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O Gesto e o Espanto - Ariovaldo Matos


O Gesto e o Espanto

Diante do espelho, procuro a melhor posição. Esforço-me por não reencontrar, nele refletida, a imagem do operário Anatólio, seu espanto, seus dedos de falanges esmagadas.
O espelho me liberta. Olho-me em pedaços, sem pressa, e digo a mim mesmo, com um certo contentamento, que este tempo do grande equívoco, da violência e da estupidez (foram estas, com efeito, foram estas as palavras que disse ao delegado), este tempo, digo-me, ficará aprisionado neste fio de barba cuidadosamente preservado da lâmina. É negro, cresce lenta e desordenadamente, encaracola-se. Aos amigos, aos alunos, mais tarde, destruído o erro direi: “permaneci preso tantos centímetros de barba”. Será uma frase de espírito, como me convém. Gostaria, contudo, que fosse branco, como são prateados alguns fios dos meus cabelos. Pô-lo-ia, ao ser libertado, numa caixa forrada de veludo negro, destacando-o. E preto, no entanto, é um fio de barba preto, e terei de contentar-me em depô-lo sobre algodão alvíssimo, acondicionando-o naquela caixinha de prata que recebi como herança de meu avô. Será um símbolo. Valerá mais, muito mais, do que o chicote de meu avô, por meu pai pregado atrás da grande porta da varanda. Esse chicote, agora sem significado, muitas vezes eu o mostrei a meus colegas e disse-lhes:
-- Meu pai nunca o usou. Continuará sempre assim, fortemente pregado.
Penso: mais alguns anos, não muitos, meus filhos estarão rapazes e também se orgulharão deste símbolo. Mostrá-lo-ão aos amigos e colegas, e repetirão minha frase de espírito.
Alegra-me está facilidade com que me consigo projetar no futuro. A imaginação solta permite-me aquisições passageiras, mas, em todo caso, agradáveis e enquanto elas perduram meu ânimo se retempera. Descubro, assim, novas razões para a resistência contra o equívoco brutal, a iniquidade a que estou sendo submetido. Isto, provavelmente, é o que faltava ao ferroviário Anatólio. Será, talvez, um homem desprovido de imaginação disciplinada. Ou estarei enganado? Não importa. Quanto a mim, sei que estão sendo iníquos, mas não me vencerão. Resisto aos algozes, continuarei a resistir-lhes,, apesar das ameaças. Contra eles, sim, seria válido o uso do chicote de meu pai. Vão demitir-me da Universidade? – pois bem, estúpidos, demitam-me! Atrevem-se a sugerir possíveis torturas físicas? ­– pois bem, animais, torturem-me! De mim não arrancarão  uma palavra que me desonre. Disse isto ao delegado, sem soberba, mas firmemente. Disse-lhe: “este equívoco os senhores não o desfarão às minhas expensas. Os senhores pagarão o preço do crime’’. Não creio que o delegado, afinal um primário, a julgar pelas indagações feitas, tenha alcançado o significado de minha posição de princípios porque, na verdade, tantos meses decorridos, aqui ainda me encontro preso. Eles julgam, os estúpidos, que me levaram ao desespero. Uns idiotas, nada mais do que idiotas. E no entanto esses imbecis é que dispõem da força. Usam-na como entendem e me atiram a esta cela com este ferroviário. Erraram, porém, ao permitirem este espelho que um cordão sustenta, um cordão sujo pelos detritos de moscas. É nele que me liberto, durante algum tempo, cada dia. Liberto-me para reunir forças e alcançar, indene, o dia seguinte – e não me importam os meses, os anos. Manter-me-ei fiel. O espelho ajuda. Os imbecis não compreendem isto. E menos ainda compreenderiam se, de quando em quando, não se refletisse no espelho a imagem do ferroviário Anatólio, seu gesto e seu espanto.
Agora o ferroviário resolveu sentar-se sobre o seu colchão dobrado. Abandono o fio de barba e detenho-me a pesquisar os cravos disseminados pelo rosto. Preciso revê-los. São simples pontinhos, entre cinza e negro, e eu já os conheço a todos. Confesso que os cultivo com alguma devoção. São-me necessários. Ajudam, igualmente, a que me liberte. Mas não poderão revestir-se de um valor simbólico. No princípio, quando imaginei utilizá-los, dominou-me uma espécie de nojo, mas já estes pontinhos negros me são úteis. Um, sob o olho direito, desenvolve-se com rapidez, amadurece, e imagino que amanhã, ou no sábado, poderei espremê-lo. Antes, na minha vida normal, como professor universitário sequer me dava ao cuidado de atentá-lo, senão de raro, advertido pela esposa. Tinha vida para viver. Agora, aqui, na prisão, tudo quanto eu disponho é tempo para gastar, para vencer. Contra o tempo luto. O tempo, para mim, significa o adversário mais perigoso, criador do desânimo, da tristeza, do desespero. Alguns a ele sucumbiram. Resistiram às ameaças, aos espancamentos, mas o tempo desonrou-os. Eis porque me habituei ao prazer tolo, em todo o caso necessário, de espremer cravos, lentamente: ver, com certo gozo, a massa amarelenta libertar-se da pele, assumindo, à medida em que escapa, formas de difícil definição geométrica. A alguns, confesso, espremi com luxúria. Agora, depois destes meses de prisão, restam sete, somente sete. Não, onze, se contar com os duros, no nariz, rebeldes a qualquer desenvolvimento – e não obstante, tenho gasto, todos os dias bons minutos a massageá-los, na suposição de que se poderão desenvolver normalmente. São onze, portanto, e são poucos. Se não surgirem novos terei perdido, em duas ou três semanas, uma fonte de prazer, um motivo de atenção. Por absurdo que possa parecer, a possibilidade de perdê-los a todos me inquieta. Ver-me-ei reduzido às horas de leitura (que são poucas, por força das lentes inadequadas ao meu grau de miopia) e a este fio de barba cuidadosamente poupado. Porque, além deles, há apenas o ferroviário Anatólio. Estou convencido que com ele poderei dialogar.  Apesar dos esforços que já que já realizei. E não sem testemunhas. Ele nunca poderá, se for libertado, arguir falta de solidariedade de minha parte, nem do médico e do padre, que já estiveram nesta cela. É por isso que temo uma inutilidade futura do espelho. Se Anatólio... mas não importa. É uma tolice pensar que ele possa... Não, não importa. Encontrarei algo. Se tenho de continuar resistindo, terminarei encontrando outros motivos. A mim os imbecis não levarão ao desespero, a mim não dobrarão.
Há semanas, pouco antes da chegada do padre e do médico, dois grandes companheiros, preocupavam-me as fornicações das moscas. Buscava-as pela cela, sem ruído, evitando bruscos deslocamentos de ar. Passo a passo, prendendo a respiração, muitas vezes a vários casais surpreendi em plena atividade reprodutora. Um casal, eu vi, permanece grudado durante 46 minutos numa cópula em que quase não notavam movimentos.  Não sei se a fêmea é quem trepa. Ou se permite ser trepada. Sem muita frequência, a que fica em cima move lentamente as patas, facilitando o ajustamento. Imobilizam-se, depois, consumando-se, na quietude, um prazer que apenas imagino e iniciando-se um processo de reprodução que, li no pequeno dicionário enciclopédico, alcança índices fantásticos. Uma só mosca, devidamente preparada, pode permitir o aparecimento de cinco quatrilhões de espécimes, num período climatérico favorável. Foi tudo o que aprendi, e bastou-me. Porque, naquela noite, o pesadelo veio certo, e vi-me perseguido, num descampado, por milhões, bilhões, quatrilhões de moscas, a me entrarem pelos olhos, ouvidos, pela boca. Deus do céu, penetravam meu organismo até pelo pênis! Deixei-as de banda. Não apenas me enojam, mas infundem-me temor. Não as quero mais em meus sonhos. Lembro-as, aqui, apenas para testemunhar um interesse vencido, ainda para destacar a severa quietude com que realizam o ato sexual. É possível que os especialistas já tenham, sobre isto, escrito alguns estudos sérios. Certos é que merecem, nesse domínio, o da atividade reprodutora, um exame detalhado. Conduzem-se com a técnica mais apurada da quietude e do silêncio, transmitindo beleza e tranquilidade. Cedendo a um entusiasmo bobo, chamei, naquele dia, a Anatólio, mostrei-as em ação e disse-lhe:
-- Repare o senhor: quase não se mexem. Não mostram aqueles impulsos bestiais dos cachorros, por exemplo. Ou dos jegues. E mesmo de certos homens.
O ferroviário, nem para ser gentil, disse-me o mínimo. Continuou com as mãos para o ar, aquele espanto nos olhos, e voltou para o seu canto. Senti-me como se tivesse falado para o nada. Odiei-o.
Contudo, dias depois, ao chegarem o padre e o médico também presos políticos, recordei o episódio, insistindo no brutal comportamento do ferroviário, de quem eu sofria o silêncio. Os dois dispensaram-se de comentar a atitude de Anatólio, a quem, afinal, não conheciam, ainda. Preferiram estimular-me noutra direção e eu descrevi, com minúcias indispensáveis, mas sem lascívia, o comportamento sexual daquelas moscas que havia verificado em ação. Na tarde seguinte o padre e o médico puderam vê-las em atividades. Reproduziam-se. O padre, para alegria minha, disse:
-- Sim, há tranquilidade e há também, muita beleza nessa quietude, nesse silêncio.
Aquele foi o começo de longa conversa sobre comportamento sexual do homem. Discussão séria, com implicações de toda natureza. O ferroviário não interveio uma só vez. Nem mostrou interesse qualquer ante o que examinávamos, e, no entanto, poderia ter aprendido muito. Era brilhante, o médico. Ele sustentou, por exemplo que a busca de posição diversas, no curso do ato sexual, não constitui, necessariamente, uma depravação, um desgaste de recursos físicos, e, muito menos, uma imoralidade.
-- Certas mulheres – disse – só alcançam o prazer se realizarem o ato após cuidadosa preparação psíquica e sob determinadas posturas favoráveis. E o mesmo ocorre com alguns homens. Tratam-se, ainda, no curso da repetição, de tentativas válidas para que não ocorra a monotonia.
O padre, que a princípio defendia opinião contrária (era um padre jovem, aberto, entusiasmado com o ensinamento do Papa XXIII) terminou concordando com o médico quando aprendeu que o aparelho sexual feminino há pontos erógenos variados a necessitar uns mais do que outros, de adequadas provocações.
-- Rendo-me à ciência – disse, sorrindo.  
E assim invadimos a madrugada, retomando o tema na manhã seguinte, mas em nenhum momento o operário Anatólio avançou qualquer opinião, nem desejou, ao menos isto, qualquer esclarecimento. A rigor, não nos escutava, salvo incidentalmente. Pela manhã, quando o médico desenhou, na parede, com traços duros, um aparelho genital feminino, imaginei que seria então despertado – e até que afinal – o interesse do ferroviário. Enganei-me completamente. O operário Anatólio, além do rápido olhar para o desenho, não disse nada. Apenas, como ainda agora, espiava suas mãos de falanges esmagadas. É o que faz, repito. Vejo-o  nitidamente. Ele está de pé, vejo-lhe as mãos de dedos duros, esticados, como se estivesse a forçá-los a cair ao solo. Mas essa minha impressão, evidentemente absurda, logo desapareceu. Porque o ferroviário, agora, crispa os dedos, lentamente, exigindo-se sacrifício em consequência de articulação não de todo restabelecidas. Não lhe noto, contudo, no rosto, nenhum sinal de dor. Os olhos estão duros como sempre.
Curvando-me a uma necessidade, de novo ponho-me a reparar no meu rosto e, assim, a imagem do operário já não tem acesso ao espelho. Onze cravos, somente onze, sete aproveitáveis, e este fio de barba, negro, encaracolado, símbolo. É tudo quando possuo, se excluído os livros, as revistas, alguns jornais. Anatólio nunca os compulsou. Durante a tortura quebraram-lhe os óculos, talvez para que depois, não pudesse identificar os algozes. Meus olhos doem em virtudes dos excessos a que me entrego, diante do espelho. Abandono-o. Sei que, desimpedido o caminho, afastado o perigo, as moscas voltarão ao cordão sujo. Já não me interessa estudar-lhes os hábitos. Temo que o pesadelo possa repetir-se, e, ademais mesmo que eu possa descobrir algo novo, a quem comunicar? Com quem discutir?
O médico e o padre já foram libertados. Ou transferidos para outras prisões. E se deixam o espelho, e se deixo as moscas... no entanto eu posso, ainda, espiar o céu de poucas nuvens, de pássaros raríssimos. Certo dia um papa-capim volteou no espaço azul que podemos divisar. Vi-o ligeiramente, questão de segundos, e senti alguma felicidade. Aquele pássaro ajudou-me  a imaginar muitas coisas agradáveis. Foi nos primeiros dias, Anatólio havia sido atirado à cela na noite anterior. O ódio que trazia era pior que o dessas horas. Enfiou a cara no colchão sebento, sem resmungos, sem choro, quieto, como se estivesse morto. Não me atrevi a dizer-lhe nada. Esperei horas seguidas, olhando, à espera que se movesse, me fitasse. Então eu poderia... Ele não se moveu. Apenas respirava, compassadamente, as mãos acima da cabeça, os dedos esmagados, sangrando. De manhã cedo, levaram-no para a enfermaria, ataram-lhes os dedos com gaze avermelhada de merthiolate. Naquela manhã do papa-capim é que tentei uma aproximação.
-- Você viu, amigo?
Ele apenas me olhou interrogativamente.
-- Um papa-capim – eu disse. É o primeiro pássaro que vejo. Imagino que haverá, por qui, outros pássaros, mas a janela é tão alta que nós não...
-- Me chamo Anatólio – disse – Sou ferroviário.
Apresentei-me com alegria. O homem sofrido romperia a tortura do silêncio, do ninguém com quem falar. Disse-lhe, então inúmeras coisas sobre pássaros. Contei-lhe que na Graça, onde residi na minha infância, havia um médico europeu maníaco por canários e belgas e minhas memórias estavam a ele vinculadas. Pressentiu a morte e  libertou todos os seus exemplares, mas voltaram e muitos o viram morto. Era o que se contava em minha rua, na infância. Imaginação popular, verdade poética? – perguntei, mas Anatólio já estava distante, já se fechara no seu espanto, reduzira-se ao gesto das mãos estendidas, e, então, na cela, para meu desespero, o silêncio voltara. Nada. Não obstante, agora, ao abandonar o espelho torno a olhar. Há, apenas, como antes, como há meses, apenas há o azul. Assim, queira ou não, sou compelido a encarar o ferroviário. É uma compulsão irresistível. E sei que o fim não modificará seu comportamento.
Nos seus primeiros dias nesta cela o padre e o médico, mais perientes do que eu nesse domínio, profissionalmente habituados à desgraça humana, tentaram induzi-lo a uma conduta mais realista, distanciada de autoflagelação. Não se confinasse, disseram-lhe a olhar aquelas mãos, os dedos estendidos, duros, marcados pelo merthiolate. O médico explicou que os tecidos essenciais das falangetas não haviam sido destruídos e a recomposição dar-se-ia em prazo razoável. Ele escutava sem reação, afastado. A impressão era de que, ouvindo a informação alvissareira, apenas fizera um favor ao médico. Escutou a boa notícia, baixou a cabeça, as mãos sobre os joelhos, os olhos sobre as mãos. Dias depois, temendo por seu sistema nervoso – eu, de mim, amedrontava-me com os possíveis transtornos que todos sofreríamos se ele fosse acometido de uma grave agitação psicótica – o médico sugeriu numerosos temas para conversação, convidando-o opinar sobre isto e sobre aquilo, mas sem êxito. Além do bom-dia, boa-noite, limitava-se a agradecimentos, monossilábicos, quando algo lhe oferecíamos para beber ou comer. Só uma vez, quando, de contrabando recebemos uma garrafa de meladinha, ele teve a audácia de uma iniciativa. Pediu:
-- Um trago, por favor.
Havia-se apressado, não esperou que lhe oferecêssemos a bebida. Imaginei que a partir daquele momento se identificaria conosco. Integrar-se-ia no grupo. O médico acolheu idêntica presunção e passou, mesmo temendo ser grosseiro ao padre, a contar piadas escabrosas, que nos arrancavam gargalhadas sucessivas, mas Anatólio, goteando a mistura da boca, nem ao menos abandonou seu canto para ouvi-las e ri também. Permaneceu quieto, mudo, sentado sobre o colchão. Apenas olhava o copo e não mais os dedos.
Nunca lhe vimos medo nos olhos. Havia neles, como agora, um grande espanto, uma imensa surpresa. No momento, quando chegou à cela, nas circunstância que já descrevi, admiti naturalidade naquele gesto das mãos, naquele espanto. Era um torturado. Imaginei:
-- Busca uma memória completa da dor. Para que o tempo não dissipe o ódio.
Semanas depois repeti, ao médico, minha hipótese:
-- Não querer esquecer a dor, de modo que o ódio não se enfraqueça.
-- Talvez – disse o médico.
A suposição, que por vezes se transformava em dúvida, permanece até hoje. O certo é que ele continua, no essencial, a viver como nos primeiros dias, quieto, as mãos constantemente no espaço, dedos, abertos, olhar severo. Não faz, sequer, um esforço maior para munir-se dos talheres que acompanham nossas refeições. Mete, duros, os dedos na comida. Fazendo bolos de feijão e farinha, leva-os à boca, sujando-se. Não me atrevo a imaginar como escova os dentes, limpa-se após usar a sentina, utiliza sabão durante os banhos.
Lembro que durante uma semana, mais ou menos, quando escutava do seu canto as conversas que eu mantinha com os dois outros presos, suspeitei-o de cumprir, ali, uma missão especial, para intimidar-me, ao médico e ao padre. Guerra psicológica, supus. Os algozes, na verdade, interessados em arrebentar-nos os nervos, poderiam ter-se socorrido desse estratagema, uma vez que não tinham obtido sucesso as ameaças, a reclusão, a brutalidade no tratamento cotidiano. Seria um agente especial para forçar-nos ao pânico, instilando-nos, com sua imagem viva, a convicção de que igualmente seriamos torturados. Essa fantasia detetivesca, logo recusada pelo padre e pelo médico (o padre, aliás, disse-me que tinha faro especial para “cheirar” uma boa alma, e Anatólio, afirmou, era uma boa alma...), essa fantasia me intranquilizou dias seguidos. Só desapareceu, completamente, quando, no banho de sol a que de repente tivemos direito, encontrei presos de outras celas, alguns dos quais conhecidos. Vários deles, operários e estudantes, conheciam Anatólio e dissuadiram-me, não sem um pouco de mofa, dos meus temores. De fato, contaram-me, tinha sido bestialmente torturado. Dedo a dedo, um algoz, usando o salto da bota, pôs-se a esmagá-los, fraturando, metodicamente, cada falangeta, espedaçando-lhe as unhas. Contaram-me ainda que Anatólio fora sempre um homem calado, introspectivo, desinteressado da política, contudo fiel aos seus amigos e companheiros de trabalho, hábil nas tarefas profissionais a ele cometidas, religioso a seu modo. Sua alegria, além dos familiares e amigos, era integrar um antigo afoxé nas estas carnavalescas. Nada mais. No curso da última crise os que lhe invadiram a residência pobre não queriam, mas ao filho, ferroviário também, respeitado como organizador sindical, até hoje foragido. Não lhes dera o paradeiro do rapaz nem acusara qualquer dos companheiros da ferrovia, suportando, em consequência, a tortura, e suportando-a sem grito, um protesto, um lamento. Não pudera unicamente evitar aquele espanto, que trazia e traz impresso nos olhos, por um motivo qualquer que não descubro e temo perguntar-lhe. Buscará, de fato, estendendo a mão, olhando os dedos esmagados, repetindo o pensamento, prendendo-se no silêncio, cimentar aquela memória de dor, para que o tempo não dissipe o ódio?
É no sono, e só no sono, que os dedos não eriçam. Repousam quietos, abandonados, sobre o peito de cabelos ralos e músculos rijos. Logo ao acordar os dedos continuam distendidos, normais, mas a medida em que se dá contado que há em torno – as grades no alto de uma janela inacessível, as camas, o espelho suspenso no cordão sujo, eu – ele os vai enrijecendo, e, simultaneamente, o espanto e o ódio são recuperados, reimprimindo-se nos olhos e nos gestos. Lá está ele, agora. Vejo-o sentado no canto, as mãos estendidas, os dedo duros.
-- As moscas – eu digo para mim, desejando companhia.
Elas estão, de novo, no cordão sujo, na face do espelho. No pedaço de céu que posso ver, um pedaço de céu azul, nada existe. Eu ficarei feliz quando – e não sei quando – reencontrar aquele papa-capim a voar. Ainda que seja durante dois segundos. Um segundo.
Junho de 1964.


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