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Trecho do romance Sedução.






"— Minha mãe sabia algumas histórias. Todas, com fundo moral, normalmente baseado em contos Bíblicos. Tinha uma, de uma mulher belíssima... Não! Mamãe não falava belíssima... falava formosíssima... Uma moça formosíssima de nome Susana que se casou com um homem de bem, mas de poucas posses... era assim que ela, circunspecta
, contava-me...
— Então, Pai. Conte-me, — Beatriz insistiu.
— Era uma vez uma mulher de nome Susana, que era casada com um humilde vendedor de verduras. Susana havia sido criada na obediência às leis de Deus. Certa feita, na pequena cidade onde morava, chegou um homem muito importante. Se eu não me engano, era um juiz. O juiz se encantou por Susana. E, uma vez seduzido pela beleza da formosíssima mulher, apaixonou-se perdidamente. O tal juiz passou a viver atrás da moça e ofertava caros e raros presentes a ela. Mas Susana sempre se recusava a recebê-los. Porém, uma vez, ela foi ao lago para banhar-se. Estava sozinha, havia dispensado a companhia das amigas. Ao chegar à margem do lago, ela pôs as roupas estendidas num arbusto. Nisso, o juiz que a seguia, vira-a indo ao lago, então, esperou que ela fosse se banhar e escondeu as roupas que ela havia deixado no arbusto, depois, ele foi até ela e propôs fornicar. Ela se recusou, ele, então, aproveitando-se da situação disse: "— Ou você cede seus favores aqui onde ninguém nos vê ou direi a teu marido que você estava fornicando com outro homem. Tenho certeza que quando desfilares impudica pelas ruas, em mim, todos crerão". Aí, Susana respondeu: "— Se eu fizer o que Sua Excelência me pede, sairei livre em carne, no entanto,
Deus que tudo vê, saberá de meu pecado. Porque não o farei, mesmo que meu sangue jorre das mãos de meu amado marido, estarei inocente. Se vier a perder minha vida salvarei minha alma, e meu marido será isento de culpa por crer cegamente na injúria e salvará também a dele, pois o castigo desse pecado, decidido por Deus, é a morte. Mas você insensato, responderá ao Todo-Poderoso. Senhor de tudo e da verdade".
— Pai, o que é fornicar? — Interrompeu Beatriz.
— Fazer sexo, copular... Deixe-me continuar que você vai entender. Como Susana recusou-se a aceitar a chantagem, o juiz levou as roupas ao marido dela e disse: "— Vi sua mulher fornicando com um jovem no lago". O marido ficou possesso. Apanhou uma pedra e chamou a todos ao redor e pediu catassem pedras e o seguissem. Os que ali estavam, cataram pedras para acompanhar o marido ao lago. Todos estavam dispostos a apedrejarem-na até a morte. O marido caminhou junto ao juiz na frente da multidão. Ao chegarem ao lago e verem Susana coberta de água até o pescoço, preferiram acreditar nos olhos e não na razão. Porque, naquela lei, o homem traído lavava a honra com sangue e a pedradas. Porém, um dos homens da multidão, buscando defendê-la pede prova, aí, o Juiz, reafirmou tê-la visto ali com outro homem e mostrou as vestes roubadas. Susana, evidentemente, negou e negou de dentro do lago, porém, ninguém acreditou na versão dela. Então, mesmo cheia de pudores, ela que era temente a Deus, ganhou forças e caminhou para sair do lago em direção ao marido: Tham! tham! tham!... amanhã eu termino a história, vamos dormir.
— Ah!, pai. É sujeira sua. Conte logo o final...
— Calma, estou fazendo um pouquinho de suspense... onde eu estava?...
— No lago... o chifrudo ia matar a mulher a pedradas.
— Certo, filha... bem... ele não era chifrudo. Ela se recusou a se dar...
— Emprestar, pai. Nós não damos, emprestamos...
— Ta certo, Beatriz. Então... Susana caminhou em direção ao povo e olhando o marido nos olhos disse: "— A ti, sempre fui fiel por amá-lo das profundezas de meu coração, e antes que me mate, saiba, que jamais cometeria adultério e não só de meu amor por ti, mas por ser uma serva do Senhor Deus". Então, misteriosamente, tudo escureceu. E, como surgida do nada, uma luz intensa e muito clara emanou do corpo de Susana. Assim, vestida de luz, ela saiu caminhando da água em direção à multidão. A luz que emanava dela, era tão intensa que ofuscou a todos, impedindo, inclusive, de a verem nua. E, dentre os raios luminosos, ouviram uma voz: "— Diante de vocês está uma serva do Senhor, de alma pura, e inocente do crime imputado". Resultado, filha... Susana saiu do lago e a multidão cobriu os olhos sem que ninguém a julgasse mais uma pecadora. O marido, arrependido, seguiu-a e rogou por perdão e por ela foi perdoado, porém, o juiz impudico e malévolo, que insistira em vê-la sair nua do lago, como castigo, ficou cego para sempre... Então, filhota, gostou?
— Não! É meio babaca, pai. O juiz que deveria ter morrido apedrejado..."


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