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Mostrando postagens de Dezembro, 2014

Saudade da minha juventude.

Costumava me deitar no sofá da sala para namorar e assistir TV enquanto meu pai tocava sua Remington*, na labuta, madrugada adentro, como musica de ninar. Ah! Se aquele sofá falasse, quantas noites de amor ele ir-me-ia caguetar. Os livros da estante, cúmplices, que me encobriam do olhar de meu pai, quase suspiravam ao esconder do dono da casa as minhas traquinagens, resguardadas por seus tomos. A casa, de muro baixo, sem portão e com fachada de vidros, onde floria um lindo jardim que nos separava da rua, eu expunha minha intimidade. Lá eu fui criado, pássaro solto. 
          De dia, bêbados e mendigos entravam livremente para pedir atenção. Bebiam leite, comiam pão, ganhavam tostão e se iam. Ah! Que saudade de poder andar de cuecas, qual sacos de batata, baratas, que usava sem preocupação. Eu vivia sem passado, sem futuro e sem presentes. Meu tempo era o amor, que num breve instante se fazia eterno. À noite, quando o reflexo da lua espelhava os vidros da fachada, eu era Deus…

Terreno baldio - Literatura Axé.

No fundo da casa de meu pai, minha casa também, na época, existia um terreno baldio. Há anos o terreno estava abandonado. Nele gatos e ratos disputavam os restos de comida que era atirado das janelas do edifício do outro lado. A área era cercada por um muro alto e nela crescia capins e outros arbustos, mato só mato. Certa feita, os meninos da minha rua se reuniram e, junto a eles, fui capinar o terreno, tirar os tocos, catar os cacos de vidro, pedras e paus podres. Queríamos fazer uma quadra de vôlei para brincarmos. Trabalhamos duro durante quinze dias. Limpamos totalmente a área, recolhemos o lixo, pretendíamos cobrir toda a área com arenoso. O pai de um dos garotos era dono de uma loja de material de construção e nos prometeu: daria o material necessário, fossem quantas caçambas coubessem para fazermos nossa quadra. Mas, no dia seguinte, após está tudo limpo e o terreno planado, o dono do terreno apareceu, disse que não tínhamos autorização para usarmos seu terreno. Tris…

Língua. - Literatura Axé.

Deu um gole no café quente e pôs a língua para funcionar. Atentou para respiração, o ritmo era importante. O coração acelerado demonstrava sua ânsia, uma das mãos percorria a própria coxa, mãos suadas, ele sôfrego. Ele a queria em êxtase, coisas do amor. O prazer é algo medular, cerebral. Mexeu e remexeu. Pausas, acelerações, ele sentiu o corpo vibrar. Será que haverá enlevo? Será que conseguirei fazê-la chegar ao delírio? – Pensou --. Sentiu-se perto de atingir o objetivo. Não. Não queria concluir assim, rápido. Não queria provocar um simples prazer. Queria que ela percebesse o esforço dele para satisfazê-la. Queria que ela se soubesse totalmente amada, totalmente envolvida. 
          A língua era sua única arma, único caminho para se tornar inesquecível, queria aceitação total. Por fim, não pode mais resistir. Colocou o ponto final. Deu outro gole no café, agora morno e olhou-a nos olhos. Ela esperava ansiosa, sorria. Ele entregou o papel e nele a poesia. Ela manteve o sor…