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Mostrando postagens de Setembro, 2017

O Gesto e o Espanto - Ariovaldo Matos

O Gesto e o Espanto
Diante do espelho, procuro a melhor posição. Esforço-me por não reencontrar, nele refletida, a imagem do operário Anatólio, seu espanto, seus dedos de falanges esmagadas. O espelho me liberta. Olho-me em pedaços, sem pressa, e digo a mim mesmo, com um certo contentamento, que este tempo do grande equívoco, da violência e da estupidez (foram estas, com efeito, foram estas as palavras que disse ao delegado), este tempo, digo-me, ficará aprisionado neste fio de barba cuidadosamente preservado da lâmina. É negro, cresce lenta e desordenadamente, encaracola-se. Aos amigos, aos alunos, mais tarde, destruído o erro direi: “permaneci preso tantos centímetros de barba”. Será uma frase de espírito, como me convém. Gostaria, contudo, que fosse branco, como são prateados alguns fios dos meus cabelos. Pô-lo-ia, ao ser libertado, numa caixa forrada de veludo negro, destacando-o. E preto, no entanto, é um fio de barba preto, e terei de contentar-me em depô-lo sobre algodão alvís…