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Queimaduras




Nem disse “adeus” ou “até breve” ao pai: o velho estava atento a palpites turfistas num jornal. Repetiu vontade de sugerir “Champion” no quinto páreo e entendeu ter agido de modo razoável. Se perguntado sobre os motivos da sugestão – por que “Champion”, por quê?  -- não saberia responder. Seria cretino informar que vira foto de “Champion” numa revista colorida e o achara cavalo muito macho, de boa carreira, muito a fim de vitórias sensacionais. E que o montador lhe parecera um jovem honesto, lutador, de bons sentimentos.
Então, nem disse adeus ao pai.
                Antes de sair do apartamento, mochila presa às costas, olhou o pequeno retrato da mãe falecida, a mulher de perfil, bela, e olhou o porrão convencido de que até a sua volta, se voltasse, a água não seria renovada, apesar de podre. Uma podridão de muitos anos, aquela podridão que o pai não percebia. Ou fingia. Ou mantinha. Afinal, quem sabe o que se passa na cabeça de certas pessoas idosas?
                É tudo tão estranho...
                A mãe gostava de repetir esta frase: “é tudo tão estranho”.
                E reolhou o porrão. Detidamente, sem coragem de jogá-lo lá embaixo e com medo de acariciá-lo. O objeto, que continha água apodrecida também de bananeiras, mostrava talhos grosseiros. Neles o ceramista desenhara, com tinta branca, ou espesso cimento branco, duas máscaras superpostas. Duas caras que riem e choram, coisa muito comum de se ver nas antigas comédias de cinema, agora frequentes na televisão.
                Perguntou ao ascensorista:
                — É uma boa “Champion” no quinto páreo, amanhã?
                — Pode ser um bom azar.
                — Você arriscaria?
                — Não.
                — Mas, é um bonito cavalo e o montador me parece sério.
                — Acontece que nunca se sabe.
                — É mesmo.
                Ao pisar nos primeiros quadriláteros de uma pedra imitando mármore na hall do edifício, voltou-se e perguntou:
                — Você dispõe de 100 cruzeiros, Osmário, até eu voltar?
                — Até 600 ou 700...
                — Bastam os 100. E jogue em “Champion”, na ponta, no vencedor.
                — Fé e fé. Ta bom.
                E lembrou da mãe: fora uma mulher do melhor porte, uma pessoa maravilhosa. Mostrando a mochila nas costas, avisou ao porteiro:
                — Vou acampar por aí, volto um dia desses.
                — Vá com Deus.
                Sentiu necessidade e disse:
                — Se o velho perguntar por mim, diga que fui de mochila à rodoviária.
                — E se não perguntar?
                — Então diga que me viu de mochila nas costas, tá aqui ela, e que fui para a rodoviária querendo um ônibus para o sul. Não esqueça isso: para o sul.
                Depois de algumas horas de espera — sempre fumando — nada do pai aparecer, ele pegou um ônibus que o levou a Santos e hospedou-se em pensão mantida por duas irmãs portuguesas, mulheres sisudas, caladonas. O quarto, cortinas de bolinhas esverdeadas, lembrou-lhe o seu, no apartamento do pai, Rio, Zona Norte. Nesse quarto, em noite de inquietantes dúvidas (“Champion” havia vencido, pagando 34 por 11), escreveu uma carta ao pai mas não chegou a enviá-la. A carta andava com ele, amassada, na capanga, com envelope dobrado.
                Gostou das praias dos sul de Santos: sempre encontrava gentes pacatas e lhe aprazia desenhar, na areia, perfis de crianças e senhoras, perfis desfeitos com o crescimento das marés ou com agitados gestos de mão. A mão esquerda.
                Foi numa dessas praias que ele viu Sônia. A mocinha lhe pareceu diferente, movimentos alegres, desenvoltos, com frequência a acariciar a própria pele, sem exibicionismos narcisista. “Talvez seja uma pessoa”, ele pensou, esfregando areia úmida na capanga já sebenta do muito uso. Sônia era um tanto dentuça e ao sorrir — ele reparou — esforçava-se por prender ou disciplinar o lábio superior. Isso a fazia ainda mais atraente.
                Quando a senhora que a acompanhava foi ao mar, ele ousou um “ei, moça, você tem fósforos”? e Sônia moveu a cabeça, afirmativamente, mostrando um desses isqueiros cujas chamas resistem aos ventos.
                — Você parece um rapaz alegre.
                — Sou e não sou. Joguei num cavalo e ganhei forte.
                —É viciado nisso?
                — Não. Joguei por jogar: simpatizei com o cavalo.
                — Eu nunca fui num hipódromo.
                — Nem eu.
                Depois de conversarem sobre a necessidade de as pessoas jovens fumarem o menos possível, até conseguirem abandonar o vício, ele disse:
                — Você, permita a intimidade, é uma boa pessoa. Você vem amanhã?
                — Se não chover.
                — Gostaria que você viesse, mesmo chovendo.
                — Talvez eu consiga convencer titia a vir.
                — Pensei que ela fosse sua senhora mãe.
                — Minha mãe morreu. Meu pai também morreu.
                — Eram boas pessoas, claro.
                — Eram ótimas pessoas, com certeza.
                — Da Bahia?
                Ela riu, concordando — e riu sem nenhum esforço para prender o lábio superior. Sentiu-se livre, desimpedida, sem freios.
                Ao levantar-se — temeu ser desagradável à Tia, que vinha do mar — ele reparou que Sônia tinha uma cicatriz na coxa direita: queimadura.
                — Por que você já vai? Titia não é nenhum bicho.
                — É que tenho de escrever umas coisas e sou meio maníaco em matéria de horários. Por favor, venha amanhã. Mesmo que chova. Meu nome é Guido e sei que o seu é Sônia porque ouvi sua tia chamá-la Soninha. Tô certo?
                — Está.
                — Não deixe de vir amanhã, mesmo que haja temporal.
                Propositadamente esqueceu a carteira de cigarros e foi para o bar de uma pracinha quase defronte da praia, sentando-se em mesa próxima à janela. Da capanga tirou a carta envelopada, lápis e borracha. No envelope desenhou um cavalo de olhos em chamas.
                — Camarões fritos? — o garçom perguntou.
                — Sim. E um chope.
                No alto da primeira lauda da carta desenhou um corpo de mulher e, bem no centro da coxa esquerda, marcou um x. Aos poucos, com a borracha, usando-a delicadamente, foi apagando o x, até que permanecesse apenas o ponto central, junção dos traços cruzados.
                — O senhor desenha bem.
                Gostou do elogio do garçom e explicou:
                — Desde a escola primária.
                Recordou-se do pai e da mãe e nervosamente apagou o desenho. O ponto, contudo, fora preservado e ele o avisou: usava lápis número um. Viu, então quando Sônia e a tia, recolhendo os pertences que haviam levado, abandonaram a praia. Disse ao garçom:
                — Aquela moça me parece uma boa pessoa.
                — Pode ser. Nunca se sabe. O senhor quer mais camarões?
                — Quero.
                — Mais uma dúzia?
                — Sim. Quero também outro chope.

                *

                Não havia sol e Sônia apareceu sozinha. Sem que ele nada indagasse, explicou que aquela queimadura na perna estava diminuindo, com o passar dos meses, dos anos. Disse:
                — É que eu fui uma menininha muito sapeca. Mexi numa maquininha de álcool e aí...
                — O álcool estava aceso e você não reparou.
                — Foi. Se não fosse papai acho que não estaria aqui.
                — Estaria morta.
                — Sim, estaria. Porque o fogo pegou no vestidinho e a fazenda era muito leve, vaporosa e papai então se agarrou em mim, abafando as chamas, se queimando também, dando tempo para que mamãe jogasse água e terra em cima da gente.
                — Fez-se uma espécie de lama protetora.
                — Foi. Você é especialista em engenharia contra incêndios?
                — Não. Por que a pergunta?
                — Você faz umas observações que caem na batata.
                — Seu pai morreu de queimaduras?
                — Não. Ele e mamãe morreram de desastre, poucos anos depois. Desastre de ônibus.
                — Incêndio?
                — Não. Foi uma ponte que caiu e o ônibus estava bem no meio da ponte. Isso foi na Espanha. Seus pais são vivos?
                — Mamãe já morreu. Voltando a falar de queimaduras, sei que não é bom expor cicatrizes ao sol. Bote um pouco de areia em cima da sua. E está areia é boa: está úmida. Deixa eu botar?
                — Eu gostaria, porque talvez deixe de coçar.
                — Coça?
                — Às vezes.
                Ele conseguiu, com engenho, uma espécie de emplasto de areia úmida e assim protegeu a cicatriz sem nenhuma lascívia. Sônia reparou nos dedos delicados e quis saber:
                — Você estuda medicina?
                — Não. Mas tenho lido sobre essas coisas. Por exemplo: quando uma cicatriz coça há evidências de processo de regeneração. Esse processo, porém, deve ser controlado. É o erro da natureza: Ela é boa e má ao mesmo tempo. Vai daí, é preciso tratá-la com carícias e severidade.
                — Ah, Você estuda filosofia.  
                — Não. Estudo arquitetura, mas acho que vou me tornar piloto de avião comercial. Linhas internacionais...
                — Tenho medo de aviões.
                — Voltando a falar de queimaduras, sei do caso de uma parenta minha, um negócio terrível.
                — Por que você não segue arquitetura? Vida de piloto é sempre muito arriscada.
                — Tudo é muito perigoso. Escute: o marido dessa minha parenta, enciumado, jogou-lhe um candeeiro aceso no rosto. A gasolina queimando se esparramou. Ela ficou deformada. Eu era ainda pequeno quando o fato aconteceu. O lado esquerdo do rosto. Todo o lado esquerdo.
                — Uma perversidade.
                — Foi. Era uma senhora já com 37 anos e muito bonita, a julgar por umas fotografias que vi. Ela morreu de desgosto. Ela era uma pessoa fraca. Um minutinho...
                E foi ao mar e trouxe água, as mãos em concha, para umedecer a areia sobre a cicatriz de Sônia.
                — O ciúme — ela disse — é um sentimento detestável, primário.
                — Essa minha parenta morreu definhando, quase sem sair do quarto.
                — O marido se arrependeu?
                — É o que não se sabe. Talvez sim, talvez não.
                — Lamento muito. Por que você não esquece tudo isso?
                — Certas pessoas fazem coisas que não entendo e nasci com a mania de querer entender tudo. Ou, pelo menos, não ignorar as coisas principais. E, no fundo, veja que absurdo, sou um medroso.
                — Bobagem...
                — Não fisicamente, não. Medroso diante das possibilidades de conhecer. Eu evito. Eu me afasto. Eu nunca volto aos mesmos lugares e se volto fujo das pessoas que, no meu entendimento, marcam esses lugares: marcam com os dedos, as vozes, os gestos, o comportamento. Essas pessoas e esses lugares me causam nojo.
                Ela pediu:
                — Traga mais água do mar.
                Com agilidade ele atendeu o solicitado e emudeceu a areia que cobria a cicatriz e deslizou os dedos no joelho da moça, com cuidado de não a ofender.
                — Você tem uma bela penugem. Uma das mais belas que já vi.
                — Há alguns anos ­— Sônia o interrompeu — esta minha queimadura vinha do joelho até os quadris, quase todo o lado da perna. Era horrível.
                — Aí, você foi crescendo...
                — É. Fui crescendo e agora só há esta placa e a titia até já se ofereceu para pagar uma operação plástica.
                Opinou exaltado:
                — Não queira operação plástica nenhuma. Acredite na natureza.
                — Não quis e não quero.
                — Você é jovem e daqui a uns três, quatro anos, por ai, só vai ficar um ponto. E esse ponto será uma espécie de tatuagem. Esse ponto terá o valor de símbolo. Graças a ele você lembrará sempre sua mãe e seu pai, ótimas pessoas.
                — Pessoas maravilhosas e titia também é uma pessoa fora de série.
                Ela acendeu dois cigarros, ofereceu-lhe um, esperando que mudasse de tema. Viu uma gaivota e disse ter lido um livro lindo sobre gaivotas, “muito instrutivo”.
                — Ouvi falar. Tenho estudado matemática... Queria lhe dizer uma coisa mais sobre queimaduras. Por exemplo: ensinaram a minha parenta que ela devia colocar compressas de folha-de-bananeiras umedecidas com água recolhida em moringas postas sob o sereno das noites e das madrugadas. Aí, essa minha parente, na ânsia de ficar curada de queimadura, ao invés de moringas comprou logo um porrão. Você sabe o que é porrão?
                — Eu sou da Bahia, você mesmo descobriu...
                — Ela usava também muitas moringas e bacias. E usava flores, gramas, essas coisas, para pegar água, água do orvalho. Entendeu?
                — Entendi, mas não sabia que água assim tem essa função.
                — É bom, não cura, mas alivia as dores e não sei o que mais. Acho que a pela reage melhor.
                — Dá muito trabalho.
                — Você é jovem, você nem precisa.
                — Vou completar 18 anos.
                Disse: “você parece que tem 15, que é quanto eu tinha quando minha parente morreu”. E, com gestos, pediu o isqueiro dela emprestado, enquanto tirava a carta da capanga. Atendeu o pedido e lembrou.
                — Mas, você disse que era bem pequeno quando ela morreu.
                — Mentalmente pequeno, foi o que eu quis dizer. Naquela época não me passava pela cabeça que as pessoas fossem tão contra elas mesmas; que, por exemplo , alguém amando outro alguém incendiasse o rosto do outro e se martirizasse o resto da vida por causa disso.
                Antes que ele queimasse a carta, envelope já selado, ela, em ímpeto de interesse, pediu para ler o texto, imaginando que fosse um poema ou qualquer outro trabalho literário dolorosamente feito. 
                — Não é uma boa — ele disse, apagando o isqueiro — que uma pessoa como você leia o que possa perturbá-la.
                — Pois, eu não gostaria que você queimasse, em minha vista, algo que lhe possa causar arrependimento no futuro.
                — Posso entender isso como uma prova de interesse seu no que me diz respeito?
                — Pode. Alias, deve.
                Feliz, muito feliz, ele guardou a carta na capanga e Sônia, agora despreocupada, perguntou:
                — Como você descobriu que eu sou da Bahia?
                — É que você fala mais ou menos cantando e quase nunca emprega a segunda pessoa. Eu gosto: mamãe era assim, mas de Pernambuco. De que lugar da Bahia?
                — De Salvador. Você conhece?
                — Quando mamãe morreu eu me mandei pra lá, antes mesmo das férias, mas sou do Rio e gosto. O Rio é uma cidade em que a gente pode sumir e não se sentir perdido. Há sempre coisas e gentes nas quais eu posso me agarrar. Salvador também parece ser assim.
                — A sua parenta, que morreu de desgosto por causa da queimadura, morava lá?
                — Não, no Rio. Esqueça isso de queimaduras.
                — Você e quem insiste no assunto, você é quem insistentemente olhou para a minha!
                — Não quis ofendê-la, palavra de honra.
                — Ela limpou, retirando a areia, a parte queimada.
                — É que sou meio maluco. Essa mania de andarilhar por aí por exemplo. Sou um ser andarilhante.
                 Sônia riu e ele continuou:
                — Mamãe era assim. Era pianista, dava concertos em tudo quanto é parte do Brasil e da América do Sul. Se não morresse, coitada, teria ido até a Europa.
                — Morreu de quê?
                — Mamãe?
                — Sim.
                — Foi em incêndio num teatro. E Não me pergunte onde, nem quando, nem porque. Eu era muito pequeno, criancinha, bebe, feto. Antes de uma pessoa ser feto, o que é que é?
                Ele fez a indagação de um modo muito engraçado (embora não tenha tido intenção cômica)  e uns pingos de chuva começaram a cair: ela notou, apreensiva que os olhos de Guido estavam úmidos, olhos de um negro marcante, algo para não se esquecer. Correram até a pracinha (com toalha Sônia improvisou um sarongue) e entraram no bar. O garçom que na véspera o atendera foi solícito e arranjou-lhes acomodação num canto, lugar distante do alvoroço que alguns jovens faziam nas mesas da área onde era possível ver o mar. Disse:
                — O garçom parece conhecê-la.
                — Conhece.
                — Você estuda o quê?
                — Letras. Gosto de ler. Escrever, de idiomas. Mas, na verdade, o que eu quero é casar. Ser mãe, ser dona-de-casa. Tentar dar continuidade à família que tive. Se você presenciasse o que papai, mamãe e eu fizemos para salvar meu irmão menor, puxa vida, que desgraçada tarefa e também que beleza.
                — Queimadura também?
                — Não. Leucemia. Câncer no sangue.
                — Casamento é um risco.
                — Tudo é um risco.
                O garçom voltou, alegre:
                — Que é que manda, dona Sônia?
                Pediu salsichão, picles e mostarda, além de rodelas de pão. Ele ordenou camarões fritos “dos grandes, com muita poluição”, e quando o garçom, atendendo o chamado, seguiu para outra mesa, Sônia esclareceu:
                — Se chama Felipe.
                — Um nome comum. “Felipe Camarão”, por exemplo.
                — Você está se esforçando para ser zombeteiro... Cuide-se para não ser injusto.
                — Além de Felipe, ele é o quê?
                — Uma pessoa de quem eu gosto. Quer ser tradutor e aprende idiomas com minha tia: inglês e alemão.
                — Um Felipe poliglota.
                — Me diga: a sua parenta, que morreu de desgosto por causa da queimadura, era o quê?
                — O que o quê?
                — Prima, cunhada, tia?
                — Parenta, pô, parenta!
                — Não é preciso gritar. Eu não sou surda.
                Sentiu vontade de beijá-la e limitou-se a dizer:
                — Esquecemos de pedir bebidas.
                — Felipe sabe o que eu bebo: só bebo chope. Se você não pretende mais falar sobre queimaduras, ótimo.
                — Eu também gosto de chope.
                E começou a desenhar, sobre guardanapos de papel, uma face de mulher, fêmea de traços delicados. E insistiu no procedimento, nervosamente. Vários desenhos, a mesma mulher, o mesmo perfil, uma beleza que se ia fazendo grosseira porque os traços tornavam-se ríspido, descuidados quanto a delicadezas. Então, surpreendendo Sônia, disse:
                — Acho que é melhor eu voltar para o Rio.
                — Posso ficar com estes desenhos?
                — De que adiantaria?
                — Não sei. Talvez possam ter alguma importância, no futuro.
                — Posso beijar você?
                — Claro.
                Ele a beijou na testa, fraternalmente, e saiu do bar, a carta na capanga, louco para pegar sua mochila na pensão das irmãs portuguesas, voltar ao apartamento do Rio, acreditando-se com bastante coragem para arrebentar aquele porrão de águas podres, queimar a carta, libertando-se de antigas cicatrizes. Ao sair, resoluto no caminho apressado, nem reparou que Sônia e Felipe o olhavam com muita simpatia. O garçom perguntou:
                — Ele tem dinheiro?
                — Deve ter. Me disse ter jogado num cavalo vencedor.

                

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