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Mostrando postagens de Dezembro, 2017

Um conto de Natal.

Rosa tem febre demais

Espero a madrugada e visto minha roupa de sonho. Depois, sem que minha mulher desperte, ganho as ruas de silêncio e caminho passos de quem foge, aproveitando manchas de escuridão, sombras que grandes árvores projetam. Agora atinjo as avenidas centrais. Luzes ferem os meus olhos e passam os boêmios e as prostitutas. Alguns param e olham minha fantasia de sonho — as longas barbas brancas, o vermelho manto bordado de arminho, negras botas que confundem meus pés com o asfalto. Olham e seguem e caminham, e mais rápidos são os passos porque agora sou esperado e é hora de chegar. Mais além, no largo, antes da ladeira, estão os motoristas. Dizem coisas pornográficas, contam episódios de sangue, mas eu caminho e passo e eles fazem silêncio quando me vêem. Alguns, os mais velhos, atiram moedas no asfalto e eu as recolho e seus olhos me acompanham enquanto, na outra esquina, encontro a ladeira e vou começar a descê-la. Então, voltam aos temas de antes e terei sido um sonho ráp…

A Morte do Guarda. - Ariovaldo Matos

1.
Rua e beco dividiram-se em vários partidos quando os jornais diários, noticiando o brutal assassinato do guarda Eduardo Gazineo, cuidaram de sugerir graves suspeitas sobre seu comportamento moral, atribuindo-lhe até mesmo a prática de lenocínio. Um deles estampara, na primeira página, a foto do guarda Tidu, esmaecida fotografia de Lambe-Lambe, ao lado da prostituta Dorinha, ela de lábios pintados em forma de coração, piscuila, ele grandalhão, coisa assim de um metro e oitenta. O flagrante, obtido no Terreiro de Jesus, caiu como uma bomba na rua e no beco, servindo de munição para o grupo que, estimulado pela mulata Tiana, investia contra a memória do guarda. Apesar da foto, os que recusavam, de plano qualquer crédito às suspeitas contra o morto, mantinham-se majoritários. O partido centrista, comandado pelo Sr. Pepe, proprietário do Armazém “Sol da Galícia”, sustentava a uma tese marcada pela prudência. O Sr. Pepe dizia: — Devemos aguardar todo o inquérito. Afinal, Dorinha ainda …

Queimaduras

Nem disse “adeus” ou “até breve” ao pai: o velho estava atento a palpites turfistas num jornal. Repetiu vontade de sugerir “Champion” no quinto páreo e entendeu ter agido de modo razoável. Se perguntado sobre os motivos da sugestão – por que “Champion”, por quê?  -- não saberia responder. Seria cretino informar que vira foto de “Champion” numa revista colorida e o achara cavalo muito macho, de boa carreira, muito a fim de vitórias sensacionais. E que o montador lhe parecera um jovem honesto, lutador, de bons sentimentos. Então, nem disse adeus ao pai.                 Antes de sair do apartamento, mochila presa às costas, olhou o pequeno retrato da mãe falecida, a mulher de perfil, bela, e olhou o porrão convencido de que até a sua volta, se voltasse, a água não seria renovada, apesar de podre. Uma podridão de muitos anos, aquela podridão que o pai não percebia. Ou fingia. Ou mantinha. Afinal, quem sabe o que se passa na cabeça de certas pessoas idosas?                 É tudo tão e…