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A Morte do Guarda. - Ariovaldo Matos




1.

Rua e beco dividiram-se em vários partidos quando os jornais diários, noticiando o brutal assassinato do guarda Eduardo Gazineo, cuidaram de sugerir graves suspeitas sobre seu comportamento moral, atribuindo-lhe até mesmo a prática de lenocínio. Um deles estampara, na primeira página, a foto do guarda Tidu, esmaecida fotografia de Lambe-Lambe, ao lado da prostituta Dorinha, ela de lábios pintados em forma de coração, piscuila, ele grandalhão, coisa assim de um metro e oitenta. O flagrante, obtido no Terreiro de Jesus, caiu como uma bomba na rua e no beco, servindo de munição para o grupo que, estimulado pela mulata Tiana, investia contra a memória do guarda. Apesar da foto, os que recusavam, de plano qualquer crédito às suspeitas contra o morto, mantinham-se majoritários. O partido centrista, comandado pelo Sr. Pepe, proprietário do Armazém “Sol da Galícia”, sustentava a uma tese marcada pela prudência. O Sr. Pepe dizia:
— Devemos aguardar todo o inquérito. Afinal, Dorinha ainda não falou...
Participando da tragédia de um modo especial, e aos magotes, os simples espectadores limitavam-se a escutar as conversas, mal aventuravam uns vá-ver-quês, gozando cada etapa do escândalo em desenvolvimento. Especulam sobre o misterioso desaparecimento da prostituta Dorinha e eram unânimes em lamentar, no que também sentiam certo prazer, a dor e o luto de D. Santa, mãe do guarda, agora sozinha naquela casa do beco, a todo instante recordando, sem lágrimas, o filho morto, enterrado, cinco facadas nas costas, três arrombando o pulmão direito. Desde o dia da tragédia até hoje, tantos meses decorridos, só a viram sair de casa uma vez, ajudada por D. Elizabeth, sua vizinha da esquerda. Foram ao jornal que publicara a fotografia do guarda e a obtiveram. Colada sobre um papelão negro e colocada ao lado de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, lá está, até hoje, na pequena sala de jantar de D. Santa, o flagrante de cores fracas: o guarda e Dorinha, as mãos dadas, no fundo a velha Igreja de São Domingos.

2.

A velha D. Santa disse ao filho que chegava do serviço:
— Ali é que eu gostaria de morrer, ali...
E apontou, a mão trêmula, o Asilo da Ordem Terceira de São Francisco, que se via de nossa rua e do beco. Um imenso casarão amarelo, centenas de quartos, com entrada pela Baixa dos Sapateiros, enorme escada de pedras, centenas de degraus. O guarda — e então Dudu era apenas um jovem guarda-civil — memorizou o pedido, a sério. No dia seguinte, ao voltar, ele falou alto e seco:
— É caro, mãe, é muito caro.
— O que?
— A senhora ir morrer na Ordem Terceira.
D. Santa disse que não tinha falado à vera. Um desejo maluco, vontade boba, ele não levasse em conta. Andava a caducar mas não estava a ponto de querer aquele luxo todo, morrer na Ordem Terceira. Ali mesmo, na casinha, haveria de finar-se, e a tempo, o padre Belchior faria a encomenda da alma. Falou mansa, a mão fria no rosto do filho, a emocioná-lo. Depois, dias passando, o trabalho levando-o a bairros distantes, para atemorizar garotos que empinavam arraias, o guarda Dudu Gazineo foi esquecendo o desejo da mãe, o cálido afago no rosto. Um resto, porém, grudou-se nos desvãos da memória e a Dorinha, certa vez, falou do assunto.

                3.

                Com alguns meses sua preocupação essencial já era outra. O guarda Dudu Gazineo passou a desejar um jaquetão azul. Imaginava-o com detalhes, com os sapatos brancos, grossos solados de borracha que recebera de presente do comissário Dr. Asdrúbal. Aqueles sapatos, o guarda Dudu Gazineo limpava-os com alvaiade bem dissolvido e muito empenho. Esfregando talco puro obtinha um lustro de causar inveja. Aos domingos, após tê-los preparados, brilhando de fazer gosto, punha-os na janela, ao sol, para livrá-los da ameaça de mofo. O que faltava  era o jaquetão azul. Haveria de possuí-lo, mais cedo ou mais tarde. Imaginava o efeito.
                Mês a mês, foi amealhando o que pôde amealhar e nos começos de um verão extremamente quente verificou que podia comprar o pano, a casimira — e o fez com alguma emoção. Era um tecido encorpado, algo espinhento, imitando gabardine, azul-rei. D. Santa, ao vê-lo desatar o embrulho, disse sorrindo e contente:
                — Um azul vistoso, bonito...
                Naquela noite, depois de dar uns apertos em Tiana, a mulata professora primária, filha do Sr. Orozimbo Nonato, o guarda Dudu Gazineo, antes de dormir, decidiu que não teria o dinheiro suficiente para o alfaiate, o Sr. Arkelau, da tenda “Águia Verde”, no Taboão, e em junho — precisamente a 23, véspera de São João — vestia o terno azul, jaquetão de seis botões. Por cúmulo da sorte, a mulata Tiana passou a dar-lhe presentes. Na rua e no beco as más línguas espalharam que a namorada chegou à desfaçatez de obsequiá-lo com meia dúzia de cuecas de seda. Grossa mentira. Porque além de uma camisa branca, colarinho engomado, oferecida em fins de abril, dia do aniversário do guarda, o que mais Tiana lhe dera fora um Manual de Eletricidade Prática. Ele não alimentou a boataria. Ignorou-a. Sabia-se invejado.
                Depois, e enfim, a manhã da véspera, o jaquetão azul cortado e cosido pelo Sr. Arkelau já no armário, preparados os sapatos, a camisa de colarinho engomado, as meias brancas, a gravata verde cana. Conferiu tudo. Sorriu, feliz, fazendo seus planos: de manhã e de tarde as rondas habituais. Importante seria a noite. Para começá-la, planejou, daria sequencia calma ao namoro com a mulata Tiana, até 21 ou 22 horas no máximo, evitando excitá-la demais. Em seguida, passaria pela casa do comissário Dr. Asdrúbal, em Brotas, onde alguns amigos da Guarda Civil e da Segurança Pública estariam reunidos. A partir dali, o que viesse, talvez um baile na Estrada da Liberdade ou chegada no Clube Barão do Desterro, de bons dançarinos, mulatas sestrosas e cerveja ao alcance. Tudo com a roupa azul, o jaquetão de seis botões. O plano era esse, um bom plano. Mas deu-se que não foi assim. Como ele contaria a Dorinha, meses depois, “o diabo meteu-se na história e campou tudo”. Pouco antes do anoitecer, no banho, foi além da conta na demora, esfregando-se com esmero. Queria-se limpo e cheiroso. De meias, cueca e camisa novas, vestiu-se com gozo, admirando o vinco das calças. Pôs o paletó e lamentou que fosse tão pequeno — a impedir uma visão global de sua elegância — o espelho do quarto. A mãe, ao vê-lo, deu-lhe o elogio que esperava:
                — Como está bonito meu grandalhão!
                Riu de alegria e foi cheio de contentamento que ao passar pelas casas do beco, oferecendo e recebendo boas-noites, imaginou a admiração que a todos causava. O Sr. Macedo, marido de D. Elisabeth, parou-o para dizer-lhe:
                — Bonita roupa, Dudu, bonita roupa, muito bem cortada.
                Respondeu:
                — Fiz no Arkelau.
                — Vem para o jenipapo? — perguntou D. Elisabeth.
                — Volto, mas antes tenho que ir na casa do comissário Dr. Asdrúbal.
                — E Tiana? — D. Elisabeth quis saber.
                — É agora, estou indo.
                “É uma beleza de homem”, pensou D. Elisabeth quando Dudu Gazineo, alto e espadaúdo, se perdeu na esquina do beco. Mais embaixo, já na rua, Tiana o esperava no portão de sua casa. Aguardava-o com uma prenda: estojo simples, forrado a veludo negro, e sobre a fazenda, brilhando, um alfinete de gravata.
                — Obrigado — disse.
                Tiana, de cálculo, lançou a corda:
                — Entre para o jenipapo...
                Ela nem deu pela roupa, nem olhou. O convite estava nos lábios, à armadilha. O guarda ponderou, rapidamente, que se entrasse, devassando a intimidade da família Orozimbo, terminaria noivo e se noivasse, com aliança e tudo, haveria de casar. Não queria isto. E respondeu pela negativa, não, não entraria. Tiana, exasperada pela recusa, abriu as válvulas do seu ressentimento:
                — Você quer é me aproveitar!
                Chorava alto, histérica, e ele, sem respostas, deixou-a de banda, e saiu a descer a ladeira, mas não concluiu o caminho pretendido.
               
                4.

                No Nina Rodrigues autopsiaram-no
                O Sr. Pepe Fernandez e o Sr. Macedo foram os únicos amigos que assistiram ao trinchamento, odiando aquele médico gordo e suarento. Se já o sabiam morto em consequência das facadas, por que abri-lo daquela forma, com aquela estupidez toda? Vá lá que se corte um homem, pensou o Sr. Pepe Fernandez, quando o motivo da morte é desconhecido. Com o guarda Dudu Gazineo o caso era outro. Quem não sabia que ele havia sido assassinado numa esquina da rua do Açouguinho, esfaqueando-o um sujeito de má fama, apelidado Caveirinha?
                Depois da autópsia, coseram-no de novo. O Sr. Pepe e o Sr. Macedo ali estavam para o sacrifício de apanhar o corpo. Receberam-no nu, a tarde estava demasiada suja de sangue. O caixão veio de uma casa especializada, no Pelourinho. D. Santa, levada para a residência de D. Elizabeth, não viu a entrada do corpo e nem viu, igualmente, o cuidado com que o Sr. Pepe e o Sr. Macedo o vestiam com a roupa azul, o jaquetão de seis botões. Tudo mais ou menos como naquela noite de São João, meses atrás: a camisa branca, os sapatos de solas de borracha, a gravata verde cana. Um lenço foi amarrado do queixo à cabeça, para que a boca não ficasse aberta.
                Na pequena sala de jantar o Sr. Pepe armou a cena. Gente da rua entrava em fila. Olhavam o corpo estendido no caixão podre, negro, com poucos enfeites prateados, reparavam logo na roupa azul, um vistoso azul-rei. Os desatenciosos deixavam escapar, no entanto, um detalhe de notável importância: apesar de nova, somente duas vezes usada, a roupa mostra estragos do lado esquerdo do paletó. O cerzido de D. Santa não conseguira disfarçar de todo o rombo produzido pelo estouro de uma bomba de São João, na véspera da festa, aquela noite. O comissário Dr. Asdrubal, que conhecia a história, comprazia-se em apontar, discretamente, o paletó cerzido e explicava que quando Dudu Gazineo ia descendo a ladeira, em busca do Largo de São Miguel, uma bomba acesa e atirada por garoto traquinas caíra no bolso da azul e ali explodira.

                5.

                Ao deixar Tiana com sua raiva e seu choro, o guarda Dudu Gazineo começou a descer a ladeira pelo meio direito. Julgava, a repetir impressão já experimentada no beco, que todos olhavam sua roupa, seus sapatos, o belo homem que era. Despreocupado caminhava, a cabeça no ar, esquecido o incidente com sua namorada. Sem maldade o menino jogou o foguete, uma bomba de sete estouros. O primeiro ocorreu nas pedras da rua úmida. A bomba foi então impelida e caiu no bolso esquerdo do jaquetão azul. Dudu ainda tentou, desesperadamente, agarrar a bomba, pô-la fora, mas tudo que conseguiu foi queimar-se com as explosões sucessivas. Da queimadura, sua ardência, não sentiu ódio, mas virou bicho quando notou o estrago na roupa azul, a fazenda a queimar-se. Não fosse contido por estranhos e teria esmurrado o garoto, o pai, a mãe, todos. À força imobilizaram-no no pouco a pouco foi deixando de se debater, nos olhos não havia mais ódio, porque chorava. O último gesto de violência foi enfiar a mão no bolso, querendo arrancá-lo e o conseguiu. Desvencilhando-se do grupo que se fez em torno, voltou a subir a ladeira, caminhando o beco com rapidez, quase correndo. À mãe, D. Santa, ele não precisou dizer nada. O pedaço do bolso na mão, a roupa rota, os olhos também contavam tudo. O patético a que se entregou, quando penetrou na casa — pisando o paletó com raiva, arrebentando a braguilha ao invés de desabotoá-la — não arrancou da velha uma palavra. Ela esperou e quando, de cuecas, ele foi para o quarto, D. Santa recolheu a calça e o paletó pisados, o bolso arrancado, guardando, guardando-os na cômoda antiga. E em silêncio se manteve, a mãe, quando ele, agora de pijama, retornou à sala, debruçando-se na janela, a fumar. No beco, sem saber da tragédia, o Sr. Macedo tocava seu realejo, os meninos gritavam estouravam traques, o guarda alimentava seu rancor, mas não sabia contra quem dirigi-lo. Sentiu-se sozinho, ele que, antes, se identificava com todos os vizinhos e com cada pedra daquele beco. Foi D. Elizabeth quem se encarregou de contar a dura tragédia para os demais moradores, conduzindo a meninada para dormir, guardando o realejo do Sr. Macedo. Imitaram-na o Sr. Ferramenta, seu filho Nouca, os demais moradores. As janelas foram sendo fechadas e em pouco o silêncio ali se instalou, um silêncio de piedosa e inútil solidariedade ao guarda Dudu Gazineo e ao seu jaquetão azul, de seis botões.
                Meses depois, quando contou a Dorinha o episódio, é que o guarda Dudu Gazineo lhe conferiu o devido valor. Então, porém, já era tarde demais. Tinha-se desvinculado do beco. Não o reencontraria, nunca mais. E a morte fechou o círculo.

                6.

                Sem a roupa azul, perdidos os chamegos de Tiana, obrigado, todas as manhãs, a olhar o casarão amarelo da Ordem Terceira de São Francisco, submetido ao tédio das rondas diárias, o jovem guarda Duda Gazineo, antes alegres e com ambições simples, ingressou em período de apatia, semanas seguidas. Deixou de bater gamão com o Sr. Macedo e só de raro em raro aparecia no armazém “Sol da Galícia”. Em todo o caso, o comissário Dr. Asdrúbal fez-se uma promessa: pô-lo-ia a serviço da Segurança Pública, promovendo-o a investigador, logo surgisse uma oportunidade adequada. A promessa alegrou-o um pouco e ele tratou do assunto na residência do Sr. Macedo. Então, querendo animá-lo, D. Elizabeth disse:
                — Deus escreve certo por linhas tortas...
                Em dia dos primeiros meses de 1947 um acaso colocou-o em caminho diverso daquele que vinha seguindo. Concluídas as rondas do dia, era cedo ainda, foi à Segurança Pública ver o comissário Dr. Asdrubal, perguntar-lhe (era só o que desejava) se a vaga afinal surgira. O comissário confirmou a promessa e convidou-o para uma diligência urgentíssima na rua do Açouguinho, baixo meretrício. Uma briga a navalhada, três mulheres feridas, a dona da Pensão, Amélia de Tal, com um talho de peito a peito, coisa do amante sob excitação da maconha.
                No local do conflito o comissário Dr. Asdrubal determinou levasse presa, a pé, até a Delegacia, uma das testemunhas, a puta Dorinha, mulher nova na Pensão, recentemente importada da cidadezinha do Recôncavo. E saíram, o guarda e a puta. Que se disseram, Dudu e Dorinha, quando caminhavam as ruas da cidade, o Terreiro de Jesus e a Misericórdia; a rua Chile e a Praça do Poeta, até o prédio cinzento da Segurança Pública, no Largo da Piedade?
                Sim, que se disseram?  
                Semanas depois daquele entardecer, na noite em que o guarda Dudu Gazineo foi abandonado, Dorinha fugiu e ninguém a encontrou. Está sumida, até hoje. De como Nena Bagulho, depondo no inquérito, disse que, segundo confidências de Dorinha, o diálogo do caminho foi mais ou menos assim:
                — Vou presa? — Dorinha perguntou.
                — Não, é só para depor. Você é testemunha.
                — Me soltam depois?
                —Soltam.
                Continuaram o caminho, em silêncio. No alto da ladeira de São Bento ela se persignou, diante da Igreja. Movendo os lábios, a mulher parecia rezar, os olhos no chão. Quando voltou a encará-lo, disse:
                — O senhor guarda é um homem bonito.
                Ele respondeu:
                — Você também é uma moça bonita, eu acho.
                — Não sou moça, sou mulher-dama.
                — Eu disse moça e é moça. Você é uma moça bonita, no fundo você é. Essas pinturas é que estragam.
                Ela gostou e prometeu:
                — Depois eu tiro.
                E, de fato, houve o depois. Dorinha prestou seu depoimento. A rigor, disse, não assistira a briga. Estava ocupada com um estudante. Ouviu os gritos, vestiu-se e saiu a ver. O homem estava com a navalha suja de sangue, os olhos de louco, D. Amélia caída no chão, ela julgou estivesse morta, duas mulheres gritavam, o homem olhava a navalha. Apenas espiou a cena. Em seguida, temendo que o homem maconhado a visse também, quisesse cortá-la, trancou-se no quarto. Estava louco o homem da navalha.
                Foi um depoimento rápido, o comissário Dr. Asdrúbal logo a liberou. Mandou que o guarda Dudu Gazineo a levasse de volta, não mais para aquela Pensão. Apanhasse suas coisas — determinou o comissário — e fosse para outro lugar.
                — Ajude ela — ordenou. É do interior, não sabe nada da cidade. Ajude ela...
                O guarda Dudu Gazineo carregou-lhe a trouxa, levando-a para a Pensão de D. Silene, apelidada Madame Sissi, amante de um sujeito magro e caladão, conhecido como Olavo Caveirinha. Ali, na Pensão de D. Silene, passou a encontrá-la todos os dias. Fazia questão de pagar quando a levava para o quarto. Convidou-a, mais de uma vez, para as matinês do Cine Popular e do Cine Pax. Quando as novas instalações do Cine Guarani foram inauguradas o guarda e a puta estavam de braços dados, ele falando da vida do beco, a mãe D. Santa, a noite da roupa azul, o grande eletricista que poderia ser, se estudasse aquele Manuel Prático.
                Nessa altura do depoimento da prostituta Nena, o comissário Dr, Asdrúbal, bom estrategista, empenhado na defesa da memória do guarda morto, perguntou:
                — Havia, então, amor entre os dois?
                — Sim — disse Nena — havia amor. Ele era um homem bonito.
                Outros depoimentos alcançaram feio a honra do guarda Dudu Gazineo. Olavo Caveirinha disse-o um gigolô de mulher inexperiente. Valia-se da farda para explorá-la e iam, os dois, fundar um “castelo” na rua do Tijolo para o qual tinha convidado pensionistas de D. Silene, o que era uma traição. Acusou-o de frente e o guarda, ao invés de desmentir, xingou-o aos gritos, dando-lhe um empurrão. Na hora, mais fraco, o guarda armado, não reagiu mas quis vingar-se, que não podia ficar apanhado. E esperou-o na esquina para feri-lo, marcá-lo para sempre. D. Silene confirmou o depoimento de seu amante e outras mulheres da pensão, ouvidas no inquérito, preferiram a proteção do “não sei”, “não vi”, “não me interessa”. As inquirições prosseguem e alimentam, cada vez menos, as conversas do beco. Dirige-as, ainda, comissário Dr. Asdrúbal, muito elogiado porque comandou uma coleta de auxílios para D. Santa. Ela voltou a lavar de ganho e nunca deixa apagar-se o pavio da lamparina que se queima debaixo da imagem de Nossa Senhora da Conceição e daquele retrato, cada vez mais sem cor, onde é ainda possível adivinhar-se os lábios em coração de Dorinha e a postura militar do guarda Dudu Gazineo. Mistério não desvendado é o desaparecimento de Dorinha. Uma suspeita que o comissário Dr. Asdrubal, defendendo o amigo e a corporação, favoreceu-lhe a fuga. Outros imaginam que ela, um dia, ainda dará as caras. O Sr. Pepe Fernandez, que estudou bem aquele retrato, que conheceu de perto o guarda Dudu Gazineo, admite a possibilidade de um suicídio por amor. E todos, no armazém “Sol da Galícia”, pensam no terrível mar da Bahia que, assegura o Sr. Pepe, raramente devolve cadáveres.

Abril, 1965.    
                   



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