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Mostrando postagens de Janeiro, 2017

Minha Cruz - Short story

Quando criança me disseram que, nesta vida, cada um tinha que carregar sua cruz. Porém, como eu era criança, deixei a cruz de lado e fui brincar. Já havia me esquecido dela quando na adolescência, me lembraram da cruz. Adolescente, tinha muita coisa para descobrir, aprender e para fazer. Pensei que a carregaria depois e novamente esqueci a cruz no mesmo lugar em que eu a deixara quando criança. Quando fiquei adulto, novamente, não sei se por meu constante sorriso ou porque minha alegria os incomodava, repetiram-me sobre ela, a cruz, e até me acusaram de negligente por não está carregando a minha. Prometi que o faria, mas, como adulto, novamente não tive tempo, tinha que mostrar a meus filhos e filhas como serem crianças alegres e adolescentes divertidos como eu havia sido e também, apesar de contrariar a todos os que carregavam suas cruzes, deixei-a lá no mesmo lugar. Agora, que meus filhos estão criados, eles vêm me criticar porque eu me nego a carregá-la. Só posso lamenta…

Aeromoça - Ariovaldo Matos

Disse ao Rapaz que Nova Iorque é uma cidade estropiada, tudo apodrece. Não falo de todas as pessoas e sim de algumas e de certas instituições. E também... O rapaz disse acredito em você e ajeitou a fantasia, tenente ou capitão da Nobre Guarda do Rei Faiçal ou algo assim. Sem lhe reparar no gesto, um tanto ensurdecida pelo barulho da festa, a Moça prosseguiu contando que certo dia, em Nova Iorque, conheceu um guarda – desse de esquina, que agente vê no cinema – e dele ouviu propostas indecorosas.             -- Indé... o quê?             Propostas indecorosas! – a Moça repetiu e o arrastou para longe do grupo de jovens havaianas que cantavam “Pega no ganzê / Pega no ganzá”.                 -- Indecorosa o que, minha filha?             -- As propostas do guarda, o de Nova Iorque. Um guarda é um guarda, simboliza decência, e desde que assim é não devia ter feito aquelas propostas. Nem insistir. E ele insistiu, o sujo!             Quarentão amulatado, que usava Summer-jacket, pas…

O barco de papel -

Quando criança, eu esperava as tempestades das águas de março. O papel ofício, roubado do gabinete de meu pai, era meticulosamente parafinado com os tocos de vela, que guardava, quando a troca era feita por minha mãe, em honra de a Santa Teresa de Lisieux. Deitava a folha branca em piso liso e, meticulosamente, ia impermeabilizando-a com a parafina em verso e anverso. As dobras, no papel, se repetiam até está concluído o chapéu de Napoleão. Era assim que o chamava na décima dobradura, quando, com lápis de cera, eu desenhava seus navegadores. Meus personagens preferidos, riscados a cores, na ponta do chapéu, eram os piratas Barba Ruiva ou Barba Negra. Ao desenhá-los, com o tapa olho, eu os imaginava gritando: “Todos ao convés, pestilentos; carregar os canhões” e quase que via as naus espanholas tentarem fugir da salva de tiros que derrubava mastros e velas ao gritar: “Preparar; apontar; fogo!”. E partíamos atrás, para abalroá-los, navegando “a todo pano”. Imaginava os teso…

Colagem (desvairada) em manhã de carnaval. Ariovaldo Matos

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“São mais que os leopardos/Nossos recônditosu” (Sosígenes Costa in “Obra Poética”).
0 “As ruas são como tubos que aspiram os homens” (Max Picard, in “La Fuite Devant Dieu). Informe-se que jamais esteve na Baixa dos Sapateiros, rua é “tubo fervente que queima a gente”, a acreditar-se no velho Antônio.
0 “Segundo as Escrituras, Noé descobriu a vinha e abusou do seu néctar mais do que devia... Tornou-se corajoso como um leão, forte como um urso, cruel como um tigre, rabugento como uma pega e gritador como um galo”. ( Nádia Xavier in “Xeque Mate”, “jornal Tribuna da Bahia”, 24.1.78). 0 “Há somente isto: eu vivo, leio e luto. O que penso e o que digo surgem tanto de minha consciência como do meu coração. Confiro com a vida tudo quanto leio nos livros. E o contrário: procuro nos livros o que vou encontrando na vida”. (Paco Lonardi, argentino, ex-estudante de Medicina, lutador de box). 0 “Dá-se que todo o mundo só conta vantagens. Eu canto meus dissabores”. (Desabafo de Miradão, a seu modo um sáb…