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Ostra


Ostras

Antes de sair do hotel, tendo a irmã Célia ao lado, escreveu para Ione: “Querida, sua detenção é passageira. Tudo não passa de um equívoco. O marido de Célia, e ele é muito influente, assegurou que eu a encontrarei livre no meu regresso. E que retornaremos a Paris sem nenhum problema. Sigo para Bahia nesta manhã, em busca daquele ferroviário, e já tenho reserva para voltar à noite. Por que diabo você se meteu a doutorar-se em ciências políticas e aventurar-se a fazer perguntas num momento como o atual?
Com um beijão”.
E assinou.
A irmã riu ao ler o texto. Disse:
-- Menina de família rica, tantos anos estudando na França, de repente presa, de repente podendo ser solta, que coisa mando preparar para jantarmos?
Informou:
-- Ione adora ensopado de filé com repolho. Filé cortado em pequenos pedaços, é claro. E como ela gosta de dizer, “mixórdia de picles”. Invenção dela.
-- Como é que é isso?
-- É simples: compre dois pacotes de picles, ponha tudo no liquidificador, misture com duas colheres de oliva e ponha a girar. Sai uma massa picante, genial. Tem outras coisas, mas o básico é isso. É mesmo impossível falar com ela pelo telefone?
-- É, ela está numa ilha. Acrescento a “mixórdia” ao ensopado?
-- Não, será criminoso! Ela é comida à parte, com pão.
-- Torradinhas?
-- Claro!

II

Ao descer no aeroporto de Salvador, despreocupado com Ione (ela ocupava, sozinha, casarão, numa ilha do Arquipélago das Flores, afastado da costa continental), o jovem professor, experimentado em voos internacionais, viu que havia veículos de empresa especializada em transporte de passageiros e bagagens, até a cidade. Qualquer o levaria a um hotel, mas não pretendia hotel. Embora saudoso da cidade, não obstante houvesse coisas novas a ver, o interesse principal era o de resolver o seu assunto e reencontrar Ione, no Rio.
Insinuante, um rapaz escurinho, sorridente, ofereceu-se:
-- O amigo doutor está a fim de um transporte pessoal, especial, eficiente, seguro e...  
            -- Taxi?
            -- Na verdade, doutor, meu serviço ainda não está registrado no departamento competente, mas o pessoal daqui sabe que não abuso. No máximo, pego três passageiros por dia, até porque gosto de ficar em casa, com papai e Wilma. Ela é craque em “de comer” baianos e negocia aqui mesmo. De saída, o doutor não gostaria de provar um acarajé? É acarajé mesmo e não hamburgajé. Garanto.
            -- Hamburgajé?
            -- É como aqui se está chamando o acarajé p’ra turista: metem na jóia porções de vatapá, de camarões, até saladinhas miúdas. Uma falta de respeito, invenção de gringos. O acarajé de Wilma, garanto...
            Lembrando-se de algo, o professor perguntou:
            -- De onde posso fazer uma ligação urgente para o Rio?
            -- Urgente, urgente mesmo, só no balcão da companhia onde o senhor comprou a passagem.
            -- Além de simpático, você não é nada burro. Vamos lá.
            -- Nenhum brasileiro é burro. Especialmente os baianos, e o senhor não se ofenda.
            Preocupado em falar com a irmã, no Rio, o professor não ouviu as observações do motorista. Foi relativamente fácil a ligação e ele disse:
            -- Eu, Célia. Sim, tudo bem. Você conseguiu lembrar-se do nome do ferroviário? (pausa) deixa p’ra lá... Outra coisa: na mixórdia, esqueci de dizer, é indispensável acrescentar algumas ostras cruas. (Pausa) Não, as enlatadas não servem. Ah, e torradinhas, servidas em pratos separados, devem ser bem fininhas. Um beijão, Célia.
            -- O doutor gosta de ostra – o motorista disse – e isso é um bom sinal. Bem que papai disse que hoje eu ia fazer boas e novas amizades. Vamos aos acarajés de Wilma?
            -- Não. Eu estou com pressa. Se seu carro tem chapa particular, você não dispõe de taxímetro. Então vamos acertar o preço.
            -- Cobro 100 cruzeiros a hora e isso significa uns 20% abaixo dos taxímetros. E me meto em qualquer buraco. Onde o doutor manda ir?
            -- Direto aos “Alagados”. Conhece?
            -- Nasci lá, doutor. E a bagagem?
            -- Só trouxe esta pasta.
            -- Quanto aos “Alagados”... É estudo para o Governo?
            -- Não.
            -- Se fosse eu ia fazer o que papai ainda chama de súplica, pô, súplica! Wilma diz pedido. Eu digo e repito que o certo é reivindicação. Rei-vin-di-ca-ção! Ou estou errado?
            -- Não sei.
            -- O doutor é de poucas palavras. Tá bem, mas não me custa dizer que minha reivindicação é legal, verdadeira, simples: botar ali um nome verdadeiro, real: Bairro das Ostras. Papai prefere “Cidade do Príncipe Negro”. Porque é mesmo uma cidade.
            Já no veículo quem vai resolver. E o que ela resolve até papai aceita. Ela é genial, acredite. O fino no amor, o fino na cozinha... E cose, e lava, e canta e seus acarajés são um manjar. O doutor perdeu grande oportunidade de provar o acarajé puro, baiano, fofinho, no tamanho certo.
            -- Na volta eu experimentarei.
            O motorista riu:
            -- Na volta o doutor só vai sentir o perfume que Wilma deixa lá, no aeroporto. Porque ela vende tudo numa velocidade que nem “Zaz-Traz”. Vejo que o doutor não está interessado.
            -- É que eu pensava na minha Wilma.
            -- Então, se o senhor tem uma Wilma, o doutor é um homem feliz. Se o senhor me ajudar, eu a verei esta noite.
            -- É comigo que se trata, mas como ajudá-lo?
            -- Preciso entrevistar uma pessoa que mora nos “Alagados”.
            -- Meu pai está às ordens. Ele tem dezenas de anos de “Alagados”. Foi um dos fundadores. O doutor é jornalista?
            -- Não. A pessoa que eu procuro eu a encontrei faz uns 16 ou 17 anos.
            -- Vamos lá que eu conheço aquele mundão todo.
            E, entoado, cantou “O Conde”. No final comentou:
            -- É essa Wilma aí, do samba, é só de desfile de carnaval, sem querer desmerecê-la. Três dias, quatro dias. A minha, não! A minha é da alegria e do trabalho o ano inteiro. Só vai parir aos 33 anos, idade de Cristo. E segundo papai, vai parir um menino, uma menina e um bicho hermafrodita, ou seja, um bicho que é homem-mulher, o que não pode ser. Este bicho a gente joga para alimentar os siris e os caranguejos. Não é um programa acertado?
            Não ouvindo a resposta, reparou que o passageiro estava lendo uma papelada qualquer, pensando em coisas, saudoso de sua Wilma. Lembrou-se que um policial “pidão de dinheiro”, alegando vadiagem, o deteve e lembrou-se de ter avisado: “saiba o distinto que sou filho do pai Astério e sou o homem de Wilma”. E aí o policial disse: “vá com Deus e a Santíssima”. Então, contado o caso, Wilma falou: “você vai ser motorista. Dono de carro de aluguel”. Antes, lutando para conseguir o carro, usou a canoa do pai para transportar passageiro entre Ribeira e Plataforma. Wilma amealhando os ganhos dos dois, Wilma alisando suas mãos calosas pelo uso do remo, na canoa. Santíssima brasileira, Wilma. Aquele corpo sempre de menina, na cama tão capaz de inventar coisas, o pai olhando, o pai aprovando, tudo tão bom... E um dia, o “Volks” amarelo, usado, certo, mas bom de tombo. “Deus tá com a gente” murmurou e ao notar que o passageiro guardara os papeis na pasta, perguntou:
            -- Qual o interesse do doutor quanto aos “Alagados”?
            -- É muito limitado: entrevistar uma pessoa.
            -- Sem cobrar nada pelas informações que vou dar. 1º) Lá já tem umas 100 mil pessoas; 2º) Um radialista que entrevistou papai disse que ali está a Veneza brasileira; 3º) o que tem de descarado ali não está no gibi, embora eu não saiba o que seja gibi, mas descarados existem em toda parte. Quer saber mais?
            -- Eu sou um professor universitário e meu interesse não se liga ao que há nos “Alagados”. Busco uma pessoa que mora lá.
            -- Então, ouça a história de tudo, o começo do passado. Há muitas versões sobre o surgimento daquilo lá, mas a verdadeira é a da religião brasileira da qual o meu velho é um dos fundadores.
            -- Já existe uma Igreja chamada brasileira?
            -- Quem falou em Igreja? A nossa é uma religião de lições, sem imagens, uma religião sem livros, sem casas especiais, sem estandartes, uma religião de histórias. Wilma acha que talvez seja o caso de certas histórias serem contadas em folhetos e quando ela acha uma coisa nem papai resiste.
            -- O senhor não podia aumentar a velocidade?
            -- P’ra que? Lá na frente tem uma sinaleira e o verde vai passar p’ra vermelho em “zaz-traz”. De acordo com a nova legislação brasileira... Eu não falei no vermelho? Lá está! O que contam é que de repente, numa poência, surgiu a Ostra Azul.
            -- Poência?
            -- Poência, doutor, é o gozo do sol quando se deita sobre as marés além das ilhas da baía. Nesse dia, como papai e os amigos deles contam, logo que o sol se deita no gozo, aí a lua foi com uma luz fortíssima e do lodo saltou a Ostra Azul. Ela estava sendo montada por um Príncipe Negro, com olhos de índio e voz de português. Com essa voz, a Ostra Azul batendo suas partes como batem as castanholas, o Príncipe Negro mandou que os pobres das proximidades chamassem os outros pobres e ali nos mangues construíssem os casebres. Já estamos chegando. Aí então, começou tudo.
            -- Não sabia sobre ostras azuis.
            -- Que houve a do Príncipe Negro, não há dúvida. Aliás, segundo papai, há três tipos de ostras: as machos, as fêmeas e as emafroditas ou veadas. Estas últimas são as branquinhas que acabam dando nas praias. E, doutor, chegamos.
            Um espetáculo impressionante, milhares de casebres, quase todos de madeira, formando ilhas de formas irregulares, frágeis pontes, também de madeira, a uni-las. Fedor de terra apodrecida, lodo, cadáveres de árvores, braços e pernas erguidos, gestos de desespero vegetal acima da lama esverdeada.
            -- Mais de 100 mil pessoas moram nessas porcarias – o motorista disse. Pois é como meu pai pergunta: “que engenheiro, por mais sábio que seja, imaginaria esta Babel horizontal?” Matute nisso: Babel horizontal! Modéstia à parte, papai é um sábio. Que povo, doutor, a não ser o baiano, seria capaz de construir com paus podres, sabendo que as ostras, fêmeas e macho, vivas e mortas, sempre chegam, se agrupam e cimentam a podridão dos paus? Se duvida, mergulhe para ver. Daí eu dizer que isto deve ser chamado de Bairro das Ostras.
            -- Como é seu nome?
            -- Nilton, com muita honra.
            -- Olha, Nilton...
            -- E o nome do doutor?
            -- Luís Fernando. Nomes... Deixa esse assunto para depois. Eu sou professor universitário e estou concluindo uma tese sobre comportamento dos ferroviários. Ou seja, que ideias, que princípios, que atitudes, etc., a profissão determina nas ações pessoais e/ou coletivas. Entendeu?
            -- É complicado.
            -- Veja: você, motorista, tem que seguir certas regras dessa profissão sua.
            -- Que é honrada.
            -- É, sei que é. Essas regras – as do trânsito, as que os passageiros impõem, e te – influenciam todas as atitudes que você adota onde quer que você esteja.
            -- A mim, me perdoe o doutor, passageiro não impõe porra nenhuma. Nem Wilma me impõe porra nenhuma!
            -- Enfim, Nilton, eu não posso me preocupar com outro assunto a não ser o da minha tese. Tudo o que peço é que você me propicie encontro com um ferroviário que morou aqui. Há 15 ou 16 anos, Natanael, Ismael, Misael, Rafael, um nome assim. Só peço isso e aumento o preço da hora para 200 cruzeiros.
            -- Um “el”...
            -- É.
            -- Ferroviário?
            -- Era ou ainda é, não sei.
            -- Aqui não tem mais ferroviários. Veja veramente doutor na coisa: se acabaram com as ferrovias, como encontrar ferroviários? E aqui não tem mais desses crentes. Perdoando a ousadia da pergunta, por que essa mania do doutor  com ferroviários? Por que o doutor não muda o estudo para pescaria e pescadores, como o de tio Felício? Ela também viu a Ostra Azul.
            Eram 13:30 e o avião de retorno ao Rio só sairia às 19:45. Imaginou Ione com a calça azul. Fora detida por causa de uns livros e de umas perguntas em favela carioca. O marido de Célia, industrial muito influente, acertando libertá-la. Em Lisboa comprara-lhe uma camisola rendada, custosa, e uma calcinha curiosa: justo na área do “nome de Vênus” fora bem impressa uma gatinha de olhar matreiro...
            -- Se o doutor quiser voltar para o aeroporto, não tem problemas.
            O presente ideal, porém, seria as palavras do ferroviário, o “the end” da tese. E tentou argumentar:
            -- Seja razoável. Nilton: preciso de encontrar esse ferroviário por causa de umas frases que ele me disse, umas palavras essenciais. Esse exemplo brasileiro me é indispensável. Elas expressam as mesmas ideias ditas com segurança, força, bondade, esperança, certeza, que ouvi de ferroviários suecos, belgas, italianos. Tenho as ideias, mas me falta a forma brasileira de dizê-las, palavras da experiência baiana, de uma convicção...
            -- Convicção? Convicção, vírgula! Fanatismo! É o que são eles, esses crentes que se envenenam com as escritas pelos gringos. Veja aí o doutor o caso do Matota. Se envenenou na leitura dos latins e matou, pensando servir a Deus, quase 10 meninos e meninas, e nenhuma era hermafrodita. Nenhum! Tudo menininho, tudo menininha.
Sujeito enervante, mas o professor insistiu:
-- Não me envolvo com religião. Sou cientista social e só.
-- É uma outra máscara do protestantismo barato, doutor. Tudo escritinho, tudo sem nenhuma mágica. Isso também é coisa lá de Roma ou de umas cidades da Alemanha de nomes complicados.
-- Não tenho nada com Roma! Nem com cidades alemãs. Estudo em Paris, mas vim ao Rio, Nilton, e minha Wilma está me esperando hoje lá no Rio.
-- É tudo igual: Rio, alemães, Roma. Essas regiões estrangeiras... Tudo devia ser absolutamente brasileiro e, como papai diz, a Bahia voltando a ser a capital do Brasil. A salvação é como Wilma diz: tudo mulato! Santo? Só um, Senhor do Bonfim, que é o próprio Deus. E aí, doutor, puto nenhum de povo nenhum judiava de brasileiro. E fazia continência para a gente. Diabo que Wilma ainda não tenha chegado do aeroporto. Em ela chegando, reivindico que fique nua e aí o doutor vai ver um corpo de menina virgem, uma alma de santa brasileira, uma cabecinha de doutor ser ter leitura, e bondade. E uma baita duma mulher! Ema me desentortou.
Tentou acalmar o motorista:
-- Alguém já escreveu sobre a Ostra Azul, montada num Príncipe Negro, mandar os pobres construírem esses casebres? E toda mágica durante uma poência?
-- Que eu saiba, não. E isso do Príncipe Negro – por que Negro? – pode ser coisa de macumbarias ou de matotadas. A ostra, sim, a Ostra Azul papai viu e papai não mente. Mas, como ouvi no telefone do doutor para o Rio, o doutor gosta é de ostras mortas, dessas que a gente come com gotas de limão e sumos de pimentinhas.
-- É, são gostosas.
-- E são mais se antes a gente dá mordidinhas em folhinhas de hortelã.
-- Não entendi.
-- Hortelã. Para purificação do estômago. O ferroviário não ensinou isso?
-- Não.
-- Aprenda: se o doutor ou outro sujeito vai dispor a um prazer que a nossa religião baiana não condene, então é preciso que esse prazer seja preparado com gostosura. Na cama, alecrins. E travesseiros de “marcela” nova, ainda com o cheirinho. Entendeu? É o caso da hortelã e da ostra. Uma mordidinha em folhas novas de hortelã alegram a boca e o que existe entre ela e o estômago. Porque a ostra não morre, mesmo estando morta. Ou seja, ela revive. Ela renasce. As veadas dão para as praias, mas as machos e as fêmeas dão um jeito qualquer para continuar sendo ostras. Elas se agarram a qualquer pedaço de coisa, se ajuntam e aí ainda é segredo o que fazem. Segundo papai, a Ostra Azul pode ter nascido em um desses ajuntamentos. Disso também o ferroviário não falou, garanto. Eles não sabem de nada. Eu tenho ojeriza – sabe o que é isso? – tenho ojeriza mesmo pelos ferroviários.
            -- Por algum motivo especial?
            -- Se eu não tivesse motivo especial eu seria maluco.
            Hesitou um pouco e acrescentou:
            -- Mas não me interessa discutir esse meu especial. Me interessa é um  homem especial. Me interessa é um homem como o senhor ir conversar com papai, aprender com ele as verdades, ver e ouvir Wilma.
            -- Asseguro que voltarei noutra oportunidade, prometo.
            -- Vamos ver papai agora!
            -- Não posso.
            -- Em que o senhor é melhor que o radialista? Em que o senhor é melhor que o pintor que pintou os Alagados todo de azul, todo bonito, sem que soubesse nada sobre a Grande Ostra? Por que essa mania de ferroviários? E eu que estava simpatizando com o senhor, por ter também uma Wilma...
            Não havia, agora, exasperação no motorista e sim veemência.
            -- Trata-se de um ferroviário só, Nilton, um, um!
            Umas 18 ou 20 pessoas a ouvi-los, o motorista tentou-se sarcástico:
            -- Não deixa de ser estranho...
            -- Tanto quanto é estranho você, volta e meia, falar de ostras isso, ostras aquilo.
            -- Cada qual com sua verdade.
            As mulheres em volta riam, mas Nilton, com olhar severo, fez com que voltassem à antiga postura. Disse:
            -- Não houve agravo no meu comentário. Tem mais: se o doutor quiser, saia por aí, com minha garantia, perguntando. Ou então grite: “quem sabe de um ferroviário assim-assim-assim que há tantos anos me disse isto-isto-isto, mas disse com umas palavras que não sei repetir?” Vá grite!
            Todos riram e deste riso Nilton gostou.
            O professor, sem dificuldades, percebeu que seria insensato e até perigoso insistir. Se se aventurasse nas instáveis pontes, perguntando de barraco em barraco, no mínimo o olhariam com desconfiança em face de a repressão política achar-se sob intensa exacerbação: por fazer perguntas à toa Ione não fora confinada ao Arquipélago? Em Paris eles não evitavam contatos com brasileiros exilados, precisamente em precavido esforço para nada lhes perturbasse os trabalhos universitários? não fingira desconhecer antigos colegas como Waldir, Milton? E, sabia, a repressão maior voltava-se precisamente contra trabalhadores, inclusive ferroviários.
            -- E então, doutor, em que ficamos?
            Compreendeu, de outra parte, que, afinal, havia, no seu empenho, um certo preciosismo.
            -- Silêncio, pessoal, que o doutor está pensando. Nenhum movimento, nenhum riso.
            E ponderou-se que possivelmente alimentando conversações com Nilton, ouvindo sua história, poderia obter subsídios para uso futuro. De resto, era cedo demais para retorno ao aeroporto. Notou que um cidadão bem vestido dizia palavras que alegravam o motorista. Não gostava de aeroportos. Na prática, eram espécies de prisões. Neles sentia-se como um objeto a ser manipulado. Sempre sob ordens de desconhecidos. Ouviu Nilton gritar:
            -- Um minutinho, doutor, que vou dar umas providências.
            -- Não se apresse.
            -- Ah, doutor, para isso que Wilma foi chamada eu preciso até voar!
            E caminhou, seguindo pelas pessoas de impressionante agilidade, pelas teias de pontes. Sozinho, o professor conversou com duas crianças. Sim, elas gostavam dali. Sim, às vezes algumas caiam das pontes, no passado um Carlito tropeçara, caindo na lama. Não, nada de afogamento. Morrera porque uma estaca fininha lhe entrara pelas costas saindo no pescoço. Esta informação lhe causou mal estar e ele despediu as crianças, dando-lhes algumas cédulas. Ione, ao invés, faria mais indagações, ousaria ir por aqueles caminhos, de gravador na mão. Alegrou-se com a expectativa de que, no jantar, ela usasse ou não a calça azul, teria muitas novidades para contar. Sobre a ilha. Talvez o arquipélago. Sobre o casarão da ilha. Imaginou-a nua, só com a calcinha de gatinho... Recordou-se, então, Nilton haver contado que fazia amor com Wilma sob os olhares e os aplausos do pai. Seria procedimento prescrito ou consentido pela religião da Ostra Azul? Falaria disso a Ione. Bem, sob alguns aspectos, estava sendo útil a viagem. De repente, Nilton reapareceu.
            -- E então, doutor, decidiu? Vai sair por aí procurando o tal ferroviário?
            -- Não. Acredito que perderia tempo. Se houvesse um barzinho, aqui perto...
            -- É uma boa pedida.
            -- Esperaríamos a sua mulher e beberíamos uma cerveja juntos.
            -- Ah, doutor, o bar sim, a cerveja sim, aliás estou de garganta seca, mas Wilma não vai dar pé.
            -- Foi você quem me sugeriu conhecê-la.
            -- Foi, sim, foi, e com muita honra. Mas, não pode ser mais. O doutor ainda quer ir ao bar?
            -- Não, mas antes de voltarmos ao aeroporto, eu gostaria de rever a cidade desde Mont’Serrat.
            Caminho mais ou menos curto, logo chegaremos e ali, no promontório, vendo a cidade. Homem daquela terra, o professor comoveu-se e disse baixinha, em um querer que Ione o escutasse: “Impressas nas encostas, maluquinha, vejo teus cabelos verdes, floridos de margaridas brancas e amarelas; e ouço tua voz, feita de mar e ventos”
            -- É uma oração, doutor?
            -- Não. É uma cantiga.
            -- Pois, doutor, não é mesmo bonita a cidade? É uma cidade que tem duas fatias. A fatia alta, que é a fatia dos ricos, e a fatia baixa, esta aqui, que ainda não é a dos pobres. Entendeu o doutor minha malevolência?
            -- Onde, em que malevolência?
            -- Ouça outra vez: a fatia alta é a dos ricos; a fatia aqui, a baixa, ainda não é a dos pobres. Quer dizer, ao mesmo tempo eu sou contra os ricos e contra os pobres descarados lá de cima que deviam era descer para cá, a gente aumentando o Bairro das Ostras, avançando e, como diz papai, fazer um “quilombão” para os da nossa religião. Entendeu agora?
            -- Entendi.
            -- Pelo por mim entendido o doutor não gosta nem de religião e nem de política.
            -- Não e quero voltar para o aeroporto.
            -- É uma boa.
            “Os trens que saiam da estação da Calçada, Ione, me levaram para lugares cheios de inesperadas aventuras”
            -- É outra cantiga sem música, doutor?
            -- É. E diminua a velocidade.
            “Pretextando idas a cinema e luxos de merendas na Sorveteria Cubana, conseguia dinheiro de meus pais e, em verdade, usava aquelas pequenas fortunas para regalar-me nos trens suburbanos, em tardes de domingo. Plataforma, Mapele, Paripe... Saltava em cada estação e comprava doce de leite. Ah, que maravilhosos os de Mata de São João! Numa dessas tardes, me lembro, troquei sapotis por cinco laranjas-cravo”.
            -- Interrompendo a cantiga para uma pergunta: o doutor é mineiro?
            -- Não. Sou baiano.
            -- Por quê?
            -- Porque, como papai diz, paulista e mineiro, na gana de ganhar dinheiro ou fazer o bem ou fazer o mal, não vê o que olha e sim pensa também o que olha.
            -- Você deve gostar muito do seu pai.
            -- Ele só tem uma queixa de mim. Eu conto que quando era bem menino eu ganhava dinheiro catando ostras ou mergulhando para arrancar as melhores, as agarradas nas pedras. Ali, perto da Plataforma. Mergulhava e mergulhava, os trens passando perto, uns ferroviários gritando: “vá trabalhar, descarado, vá trabalhar”.
            -- Você desgosta de ferroviários?
            -- Um pouco. O principal é que são crentes ou são o que minha língua vai queimar, nome miserável, se eu disser.
            -- Em Plataforma havia uma estação de trem.
            -- É, e por ali havia as melhores ostras. Um dia, eu digo que estava mesmo mergulhando só por mergulhar, sem intenção, de trabalho, peraltice, e aí uma ostra grande se desprendeu das pedras e correu atrás de mim, debaixo d’água. O doutor acredita em mim?
            -- Acredito.
            -- Então eu vou contar, depois, o bom que hoje aconteceu a Wilma. É sensacional. Bom, mas aí vi que a ostra nadou querendo me dizer uma coisa. Não sei que coisa, mas fiquei com medo e nadei que nem tainha-moça. Me piquei. É isso aí, doutor. E papai, com razão danou comigo, falando, aos berros, que eu devia ter ouvido aquela ostra nadadeira. Porque podia ser um recado da Ostra Azul. O doutor entendeu?
            -- O que não entendo é o desaparecimento completo da Ostra Azul.
            -- Quem falou em desaparecimento? Ora, por ouvir dizer de outros pescadores mulatos de outros países, é sobejamente conhecido que ela anda aí por outros mares do mundo. Ih, estamos chegando e o doutor vai ter mesmo que ir embora, para encontrar a Wilma do senhor.
            O professor decidiu ligar para o Rio logo os poucos quilômetros que o separavam do aeroporto fossem vencidos. Ouviu o motorista dizer:
            -- Apesar do bom que aconteceu de bom a Wilma, papai vai ficar triste quando eu contar tudo isso. E o principal desse meu isso é que o doutor não riu a respeito da Ostra Azul, dizem que montada por um Príncipe Negro. Esta do Príncipe ter sido negro eu não engulo. Por que negro? E por que Príncipe? 
            Talvez conseguisse passagem num avião antes do que lhe havia sido emprestado. Essa possibilidade deu-lhe animo e ele indagou:
            -- Que bom que aconteceu a Wilma?
            -- Ah, ela foi convidada para preparar de 200 a 300 acarajés para a festa que um barão daqui vai dar, hoje à noite. E eu já preparei uma companheirada. Isso quer dizer que vou pagar de vez as prestações deste carro, saindo p’ra outro. Bem que papai disse que hoje Wilma e eu íamos fazer boas amizades.
            Quando, na entrada do aeroporto, ele saltou do carro, o motorista, sem contar as células recebidas, disse:
            -- Na outra vez que o doutor vier, iremos direto para o barraco nosso e de papai. O senhor vai gostar. O velho conhece muitas e maravilhosas histórias de ostras, lagostas, tainhas. Vai gostar de conhecer o doutor porque também pensa o que vê.
            -- Outra vez, prometo.
            -- E traga a Wilma do senhor.
            -- Ela vai adorar. Adeus.

            III

            Sabes, Ione, pela carta anterior, sobre o ocorrido na prisão, terei que esperar meses para poder tirar o gesso das pernas que o torturador tentou esmigalhar. Arrastando-me de um canto para outro, cuido de não prejudicar o processo de regeneração, recuperação, recomposição, o que seja: já não me preocupo com exatidões.
            Escrevi as duas primeiras partes em forma de conto e na terceira pessoa para tentar o máximo de objetividade.
            Não maldiga quanto a Nilton, o motorista. Ele contou a verdade. Definiu-me como “um maluco atrás de um ferroviário” e deram-lhe muitas bofetadas antes de expulsá-lo do aeroporto. Ele, em tudo, é o de menos.
            Maldito é o carcereiro desta ilha.
            Ele despe a mulher, deita-a, sente prazer em perfumá-la, excita-a e, noite após noite, afasta-se para a praia. De binóculos olha a ilha em que estás aprisionada.
            A mulher murmura e exala desejos.
            E, todas as manhãs, a mesma pergunta:
            -- Já lembrou o nome do ferroviário comunista?
            Honrado é o saveirista.
            Sim, há um episódio que devo te contar.
            Na, cela, querida, antes das tentativas de me esmigalhar as pernas, havia um jovem padre que ouviu, com enorme interesse, a fantástica história da Ostra Azul e se disse capaz de escutar estranhas vozes. As das pedras e as dos ferros e as das ásperas madeiras. E vozes de ventos, especialmente os que acontecem nas noites sem lua.
            Receio te perturbar, embora o saveirista me haja assegurado que continuas tensa mas firme. Diabo, nesse tipo de coisas sempre foste mais forte do que eu!
            Em certa madrugada, Ione, antes que chefe dos torturadores decidisse me amputar as pernas ou tentar fazê-lo, transformando-me no que chamou de “ostrinha de merda”, nessa madrugada o Padre conseguiu de um dos carcereiros que lhe trouxesse uma longa língua de grama com lágrimas de orvalho.
            Molhou o rosto com as pequenas gotas d’agua, rezou em latim, abriu os braços para o sol, ajoelhou-se, cantou. E tive a impressão, Ione, que ele se transformou num hipocampo azul!
            Há muito mais a contar, mas o saveirista avisou que virá pegar o bilhete dentro de, no máximo, duas horas. E deu-me algumas boas notícias. Vou resumi-las:
            -- está diminuindo o número de lanchas patrulha neste Arquipélago;
            -- alguns holofotes estão sendo desativados;
            -- haverá permissão para visitas de parentes no próximo mês;
            -- também no próximo mês consentindo um rádio de pilha em cada uma das casas-prisão;
            -- acabou a proibição de voos de linhas comerciais nesta área.
            Tenho de esconder este bilhete: o carcereiro e a mulher alugada estão vindos da praia, e, como sempre, nus, libidinosos, em algazarra. Imagino o que acontecerá: colocarão a comida na mesa e me chamarão assim:
            -- Venha, Ostrinha, venha comer

  
       

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