acabou o imbróglio.  E não, não querem assim, não querem paz, ordem, tranquilidade. Querem é baderna. De que maldita tocas saem esses ambiciosos, esses fanáticos? Estou cheirando a coisa ruim, Abelardo. Este editorial ameaça o Governo da República com rebelião. Taí o dedo dos comunistas, filhos-das-putas! Palavra de honra, eu dava o rabo para saber o que pensam e o que fazem os generais Dutra e Góes Monteiro.
            -- Aquele repórter do “Correio da Manhã” me procurou e pediu uma declaração do senhor. Como o senhor acha que a Bahia...
            -- Despacha o maluco, Abelardo. Ele que vá entrevistar a mãe! Falatório nenhum, filho meu. Nada de aparecer meu nome, nem em batizado de bonecas. Eu tenho minha tática – não me meter – e quanto a você, você não é bobo. Vá marombando por aí, ouvindo e vendo as coisas, falando muito para não dizer nada, eu estou de resguardo, a velha bronquite, talvez tenha de voltar para São Gonçalo dos Campos.
            E escrupulosamente cumpri meu programa de prudências. Semanas e semanas se passaram sem que eu desse um passo em falso. Às segundas e sextas, quando eu chegava com Epifânia, via cortinas do apartamento de Lourdes a serem mexidas, bolidas, e era ela, ciumenta mas digna, nunca tratou do assunto; às quartas e sábados andava à toa pela cidade, ora pegando um bonde, ora uma marineti (hoje se diz ônibus, influência americana), ouvindo as gentes a dizer besteiradas e, também, coisas sábias, que o povo é assim e aí estão os “ditados” a provar o que afirmo, de um lado o boçal “o futuro a Deus pertence”, de outro o genial, genialíssimo “desejo em dobro o que me desejares”: Você esqueceu Engrácia, Abelardo? Não pedi que você investigasse ela? Tenho minhas cismas... Às terças e quintas dava uns rápidos pulinhos na Câmara, fingindo-me ruim das vias respiratórias, distribua uns alôs, tudo andando bem? e na excelentíssima esposa como vai? e voltava depressa, quase sempre em carro-de-aluguel (hoje se diz táxi, influência americana), e em casa, apijamado, trancava-me no gabinete, falava com Zito pelo telefone, depois traduzia Teogne, ele sim, dificílimo, também uma espinha na minha garganta, e aos domingos, sempre em casa, livre dos açodamentos de Abelardo, dos jornais, da boataria, dos silêncios de Zito, eu me refastelava . Sozinho, Engrácia de folga, adotava um regime excelente: vinhos franceses, sardinhas portuguesas, pão de centeio, salame dos bons, italianos, leituras leves pela manhã, e dormia de tarde, que gostoso, e às oito horas, estourando oito e quinze da noite, se conferido aceso o abat-jour  alaranjado, eu descia para o andar de baixo, Lourdes me esperando, o bom marido em Niteroi (ele dormia lá, na casa de uma irmã, após jogo de pôquer), e eu e Lourdes... Perbacco, que mulher, que gula!
            Referiu-se ao marido, uma vez, e disse:
            -- Eduardo é um homem triste. Ele só se distrai jogando.
            -- Gasta muito?
            -- Não, é jogo com as irmãs e um cunhado, todos os domingos, religiosamente. Ele sempre foi assim, triste. E piorou quando o nosso filho morreu.
            Aí ela chorou muito, lembrando o filho, e fizemos amor várias vezes, juntos até de madrugada, ouvindo discos bem baixinho, como dois namorados. Ela gostava de beijar as pontas dos meus dedos. E me ajeitava nos seus braços como seu eu fosse um menino. De repente dava uns gritinhos, esfregando os seios no meu rosto. Botava gotinhas de vinho nas tetas e pedia: chupe, mame.
            A Lourdes eu contei tudo. 


ESCLARECIMENTO – XIV

            Lu,
            amor, Narda é realmente lindíssima, inteligente e bastante culta. Nenhum exagero nas suas informações. Ela está encontrando no Senador coisas que me passaram despercebidas.
            Amor, querida, não hesite mais: eu quero casar com você. Marque a data, abandone a datilografia, compre seu enxoval. Eu pago tudo.
            Abelardo
            P.S. O Senador tinha razão: eu não gosto de adiar o que sei inevitável, a perda de tempo me incomoda. A


INTERRUPÇÃO – XV


            Meu, o que você disse de Narda, ela disse de você, inteligentíssimo e muito charmoso. Me falou do quadro que o Senador toda hora fala e me levou ao apartamento dela para me mostrar uma reprodução. O quadro existe, portanto, não é mentira do velho. O nome, eu copiei, é “La ville inquiete”, o autor é um belga, esqueço o nome. Eu disse: estas pessoas estão vivas, não estão mortas e aí aconteceu uma coisa que lhe conto como foi. Depois que eu falei naquelas pessoas do quarto, Narda botou a mão no meu rosto e perguntou: não é quente, não é viva minha mão? E depois a outra e perguntou: você sente o calor, você sente a vida?
            Estou grifando porque ela falou assim mesmo. Respondi: Sinto, amor, sinto. E ela disse: É o calor de Deus!           
            Todo mundo hoje criando religiões malucas, ela também?
            Lhe digo, meu, lhe digo, que senti o ridículo daquilo mas senti maior um desejo danado e fui para cima, que o apartamento dela tem quartos em baixo e em cima, e ela ficou lá, na sala, olhando para fora, para a noite. Não tinha quase nada para se ver, quase tudo escuro.
            O apartamento dela é na Vitória, o lado que dá para o mar. Estava o mar mais escuro que já vi, quase nem se viam as luzes da ilha e fiquei nua, na cama, esperando ela. Fiquei nua a primeira vez, lhe falo com honestidade. É verdade que a gente já se beijava (umas vezes), dançando lá em casa (mamãe sabe que sou assim, me compreende), mas cama mesmo ia ser a primeira vez. E esperei. Eu chamava bem baixinho, “Narda, Narda” e me sentia como com febre.
            Ela não vinha. Quis gozar me bolindo e não consegui: eu sentia uma falta. Como o Senador diz sobre o quadro: a quem quer dar uma boneca à menina e ela não aceita e não recusa, e a bola e o menino. Que menino não ama uma bola? Que menina não ama uma boneca?
            Então, me parece que umas duas horas da manhã, eu cheguei até a escada e fui descendo e vi ela lá, na sala, e havia perfumes de incensos. Estava nua e eu nunca vi mulher mais linda, mais perfeita, Abelardo! Sentava-se no jeito oriental e rezava. Eu desci e fiquei perto, fiquei escutando o que ela dizia, mas ela dizia negócio em alemão, me pareceu. Aí eu pensei assim: vou para mais perto dela prá ver se ela sente meu cheiro. Cheguei pertinho e me boli, me boli muito, mas ela nada de me dar atenção. Eu disse alto porra, Narda, porra! E ela rezando, ou sei lá o quê, vivendo em outro mundo.
            Eu mudei a roupa, quero dizer, vesti o vestido e saí. Estava um aguaceiro, me molhei toda, eu nervosa, o carro não quis pegar, demorou, oh! Deus, foi um inferno: o porteiro do edifício me ajudou.
            Por que diabo essa mulher apareceu em minha vida?
            Estou fossentíssima, nervosa, muito nervosa, hoje quase gritei com mamãe, que tudo, meu, foi uma decepção.
            Você vai deixar Cris ler isto, você gosta!
            Quando eu ainda estudava tinha um professor que mandava a gente entrevistar pessoas. Sobre o que tinham visto ou ouvido de mais interessante, mas isso que a gente não esquece. Entrevistei papai... Mas não quero parecer o Senador. Papai me disse que Jesus foi a pessoa melhor com a qual ele viveu. Eu não sei porque escrevo isso. Acho que é porque Jesus disse a papai que ele, Jesus, não era bem compreendido. Que ele não era mistério nenhum. Que era preciso arrancar os mistérios que cobrem com verniz sujo a simplicidade. Você gosta desses mistérios, Abelardo. Eu não gosto.
            Estou muito confusa. Por favor, me deixe trabalhar.
            Marluce.
            Narda não vai mais ler coisa nenhuma! Ela me fez uma desfeita. Eu esperei horas, no quarto, depois me ofereci, já lhe contei, me ofereci! Complicam tudo, porra, complicam tudo!

3.

            Em dia da primeira semana de novembro, não sem me pregar um susto, o marido de Lourdes me surgiu no apartamento. Vestia uma roupa escura, mas suas primeiras palavras me aquietaram:
            -- Vim me despedir do ilustre vizinho. Fui transferido para Santos.
            Eu sabia que o bom Eduardo Justino era funcionário do Ministério da Fazenda, mas perguntei: o amigo vizinho trabalha onde? A resposta veio com pormenores dispensáveis e indaguei: É o caso de eu me oferecer para, como deputado governista, ajudar o amigo vizinho? Ele deu de ombros, numa espécie de “tanto faz / tanto fez”, e sentou-se e aceitou a taça de conhaque. Quis saber se podia fazer umas perguntas. Todas, eu respondi. Todas.
            -- Vai dar em quê esta política que esta aí? Tenho pena do Brasil.
            -- Vejo que o estimado vizinho é um patriota. Falarei com toda franqueza, mas peço reserva: estamos a beira de uma crise e os paulistas são os culpados. É como pensam os altos chefes militares com os quais tenho conversado. O nosso querido Brasil não estaria experimentando as dificuldades atuais se meu discurso de agosto tivesse sido bem avaliado pelos paulistas. Não foi. Em essência, meu caro, eu preguei o diálogo, a união nacional, a conciliação, porque, e aqui repeti o nosso Ruy Barbosa, não se cura doido cortando-lhe a cabeça.
            -- Foi Ruy quem disse isto?
            -- Foi.

            Ah, afinal um manso com quem podia conversar:
            -- O estimado vizinho aceita outro conhaque?
            -- Estou de saída. Minha senhora pede desculpas por não ter vindo também. Está nervosa e compreendo. Eu sou do Maranhão, já palmilhei este nosso Brasil de norte a sul, mas ela nasceu aqui mesmo e Santos será uma aventura.
            -- Fique mais um pouco.
            -- Não posso.
            -- Que o senhor e sua senhora sejam felizes em Santos. Tenho certeza de que nada perturbará a felicidade de um casal tão unido, tão exemplar.
            Já na porta o coitado me mandou a pergunta: O senhor acha que haverá revolução no Brasil?
            -- Não, não haverá. Tenho informações fidedignas. Como informei, tenho estado com altos chefes militares.
            Lourdes vai ficar mais calma, Ele disse, antes de sair, e eu pensei: É outro que está com medo, e lhe dei adeus.
            Quando o sr. Eduardo Justino morreu, depois da Guerra, eu já era senador, recebi convite para a missa de mês e fui a Santos e de Lourdes ouvi a frase que nunca vou esquecer: Agradeço muito as alegrias que você me deu, Tônio. Eu disse a ela:
            -- Você foi o lado alegre de minha vida.
            Ah, quase nós nos casamos. Não pôde ser porque ela estava amarrada a um jovem muito necessitado de proteção.


INTERRUPÇÃO – XVI

           
            Meu,
            Querido, Abelardo, proíba Cris de me telefonar, imploro! O blá-blá-blá dele contra Narda vai terminar me botando maluca. Pra Cris: me deixa, tá? Quem sabe de mim sou eu, tá?
            Meu,
            Mamãe encucou com isso de casamento. Mãe foi educada num tempo em que casar era o principal. Ela acha você joia, eu também, apesar de algumas coisas, e você sabe bem. Tá, casamento. Se é para o bem de todos... Se é para Narda ver que não sou rejeitada. Vou viajar! Sair daqui, me sumir.
            Marluce.  





SÉTIMA PARTE






ESCLARECIMENTO – XV




Aos leitores:
            em consequência de gravíssima moléstia de origem nervosa, ocorrida após o nosso casamento, tão emocionante e alegre nas primeiras semanas, minha querida Marluce está cega. Doravante, pois, eu e Cris, sem pressa, datilografaremos o que resta para publicação.
            Devo esclarecer que pretendi aceitar sugestões de Cris e não divulgar a última “Interrupção” datilografada por Marluce. A verdade é que Lu foi agredida por violenta emoção ao ser rejeitada por Narda pela segunda vez e isso causou, segundo a própria Narda, o desencadeamento de fatores etiopatogênicos relacionados com o glaucoma. Daí a cegueira.
            Perguntei-me se deveria atender a sugestão de Cris. Acho que não. Este livro perderia e, com ele, eu, autenticidade, comprometendo todo um trabalho meu – o mais interessante que já realizei na condição de alguém apaixonado pelo metier jornalístico. E, nesta altura, este trabalho é tão meu quanto do Senador. De resto, não foi a própria Marluce quem, sob insinuação minha, defendeu a tese segundo a qual tudo aqui deve ser feito às claras? Não foi ela quem disse que “se o Senador está fazendo o strip-tease dele nós devemos fazer o nosso?”
            Vou, assim, reproduzir a última “Interrupção”.
            Cris: é hora de você parar de jogar toda culpa em Narda. É verdade que, após o casamento, ele nos seguiu da Guanabara à quantas outras cidades estivemos, Lu e eu. Saiba, porém, como a última “Interrupção” prova, que aqui, na Bahia, ao voltarmos, quem teve a iniciativa do desgraçado reencontro foi Marluce e não Narda.
            Outra coisa: Narda tem o direito de entrar nesta casa, deve entrar com toda a liberdade e observar Luce o tempo que julgar necessário, gravar o que ela quiser, etc., desde que está atuando como médica e, se meu julgamento não me engana, uma médica altamente qualificada. Quando ele achar que já dispõe do suficiente para informar a um grande especialista em São Paulo, nós viajaremos. O pior não é, agora, a cegueira. O pior é que Lu está se autodestruindo.
            Salvador, 26 de outubro de 1069
            Abelardo


INTERRUPÇÃO


            Abelardo, Cris, onde foram vocês, em que diabo de buraco se meteram?
            Quase meia-noite, por que vocês me deixaram sozinha?
           
            Ela me telefonou agora, telefonou do apartamento dela, dizendo que eu tinha telefonado prá ela, de tarde, deixando recados, e eu telefonei mesmo. Eu vou lá, não importa que agora seja de madrugada. Eu vou lá.


1.


            O porteiro do edifício também soubera do Golpe – dez, novembro, 1937 – e teve o desplante de subir até meu apartamento, a repetir alegremente a terrível nova que Abelardo já me havia passado pelo telefone. O parvo do porteiro, um cretino, disse: Doutor, a grande novidade está na rua. Me disseram que os soldados do Forte de Copacabana estão cheios de armas... ( E feliz, o filho da puta) É verdade que o senhor perdeu sem emprego de deputado, doutor?
            -- A deputação, senhor porteiro, não é emprego. É o exercício de um mandato cívico, é ser povo e falar em seu nome, honra a poucos concedida. E agora retire-se, uma vez que devo me comunicar sigilosamente com o Ministro da Guerra.
            -- Pensei que o senhor não soubesse de novidade.
            -- Eu sabia disso que o senhor porteiro chama de novidade desde ontem, à noite. O Presidente Vargas comunicou-me sua decisão e também as Forças Armadas. Agora, por obséquio, retire-se.
            Ele saiu e eu fiquei sozinho. Pensei: fechado a Câmara esses sujeitos me arrebentam, preciso de calma, e olhei o telefone pendurado na parede, aparelho preto incrustado numa caixa marrom, de madeira; a parede é azul, eu me disse, De que cor é a morte, Padre Matta? e ele me olhou e disse Ninguém sabe, menino Tonho, e me arrebentam e este telefone não chama, ninguém me chama, ninguém me diz nada, ninguém teve a gentileza de um aviso prévio; Zito, o sacana, cadê ele? Com certeza que desde ontem ou anteontem sabia da estupidez, poderia me telefonar, e nada, se tivesse telefonado, se comigo houvesse dividido as informações reservadas às quais tem acesso então à desgraça do desemprego não se teriam reunido as violência destas surpresas todas, e de novo olhei o telefone, maldito eis que silencioso, desejei pegá-lo, usá-lo, mas a quem pedir informações seguras? de quem solicitar detalhes?    
            As emissoras que sintonizei transmitiam músicas patrióticas e, de quando em quando, a 5ª Sinfonia de Beethoven, Uma rematada heresia, haveria Arimar de dizer, Uma rematada heresia! Use as frestas, Tônio, saia disso, fuja, e morreu, Arimar, os bons morrem e os maus sobrevivem, os nada-de-nada nem vivem e nem morrem, passam, o sr. Ambrósio, por exemplo, uma merdinha de vida, e me beijou as mãos quando doei as oficinas a ele. Abelardo, ao menos, tem mistérios, é intrigante, há de vir, com certeza. É bobagem a gente estabelecer categorias, milhões que sejam, nelas tentando encaixar as pessoas, tudo muda, tudo muda rapidamente, mas há coisas constantes: Abelardo virá. Não devo fazer nada sem antes ouvi-lo, ele é hábil bastante para sintonizar com a mediocridade e o que está aí, vitorioso, é o espírito da mediocridade: por que fechar a Câmara, Meu Senhor Jesus?

            Fechassem o Senado, aquilo é um reduto de sobas, só serve mesmo para apascentar alguns velhos e muitos velhacos, Muito bem, Presidente Vargas, muito bem, indômitos generais e almirantes, se  se trata, senhores, de acabar com certas eleições espúrias, se se trata de, paralelamente, dar uma satisfação ao povo, ao nosso querido povo, vamos fechar o Senado. Uma Nação precisa de quem trabalhe duro, como trabalham os deputados, e se, entre nós, deputados, há alguns descarados, -- e há, Excelências, há os que não vão nem ao Plenário e nem às Comissões! – que sejam postos pra fora do Brasil, que sejam banidos e vão plantar cana no Haiti ou calombudas bananas na Guatemala. Mas, Magníficas Excelências, sejam também premiados os que trabalham com exação e sentido de brasilidade! Quanto a mim, Excelências, bem educado que fui por minha mãe e meu pai, e aprimoradas minhas tendências para a vida pública pelo inesquecível padrasto que tive (calçar o povo brasileiro a preço de custo era o seu radioso sonho!), indaguem o que fiz e tenho feito dentro e fora do País, e um automóvel buzinou forte, podia ser chamado para mim, fui espiar,m não era, e recuei um pouco, devo espiar mas não me expor nesta janela, eu disse ao porteiro que ia telefonar para o Ministro da Guerra, se eu me inclino demasiado ele me verá e pensará que sou um mentiroso, um espalha petas, e pensará certo, quase nada tenho feito senão mentir, oh! Deus, meu senhor Deus, como deve estar sendo torturado o filho do deputado João Otero, e o homem de Engrácia e todos os Artemísios! De que é feita esta gente que enfrentas perigos, não mente?
            Pensando bem, há três categorias de pessoas: os cagados, como mamãe; os paridos, como eu, Lourdes, Lisa, Lucinha, como Engrácia, e tantos outros, e os forjados em aço e fogo, produtos dos amores de Deus com a Natureza, papai, tio Leonardo, o sr. Tarass Bulba, mas estou é me enganando com esta teoriazinha de merda, estou é querendo mudar de assunto, porque na verdade me aporrinha ter mentido tanto. Por que não disse à Epifânia o verdadeiro nome de meu pai, por que falei em Bucéfalo? Que mal faria se eu dissesse Vincenzo, Epifânia, meu pai se chamou Vincenzo? Mentiras, sempre mentiras, e agora entendo: as mentiras são componentes de minha couraça, me protegem, eu preciso de proteção, de segurança, vou é construir a Maior das Grandes Mentiras e caminhar os caminhos que ela me indicar. Todos não fazem a mesma coisa?
            Ainda na janela, recuado, vi a moça de casaco bordeaux passar no outro lado da rua. Mais importante que o casaco bordeaux eram as tranças negras, brilhantes, cabelos sedosos, a moça caminhava e Lisa estava morta. Quero falar dela. Lisa era meiga, bonitinha, gostava de bater coxa quando nos sentávamos no mesmo banco do bonde. Eu a teria feito feliz, juro. Filhos, com certeza desejaria filhos, claro, amor filhos, eu sou estéril, minha querida, mas adotaremos duas crianças, um casalzinho, e no entanto Lisa está morta! Cadê o Deus bondoso, alegre, compreensivo, de quem tanto o senhor me falava, tio Leonardo? Por que me fez assim, duro às vezes, muito sensível outras vezes?
            -- Mas, querida, eu vi o modo como tio Leonardo olhou o sexo de mamãe, os seios dela, eu vi fogo nos olhos dele, juro!
            -- Bobagem, Tônio, você está imaginando – Lourdes me disse. Um homem como seu pai, Tônio, um grande homem, jamais mulher nenhuma o trairia, nem em pensamento.
            -- Você tem certeza?
            -- Absoluta. Não é verdade o que você conta sobre ele?

           
Excelentíssimo Senhor Presidente Getúlio Vargas, Excelentíssimo Senhores Generais e Almirantes, eis que é chegada a hora de reagir contra tudo que conspiram contra a humanização da mulher. Defendamo-la, uma e todas (excetuadas as mães comprovadamente adúlteras) para que possam crescer e cantar, e cantem e procriem novo mundo com os atributos que lhes são inatos: beleza, bondade, singeleza, ternura. Olhai, Excelências, olhai aquela mocinha de casaco Bordeaux, simples e bela com suas tranças negras e longas, olhai-a, peço, é como um animalzinho ferido, talvez estejam danificados os seus pulmões, mas nela ainda há vida, há amor, há delicadeza em seus olhos, e bebi mais e me assustei com o repentino aparecimento de Abelardo. Estava agitado e deixei que falasse à solta e fingi-me calmo.
-- O senhor soube de outros détalhes?
-- Não, Abelardo, não soube, não sei, e nem se afobe por isso. Numa hora dessas, num momento assim, a afobação leva água aos moinhos dos inimigos. A gente fica imaginando coisas. Ponha-se à altura dos acontecimentos e pare de andar de um lado para o outro, como barata tonta. Sente-se.
Uma vez meu pai não veio para a nossa casa da Pituba. Lembro-me de mamãe chorando, me lembro de tio Leonardo acariciando o rosto dela, enxugando as lágrimas dela, usando os dedos para fazê-lo, e fui para a praia, não queria ver aquilo, e quando voltei cada um estava em seu quarto, o dele no quintal, e não dormi, e manhãzinha, o sol nascendo, surpreendi tio Leonardo olhando minha mãe nua, deitada, as pernas escancaradas, aquele brutal grauçá negro, e eu chamei tio, tio Leonardo, tio,e ele, olhos em fogo, me carregou para a praia e gritou e se atirou nas águas geladas, em mim o demônio da suspeita.
-- Tome um conhaque, Abelardo.
-- Eu ficaria mais agitado.
-- Sim, Abelardo, vejamos: que fecharam a Câmara, o Senado, as Assembleias Estaduais, sei, e o que mais? Botaram também éclair nos chibius das mulheres? É o que falta.., Puta vida esta! Que mais, Abelardo, que mais?
-- Hoje, de manhã, afirmando-se desprestigiado porque não conseguiu defender o Legislativo, o deputado (...) seguiu para Minas Gerais.
-- Não “seguiu” porra nenhuma, Abelardo, ele fugiu. Ele nunca foi com minha cara  e nem eu com a dele. Logo, ele fugiu. É um maricas. Que mais?
-- A confusão é geral.
-- Que a confusão é geral, sabe-o o próprio porteiro do edifício e não lhe pago e nem lhe protejo para ouvir comentários desse tipo. Quero fatos, Abelardo, fatos! O rádio disse que a Câmara está cercada, você viu?
-- Vi, fui ver, tropas da Polícia Militar, soldados...
 -- Polícia Militar?
-- Muitos oficiais e soldados, vários caminhões...
-- Será que não se trata de uma medida temporária? Por que não o Exército? Por que apenas a Policia Militar? Isto me cheira melhor. Será que a intenção do Doutor Getúlio não é somente a de dar um punhaço no Senado, chutar uns governadores rebeldes, botar os paulistas na linha, ham? Me coça pensar... As dúvidas envenenam, Abelardo, saiba disso e então vamos agir, vamos nos colocar à altura dos acontecimentos. Em primeiro lugar me passe um telegrama ao Doutor Getúlio. Anote: aspas, Presidente Getúlio D’Ornelas Vargas, bote o d  maiúsculo, bote por extenso a coisa na base de Excelentíssimo Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Doutor Getúlio  D’Ornelas Vargas, e apure se o “Ornelas” dele tem um ou dois lês, ou eles, como dizem aqui. Vejamos, tenha calma. Penso num telegrama de aplausos, nada de rastaquerismos. De apoio, sim, só nos limitaremos ao apoio. Nada de abaixar as calças. Honra não se mercadeja. Anote: aspas, Face  anarquia a se instalar País vírgula decisão patriótica Vossência vírgula adotada momento exato vírgula corresponde e sintoniza superiores interesses da Nação ponto À disposição Vossência vírgula servidor fiel vírgula de pé pelo Brasil vírgula cordial et respeitosamente vírgula deputado Antônio Petrucci vírgula bancada da Bahia ponto fechaspas. Está bom?
-- Não sei se ecoaria bem a referência a deputado. Deputado Antônio Petrucci... O senhor não deu importância ao que eu informei: a Câmara está fechada, o Senado está fechado. Se fosse uma medida temporária, eu acho, o deputado (...) não teria seguido para Minas Gerais, como fez.
-- Ele fugiu, o pulha, não me avisou nada, ele fugiu! Não me repita mais que seguiu. Calhorda, covarde, ele fugiu. Ele tentou arrebentar nossa iniciativa sobre a moratória para os pecuaristas. Agora que está na desgraça, agora que se atreve, o pigmeu, a enfrentar o Presidente da República e os Excelentíssimos Chefes Militares é chegada a hora da forra. E isto, em política, é uma ciência e é uma arte, porque não se pode arranhar a ética. Vou à forra contra pulhas como Moraes, o Teixeira e outros. Quero pisá-los sem contemplação, porque se pudessem fariam o mesmo comigo; você não acha que me pisariam?
-- O que acho, se o senhor me permite, é que ao invés do telegrama o senhor deve mudar de roupa e ir ao Palácio, como os outros.
-- Ainda não, ainda não é hora de aparecer. Entendo que pode haver reação dos paulistas e dos  gaúchos, assanhando os restos. Há muita gente assanhada por aí e os gaúchos, você sabe, são uns malucos. A gente precisa de ter sempre uma bússola e em política a boa bússola indica o Norte da prudência e da informação. Se o fechamento da Câmara se confirmar vamos ter que manobrar muito. Por exemplo: uma Secretaria rendosa no novo governo baiano, pois está claro que vão chutar direitinho o governador Juracy. Ou então teremos de descobrir outras janelas – e me sonhei, talvez até tenha falado, eu me sonhei Presidente do Banco do Brasil, diretor disso e daquilo, e só voltei à realidade quando Abelardo perguntou:
-- Deixo o deputado?
-- Você acha que devo anular minha condição?
-- Eles já anularam. Ao invés de deputado, proponho cidadão...
-- Você está maluco? Cidadão lembra jacobinismo, é esquerda feroz, é comunismo. Eles pensam assim, devemos pensar como eles. Ponha ex-deputado. Sim, ex, uma manifestação de respeito, de acatamento. E não passe o telegrama agora. Melhor esperar um pouco. Vou descansar, mas não saia. Detesto ficar sozinho. Fique por aí escutando o rádio e de olho em Engrácia. Ela me causa cismas.
Não consegui deitar mais do que uns quarenta minutos, umas coisinhas chatas cosidas na memória, formingado: o homem de dona Jerusa apareceu de lepra e aí ficou-se sabendo que a burra abria as pernas para “seu” Servílio, o galego do boteco de Amaralina, e “seu” Servílio era amicíssimo de tio Leonardo, mas isto não tem nada a ver com o que eu estava contando e deixei o gabinete direto para o telefone. Moraes, meu querido, tudo bem? E a excelentíssima esposa? Ótima! Estou sabendo... Antes de tudo a Nação, e sicranos e beltranos, todos perplexo, abestalhados. Ou fingiam a perplexidade e o abestalhamento. A girar nervosamente o dial do aparelho de rádio, alemão, Abelardo esforçava-se por captar as ondas da estação menos prejudicada pela estática. Lentamente, Abelardo, lentamente, afobação dá em nada. Importante era ouvir o que o Presidente Vargas iria dizer. De repente, a voz: Atenção, Brasil, brasileiros e gritei: Aí, Abelardo,não mexa mais neste rádio. Ele vai falar. Falou: Trabalhadores do Brasil... e imaginei um homem exausto, mas seguro de si. As palavras que disse agora se embaralham em minhas recordações. Falou da anarquia da produção, da moeda aviltada, no comunismo ateu e ameaçador, na gritante falta de operosidade  do Legislativo que se entregava à politicalha, e por esse caminho seguiu, frases curtas, medidas, e finalmente afirmou: implantava-se no País, um Estado Novo, devotado ao trabalho e ao bem estar social e sobre a decisão do Governo o povo se manifestaria, em plebiscito. Eu disse a Abelardo: Acaba de ser assinada a sentença de morte do Parlamento. Vesti o paletó, Abelardo perguntou onde eu ia e fingi um ar despreocupado, de quem tinha algo na cabeça, e informei Vou a um cinema, me distraio, esfrio a cabeça e volto logo... Fica entendido que a decisão do Governo é também uma vitória nossa. Sempre combatemos o comunismo e a politicalha imunda e sempre defendemos um Estado Forte. Tente uma ligação com Zito. Localize-o. E saí e dei umas voltinhas, a cabeça cheia de vento, figurações absurdas, e quando voltei Abelardo disse que não conseguira encontrar Zito. Você vigiou Engrácia? Vi três mulatos em atitudes suspeitas na esquina.
-- Ela saiu do quarto.
Abelardo bebeu um conhaque e bebi cinco ou seis. E de repente eu perguntei: Enquanto andava tive ideia de escrever um conto. Ou um romance. Um enredo pavoroso. Ouça: um irmão que ama a mulher do próprio irmão. A mulher o tenta, mas, honrado, ele resolve matar-se. E mata-se! Você acha a história plausível?
-- Eu já vi um filme francês com esse enredo.
-- Francês? Não era italiano?
-- Francês, com certeza. Mas, o senhor sabe, em literatura o importante...
-- Abelardo, você é um rapaz de qualidades notáveis, magníficas! Eu vou dormir. Fique à vontade, sempre espiando a Engrácia e dê umas olhadelas naqueles três mulatos. Esta noite é crucial e os comunistas podem tentar um arrebentemento contra mim.

Uma manhã bonita e Abelardo já se encontrava na sala quando apareci. A cópia do telegrama congratulatório preparado, letras certinhas, pediu que eu conferisse palavra por palavra, e mantinha o ar apatetado da noite anterior. E apatetou-se mais quando avisei que iríamos à Câmara, eu precisava apanhar umas coisas minhas. E ele disse: Acho que seria perigoso ir à Câmara. A Vigilância é enorme. Estive lá ontem, estive hoje, cedinho. Repliquei: Dou muita importância ao que você acha, Abelardo, mas enquanto tomo café, por obséquio, vá à rua e me passe o telegrama ao Presidente Vargas. Ele obedeceu e Engrácia me surgiu com aipim muito bem batido com manteiga, um manjar, e bebi café com leite e avisei: Vou sair com Abelardo e você só abra a porta sabendo antes quem é, e chame todo mundo de excelência, num tempo desses a gente deve saudar com continência até o soldado raso, e bote um brioso antes, entendeu? Falei assim e ri, e ela estava com cara de quem tinha rezado a noite toda, se fé removesse montanhas o homem dela não apenas estaria solto e sim teria asas, um anjo negro. Será que existem anjos negros? Nunca vi, nas igrejas em que estive, honestamente, nunca vi, Engrácia, minha filha, estão ocorrendo no País transformações da maior gravidade e o Presidente da República, que ontem de madrugada me telefonou, me honrou com missão secretíssima (mais ou menos nesta altura Abelardo retornou) e estarei ausente meses e meses e, lógico, não poderei mantê-la, talvez tenha que passar meses no Haiti.
Abelardo, surpreendido, perguntou:
-- Doutor Zito... Ele conseguiu a Embaixada do Haiti?
Ignorei a pergunta cretina e continuei com Engrácia: Vou lhe pagar dois meses de ordenado, faça sua trouxa e procure outro emprego. Não lhe será difícil. Você tem méritos, minha filha. Você, além de mulher jovem, de boas carnes, é uma cozinheira de mão cheia, e ela saiu e indaguei: Quem me garante, Abelardo, que em nossa ausência ela não aceitaria aqui comunistas aliados de seu homem?
-- Uma medida de precaução, acho.
Certo. Pague três meses a ela. E que não me apareça. Você também se comove quando alguém chora? Falo de alguém do povo. Eu me comovo. Não, não falei com Zito e esqueça o Haiti, por favor.
-- O senhor é um homem admirável.
E ele afastou-se e pagou os três meses de Engrácia. Vi Engrácia na rua ela e sua trouxa e perguntei: Alguma vez, Abelardo, eu lhe falei de Lisa? Refiro-me... Esqueça. Ela morreu tuberculosa meses antes do nosso casamento.
-- Tuberculose é a pior doença.
-- Não, é a lepra. Talvez as duas se equivalham. Se todos os sábios do mundo unissem seus esforços...
-- É uma ideia generosa, senhor, mas impossível. Um engenheiro francês que conheci, e eu era bem jovem, me dizia que as impossibilidades dos hojes não devem impedir ninguém de sonhar. Venha, vamos a Câmara. Não pretendo reocupá-la, filho meu, quero apenas que me devolvam o que se encontra em meu escaninho, o único retrato que tenho de meu pai, uns apontamentos... Não há perigo. Tenho comigo aquele telegrama do Presidente Vargas.
-- Temo pelo senhor.
-- Acredito em você, agradeço, mas confesso que já estava pensando noutro assunto. Uma maluquice enorme: pensava em arranjar lugar num avião da “Lati” e, com uns berros, libertar pessoas aprisionadas num quadro que vi em Paris. Uma maluquice. Você tem esses excessos de imaginação?
-- Raramente, senhor.


Abelardo não exagerara: o edifício da Câmara Federal estava ocupado com soldados portando sabres, baionetas, cavalos cagando nas escadarias. Por inadvertência, presunção, ingenuidade, desinformação, tudo isto combinado, eu me dirigi à escadaria principal, a estátua de Tiradentes lá em cima, projetando sombras que eu descobria pela primeira vez, sombras que (julguei) me seriam protetoras, e os degraus de pedras cinzentas me orquestravam um convite, “ Venha, Tônio Petrucci, valoroso, venha, possua-nos, galgue-nos”, e, ademais, em meu bolso havia o telegrama do Presidente Vargas, estandarte, passaporte, salvo-conduto, e eis que comecei a subir os degraus e um tenente me barrou os passos -- Para trás, paisano! – e nesse momento eu deveria ter perguntado: Por favor, onde está o oficial mais graduado? Não falei assim, falei:  Sou deputado e...
-- Era. Hoje não há mais deputados, senadores, nada assim. Para trás.
-- Vim apenas buscar os meus pertences e não grite comigo! Vou retirar-me desta Casa do Povo com a mesma altaneria com que nela ingressei. O senhor leia o telegrama do Presidente Vargas – e o tenentezinho, com cara de paraibano, ter-me-ia dado voz de prisão as a tempo e a hora não chegasse um Major simpático, educado, fino, gentil. Abraçando-me (Calma, senhor, calma, a medida é de ordem geral), Major distintíssimo, ele conseguiu restituir-me ao meu modo de ser autêntico uma combinação de comedimento, bom senso, realismo, e pedi: Leia este telegrama, Major! e leu, reparou na data, murmurou “janeiro, janeiro”, e disse que o Presidente me honrara ao assinar tal documento, Mas, compreenda, temos ordens a cumprir, ordens novas.
-- Evidente! (O tenentezinho me olhava com raiva) Eu desejo apenas o retrato de meu pai, minhas anotações...
-- O telegrama é de janeiro, estamos a 11 de novembro, mas acredito na amizade do senhor com o Presidente da República. Proponho que vá ao Palácio, fale com o Presidente, o Presidente falará com o Ministro da Guerra e virá uma ordem especial. Agora, como o tenente ordenou, para trás. E o tenente tem razão: para trás é para trás. (Você, Abelardo, naqueles momentos dramáticos, você foi de uma covardia revoltante! Onde estavam os restinhos de hombridade que vivem em todos os homens?) Abelardo estava numa esquina...


ESCLARECIMENTO – XVI


            Corte a parte final deste capítulo, Cris. O Senador jamais compreendeu que eu lhe seria mais útil solto do que preso. Se ele fosse detido, quem adotaria as providências? Tornou-se indispensável levar Marluce a São Paulo. Almoce aqui. Eu virei no fim da tarde. Uma preocupação de Narda é a seguinte: se Marluce conversar com você sobre o passado não se emocione. Grave tudo. Sobre as memórias: recomece a partir do capítulo seis.
            Abelardo. Assim como faço. A.


6.


            Eu disse a Abelardo:
            Depois do que houve da manhã, me faça o favor de esquecer aquilo do exemplo português. (Esclarecimento – XVII. Aos leitores: Após o incidente na Câmara, o Senador julgou que talvez valesse a pena conceder uma entrevista. Nela, como me disse, iria sugerir um Poder Autoritário, mas com a Câmara funcionando, de acordo com o modelo português. Desenvolveu essa ideia nos capítulos 2 e 3, nos quais, em meio a teorizações delirantes, me faz agressões as mais injustas. Ele chegou a pensar em conseguir a Embaixada do Brasil em Portugal! A).
            Falar em reabrir a Câmara agora é uma besteira. Portugal e Câmara que se estrepem. Tenho que pensar noutro esquema. Eu vou andar por aí, Abelardo, faça novas tentativas de localizar o Zito. Bolas, ele não é invisível – e andando pelas ruas de Copacabana, cuidado de não chegar muito perto do Forte, convenci-me que se o Flores da Cunha não houvesse feito, em o mês passado, aquela gauchada idiotas, insistindo no levante da Brigada Militar, talvez não sofrêssemos nada do que está acontecendo. Importante, nessas maluquices de sublevações, é o Exército. Ah!, esses militares... Eles não ajuízam as impossibilidades dos civis, acicatam, querem definições na tampa. Arriscam-se (alguns) e querem a pulso que a gente se arrisque. Em que baú meteram o bom-senso? Quero e exijo que compreendam meu direito de não ser igual aos outros, eu fui feito de matéria estranha, eu fui feito de grandes afetos e carinhos, eu fui feito de misteriosas invocações a misteriosos Deuses e de repente a ponte de ternura que Lisa me estendeu foi assassinada pela morte / -- Compartilho do luto do senhor, de sua excelentíssima esposa, de toda a família; desejei visitar Lisa, mas temi a emoção que certamente causaria à pobrezinha; digo que se o senhor perdeu uma filha amantíssima, eu perdi uma esposa, eis que iria pedi-la em casamento /, é melhor que não entre naquele cinema, lamentável que Margarida Max tenha encerrado sua temporada no Teatro Municipal, do contrário iria ouvi-la outra vez. Que voz! Dizem-na melhor do que Melba, pode ser, mas já li que Melba tem é um canário enfiado na garganta, um canário mágico; é melhor que eu vá mesmo a um cinema, uma comedia de Carlitos, ou não? Com certeza, agora, enquanto estou aqui, diante desta árvore, outros deputados estão no Palácio a parabenizar o doutor Getúlio, é uma ignomínia, uma ausência de decoro, nesse Carnaval de impudência ninguém me verá; limitar-me-ei, por enquanto, no telegrama congratulatório e permanecerei aqui até dezembro, janeiro, nessas alturas / Que destino teve Creusa, internada no Convento da Lapa? / se eu não conseguir, mas trilhando caminhos corretos, uma boa achega, volto para a Bahia, até porque a Bahia se tem defeitos, tem suas virtudes, aquela brisa é agradável, raramente cessa de correr, é bom respirá-la, e de novo para a árvore eu disse: este é um tempo horríveis privações para quantos acreditam no Homem e nas suas virtualidades; há vendavais quando deveria haver brisas cálidas; há maremotos onde antes eram mansas e azuis as águas, puta-que-o-pariu!, e os espinhos sangram as rosas de que são parte e que devem proteger, e é isto o que está acontecendo, é isto! Perversamente os espinhos sangram as próprias rosas! / Mon ami, mon cher Tonio: il est mort. Rosenda. /  Devo voltar ao apartamento. Memórias assim me enfraquecem, me desarmam. Volto para o apartamento. Não. Entro num bar, árvore, peço licença para telefonar, falo com Abelardo / O que, Epifânia? Quem lhe falou sobre Lourdes? Abelardo? O porteiro do edifício, esse canalha adesista? Deixe-se desses salamaleques sentimentalóides que você não é disso; e quanto a mim, saiba, meu território afetivo já tem dona e rainha, e me abra estas pernas! /, e ele dirá se encontrou Zito ou não. Por enquanto o certo é ficar aqui, me meter no meio do povo, não dizer nada mas ouvir muito, até porque fui impulsivo com  aquele tenente, mas atendi o Major, homem de boas maneiras e gentil, severo, sem dúvida, claro, um Major não pode discutir o que manda fazer um coronel. Árvore, ouça: no dia em que, no âmbito militar, uma ordem se tornar questionável pelo escalão inferior então tudo estará perdido. É assim que penso, senhor Major, mas não pretendia violar as ordens, eu queria de volta o retrato de meu pai, um retrato ovalado, é um único retrato de meu pai que existe, foi tirado na Itália, semanas antes de ele embarcar para o Brasil,  (uma outra foto, Abelardo, feita em Nápoles, mamãe e o sr. Giuseppe devem ter roubedo, destruído, queimado), note o casario que faz paisagem, e se o senhor devolver a foto fará o favor de notar que, do lado esquerdo, em baixo, há ainda a indicação do estúdio fotográfico, Sterzi, o fotógrafo se chamava Sterzi, nunca esqueci porque um dos vinhos italianos razoáveis que bebo é o Valporicella-Sterzi. Diga de novo para o Major, Árvore, diga que de Nápoles ele saiu em busca de São Paulo, mas não esteve a contento, brigou com um primo, e foi para a Bahia com tio Leonardo, e maluco pelo mar e as coisas do mar, tio Leonardo embrenhou-se Pituba adentro e meu pai passou a morar na rua do Tijolo, uma pensão mais ou menos para proletário e ali minha mãe fazia as vezes de doméstica, e ele trabalhava no couro, trabalhava e cantava e foi trabalhando / cantando / bebendo, a verdade é que ele bebia muito, foi assim que se casou, levando minha mãe para os fundos de sua lojinha no Taboão, uma casa encardida, me lembro, limo verde-escuro nas paredes do quintal de terra sempre molhada, eis que para aquela área convergiam as calhas dos sobrados laterais, mas nós não nos demoramos ali, isto quanto a morar, papai decidiu transformar em casa atijolada a palhoça de tio Leonardo na Pituba, e foi ótimo, maravilhoso, eu que era sempre doentinho passei a quase não ter  doenças, meu pai não parava de cantar (“Oh! Mari! Oh! Mari”) e seu italiano ele o abastardava cada dia mais, nem bem italiano, nem bem português, e íntegra, poderosamente íntegra, a sua alegria, íntegra a sua ingênua brutalidade, e me beijava na boca, e em mim persistia o travo da bebida que o excitava para uma ternura só possível aos de grandes e generosos corações, e isto o senhor há de perceber desde que olhe detidamente o retrato, e uma força, senhor Major, que eu não sei mesmo definir, uma força a deixar rastros em cada coisa apalpada em cada caminho percorrido; o senhor ri, Major? Está bem, é explicável que o senhor me ache um homem estranho, isto eu não discuto / Senhor doutor Enádio Pontes de Azevedo: com estas linhas, meu prezer pelo infausto passamento do eminentíssimo mestre e amigo, Professor (...). Transmita minhas condolências a Lucinha, sua esposa fiel e minha afilhada, e à inditosa Creusa. Aguarde para breves dias, o decreto de promoção já assinado pelo Ministro mas dependente de publicação no “Diário Oficial”, cujo exemplar enviarei. Espero estar presente à missa do trigésimo dia, se as circunstância políticas tanto me permitirem. Do patrício, amigo e admirador, Antônio Petrucci /, nunca discuti com quem quer que me considere esquisito, eis que ninguém me entende. Você, não, árvore, você entende porque é árvore. Vocês, as árvores, trocam mensagens secretas. A vocês aves contam tudo e de tudo os pássaros sabem. Se dependesse de mim eu entenderia o que me rodeasse, eu saberia da alma de cada pessoa, mas isto é impossível, eu sei, isto é uma maluquice, porque há um erro de essência na formação do Ser Humano. Por que não um tempo de Vincenzos e Lisas, a prolongar, desde o princípio, outros Vincenzos, outras Lisas, outros Leonardos, outros Arimar, outros Artemísios, outras Rosendas e tantas e tantos outros mais? E não me venha dizer que seria monótono. Por que? Acaso não seríamos solicitados a distinguir, e mesmo até a nos conflitarmos, entre diferentes formas de beleza e de virtude? Não têm, elas, virtudes e belezas, diferentes gradações? Arimar me disse, recordo: Não há um azul, Tônio, há azuis; não há um sorriso, há sorrisos; não há amor, há amores. Entendeu?
            -- Quero fósforo, uma caixa.
            -- Dos de cera?
            -- Não importa.
            No barzinho, esquina da Hilário Gouveia com a Avenida Atlântica, resolvi espiar os que me cercavam, apanhando palavras ao acaso. Um sujeito disse que o Governo devia era prender não um ou vinte deputados, devia era “meter todos os cornos, sem exceção, no xilindró, e pau neles”, e saí, e me disse: entro num cinema ou volto para casa, imprudente é andar sem destino, a ouvir cretinos que não entendem de nada e opinam sobre tudo, sobre o que há de mais sério, sim, o povo é perigoso, neles se mesclam Artemísios, Ambrósios, Honórios, Engrácias, e órios escondidos em catacumbas e ácias disfarçadas como domésticas, e um dia se juntam arrombam a cerca e tudo estará perdido, Vossa Excelência tem razão, Excelentíssimo Senhor Presidente Vargas / Rosenda, minha cara amiga. Beijo seus olhos e neles, beijo suas lágrimas de dor e de saudades. Tônio, / este povo maluco, ignorante, merece é porrada, isto eu sempre disse a Arimar, um grande amigo, eu a favor de Teogne, ele contra; Teogne, Excelência? Um grande poeta grego. Vossa Excelência quer ouvir um trechinho dele? Não quero bancar o importante dizendo em grego, vou direto no português, Excelência: “Calça com o tacão a plebe imbecil, pica-a com chuço bem pontudo e prende-a com jugo bem apertado, porque jamais encontrarás gente mais amiga da servidão, entre os mortais que o sol ilumina”, e eu, meu amor, eu vou ficar desempregada?, se Epifânia ainda não me telefonou para fazer uma pergunta de tal jaez é porque está se torrando de medo. Por que agora me recordo de insignificâncias como Epifânia? Meu mal, meu grande erro, foi jamais ter conseguido a amizade dos poderosos deste País, amizade férrea e não isto de bom dia, Excelência, pois não, Excelência, certamente que sim, Excelência. Um defeito de caráter, má influência do Professor (...), e não só isto, e sim principalmente o peso dos antes. Hoje eu não consigo despir a armadura com a qual sempre me protegi e me protejo de todos, por isso eles não ficam nus em minha frente, têm medo que eu os golpeie, tanto quanto os temi e temo. Até com Zito tenho minhas reservas, medos armazenados em minhas mentiras, meus silêncios, minhas ambiguidades. Se um pouco de minha infância contei a Zito, não lhe falei do tio Leonardo olhando minha mãe nua, escondi meu ódio ao sr. Giuseppe. Não lhe falei de Lisa, e entendo: se de Lisa lhe houvesse dito algo eu o faria de modo tão romântico, tão terno, tão sem minha armadura protetora, que ele, Zito, me consideraria um fraco. Abelardo poderia saber tudo de mim, e jamais desejou, sempre me impediu. Uma vez fomos juntos ver os túmulos de meu pai e de Arimar e chorei e disse versos de Gothe: “Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de sol / Eles não poderiam vê-lo. Se na borboleta noturna não houvesse qualquer coisa de morcego / Sua vida pouco duraria”, você entendeu?
            E fingiu olhos úmidos e nada perguntou. E me irritei e disse: Vamos, depressa, cemitérios me deprimem. Você é sepulcral, Abelardo! Ele simulou não compreender a alusão, simula ainda, simulará sempre. Epifânia? Sequer sou íntimo dela, espiritualmente. Sirvo-me, pago o que devo pagar e, depois do gozo, logo depois, out, se vista, estou com sono, todo nervoso necessita de muitas horas de sono e sou um grande nervoso. Vá, saia. Eu devia ter explicado a Zito que sou um grande nervoso, e não lhe revelei quão vadia é a minha imaginação (pouco percebeu depois que vi o quadro, em Paris, a mudança do meu comportamento), nem lhe confidenciei que, por vezes, reúno em meu gabinete grandes personagens literários, meu pai num canto, tio Leonardo no outro, ambos em cadeiras de balanço, Arimar... e agora, aqui, neste caminhas, eu, Tônio Petrucci, sou um bagaço, nada mais do que um bagaço. Se eu for ao Palácio do Catete, em este momento, é assim que vão me considerar. Vou é para casa.



Ele estava intranquilo, Abelardo, e eu pensei: demitiram-no. Decerto falou com Zito e recebeu a má notícia. Isto é bom (pensei), o desemprego é garantia de que ficará ao meu lado; dependente, não me deixará sozinho. Perguntei: Falou com Zito, conseguiu? Respondeu: Ele está no Paraguai. Exaltei-me: Trepando paraguaias, o cretino! É o fim. Onde é que anda o patriotismo dessa gente? Tomara que pegue um cancro! Que mais, Abelardo, fale. Ele bebeu um resto de conhaque: Trote contra o senhor. Voz de homem, dizendo que é militar, fazendo ameaças. Disse que não passará em brancas nuvez a defesa que o senhor fez em favor de militares que apoiaram Prestes, Luis Carlos Prestes, em aquele discurso do ano passado. Voz fanhosa...
-- Tolice, um trote maluco. Bom, que mais?
-- Ouvi no rádio que alguns deputados foram presos. Muitas manifestações de apoio ao Presidente. Todos estão aderindo. 
-- Ficarei com o senhor. Disse assim, Abelardo, e olhou a garrafa de conhaque, sugeriu que eu não deveria beber mais e o interrompi: Aprecio seu conselho, Abelardo, mas eu sei que quantidade devo beber, não preciso da coragem que o álcool dá e sim do discernimento que favorece. Tenho sido agredido e não quero perder a tramontana. Quem quiser me ferir muito, profundamente, que me traia. E eu me considero traído. Eu posso compreender erros e perdoar muito, mas não compreendo e nem perdoo a traição. É a pior das ofensas. O traidor me anula todas as oportunidades da competição. Porque a traição supõe, necessita, impõe, ciganiza, conspurca, viola, violenta com perfídia a boa-fé do traído. Espero que você me entenda...
            -- Reafirmo que ficarei com o senhor.
            -- Jamais duvidei disso. Agora, traga-me duas cópias daquele discurso sobre os oficiais do Exército que foram aludidos pelos Luis Carlos Prestes. Quero tê-las comigo. Se me prenderem exigirei que o texto do discurso conste do inquérito. Meu beiço está muito inchado?
            Senhoras e senhores, Abelardo, Nezinha, meu inesquecível dr. Augusto: eu poderei escrever páginas e páginas sobre o que sofri naquela noite. Eis um pequeno exemplo: lá pelas onze horas, Abelardo se propôs a comprar sanduíches, antes que a pastelaria fechasse, aquiesci mas me disse: Arranjou uma boa desculpa e vai embora, o safado. Abri uma garrafa de uísque (bebida raríssima, naquela época, em termos de Brasil) e bebi duas doses e robustei o compromisso: se recorrerem às torturas cortarei os pulsos, a jugular, morrerei. E Abelardo voltou e a meia-noite, por aí, quando o telefone voltou e a meia-noite, por aí, quando o telefone voltou a tocar, eu disse: Vá, atenda. Mexa-se! E vi como, um a um, à medida em que ouvia o interlocutor, os músculos da face de Abelardo se foram descontraindo, e pensei: Não é o fanho, é Zito! Deus seja louvado, é Zito. E bebi mais um uísque.
            -- Publicam! – Abelardo exclamou, e tirando a mão do bocal do aparelho continuou a falar: Sim, nós agradecemos, diga ao dr. Geraldo que nós agradecemos, penhoradamente. Em seguida, preferindo conhaque ao uísque, Abelardo explicou que a carta sairia, na página sete ou oito, mas, em troca, eu deviria escrever uma carta ao tenente, oferecendo desculpas, uma carta pessoal, não seria publicada, iria constar do curriculum-vitae (?) de maçote atrevido, e decidi: Faça a carta. Abelardo, faça dez cartas, se ele quiser mais, faça cem cartas! Sapeque o “mal-entendido” e pronto, assunto encerrado. Agora o que resta é o fanho...
            -- Um trote, algum inimigo gratuito. Se houvesse um esquema armado, senhor, o capitão Borja não autorizaria a publicação da carta. Aliás, acho que a carta deve ser reproduzida em todos os jornais, como matéria paga.
            -- Não. Você atuou excelentemente, você será meu herdeiro. Mas republicar a carta seria chamar a atenção de terceiros. Se a malvadeza saiu na “Folha” que morra na “Folha”. Abelardo, por favor, ouça: pegue um carro de aluguel, vá ver o tal capitão Borja, se grude nele, seja amigo do sobrinho dele, e faça tudo – tudo! – para eu ter de volta o retrato de meu pai. Não importa quanto custe: eu quero de volta o retrato de meu pai. Você fará isto para mim? Eu lhe peço. Não é uma ordem, e um pedido. Por favor.
            E Abelardo saiu, decidido, determinado. Às três e quinze da madrugada eu fui ao sanitário e livrei-me do pedaço de lâmina e me disse diante do espelho: Malgrado tudo, Tônio Petrucci, você é um homem. Não é um Vincenzo, um sr. Bulba, um Artemísio, um João Otero, mas é um homem. Uma Nação não é composta de heróis e heróis, ou mártires, mas é de igual modo feita por homens somente, não haveria heróis se todos fôssemos heróis, inexistiriam os heróis se não vivêssemos, para aplaudi-los, os homens simples.
            O sanitário estava deserto, como sempre, sem testemunhas. Pensei em Abelardo: ele teria êxito junto aos Borjas? Depois de retirar o pedaço da lâmina de barbear, envolto em algodão, joguei-o na latrina e, por força do hábito, puxei a descarga. Eu. 

-- Ficarei com o senhor. Disse assim, Abelardo, e olhou a garrafa de conhaque, sugeriu que eu não deveria beber mais e o interrompi: Aprecio seu conselho, Abelardo, mas eu sei que quantidade devo beber, não preciso da coragem que o álcool dá e sim do discernimento que favorece. Tenho sido agredido e não quero perder a tramontana. Quem quiser me ferir muito, profundamente, que me traia. E eu me considero traído. Eu posso compreender erros e perdoar muito, mas não compreendo e nem perdoo a traição. É a pior das ofensas. O traidor me anula todas as oportunidades da competição. Porque a traição supõe, necessita, impõe, ciganiza, conspurca, viola, violenta com perfídia a boa-fé do traído. Espero que você me entenda...
            -- Reafirmo que ficarei com o senhor.
            -- Jamais duvidei disso. Agora, traga-me duas cópias daquele discurso sobre os oficiais do Exército que foram aludidos pelos Luis Carlos Prestes. Quero tê-las comigo. Se me prenderem exigirei que o texto do discurso conste do inquérito. Meu beiço está muito inchado?
            Senhoras e senhores, Abelardo, Nezinha, meu inesquecível dr. Augusto: eu poderei escrever páginas e páginas sobre o que sofri naquela noite. Eis um pequeno exemplo: lá pelas onze horas, Abelardo se propôs a comprar sanduíches, antes que a pastelaria fechasse, aquiesci mas me disse: Arranjou uma boa desculpa e vai embora, o safado. Abri uma garrafa de uísque (bebida raríssima, naquela época, em termos de Brasil) e bebi duas doses e robustei o compromisso: se recorrerem às torturas cortarei os pulsos, a jugular, morrerei. E Abelardo voltou e a meia-noite, por aí, quando o telefone voltou e a meia-noite, por aí, quando o telefone voltou a tocar, eu disse: Vá, atenda. Mexa-se! E vi como, um a um, à medida em que ouvia o interlocutor, os músculos da face de Abelardo se foram descontraindo, e pensei: Não é o fanho, é Zito! Deus seja louvado, é Zito. E bebi mais um uísque.
            -- Publicam! – Abelardo exclamou, e tirando a mão do bocal do aparelho continuou a falar: Sim, nós agradecemos, diga ao dr. Geraldo que nós agradecemos, penhoradamente. Em seguida, preferindo conhaque ao uísque, Abelardo explicou que a carta sairia, na página sete ou oito, mas, em troca, eu deviria escrever uma carta ao tenente, oferecendo desculpas, uma carta pessoal, não seria publicada, iria constar do curriculum-vitae (?) de maçote atrevido, e decidi: Faça a carta. Abelardo, faça dez cartas, se ele quiser mais, faça cem cartas! Sapeque o “mal-entendido” e pronto, assunto encerrado. Agora o que resta é o fanho...
            -- Um trote, algum inimigo gratuito. Se houvesse um esquema armado, senhor, o capitão Borja não autorizaria a publicação da carta. Aliás, acho que a carta deve ser reproduzida em todos os jornais, como matéria paga.
            -- Não. Você atuou excelentemente, você será meu herdeiro. Mas republicar a carta seria chamar a atenção de terceiros. Se a malvadeza saiu na “Folha” que morra na “Folha”. Abelardo, por favor, ouça: pegue um carro de aluguel, vá ver o tal capitão Borja, se grude nele, seja amigo do sobrinho dele, e faça tudo – tudo! – para eu ter de volta o retrato de meu pai. Não importa quanto custe: eu quero de volta o retrato de meu pai. Você fará isto para mim? Eu lhe peço. Não é uma ordem, e um pedido. Por favor.
            E Abelardo saiu, decidido, determinado. Às três e quinze da madrugada eu fui ao sanitário e livrei-me do pedaço de lâmina e me disse diante do espelho: Malgrado tudo, Tônio Petrucci, você é um homem. Não é um Vincenzo, um sr. Bulba, um Artemísio, um João Otero, mas é um homem. Uma Nação não é composta de heróis e heróis, ou mártires, mas é de igual modo feita por homens somente, não haveria heróis se todos fôssemos heróis, inexistiriam os heróis se não vivêssemos, para aplaudi-los, os homens simples.
            O sanitário estava deserto, como sempre, sem testemunhas. Pensei em Abelardo: ele teria êxito junto aos Borjas? Depois de retirar o pedaço da lâmina de barbear, envolto em algodão, joguei-o na latrina e, por força do hábito, puxei a descarga. Eu.  

ESCLARECIMENTO – XVIII





            Marluce está morta.
            Não tem mais sentido insistir nas “memórias” do Senador Petrucci. O essencial, por enquanto, já foi dito. Nas atuais circunstâncias, ou, como ele diria, “considerada a atual conjuntura”, liberei o máximo possível. Como antes prometi, os originais serão enviados ao arquivo da Biblioteca Nacional.
            Por dever de justiça peço aos que nos acompanharam ao longo do que eu considero uma tragédia, a de Marluce, peço não sejam precipitados ao julgar a doutora Narda. Agora, quando datilografo estas últimas linhas, estas palavras finais, o corpo de minha esposa está sendo velado no Cemitério do Campo Santo. Nós, Narda e eu, o trouxemos de São Paulo. Aos leitores e, especialmente, a você, meu querido Cris: Marluce não se matou. As versões que correm sobre o suicídio são absurdas. A morte, que já estava nela, a consumiu em semanas. Vou transcrever um dos trechos mais importantes do diálogo de Marluce com um dos mais renomados psiquiatras do Brasil e, sem favor, do mundo, omitindo-lhe o nome por dever ético:
            Voz do médico – Vejamos se eu entendi: poucos anos depois da senhora nascer, seu pai abandonou a casa.
            Voz de Marluce – Um ano seis meses, mas ele não teve culpa. Ele não sabia o que estava fazendo. Ele sempre vivia bêbado.
            Voz do médico – A senhora tinha, como disse, um ano e seis meses. Como a senhora pode afirmar que ele não teve culpa?
            Voz de Marluce – Tia Gertrudes me contou.
            Voz do médico – Segundo o que li na ficha da senhora, a senhora não admite um caso amoroso entre...
            Voz de Marluce – Não! Tia Gertrudes era corcunda e nunca abandonou mamãe, nunca! Por que estas perguntas? Abelardo, eu quero ir embora. Este homem está me torturando!
            Eu – Tenha calma, Lu, querida, tenha calma.
            Voz do médico – Minha senhora, por favor, estou tentando ajudá-la. Não tenha medo. Responda: de algum modo a história do Senador Petrucci influiu...
            Marluce – Eu chorei, no começo. Enquanto ele era criança.
            Voz do médico – Acredito que estamos progredindo. Ontem, lembre-se, a senhora quis contar sua última visita à doutora Narda. E eu a impedi. Presumo que a senhoras parece demonstrar muita necessidade de contar. Conte.
            Marluce – Foi de madrugada. Abelardo e Cris tinham me deixado sozinha. Antes de pegar o carro, eu peguei o telefone e avisei a ela. Avisei: vou pra ir ver você. Ela disse: venha. E eu fui. Toquei a campainha e ela abriu a porta e ela estava linda, inteiramente nua, e me estendeu a mão, disse que estava esperando que eu chegasse. O senhor não conhece ela, doutor, ela é lindíssima, eu tinha telefonado pedindo que ela não me abandonasse.
            Eu – Você já contou isto ontem.
            Voz de Marluce – A cama dela é das antigas, dessas bem largas, e ela se deitou e eu pedi um uísque. Respondeu que não, para que eu ficasse pura, tirasse o vestido e deitasse. Disse depois que me amava e que a gente ia sentir um prazer como nunca, porque Deus estava a favor. Então eu deitei ao lado dela. Abelardo, me dê sua mão, eu estou nervosa... Doutor, não é que eu esteja toda cega, eu vejo névoas... Conto tudo a ele, Abelardo, tudo?
            Eu – Conte.
            Voz de Marluce – Eu deitei, já disse, eu deitei, mas aquilo de Deus me botou a cuca ardendo. Aí ela pegou em minha mão, com muita delicadeza, pediu que eu fechasse os olhos. Eu pensei que ela fosse me beijar, que é o que eu queria, mas o que ela fez foi pedir que eu me concentrasse, imaginasse uma cascata, a água da cascata a cair sobre pedras, água límpida, água pura, caindo, caindo, ela repetia, “água límpida, pura, sobre blocos de pedras brancas”, e repetia o “caindo, caindo”, e eu pedi “me beije, Narda”, ela respondeu “não ainda não, tenha calma”, ela uniu nossas coxas, exigiu que eu pensasse na cascata, pensasse, ficasse pensando, Deus faria o resto, e eu pedi “pegue em mim, pegue dentro de mim”, ela respondeu “não Marluce, não seja imunda”, e eu soltei a mão dela, beijei ela na boca; ela lutou comigo, me expulsou da cama. “Você não me merece” – ela disse – você é imunda”. E passou a gritar comigo: “imunda! Imunda!”, e eu gritei, gritei...
            Penso que basta. Não sei em que medida cenas que se passaram na residência do falecido Professor (...), narradas minuciosamente pelo Senador Petrucci, teriam contribuído para exacerbar certos instintos de Marluce. Não pretendo dar respostas sobre questões que estão acima dos meus conhecimentos e da minha experiência.Após o enterro de Marluce, confessando com honestidade um certo sentimento de culpa, Narda me disse que, bem intencionada, tentara usar Marluce como uma cobaia, lamentando-se por ignorá-la tão frágil. E aconteceu-me, Cris, uma decisão: a de seguir Narda, viver com ela emoções novas, provar que os homens, se delicados, e ao mesmo tempo, se viris, não são porcos. Um desafio e ela disse que aceitaria. Viajei para Zurique, onde ela já se encontra. Que resta a pessoas como eu senão incessante buscas de emoções novas? Antes que os Artemísios nos esmaguem que nos resta senão aproveitar cada sensação permitida pelo corpo e pela mente?
            Deixo cópia desta última lauda para você. Viajarei amanhã para o Rio. Escreverei de lá. Até breve, Cris. Salvador, 11 de dezembro de 1969. Abelardo D’Antunes.

Os textos em grego e as traduções eu os devo a  Julimar Cardoso, in “No País de Ulisses (Uma História da Literatura Graga)”, 1953, livraria Progresso Editora, Salvador, Bahia. A.M            



             











  

Comentários

  1. Ainda não terminei de ler, e gostando. Esse trecho, então...

    'Eu posso compreender erros e perdoar muito, mas não compreendo e nem perdoo a traição. É a pior das ofensas. O traidor me anula todas as oportunidades da competição. Porque a traição supõe, necessita, impõe, ciganiza, conspurca, viola, violenta com perfídia a boa-fé do traído. Espero que você me entenda...'

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